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segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

OS ÍNDIOS DA MEIA PRAIA - A SUA HISTÓRIA EM IMAGENS, VÍDEOS, NARRAÇÃO






Na década de 50, dezenas de pescadores originários de Monte Gordo chegaram a Lagos, na outra ponta do Algarve, à procura de trabalho. Na Meia-Praia havia peixe mas faltavam casas. Improvisaram-se cabanas colmo nas dunas… o aspecto valeu-lhes a alcunha de Índios, os Índios da Meia-Praia.







A alcunha "ìndios da Meia-Praia" surgiu devido às barracas de colmo que um grupo de pescadores construiu em Lagos
A alcunha "ìndios da Meia-Praia" surgiu devido às barracas de colmo que um grupo de pescadores construiu em Lagos
Tudo começou na década de 50, quando um grupo de cadores de Monte Gordo chegou a Lagos à procura de trabalho
Tudo começou na década de 50, quando um grupo de cadores de Monte Gordo chegou a Lagos à procura de trabalho
Há 40 anos, as barracas de colmo deram lugar a casas. A reconversão do bairro ficou a cargo do arquitecto José Veloso
Há 40 anos, as barracas de colmo deram lugar a casas. A reconversão do bairro ficou a cargo do arquitecto José Veloso
Foi a própria comunidade que construiu as casas que ainda hoje existem
Foi a própria comunidade que construiu as casas que ainda hoje existem
A família Bartolomeu; quarenta anos depois, o que será feito destas pessoas?
A família Bartolomeu; quarenta anos depois, o que será feito destas pessoas?
Manuel António, com a família; ainda hoje vive por lá
Manuel António, com a família; ainda hoje vive por lá
Luís Dias, o menino que brincava com barcos "faz de conta", era o único rapaz de sete irmãos
Luís Dias, o menino que brincava com barcos "faz de conta", era o único rapaz de sete irmãos

Quando se deu a revolução de 25 de Abril de 1974 já só restava uma cabana de colmo. Todas as outras tinham sido transformadas eram barracas de zinco, com os dias contados porque o governo da altura queria acabar com as barracas no país.
Através do serviço ambulatório de apoio local, conhecido como projecto SAAL, o governo cedia o terreno, o apoio técnico e parte do dinheiro, se as populações avançassem com a mão-de-obra.
O fim do bairro de lata ficaria a dever-se ao arquitecto José Veloso. Difícil foi convencer primeiro os moradores do bairro. Desconfiavam das promessas e chegaram a ameaçar correr José Veloso à pedrada. O arquitecto não desistiu. Aos poucos, os pescadores acreditaram que poderiam ter direito a uma casa.
Ansiosa por deixar as barracas, a população organizou-se em turnos. Quando os homens estavam no mar, eram as mulheres que trabalhavam nas obras. Havia duas regras: as habitações tinham de começar a ser construídas ao mesmo tempo e todos teriam de ajudar na construção de todas as casas.
O carisma dos Índios da Meia-Praia chegou aos ouvidos de um realizador de cinema. António da Cunha Telles decidiu documentar a transformação que estava em marcha. O trabalho, cujas imagens mostramos, deu origem à música de Zeca Afonso.
Quase quarenta anos depois, o Perdidos e Achados desafiou o realizador a regressar ao bairro e ver o que aconteceu aos Índios da Meia-Praia. O bairro, localizado a poucos passos da praia, numa zona de expansão turística e ao lado de um campo de golfe, parece ter os dias contados.

VÍDEO
sicnoticias.sapo.pt



VÍDEOS


CONTINUAR A VIVER









Aldeia da Meia-Praia
Ali mesmo ao pé de Lagos
Vou fazer-te uma cantiga
Da melhor que sei e faço

De Monte-Gordo vieram
Alguns por seu próprio pé
Um chegou de bicicleta
Outro foi de marcha a ré

Houve até quem estendesse
A mão a mãe caridade
Para comprar um bilhete
De paragem para a cidade

Oh mar que tanto forcejas
Pescador de peixe ingrato
Trabalhaste noite e dia
Para ganhares um pataco

Quando os teus olhos tropeçam
No voo duma gaivota
Em vez de peixe vê peças
De ouro caindo na lota

Quem aqui vier morar
Não traga mesa nem cama
Com sete palmos de terra
Se constrói uma cabana

Uma cabana de colmo
E viva a comunidade
Quando a gente está unida
Tudo se faz de vontade 

Tudo se faz de vontade
Mas não chega a nossa voz
Só do mar tem o proveito
Quem se aproveita de nós

Tu trabalhas todo o ano
Na lota deixam-te mudo
Chupam-te até ao tutano
Chupam-te o couro cab'ludo

Quem dera que a gente tenha
De Agostinho a valentia
Para alimentar a sanha
De esganar a burguesia

Diz o amigo no aperto
Pouco ganho, muita léria
Hei-de fazer uma casa
Feita de pau e de pedra

Adeus disse a Monte-Gordo
(Nada o prende ao mal passado)
Mas nada o prende ao presente
Se só ele é o enganado

Foram "ficando ficando"
Quando um dia um cidadão
Não sei nem como nem quando
Veio à baila à habitação

Mas quem tem calos no rabo
- E isto não é segredo -
É sempre desconfiado
Põe-se atrás do arvoredo 

Oito mil horas contadas
Laboraram a preceito
Até que veio o primeiro
Documento autenticado

Veio um cheque pelo correio
E alguns pedreiros amigos
Disse o pescador consigo
Só quem trabalha é honrado

Quem aqui vier morar
Não traga mesa nem cama
Com sete palmos de terra
Se constrói uma cabana

Eram mulheres e crianças
Cada um c'o seu tijolo
"Isto aqui era uma orquestra"
Quem diz o contrário é tolo

E toda a gente interessada
Colaborou a preceito
- Vamos trabalhar a eito
Dizia a rapaziada

Não basta pregar um prego
Para ter um bairro novo
Só "unidos venceremos"
Reza um ditado do Povo

E se a má lingua não cessa
Eu daqui vivo não saia
Pois nada apaga a nobreza
Dos índios da Meia-Praia

Foi sempre a tua figura
Tubarão de mil aparas
Deixar tudo à dependura
Quando na presa reparas

Das eleições acabadas
Do resultado previsto
Saiu o que tendes visto
Muitas obras embargadas

Quem vê na praia o turista
Para jogar na roleta
Vestir a casaca preta
Do malfrão capitalista

Mas não por vontade própria
Porque a luta continua
Pois é dele a sua história
E o povo saiu à rua

Mandadores de alta finança
Fazem tudo andar pra trás
Dizem que o mundo só anda
Tendo à frente um capataz

E toca de papelada
No vaivém dos ministérios
Mas hão-de fugir aos berros
Inda a banda vai na estrada

Eram mulheres e crianças
Cada um c'o seu tijolo
"Isto aqui era uma orquestra"
Quem diz o contrário é tolo





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