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domingo, 25 de fevereiro de 2018

Comédia séria sobre a crise financeira


(Le Monde Diplomatique – maio 2011)
Comédia séria sobre a crise financeira



* Economista. Este texto é extraído do seu livro D’un retournement l’autre. Comédie sérieuse sur la crise financière, en quatre actes, et en alexandrins, Seuil, Paris, nas livrarias a 5 de Maio de 2011.
A crise financeira em versos alexandrinos? Mas que ideia, deuses meus… Em primeiro lugar, talvez, porque as misturas produzem efeitos por si mesmas, e porque a mistura entre a língua do teatro clássico, com todo o seu universo de refinamento à Luís XIV, e a absoluta vulgaridade do capitalismo contemporâneo passa um pouco por aí.
Sabe-se que o alexandrino é adequado à pompa de um Bossuet ou à tragédia de um Racine, mas também o sabemos capaz de fazer rir, talvez mais ainda se for um pouco adulterado –, e essa vantagem não é pequena quando, ainda por cima, estamos numa período em que tudo dá vontade de chorar. Aplicar uma forma, conhecida como capaz de acompanhar os grandes sentimentos, às mais miseráveis manobras da finança à rédea solta é, assim, talvez uma das maneiras de não ceder completamente ao desespero quando, precisamente, vemos estas manobras triunfarem na realidade.
Os amigos do mundo tal como ele está regozijam-se por ver no exercício possível do escárnio o sinal incontestável das nossas maravilhas liberdades e da nossa vitalidade «democráticas». Mas é exactamente o inverso! Passado um certo grau de generalização, o escárnio devia ser sobretudo tomado como um sintoma inquietante, o de um estádio de deterioração democrática em que, sendo todos os protestos ignorados, tendo todos os mediadores deixado de mediar, tendo todos os «representantes» traído a representação, já não resta mais nada à massa dos governados que não seja a opção de se rir; uma aposta desesperada, daqueles para quem o escárnio, a única coisa que lhe resta, é a arma de último recurso, antes talvez de se virarem brutalmente e tombarem no chão.
Aqui, o verso alexandrino empresta toda a sua ambivalência: escarnece à vontade e faz dos enfatuados ridículos, mas pode também procurar uma nuvem escura e anunciar tempestades. Não são exactamente os da tragédia se a entendermos como o confronto de dois bons direitos irreconciliáveis ou de duas exigências igualmente legítimas. Por uma vez podemos economizar em complexidade: o horizonte do capitalismo financeiro não é trágico. É simplesmente odioso.
ACTO III
Cena 2
O gabinete do presidente da República, os banqueiros – acabados de escapar do desastre pela intervenção do Estado. E, no meio deles, um conselheiro um pouco especial, voz improvável da crítica ao sistema no coração do sistema.
O BANQUEIRO
Presidente, Senhoria, do país a douta imagem,
Permiti que vos prestemos a nossa grata homenagem.
Primeiro à vossa acção, decidida, incomparável,
Que conseguiu afastar tudo o que é inominável.
Mas depois também à vossa enorme sabedoria,
Que nos dá grande prazer e muita, muita alegria
Por aceitardes ouvir estes amigos antigos,
Que de vós vêm afastar maus conselhos e perigos.
O QUARTO BANQUEIRO
Nós sabemos bem qual é do povo a opinião,
Tudo aquilo que prepara, toda a grande agitação.
Ouvimos gente na rua, incendiada e a gritar,
Que quer punir nossos pares e fazer-nos degolar.
O povo não sabe nada, está entregue aos demagogos,
Exagero e acção cega são os seus violentos jogos.
Nada mais que paixão bruta e impulsos desvairados,
Muitos focos de tensão e furores descontrolados.
O TERCEIRO BANQUEIRO
Mas o pior, Excelência, é o bando oportunista,
Sem vergonha e excitando toda a fibra populista.
Eles infestam os espíritos com ideias de desnorte
E já só nos querem ver numa câmara de morte.
Até mesmo os moderados são bastante perigosos,
É claro que nos parecem bem menos perniciosos,
Não tendo eles um projecto para nos erradicar,
Não deixam, apesar disso, de nos querer regular…
O BANQUEIRO
Não é preciso intervir, nosso caro Presidente,
Nada disto passará de um mero inconveniente.
Mas o que é que querem eles? Mais rigor e mais lisura?
Nem pensar, tudo não passa de uma enorme e vã loucura.
O mercado, desta crise, deve sair com mais força,
Embora possa sofrer, às vezes alguma mossa.
Mas se toda a natureza tem ciclos, como sabeis,
Não há nenhuma razão para fazer novas leis.
Quem quereria impedir o regresso das estações,
Travar todos os planetas nas suas revoluções?
Aos mercados nós devemos este tipo de saber,
A estas flutuações é preciso aquiescer.
Regular é contrariar toda a ordem natural,
Que nos traz sabedoria, sempre providencial.
São perturbantes, é certo, mas não há que as temer:
Devem ser aceites sempre e temos de as sofrer.
Afinal é pouca coisa, ouso dizer quase nada
Face a tanta maravilha, à riqueza tão falada,
Que o mercado nos oferece, sem qualquer preço cobrar.
É isso, Vossa Alteza, que temos de preservar.
O SEGUNDO BANQUEIRO
Claro, Vossa Majestade, que uma crise andou no ar,
Mas o que é mais importante é não desmoralizar.
Foi apenas um incidente, que causou algum furor,
