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quarta-feira, 30 de outubro de 2019

Robert Capa e a “invenção” da fotografia do soldado caído na Guerra Civil Espanhola




Considerado o mais importante fotojornalista de guerra, Robert Capa morreu, na Indochina, aos 40 anos de idade

A célebre foto “O soldado caído”, feita durante a Guerra Civil Espanhola
“Sangue e Champanhe — A Vida de Robert Capa” (Record, 349 páginas, tradução de Clóvis Marques), do escritor e jornalista inglês Alex Kershaw, não é uma biografia exaustiva do fotojornalista húngaro. Mesmo assim, reavaliando a bibliografia e acrescentando novos depoimentos, exibe um quadro relativamente preciso das múltiplas histórias de um repórter-fotográfico excepcional. Trata-se, segundo seus principais pares, do maior fotógrafo de guerra de todos os tempos. Este comentário centra-se na fotografia “O soldado caído”, mas conta rapidamente como André Friedmann se tornou Robert Capa.
Na década de 1930, em Paris, tão pobre quanto George Orwell, Capa conhece a alemã Gerda Pohorylles e se tornam amantes e aliados comerciais. O jornalista John Hersey relata: “André e Gerda decidiram criar uma associação de três pessoas. Gerda, que trabalhava numa agência de imagens, actuaria como secretária e representante de vendas; André prestaria serviço na câmara escura; e os dois seriam empregados por um rico, famoso e talentoso (além de imaginário) fotógrafo americano chamado Robert Capa, que na época supostamente visitava a França”. Seguindo a reinvenção de Friedmann, Gerda Pohorylles se tornou Gerda Faro.
A explicação do próprio Capa: “Meu nome verdadeiro não era muito bom. Não conseguia trabalho. (…) Robert parecia bem americano, e era como devia soar um nome. Capa também soava americano, e é fácil de pronunciar. De modo que Bob Capa parece um óptimo nome. E então inventei que Bob Capa era um famoso fotógrafo americano que veio para a Europa e não queria incomodar os editores franceses por não pagarem o suficiente (…). Simplesmente fui chegando com a minha pequena Leica, tirei algumas fotos e escrevi em cima Bob Capa, conseguindo vender pelo dobro do preço”.
Kershaw diz que há quem acredite que a inspiração foi Frank Capra, que, na época, fazia sucesso com os filmes “Loira e Sedutora” (1931) e “Loucura Americana” (1932). A fotógrafa húngara Éva Keleti apresenta outra explicação: “Ele era chamado de Bandi quando garoto, em Budapeste. Não é muito difícil passar de Bandi a Bob e a Robert”.
Em 1936, André Friedmann havia se tornado, em definitivo, Robert Capa. “Por recomendação de Gerda, ele adoptou um novo corte de cabelo (curtinho atrás e dos lados) e passou até a usar um elegante sobretudo com chapéu”, diz Kershaw. “Friedmann tirava as fotos. Gerda as vendia e quem recebia o crédito era o inexistente Capa”, relata Hersey. Aos poucos, desconfiados, os editores descobriram que Friedmann e Capa eram a mesma pessoa, mas não havia mais nada a fazer. O húngaro beberrão, jogador de primeira e mulherengo inveterado se tornara outro indivíduo, logo depois, o famoso Robert Capa. O homem que no início nem se interessava muito por fotografia, excepto para garantir a sobrevivência, reinventara-se inteiramente.

Robert Capa e George Rodger, em Nápoles, em 1943, durante a Segunda Guerra Mundial
Espanha violenta e romântica
Capa dizia que o verdadeiro fotojornalista tem de se aproximar o máximo possível dos fatos, para documentá-los com mais precisão e, mesmo, “senti-los”. Correu sérios riscos em várias batalhas e acabou morrendo aos 40 anos, em 1954, ao pisar numa mina.
A fama de Capa começa a ser construída durante a Guerra Civil Espanhola (1936-1939), na qual o austríaco Adolf Hitler, líder nazista da Alemanha, e o italiano Benito Mussolini, líder fascista, treinaram homens e verificaram a eficácia de suas armas e aviões, enquanto França e Inglaterra assistiam, de camarote, aquilo que não queriam entender — o nazi-fascismo estava se preparando para uma guerra ainda mais mortal e ampla com o objectivo de subjugar a Europa e, possivelmente, o mundo. Lucien Vogel, da revista “Vu”, decidiu enviar Capa e Gerda para a Espanha. Lá, entusiasmado com a causa anarquista, fez fotos sensacionais da tragédia civil-militar.
Numa trincheira, Capa fez a fotografia “O soldado caído” — “a mais famosa da Guerra Civil Espanhola” e a “mais polémica da história do fotojornalismo”, segundo Kershaw —, que o consagrou internacionalmente.

