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terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

Filha a tempo inteiro - Primeiro Round




Vivo num país que trata os cuidadores como leprosos, sejam eles pais, filhos, familiares, enteados, etc. Somos uma corja abater, assim como os que dependem de nós, sejam eles idosos, adultos ou crianças; (acamados); dementes; anomalias psíquicas; qualquer deficiência serve para ser abatido. As instituições publicas atiram o osso e cospem-nos como se fossemos medíocres, como se simplesmente não existíssemos, principalmente as públicas, aquelas a quem continuamos a pagar impostos, aquelas que abusam descaradamente dos euros que lhes enfiamos nos bolsos. Atiram-nos para o esgoto e julgam-se imponentes como se estivessem acima da lei, e metem a burocracia na ponta da língua porque não lhes cabe no cú. Fosse eu prima daqueles corruptos que roubam descaradamente as ditas instituições, sejam elas de caris financeiro ou não, e teria a passadeira estendida a meus pés, calejados e doridos nesta caminhada de cuidar a tempo inteiro de uma mãe que teve a infelicidade de ficar dependente, de tudo e de todos.
Fui obrigada, pelo feudalismo parasitário a senta-la no banco dos réus, para poder movimentar os quinhentos euros, (fruto de três esmolas; pensão de velhice, sobrevivência e complemento de terceira pessoa), mas depender de uma terceira pessoa não foi o suficiente para obter mais respeito, tanto ela como eu, que sou a terceira pessoa; às vezes sinto que sou a ultima pessoa, das que jamais serão respeitadas, talvez se a tivesse abandonado no hospital fosse condecorada pelo senhor presidente da república ou por qualquer abutre que dá beijinhos na época de eleições. Não foi suficiente sente-la no banco dos réus, porque ninguém reconhece um documento de tutela, ninguém sabe o que é uma interdição por anomalia psíquica, ninguém sabe o que é ser os olhos, os braços, as pernas, as lágrimas o amor destas pessoas.
Não deveriam os funcionários destas ditas intuições terem um pouquinho de formação sobre o código civil? Ou saberem distinguir uma procuração de um documento autenticado pelo tribunal?
Ao invés disso cagam postas de pescada caramelizada com disparates, tão descabidos que dá vontade de os mandar apanhar mexilhões, e perguntam-nos vezes sem conta; qual é a sua profissão? Depois de ter dito repetidamente tomo conta da minha mãe; mas ainda não esclarecidas estas ditas criaturas, olham-nos com escárnio e perguntam; então se está desempregada certamente está inscrita no centro de emprego, correcto?
Que imbecis, nem se quer sabem que quem cuida a tempo inteiro de alguém não pode estar inscrito em lado nenhum, a não ser num consultório psiquiátrico qualquer para aguentar tanta indiferença destas bestas que nem humanas são.
Ser filha a tempo inteiro, cuidadora, tutora é o mesmo que não ser nada, um mesmo nada para esta sociedade de capitalistas em que as aberrações não reconhecem os direitos, as leis e principalmente a dignidade de ser-se gente, o direito à vida.
Obrigada senhor doutor Juiz, por me ter feito jurar, ao fim de quatro anos de espera pela interdição, cuidar e tratar bem a minha mãe, dentro da minha casa eu faço-o, mas dentro das instituições do Estado não me deixam, e agora?
“O que não me mata, torna-me mais forte”, se pensam que me derrubam enganam-se porque serei sempre a minha voz e a tua mãe.
Conceição Bernardino

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