Mas o vento já voltou a estar a nosso favor!
E não será isso a prova, mais evidente e suprema
De que não há qualquer razão para mudar este sistema?
O TERCEIRO BANQUEIRO
E veja, senhor Presidente, com a sua sabedoria
Tudo aquilo que a finança oferece à economia:
Dirigimos bem o crédito, alocamos capital,
Nós fazemos circular o seu fluido mais vital.
Tudo aquilo que inventamos, com amor e com audácia
Pretende sempre trazer mais rigor e eficácia.
Quando agimos e fazemos, o que está nas nossas mãos,
Nós só pensamos no bem dos nossos concidadãos.
Mas para seu benefício e maior satisfação
Ninguém pode interferir na nossa nobre missão.
Aqui estamos a assumi-la, com um grande entusiasmo –
A regulação, essa sim, é que conduz ao marasmo.
O NOVO SEGUNDO CONSELHEIRO
ao terceiro conselheiro
A missão, o entusiasmo, a boa rota em que estamos:
Não são mesmo comoventes, estes bons samaritanos?
Ah mas que grande espectáculo, mas que espantosos actores,
Pareciam ser canalhas, afinal são benfeitores…
Quanto maior for a crise, mais alto eles podem rir,
Para quê terem cuidado se há sempre alguém para ouvir
Tão grandes enormidades e um tão grande destempero?
Um momento de recuo, confesso, com desespero,
Poderia mesmo levar-me a uma grande admiração:
Mas o seu atrevimento, audácia e desinibição
São a marca de uma época, em que vemos todos já
Que eles se sentem capazes de gozar com tudo o que há:
Com a dura realidade, com as maiores evidências,
Com a mais pura boa fé e, claro, com a decência.
São cínicos ou cretinos? É esta a grande questão
E uma resposta certeira e rápida surge então
Dizendo que esta gente, não pára perante nada:
Quanto mais ousa e mais age, mais ao capital agrada.
O SEGUNDO BANQUEIRO
Alteza, vós sabeis bem que amamos a boa gente
E que, pela democracia, nossa luta é permanente:
Enfrentaremos, de pé, as nossas responsabilidades,
Mas em vez de apoiarmos tão imprudentes reformas,
Nós achamos que o melhor, é mesmo apelar às normas.
Não às que vemos na lei, mas àquelas bem mais nobres,
Nas quais nós sempre pensamos, quando ajudamos os pobres.
Penso muito na moral, que sagrada deve ser,
Que não liga nada à lei para melhor fortalecer
A consciência que é fonte, de milagres espantosos
Donde emanam sem cessar muitos feitos gloriosos.
Aqui todos reunidos, neste dia tão solene
Vamos construir para a ética, um bom modelo perene.
As leis, as regulações, são todas muito opressivas.
As da alma, essas sim, são muito mais decisivas.
Toda a lei é em si mesma, odiosa, coisa má,
Mas a nossa consciência é mesmo o melhor que há.
O mercado, bem sabemos, não quer a regulação
E apela, pelo contrário, a uma moralização.
Este é o nosso compromisso, é esta a nossa missão.
O NOVO SEGUNDO CONSELHEIRO
ao terceiro conselheiro
Que historiador falará do sempre eterno retorno,
Da banca que volta já ao seu tão recto percurso,
Da recorrência das crises, da constância dos discursos?
O sistema é mui perfeito e não há que lhe tocar,
O mal vem é dos perversos, que nos querem acusar,
Vamos já mas é calá-los e lembrar-lhes a moral,
Defender nossos princípios e acusá-los do mal.
E eis-nos já armados, para uma festa que promete.
Não está lembrado da bolha, que atingiu a Internet?
Suas promessas de então e as de hoje, aos milhões,
Só podiam mesmo vir daqueles grandes aldrabões.
E o que se repete não são, tal como eles dizem, as crises: 
São as palavras que gritam, nos mais diversos matizes.
(designando o presidente)
Eis aqui uma matéria onde ele é mesmo excelente:
Palavras firmes, ousadas, e frases bem contundentes;
Nada lhe agrada mais que a sua pose guerreira
Que faz parecer verdade a mentira mais grosseira.
Veja como ele os vai fazer parar…
O PRESIDENTE
Eu decidi, meus senhores, pôr já um ponto final
Nas más práticas, no excesso, no pensamento soez.
Com palavras vigorosas, e muito sábias talvez
Enuncio os princípios duma doutrina notável:
E do alto da virtude, quero ficar memorável.
As coisas que eu disser, todos as vão aceitar
Porque eu as proferi e eu as fiz editar.
Tendo resolvido a crise na situação de emergência
Eu previno para o futuro, toda e qualquer turbulência,
Reafirmando que o nosso bom e velho capitalismo
É como o brilho do sol, o do nosso heliotropismo:
Digo que das nossas órbitas, nunca devemos saltar
Nem deformar a elipse, nem o zénite mudar –
(encantado)
Vejam como estas palavras, tão excelsos milagres meus,
São uma inspiração divina, que me caiu lá dos céus!
Eu tenho os meus Pentecostes e uma palavra de rei,
Eu posso profetizar, ditar toda e qualquer lei.
Aqui digo, meus senhores, que só a virtude tem sentido
E que o capital é bom, quando por ela é movido.
A sua ordem espontânea, e tão perfeita também,
É mesmo a própria moral que nos chega do Além.
Senhores conselheiros cheguem, aqui um pouco mais à frente,
Quero fazer um discurso que impressione toda a gente.
Escolham um local que seja, propício à ovação,
Poderá ser lá no Sul, e porque não em Olhão?




(Tradução de Agostinho Santos Silva)
Este artigo encontra-se em: as palavras são armas http://bit.ly/2EOqmCf

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