Gerda Taro, a raposinha vermelha, foi a grande paixão de Robert Capa
A foto de Capa mostra “um miliciano de Alcoy uma fração de segundo antes de aparentemente ter sido mortalmente alvejado”. Trata-se de uma bela fotografia que retrata a brutalidade da guerra. Porém, 77 anos depois, persiste a discussão: Capa teria montado a fotografia com o apoio de militares ou milicianos?
Kershaw expõe as várias interpretações, mas não apresenta uma conclusão. Começa citando Richard Whelan, autor da biografia autorizada de Capa (Whelan foi escolhido por Cornell Capa, irmão do fotógrafo): “O soldado caído” é, na sua opinião, “talvez a maior fotografia de guerra jamais tirada”. Esperanza Aguirre Gil de Biedma, ex-ministra da Educação e Cultura da Espanha, compara-a com “Guernica”, o quadro de Picasso.
A fotografia retrata um soldado morrendo ou apenas um soldado caindo? Anota Kershaw: “A mais famosa foto de Capa pode ser apenas aquilo que diz seu título: uma fotografia de um soldado caindo”. O documentarista francês Patrick Jeudy “considera que pode ser exactamente esse o caso”. Ainda que admirador do mito húngaro, Jeudy afirma que não há como saber, “a partir da foto tirada por Capa, se o homem escorregou acidentalmente, se está sendo morto ou se foi convidado a simular o momento da morte” (o texto entre aspas é de Kershaw).

Ernest Hemingway com Robert Capa, em Sun Valley, Idaho, em novembro de 1940
O fotógrafo Jimmy Fox, ex-arquivista da Magnum, diz que a consistente obra de Capa não deve ser avaliada a partir de “O soldado caído”. Ele afirma, com razão, que o “trabalho de Capa continua sendo o registo fotográfico mais evocativo dos anos mais turbulentos do século 20”. Fox apresenta uma ressalva: “O que me parecia estranho era [que] Capa voltasse a [Nova York] de navio cerca de seis meses depois da publicação da foto na ‘Life’ e desse a um jornalista uma entrevista na qual explicava que tinha passado vários dias com aquele homem [o espanhol morto], além do fato de o sujeito ter sido alvejado perto dele e de ele ter ficado junto ao corpo até escurecer, esquivando-se ao fogo inimigo”.
O jornalista, do “New York World-Telegram”, colheu o depoimento de Capa, em 1º de setembro de 1937, no qual “explica” como havia feito a fotografia: “[Capa e o fotografado, o soldado] estavam na frente de batalha de Córdoba, sem ter como sair dali, Capa com sua preciosa câmera e o soldado com seu fuzil. O soldado estava impaciente. Queria voltar para as linhas legalistas. Volta e meia, escalava a trincheira para espiar por cima dos sacos de areia. A cada vez, recuava ante a advertência do fogo de metralhadora. Finalmente, o soldado murmurou algo no sentido de que ia se arriscar. Escalou, então, a trincheira, tendo Capa por trás. As metralhadoras falaram e Capa automaticamente disparou a câmera, caindo de costas junto ao corpo do companheiro. Duas horas depois, tendo escurecido e já calada a artilharia, o fotógrafo se arrastou pelo terreno até estar em segurança. Mais tarde, descobriria ter tirado uma das melhores fotos da guerra espanhola”.

