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domingo, 7 de dezembro de 2014

O mundo mudou - Mariana Mortágua



O mundo mudou

 



E não é de hoje. O mundo (ocidental) mudou quando, no pós-guerra,
o capitalismo foi forçado a aceitar as exigências de um população que, pela
primeira vez, tinha escolha quanto ao sistema em que queria viver. O Estado
Social é, ironicamente, em parte, fruto da concorrência. Não de mercado mas de
sistemas económicos. E funcionou. As cedências permitiram ao debilitado
capitalismo da crise de 1930 sobreviver, fortalecer-se, e ganhar apoio popular,
durante os 30 anos gloriosos que se seguiram à II Guerra Mundial. As limitações
impostas aos mercados, à circulação de capitais e ao funcionamento dos bancos
produziram a estabilidade financeira necessária para que o resto pudesse
acontecer. E o que aconteceu foi crescimento económico, baseado um modelo de
acumulação que, sem nunca acabar com a exploração, fazia do salário um dos
pilares da procura (consumo) que o sustentava.
O mundo mudou quando este modelo deixou de ser capaz de cumprir as
expectativas de bem estar e prosperidade eternas. Quando, perante as crises dos
anos 70, o recomposto capital já não esteve disposto a abdicar da sua taxa de
lucro para combater o desemprego, estabilizar os preços e redistribuir riqueza.
A fuga foi, como não podia deixar de ser, para a frente. O contrato social do
pós-guerra começou a ser desfiado, ponta por ponta, das leis laborais à proteção
social. As restrições à finança e ao funcionamento dos mercados cairam, uma
por uma, da separação da banca ao controlo de movimentos de capitais.
 As grandes empresas industriais foram substituídas por fundos financeiros,
o pleno emprego pela normalização do desemprego estrutural, a proteção pública
dos centros estratégicos pelas privatizações, a segurança social pela
flexissegurança, a solidariedade pelo empreendedorismo. Quase tudo, quase
sem exceção, foi renomeado, resignificado. O mundo mudou. O contrato social
não importa porque a acumulação não depende do salário. Há a dívida. 
A dívida pública que cresceu a partir dos anos 80, fruto das privatizações e da
benevolência fiscal para com o capital e os mercados financeiros.  A dívida
pública que se tornou no único escape para um Estado Social, cada vez mais
débil. A dívida pública que comprou a paz social perante a falta de pudor do
neoliberalismo. A mesma  dívida pública que, a partir dos anos 90, se tornou uma
arma de chantagem para sempre menos Estado,sempre mais liberalizado.
E a dívida privada, que, perante a compressão dos orçamentos públicos,
alimentou os mercados, mascarou as desigualdades e sustentou o sistema, sob
uma falsa teoria de racionalidade e auto-regulação dos mercados financeiros. 
Mas o mundo voltou a mudar. O modelo de acumulação baseado na especulação
com dívida privada mostrou-se demasiado volátil, demasiado perigoso, ruiu. Foi
preciso chamar os Estados, pôr o mecanismo do endividamento público a
funcionar para salvar um regime naufragado. E o capitalismo fez das fraquezas
força. Se, em 1945, foi obrigado a ceder para sobreviver, no mundo liberalizado e
financeirizado de 2007 fez da sua capacidade para gerar crises -  crise das contas
públicas, crise financeira, crise económica -  um instrumento de recuperação.
E o mundo, a Europa, o país, obedeceram. Privatizou-se mais, liberalizou-se mais,

precarizou-se mais. Criaram-se até novas leis, novos tratados, novas
constituições para garantir que nunca mais o poder político se poderia sobrepor à
vontade dos mercados. Limites para os défices, limites para a dívida, limites para
a despesa pública, limites para a democracia. Austeridade. Tudo o que for preciso
para evitar mais uma crise, mais custos, mais desemprego. 
O mundo mudou. Já não estamos em 1950, sequer em 1980. Os mercados não
fazem compromissos, simplesmente porque não precisam de os fazer. É preciso
'recuperar a confiança' , reganhar os lucros estoirados em 2007. Há que aumentar
a 'competitividade', tornar o Estado mais 'leve', 'moderar' o acesso à saúde,
aumentar a 'felxibilidade' laboral. Renomear, resignificar. Novos conceitos para
descrever estratégias antigas. Expandir mercados para áreas que dele estavam
protegidas - saúde, segurança social, educação - e aumentar a exploração sobre
a grande maioria dos trabalhadores (mesmo que agora sejam os call centers da
PT ou da EDP onde antes estavam as fábricas do nosso imaginário).
O mundo mudou. E neste não tão admirável mundo novo, não basta a boa
vontade política, ainda que sincera, venha ela de Hollande ou de António Costa.
Não basta pedir à Comissão Europeia que olhe para o lado enquanto se violam
regras do défice. Não serve pedir aos mercados financeiros que dêem um
espacinho enquanto se aumentam impostos sobre o capital. Não há forma de
pagar o Estado Social e a dívida ao mesmo tempo. As pequenas mudanças já
não bastam. 
Neste não tão admirável mundo novo as condições reais para um governo de
esquerda dependem de um confronto com os mercados financeiros, com a dívida,
com as entranhas do sistema capitalismo moderno. Recuperar os instrumentos de
que precisamos para resgatar as nossas economias, a nossa democracia,
significa, necessariamente, afrontar os grandes interesses financeiros, retirar-lhes
a liberdade de movimentação, de especulação, de controle. Estou convicta que
qualquer outra estratégia acabará numa estrondosa desilusão, quando o país
acordar e se vir confrontado com mais uma mudança de um mundo que deixámos
que deixasse de ser feito para nós. 


http://expresso.sapo.pt

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