Comunidade em Wakhan vive sem eletrecidade à cerca de 650 km da capital Kabul

"O que são os talibãs?", pergunta timidamente a matriarca Sultan Begium, nômade da remota comunidade Wakhi. A senhora, com um rosto marcado pela dureza da vida em alta altitude, é um dos 12 mil nômades que vivem em Wakhan, estreita faixa de clima hostil, encurralado entre o Tajiquistão, a China e o Paquistão, no extremo nordeste do Afeganistão.
Sem eletricidade, os moradores não têm acesso a internet ou telefonia móvel. Apenas alguns têm rádios que, às vezes, servem para capturar notícias em russo e afegão ou ouvir música iraniana. As comunicações de uma aldeia para outra são feitas por walkie-talkie.
O acesso é muito difícil, o que preservou Wakhan da turbulência de 38 anos de conflitos no Afeganistão. "Guerra, que guerra? Nunca houve uma guerra", acrescenta Sultan Begium. A senhora admite, no entanto, ter ouvido falar de soldados russos que oferecem cigarros no outro extremo do corredor.
Porém, para esses moradores de Wakhan, tudo isso faz parte de um mundo distante e misterioso. "Os talibãs são pessoas muito ruins de outro país que violam ovelhas e abatem humanos", acredita Askar Shah, o filho mais velho de Begium, que ouviu as informações da boca de comerciantes paquistaneses.

Os nómadas não ouviram falar sequer da invasão americana de 2001 e as recentes ondas de ataques insurgentes que desestabilizam o país e fazem de Cabul um dos lugares mais perigosos do país para civis. "Aliens invadiram nosso país?", perguntou Shah, incrédulo. "Não, eles não podem fazer isso, são pessoas boas", ele acrescenta, intrigado.
Delimitado no século XIX, o corredor Wakhan está localizado na confluência de três cordilheiras muito altas na ponta ocidental dos Himalaias: Hindu Kush, Karakoram e Pamir. Tem 350 km de comprimento, com uma largura máxima de 60 km, que se estende a uma altitude de 3.000 metros acima do nível do mar. O acesso a Pamiris, o ponto onde convergem três das mais altas cadeias de montanhas do mundo, é possível a partir de países vizinhos, mas somente por estradas muito difíceis e perigosas, apenas a cavalo ou a pé.

A vida é muito difícil no local, onde o termómetro permanece preso abaixo de 0° C mais de 300 dias por ano. A mais simples gripe pode ser fatal, e o único remédio disponível à vontade é o ópio. A droga, extraída das flores de papoula, "é a nossa única identidade afegã", brinca Nazar, um Wakhi, enquanto mói o ópio com paracetamol para aumentar o efeito. "Toda a população é dependente disso", diz ele.
Mas o futuro pode trazer mudanças: o governo afegão planeja construir uma estrada que liga Wakhan ao resto da província de Badakhshan e conduz pesquisas aéreas para selecionar a melhor trajetória, disse à AFP um porta-voz do governo Afegão, Mehdi Rohani.
A China também está conversando com Cabul sobre a construção de uma base militar na parte norte do corredor, de acordo com autoridades afegãs. Se esses projetos avançarem, poderão resultar em mais comércio, turismo e infra-estrutura médica na área. Mas eles também podem significar o fim da imunidade de Wakhan à guerra.
oglobo.globo.com
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