Robert Capa joga pôquer com o diretor de cinema americano John Huston, em Londres, em 1953. Burl Ives toca violão
Um dos hábitos de Capa era “não incluir nas legendas informações decisivas, como nomes próprios”. Fox acha estranho o fato de Capa “ter passado vários dias com o soldado e sua unidade e não saber seu nome”.
Hansel Mieth disse que, no final da década de 1940, encontrou o marido, Otto Mieth, e Capa discutindo, com veemência, sobre a fotografia. Depois, ela perguntou: “Acha que ele falsificou a foto?” Otto contou-lhe o motivo da briga.
Otto perguntou a Capa: “Você disse a eles [soldados] que encenassem um ataque?” O fotógrafo respondeu: “Claro que não! Estávamos felizes. Talvez meio pirados. (…) De repente, a coisa começou para valer. Eu não ouvia os tiros… levei algum tempo”.
Kershaw afirma que, “a se dar crédito a esse relato, Capa se sentia culpado por ter pedido aos companheiros que descessem correndo uma encosta exposta, pedido que custara a vida a um homem. Segundo o professor Hans Puttnies, biógrafo de Gisèle Freund, Capa contou a ela uma história semelhante, reconhecendo que tinha ‘matado’ o homem da foto”.

Robert Capa com David “Chim” Seymour, amigo e um dos fundadores da agência Magnum, em Paris, no início da década de 1950
A dificuldade de se ter “uma” história sobre o assunto é que Capa apresentava versões diferentes. Em 1947, numa entrevista a uma rádio, com o objetivo de divulgar seu livro de memórias, “Slightly Out o Focus” [“Ligeiramente Fora de Foco”, editado no Brasil pela Cosac Naify], Capa disse que “a foto nasce da imaginação dos editores e do público que a vê”.
Kershaw resume a fala do fotógrafo: “Capa disse que estava numa trincheira com cerca de 20 homens armados de fuzis velhos — em flagrante contradição com sua declaração ao ‘New York World-Telegram’. Numa colina em frente, acrescentou, os insurgentes tinham uma metralhadora. Os homens atiraram na direcção da metralhadora durante cinco minutos. Em seguida, levantaram-se, dizendo ‘Vamos!’, e se arrastaram para fora da trincheira, avançando em direção à metralhadora. ‘Como se poderia esperar’, prosseguiu Capa, ‘voltaram os tiros de metralhadora, e dim dom! E assim os que restaram retornaram e começaram a atirar de novo na direcção da metralhadora [que] naturalmente foi inteligente o bastante para não responder. E passados mais cinco minutos eles disseram ‘Vamos’ e voltaram a ser triturados. Essa mesma cena se repetiu umas três ou quatro vezes, e, na quarta vez, sem mesmo olhar, eu tirei uma foto quando eles passavam por cima da trincheira’”.
O filme foi enviado por Capa para Paris. Ao retornar à França, percebeu que “era um fotógrafo muito famoso, pois a câmera que eu tinha segurado acima da cabeça simplesmente capturou um homem no momento em que era alvejado”.

Fundadores da agência Magnum brindando a libertação de Paris numa festa na casa do editor da “Vogue”, Michel de Brunhoff. Robert Capa aparece à esquerda, Chim Seymour está no centro, sem gravata, e Cartier-Bresson está no canto direito, de óculos
A fotografia “O soldado caído” saiu primeiro na revista “Vu”, em 23 de setembro de 1936. Depois, em 1937, foi publicada em “Paris-Soir” e “Regards”. A “Life”, ao publicá-la, em julho de 1937, acrescentou uma legenda: “Um soldado espanhol no instante em que é abatido por uma bala na cabeça”. A foto causou sensação na Europa e nos Estados Unidos, consagrando Capa como “o” fotojornalista da Guerra Civil Espanhola. Muitos leitores não gostaram, alegando sensacionalismo.
Em 1974, o livro “The First Casualty” (“A Primeira Baixa”), de Philip Knightley, pôs em dúvida a autenticidade da foto. O. D. Gallagher, repórter do “Daily Express” na Guerra Civil Espanhola, disse a Knightley que “‘O soldado caído’ parte de uma série de fotos de acção encenadas num intervalo dos combates. Segundo ele, Capa e outros fotógrafos queixaram-se a um oficial republicano que não tinham o que fotografar. O oficial respondeu que arregimentaria então alguns homens para manobras. Ao ser publicada a foto, Gallagher comentou que parecia autêntica, por causa da imagem ligeiramente turva. Disse então a Knightley que Capa ‘deu uma boa risada e disse: ‘Para se obter boas imagens de acção, elas não podem ser muito focadas. Se a mão tremer um pouco é que se vai obter uma bela foto de acção’”. Em 1978, Gallagher comprometeu o depoimento anterior ao dizer que a fotografia havia sido feita “em território espanhol controlado por insurgentes”. Kershaw garante que “não existem provas de que Capa tenha algum dia visitado a Espanha nacionalista”.

