A deputada de causas que que assinala com tatuagens os seus triunfos legislativos. Para ela chega sempre “o dia em que o verdadeiro lóbi da sacristia é derrubado pela democracia”. Uma democracia que ela entende de sentido único, porque há sempre um “progresso contra o obscurantismo”.
José Manuel Fernandes
Passará
A despenalização da eutanásia em situações especiais veio para ficar. O chumbo do projeto de lei do PS, por 5 votos, num dia marcado pela posição do Comité Central e pela fuga ao ónus da aprovação por parte dos Deputados do PSD é, apesar de tudo, uma esperança.
A luta pelo progresso contra o obscurantismo da imposição de uma moral única tem um perfil. Os temas são lançados, a sacristia em sentido amplo faz uso do terrorismo habitual, desmaiamos na praia uma e outra e terceira vez, até que a força de quem exige ser integrado na cidade, até que a força de quem, por ser minoria, não aceita ser apátrida, ganha a força da única dignidade aceitável num Estado de direito democrático. E essa dignidade faz-se lei. E o Estado deixa de ser indigno.
A luta pelo progresso contra o obscurantismo da imposição de uma moral única tem um perfil. Começa por ser combatida pela via do medo, pelo aviso da desintegração moral da sociedade, Sodoma e Gomorra pululam nos discursos, acusam-nos de sermos um lóbi dedicado a destruir os bons costumes que abafam as “más práticas” no silêncio agregador do pecado.
Há o dia em que o verdadeiro lóbi da sacristia é derrubado pela democracia que tem os direitos fundamentais por contramaioritários: as mulheres deixam de morrer na escuridão do aborto clandestino; a homossexualidade deixa de ser crime; o casamento casa gays e lésbicas; as famílias homoparentais saem da ilegalidade; a adoção de crianças por casais do mesmo sexo passa a ser uma realidade; e as mulheres recorrem à PMA independentemente do seu estado civil ou da sua orientação sexual.
Os avisos da desintegração da sociedade caem por terra. Descobre-se que há espaço para todas e para todos. Descobre-se que quem luta contra o obscurantismo da imposição de uma moral única não pretende afastar do mundo os que apenas aceitam um modelo de vida. Quem anda nessa luta pretende apenas que haja espaço para a sacristia e para os demais. A sacristia não cai, mas os proscritos ganham foros de cidadania, isto é, passam a ser pessoas e, imagine-se, a nossa Roma não arde.
Esta semana o Parlamento optou por manter em vigor uma imoralidade. Optou por dizer que é razoável prender por três anos quem auxilie alguém a abreviar a vida quando esse alguém, maior de idade, está numa situação de sofrimento extremo, com um diagnóstico irreversível ou lesão definitiva e, na sua própria definição de vida digna, pede reiteradamente para ser libertado de um corpo cheio da morte certa.
Continuamos, assim, todas e todos forçados a morrer segundo a moral de alguns. Os tais que insistem em que as pessoas com quem falei pedindo ajuda para abreviar a vida não estão a pensar bem, não estão a respeitar a vida “absoluta”, não sabem nada de “cuidados” e do bom que é pôr as convicções de lado e ouvir a ladainha de uma Isilda Pegado ou de uma Isabel Galriça Neto.
Sabem. Falei com uma mulher que sabia. A lei não a acudiu.
Morreu ofendida pelo Estado. Pedindo que continuássemos.
E continuaremos. Como nas outras lutas pelo progresso contra o obscurantismo da imposição de uma moral única. Sabemos do perfil.
Sabemos que passará.
http://expresso.sapo.pt

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