“Quando os crimes se acumulam, tornam-se invisíveis”: a cumplicidade ocidental com a guerra suja da Arábia Saudita no Iémen
A cumplicidade dos governos ocidentais no oceano de sofrimento desencadeado no Iémen expõe-nos como agentes da brutalidade saudita.
Após três anos de incessante conflito, estima-se que, de uma população de 27,4 milhões, 22,2 milhões de iemenitas necessitam de assistência humanitária, 17 milhões têm carência alimentar, 14,8 milhões não dispõem de assistência de saúde básica, 4,5 milhões de crianças sofrem de subnutrição enquanto 2,9 milhões estão internamente deslocados. Quanto a mortos e a feridos, o balanço situa-se em 10.000 e 50.000 respectivamente.
Em resultado do conflito, o país depara-se também com “a maior epidemia de cólera conhecida da época moderna.” E esta epidemia só pode ter sido intensificada pelo bombardeamento sauditas de um centro de tratamento de cólera no oeste do país, obrigando os membros da ONG Médecins Sans Frontières a suspender a sua actividade naquela instalação.
Entretanto, apesar da colossal escala do sofrimento humano causado, a guerra da coligação Sunita liderada pelos sauditas não só prossegue mas intensificou-se, com o desencadeamento de uma maciça ofensiva aérea, terrestre e marítima contra a cidade portuária de Hodeidah, controlada pelos Houthi, um dos últimos pontos de entrada no sitiado país de alimentos, remédios, e outra ajuda humanitária essencial.
Segundo a Amnistia Internacional, “o porto de Hodeidah é crucial para um país que, para fazer face a necessidades básicas, depende em 80% de importações. O corte desta linha crucial iria exacerbar ainda mais aquilo que já a pior crise humanitário no mundo.” Assim “o assalto a Hodeidah poderia ter um impacto devastador em centenas de milhares de civis – não apenas na cidade mas em todo o Iémen.”
Iémen, no ângulo sul da Península Arábica, é o mais pobre país do Médio Oriente, com um PIB per capita – antes do conflito – de apenas $1,400.
O Presidente Abd Rabbuh Mansur Hadi preside ao governo internacionalmente reconhecido do país. Contudo, segundo o padrão habitual dos líderes legítimos, Hadi vive actualmente no exílio.
O Presidente Hadi foi eleito em 2011 enquanto candidato único à presidência, depois de o seu antecessor, Ali Abdullah Saleh, ter abandonado o poder face aos crescentes e prolongados protestos no decurso da Primavera Árabe. Saleh tinha liderado o Iémen do Norte desde 1978 antes de assumir a presidência da República do Iémen em 1990, quando da reunificação das metades norte e sul do país.
O anterior presidente, cujo mandato esteve envolvido em acusações de corrupção e de má administração dos recursos do país, alinhou-se precisamente com a minoria Houthi que desempenhara um papel no seu derrube no decurso da já referida Primavera Árabe, quando em 2015 deram início a uma rebelião contra o governo de Hadi.
O principal motivo da rebelião Houthi foi a recusa do Presidente Hadi em conceder maior autonomia à minoria Shiita quando assumiu o cargo. Quanto a Saleh, os Houthi mataram-no no final de 2017 quando ele rompeu com a rebelião e declarou disponibilidade para dialogar com os sauditas acerca do futuro do país.
O que se verifica no Iémen é, como é evidente, uma crise que é complexa mesmo em termos dos padrões árabes.
Há muito que o Iémen é agredido pela sufocante dominação da Península Arábica pela Arábia Saudita. Esta dominação, ao serviço da puritana e sectária ideologia Wahhabi de Riade, está em parte a alimentar a rebelião dos Houthis do país, para quem o Presidente Hadi é um fantoche dos sauditas.
Dito isto, o facto de a insurgência gozar da simpatia se não mesmo do apoio aberto de uma parte alargada da população iemenita pode ser medido pelo seu sucesso em assumir o controlo da capital do país, Sanaa, bem como de outros polos urbanos tal como a cidade portuária de Hodeidah.