Robert Capa era um homem charmoso e, como profissional, indômito
Ted Allen, veterano canadense da Guerra Civil Espanhola, contou a Knightley que, ao conversar com David “Chim” Seymour, grande amigo de Capa, sobre “O soldado caído”, ouviu uma história curiosa. “Chim me disse que a foto não tinha sido batida por Capa. Mas não me lembro se ele me disse na ocasião se ele próprio, Chim, a tinha tirado, ou se ela fora batida por Gerda.” A biógrafa de Gerda Taro, Irme Schaber, “considera altamente improvável que a foto tenha sido tirada por Gerda. Mas é possível. (…) Até 1937, quase todas as fotografias de Gerda eram publicadas sem crédito ou creditadas a Capa”.
Como não se dispõe do negativo ou do contato original da fotografia, é muito difícil comprovar uma possível falsificação — daí a importância dos depoimentos, que são, porém, lacunares. “Se a foto realmente foi encenada, Capa provavelmente teria tirado várias fotos de milicianos tombando, fingindo terem sido alvejados, e provavelmente teria usado um tripé, para evitar imagens turvas”, escreve Kershaw. Ruth Cerf, amiga de Capa e Gerda, garante que a foto era autêntica. “Eu vi as [fotografias] que se seguiam, com o soldado morto no solo”, diz Cerf.
O historiador espanhol Mario Brotons disse que o soldado morto era Federico Borrell, de 24 anos. “Ao mostrar a parentes de Borrell, em 1996, a foto de Capa, eles aparentemente reconheceram Federico sem serem induzidos.” Kershaw checou a história de Brotons mas não pôde comprová-la.
A acadêmica inglesa Caroline Brothers, depois de estudar exaustivamente a fotografia “O soldado caído” e sua história, escreveu: “A fama dessa fotografia reflete uma imaginação colectiva que queria e ainda quer acreditar em determinadas coisas no que diz respeito à natureza da morte numa guerra. O que essa imagem afirmava era que a morte na guerra é algo heroico, trágico, e que o indivíduo é importante e sua morte não pode ser ignorada”.
Kershaw acrescenta ao excelente comentário de Brothers: “Capa não era um repórter imparcial. Ignorou atrocidades cometidas pelos republicanos e pouco depois encenaria pelo menos um ataque documentado, além de servir de propagandística ideológico da causa comunista na Espanha. Autêntico ou falso, ‘O soldado caído’ é em última análise um registo da parcialidade e do idealismo político de Capa”.
A foto pode até não retratar uma situação verdadeira, mas chamou a atenção do mundo para a crueza da guerra. A história fabricada, se isto ocorreu, exibiu o horror verdadeiro.
Na Espanha, Capa perdeu a namorada Gerda Faro, de 25 anos. Ele teve várias namoradas, como as belas actrizes Ingrid Bergman e Hedy Lamarr e uma nora de Winston Churchill, Pamela Churchill, mas Gerda talvez tenha sido sua grande paixão.
Fotojornalista que dispensou a actriz Ingrid Bergman teve morte trágica aos 40 anos

