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quinta-feira, 7 de junho de 2018

O grau zero da demagogia argumentativa


Miguel Sousa Tavares é um comentador que ao longo dos anos foi ganhando fama de opinador desassombrado, por vezes polémico e, em geral, independente. Mas há pelo menos dois assuntos onde há muito deixou ter uma opinião lúcida e isenta.
Um são os problemas recorrentes do sistema bancário, pois recusando-se a dizer uma só palavra sobre as falcatruas do BES e do GES, o grupo financeiro onde pontificava o seu compadre Ricardo Salgado, deixou de ter credibilidade para criticar os desmandos dos outros banqueiros do regime.
O outro tema em que MST tem dificuldade em se pronunciar é o dos professores e das suas reivindicações. Movido, aparentemente, por um misto de rancor, desprezo e preconceito pela classe, o comentador favorito do grupo Impresa não consegue construir um discurso minimamente isento, sóbrio e equilibrado sobre a classe docente. Que não precisaria de ser a elogiar-nos ou a mostrar compreensão pelos nossos problemas e pelas nossas lutas. Bastaria apenas que tentasse perceber as causas e o contexto do actual conflito com a tutela, analisando a situação dos professores sem o recurso à mais rasteira demagogia.
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Na verdade, quem ontem viu MST na SIC começou por ouvir, logo de início, esta argumentação extraordinária: se as operárias das fábricas de conservas de Rabo de Peixe não têm uma carreira, porque é que os professores a hão-de ter?
Depois atirou-se às progressões “automáticas” dos professores – uma mentira, basta pensar nos estrangulamentos da carreira no acesso ao 5º e 7º escalões – e três vezes mais rápidas do que a carreira do regime geral da função pública – outra mentira, a carreira docente tem é mais escalões, que por esse motivo são mais curtos. E foi concebida desta forma precisamente para facilitar a criação de entraves à progressão.
Acrescentou que os professores foram congelados na sequência de uma crise económica que se traduziu, no sector privado, na perda de centenas de milhares de empregos. Ora bem, este tipo de analogias pode ser feito de muitas formas. Vamos hoje percebendo que a crise financeira de 2008 foi provocada pela corrupção e negociatas de bancos e empresas do regime com políticos corruptos e gananciosos e pela gestão danosa e fraudulenta que reinava no sistema financeiro. E foi para ajudar a pagar este verdadeiro assalto ao orçamento do Estado organizado pelos empresários e banqueiros do regime que os professores viram os seus salários cortados e a carreira congelada. Não foi para preservar empregos de trabalhadores privados nem para melhorar os seus baixos salários.
Finalmente, na recta final do curto comentário, é o delírio argumentativo: a greve aos exames está-se a banalizar (na verdade foi usada apenas, e de forma muito limitada, em 2013), os alunos fazem exames mas não saem as notas, os pais levam os filhos “pa férias” sem saberem se passaram de ano nem que livros terão de comprar para o ano seguinte. Mesmo as escolas não poderão organizar as turmas do próximo ano lectivo. Aparentemente desconhecendo que as provas de exame estão sujeitas a serviços mínimos, remata o comentador: e o aluno que se preparou para o exame que não se realiza, como passará a encarar o professor que o mandou estudar?…

escolapt.wordpress.com

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