Numa perspectiva mais alargada, o conflito é considerado parte de uma guerra regional, por parceiros interpostos, entre o Irão e a Arábia Saudita. Desde o desencadeamento da rebelião em 2015, Riade tem afirmado que os Houthis são apoiados pelo Irão, justificando nesses termos o seu envolvimento. Em 2015, contudo, o veterano correspondente no Médio Oriente Patrick Cockburn escrevia que esta afirmação era “largamente encarada como propaganda ou exagero.”
Três anos passados, os iranianos estão decerto envolvidos, fornecendo armas aos Houthis e, segundo algumas fontes, também conselheiros militares. Assim, a intervenção da Arábia Saudita em 2015 com base na espúria afirmação de envolvimento iraniano tornou-se uma profecia que se confirma a si própria.
Regressando à cumplicidade ocidental na carnificina e no sofrimento que vem sendo infligido ao povo iemenita, nunca terá havido um exemplo mais flagrante de hipocrisia mascarada de democracia. Na verdade, a aliança há muito estabelecida entre os EUA, G-B e Arábia Saudita desmascara as tão repetidas gabarolices de Washington e Londres no que diz respeito ao auto-atribuído papel guardiões e campeões dos direitos humanos e da democracia.
Começando com a administração Obama, e ampliado com Trump, o envolvimento directo dos EUA neste conflito tem consistido em ataques aéreos directos (dirigidos «contra alvos Al-Qaeda e Estado Islâmico», segundo Washington), juntamente com apoio logístico, de informações, e outros apoios não directamente envolvidos em combate fornecidos à coligação anti-Houthi liderada pelos sauditas. Isto, evidentemente, sem esquecer as vendas de armas EUA ao Reino saudita, que constituem mais de 50% do total das exportações de armamento EUA.
Entretanto, em 2017, o Pentágono confirmou que tropas terrestres EUA estavam também presentes no Iémen, justificando novamente esse facto na base do envolvimento em operações contra Al-Qaeda e Estado Islâmico (IS, anteriormente ISIS).
Quanto ao papel de Londres no apoio do esforço de guerra saudita no Iémen, as vendas de armas por parte da Grã-Bretanha foram igualmente centrais para a capacidade do Estado Wahhabi projectar uma sólida presença na região, atingindo só desde 2015 £4.6 milhares de milhões ($6 EUA milhares de milhões). Tal como sucede com os EUA, a Arábia Saudita é o maior mercado de venda de armas para a Grã-Bretanha, e assim tem sucedido há vários anos.
Houve em 2017 uma campanha visando abrir um processo penal contra o governo da Grã-Bretanha pela venda de armas aos sauditas, alegando que algumas delas têm sido utilizadas para matar civis iemenitas.
Foi também revelado em 2017 que o papel da Grã-Bretanha não se resume à venda de armas. Surgiu uma notícia no Daily Mail referindo pormenores de uma operação até então secreta, conhecida como Operation Crossways, que envolvia até 50 militares britânicos no treino de tropas sauditas destinadas a ser mobilizadas para intervir no conflito.
Em resposta a esta revelação, o deputado conservador britânico e anterior Secretário do Desenvolvimento Andrew Mitchell afirmou que ela constituía prova da “vergonhosa cumplicidade” da Grã-Bretanha no que diz respeito ao sofrimento do povo iemenita. Tendo em conta a escala deste sofrimento, não custa assumir que qualquer pessoa decente partilha os sentimentos do Sr. Mitchell.
A guerra no Iémen é uma guerra suja que está a ser conduzida pela cleptocracia saudita, com apoio ocidental, em nome de um fascismo clerical. Tinha razão Bertolt Brecht: “Quando os crimes se acumulam, tornam-se invisíveis.”
*John Wight tem escrito para jornais e sítios web em todo o mundo, incluindo the Independent, Morning Star, Huffington Post, Counterpunch, London Progressive Journal, e Foreign Policy Journal. É também um comentador regular em RT e BBC Radio. Está actualmente a trabalhar num livro explorando o papel do ocidente na Primavera Árabe.
www.odiario.info

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