Ingrid Bergman: a bela atriz sueca com a qual Bob Capa não quis se casar
Pode em sã consciência um homem abandonar uma bela mulher? Se este homem for o fotojornalista Robert Capa, húngaro de nascimento mas cidadão do mundo, não se pode duvidar. Ingrid Bergman, no auge da beleza e da fama, tornou-se amante de Capa. Apaixonada, pressionou-o — planeava abandonar o marido para se casar com ele, que disse que não era “do tipo que se casa”. A atriz sueca escreveu que, se o charmoso fotógrafo de guerra “tivesse dito ‘venha comigo, vamos ver no que dá, conhecer o mundo, beber até o fim o maravilhoso vinho da vida’, ela provavelmente teria deixado” o marido. Honesto, e sobretudo não querendo se casar, Capa disse: “Não posso me prender a alguém. Se alguém disser ‘amanhã, a Coreia’ e estivermos casados e com um filho, eu não poderei ir para a Coreia. E isto seria impossível”. Alex Kershaw conta, no livro “Sangue e Champanhe — A Vida de Robert Capa” (Record, 349 páginas, tradução de Clóvis Marques), que o repórter-fotográfico, por fim, sugeriu que o mito europeu de Hollywood procurasse outro homem.
Mas, quando voltou para Europa, Capa escrevia cartas apaixonadas para Ingrid Bergman, que decidida seguir seu próprio caminho, aceitando as recomendações do ex-amante. Mas ela sempre disse que o amara e o admirava. Ao conhecer Capa, era alienada e ele a ajudou a se tornar mais reflexiva. A biografia revela uma actriz que nada tinha de púdica.

Ingrid Bergman e Robert Capa: a atriz sueca quis largar o marido, mas o fotógrafo rejeitou a proposta
Na Europa, Capa, com outros fotógrafos, criou a agência Magnum. “Se um auditor tivesse vasculhado os livros contábeis da Magnum no início da década de 1950, teria constatado irregularidades financeiras que hoje em dia seriam consideradas fraude. Capa metia a mão nos rendimentos de parceiros e recrutas para pagar mulheres, roupas caras, restaurantes e, sobretudo, suas despesas no jogo”, relata Kershaw. Ele era mais desorganizado do que corrupto, sugere o biógrafo, a partir de depoimentos de colegas.
Um ano antes de sua morte, Capa não estava bem, com uma hérnia de disco que o fazia chorar de dor e relativamente desanimado com a profissão. Peter Viertel conta que “ele dizia que estava cansado de guerras, cansado de contemplar horrores pelo visor de sua Leica”. Gostava das namoradas Jemmy Hammmond e Judy Thorne. “Quando estava com Jemmy pensava em Judy, e quando estava com Judy pensava em Jemmy”, relata Kershaw.
A situação financeira de Capa em 1953 era a pior de sua carreira. Por isso aceitou o convite da Mainichi Press para fazer uma turnee pelo Japão. No país do escritor Yukio Mishima — onde era um deus, ao menos para os fotógrafos, que o seguiam em todos os lugares —, decidiu fotografar crianças.

Robert Capa, na Indochina francesa, ao lado de um militar. Sua última fotografia, de 1954, fotografia foi feita por Michel Descamps/Scoop/Paris Match
Então, de repente, Howard Sochurek deixou a cobertura da guerra francesa na Indochina e a “Life” precisava de alguém para substitui-lo com urgência. Como Capa era um gastador inveterado e estava sempre sem dinheiro, Ed Thompson assediou-o com uma proposta irrecusável: 2 mil dólares por mês, com direito a uma apólice de seguro de 25 mil dólares do Lloyd’s de Londres.
Capa aceitou o convite e disse que faria “uma reportagem intitulada ‘Arroz Amargo’, justapondo, ‘em forma de ensaio, fotos de camponeses no Delta e atividades militares’”. Numa carta para John Morris, da Magnum, Capa disse que aceitara a missão devido “a perspectiva de entrar em acção novamente”. Mas em Tóquio, ao conversar com Howard Sochurek, “ele ficava dizendo: ‘É o tipo de guerra que nunca cobri nem nunca quis cobrir’. (…) Mas sei que ele precisava do dinheiro. (…) Para a época, o dinheiro oferecido era muito bom”.
Em 30 de abril de 1954, Capa aceitou a proposta da “Life” e foi para Bangcoc. Na Indochina, franceses e guerrilheiros do Vietminh, liderados por Ho Chi Minh, travavam uma guerra mortal. “Em 7 de maio, Dien Bien Phu caiu nas mãos dos comunistas. Pelo menos 2.200 homens das forças francesas tinham morrido durante o cerco. Milhares foram feitos prisioneiros.” A Guerra do Vietnãme contra os Estados Unidos, mais tarde, obscureceu a sangrenta batalha dos franceses na Indochina.
Em 7 de maio de 1954, Capa estava em Hanói, na Indochina francesa. O fotojornalista, que àquela altura entendia de tácticas de guerra, ouviu atentamente o general francês René Cogny. Simpatizava com Cogny, mas, homem de esquerda, não era simpático ao colonialismo francês. Já o editor da “Life” era contra a expansão comunista no Extremo Oriente. Henry Luce e Capa não rezavam pela mesma cartilha, mas o fotógrafo estava a seu serviço e, portanto, ao lado dos franceses.
Experimentado, Capa criticava os correspondentes que, “medrosos”, não queriam chegar perto o suficiente para “mostrar o que estava acontecendo na Indochina Francesa”. “Esta pode ser a última guerra boa. O problema com vocês [repórteres e fotógrafos] que se queixam tanto das relações-públicas francesas é que não entendem que se trata de uma guerra para repórteres. Ninguém sabe nada e ninguém nos diz nada, o que significa que um bom repórter tem toda a liberdade de sair por aí e conseguir um furo por dia.”
Em 25 de maio de 1954, Capa saiu com John Mecklin, da “Time-Life”, Jim Lucas, da Scripps-Howard, e um militar. Ao ouvirem tiros, os correspondentes se atiraram no chão. “Capa pulou do jipe e começou a fotografar camponeses aparentemente desatentos, que continuavam colhendo arroz em campos próximos. (…) Os mosteiros do Vietminh começaram a explodir. Quanto mais caótica e perigosa se tornava a situação, mais Capa parecia empolgado. Lucas o viu enfrentar o fogo de morteiros para carregar um soldado vietnamita ferido para um jipe, que conduziu em seguida a um posto avançado, para receber cuidados médicos”, escreve Kershaw.
Capa, veterano de cinco guerras, era cuidadoso. “Ele tomava cuidado quando tinha de atravessar áreas expostas. Mas, quando via a possibilidade de uma bela foto que só pudesse ser tirada correndo riscos, ia em frente”, disse Mecklin. Havia uma contradição entre o que Capa queria mostrar, a injustiça da guerra, e a ideologia do proprietário da “Life”, que queria exibir o heroísmo francês e a crueldade dos comunistas.
Durante a batalha, espécie de esconde-esconde, nos quais os comunistas eram especialistas, “Capa parecia entendiado”. Ele disse a Lucas e Mecklin: “Vou avançar um pouco pela estrada.” Não foi acompanhado, pois os repórteres avaliaram que “seria perigoso demais”.
Minutos depois, militares e jornalistas ouviram uma forte explosão. Um soldado vietnamita disse a um militar francês: “O fotógrafo morreu”. Lucas e Mecklin encontraram Capa “deitado de costas, banhado em sangue. Sua perna esquerda fora destroçada. O coto estava a centímetros de um buraco cavado no solo por uma mina. No peito, ele tinha um ferimento profundo. Com a mão esquerda, agarrava sua câmera Contax”.

O escritor norte-americano John Steinbeck, sua mulher, Gwyn, e Robert Capa, num hotel de Paris, em 1947. Eles eram amigos
Mecklin gritou: “Capa! Capa! Capa!”. “Os lábios de Capa tremeram e não mais se moveram. Eram 3h10.” Capa, o mais celebrado fotojornalista de guerra, estava morto. Aos 40 anos, que, de tão bem vividos, pareciam 80 anos.
Kershaw conta que o escritor norte-americano John Steinbeck, grande amigo de Capa, “teria caminhado atordoado pelas ruas de Paris por 14 horas, tão arrasado ficou com a notícia”. Hemingway escreveu, dois dias depois da morte do fotógrafo: “Ele era tão vivo que fica muito duro pensar que está morto”. John Morris disse: “Bob, o maior fotógrafo de guerra do século mais sanguinolento, detestava a guerra e desprezava seus monumentos e memoriais”.
Aos repórteres e fotógrafos, embora não se considerasse um mestre, deixou uma lição: é preciso verificar os fatos de perto, a poucos centímetros, talvez metros. A narrativa é quase sempre mais precisa — e mesmo imaginativa — quando é vista com os próprios olhos.
[Texto publicado no Jornal Opção na edição de 28 de julho a 3 de agosto de 2013.]

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