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terça-feira, 14 de agosto de 2012


    O assassino de Aurora. Amigos:

    Desde que Caim enlouqueceu e matou Abel sempre houve humanos que, por
    uma razão ou outra, perdem a cabeça temporária ou definitivamente e
    cometem atos de violência. Durante o primeiro século de nossa era, o
    imperador romano Tibério gozava, jogando suas vítimas na ilha de Capri,
    no Mediterrâneo. Gilles de Rais, cavalheiro francês aliado de Joana
    D'Arc, na Idade Média, um dia, enlouqueceu e acabou assassinando
    centenas de crianças. Apenas umas décadas depois, Vlad, o Empalador, na
    Transilvânia, tinha inúmeros modos horripilantes de acabar com suas
    vítimas; o personagem de Drácula foi inspirado nele.

    Em tempos modernos, em quase toda as nações há um psicopata ou dois que
    cometem homicídios em massa, por mais estritas que sejam suas leis em
    matéria de armas: o demente supremacista branco, cujos atentados na
    Noruega cumpriram um ano nesse domingo; o carniceiro do pátio escolar em
    Dunblane, Escócia; o assassino da Escola Politécnica de Montreal; o
    aniquilador em massa de Erfurt, Alemanha...; a lista parece
    interminável. E agora o atirador de Aurora, na sexta-feira passada.
    Sempre houve pessoas com pouco juízo e prudência e sempre haverá.

    Porém, aqui reside a diferença entre o resto do mundo e nós: aqui
    acontecem DUAS Auroras a cada dia de cada ano! Pelo menos 24
    estadunidenses morrem a cada dia (de 8 a 9 mil por ano) em mãos de gente
    armada, e essa cifra NÃO inclui os que perdem a vida em acidentes com
    armas de fogo ou os que cometem suicídio com uma. Se contássemos todos,
    a cifra se multiplicaria a uns 25 mil.

    Isso significa que os Estados Unidos são responsáveis por mais de 80% de
    todas as mortes por armas de fogo nos 23 países mais ricos do mundo
    combinados. Considerando que as pessoas desses países, como seres
    humanos, não são melhores ou piores do que qualquer um de nós, então,
    por que nós?

    Tanto conservadores quanto liberais nos Estados Unidos operam com
    crenças firmes a respeito do "porquê" desse problema. E a razão pela
    qual nem uns e nem outros podem encontrar uma solução é porque, de fato,
    cada um tem a metade da razão.

    A direita crê que os fundadores dessa nação, por alguma sorte de decreto
    divino, lhes garantiram o direito absoluto a possuir tantas armas de
    fogo quanto desejem. E nos recordam sem cessar que uma arma não dispara
    sozinha; que "não são as armas, mas quem mata são as pessoas".

    Claro que sabem que estão cometendo uma desonestidade intelectual (se é
    que posso usar essa palavra) ao sustentar tal coisa acerca da Segunda
    Emenda porque sabem que as pessoas que escreveram a Constituição
    unicamente queriam assegurar-se de que se pudesse convocar com rapidez
    uma milícia entre granjeiros e comerciantes em caso de que os britânicos
    decidissem regressar e semear um pouco de caos.

    Porém, têm a metade da razão quando afirmam que "as armas não matam: os
    estadunidenses matam!". Porque somos os únicos no primeiro mundo que
    cometemos crimes em massa. E escutamos estadunidenses de toda condição
    aduzir toda classe de razões para não ter que lidar com o que está por
    trás de todas essas matanças e atos de violência.

    Uns culpam os filmes e os jogos de videogame violentos. Na última vez em
    que revisei, os videojogos do Japão são mais violentos do que os nossos
    e, no entanto, menos de 20 pessoas ao ano morrem por armas de fogo
    naquele país; e em 2006 o total foi de duas pessoas! Outros dirão que o
    número de lares destroçados é o que causa tantas mortes. Detesto
    dar-lhes essa notícia; porém, na Grã-Bretanha há quase tantos lares
    desfeitos, com um só dos pais assumindo o cuidado dos filhos quanto nos
    EUA; e, no entanto, em geral, os crimes cometidos lá com armas de fogo
    são menos de 40 ao ano.

    Pessoas como eu dirão que tudo isso é resultado de ter uma história e
    uma cultura de homens armados, "índios e vaqueiros", "dispara agora e
    pergunta depois". E se bem é certo que o genocídio de indígenas
    americanos assentou um modelo bastante feio de fundar uma nação, me
    parece mais seguro dizer que não somos os únicos com um passado violento
    ou uma marca genocida.

    Olá, Alemanha! Falo de ti e de tua história, desde os hunos até os
    nazistas, todos os que amavam uma boa carnificina (tal qual os japoneses
    e os britânicos, que dominaram o mundo por centenas de anos, coisa que
    não conseguiram plantando margaridas). E, no entanto, na Alemanha, nação
    de 80 milhões de habitantes, são cometidos apenas 200 assassinatos com
    armas de fogo ao ano.

    Assim que esses países (e muitos outros) são iguais a nós, exceto que
    aqui mais pessoas acreditam em Deus e vão à Igreja mais do que em
    qualquer outra nação ocidental.

    Meus compatriotas liberais dirão que se tivéssemos menos armas de fogo
    haveria menos mortes por essa causa. E, em termos matemáticos, seria
    certo. Se temos menos arsênico na reserva de água, matará menos gente.
    Menos de qualquer coisa má – calorias, tabaco, reality shows –
    significará menos mortes. E se tivéssemos leis estritas em matéria de
    armas, que proibissem as armas automáticas e semiautomáticas e
    prescrevessem a venda de grandes magazines capazes de portar milhões de
    balas, atiradores como o de Aurora não poderiam matar a tantas pessoas
    em pouquíssimos minutos.

    Porém, também nisso há um problema. Há um montão de armas no Canadá (a
    maioria rifles de caça) e, no entanto, a conta de homicídios é de uns
    200 ao ano. De fato, por sua proximidade, a cultura canadense é muito
    similar à nossa: as crianças têm os mesmos videojogos, veem os mesmos
    filmes e programas de TV; mas, no entanto, não crescem com o desejo de
    matar uns aos outros. A Suíça ocupa o terceiro lugar mundial em posse de
    armas por pessoa; porém, sua taxa de criminalidade é baixa. Então, por
    que nós? Formulei essa pergunta há uma década em meu filme 'Tiros em
    Columbine', e esta semana tive pouco que dizer porque me parecia ter
    dito há dez anos o que tinha que dizer; e acho que não fez muito efeito;
    exceto ser uma espécie de bola de cristal em forma de filme.

    Naquela época eu disse algo, que repetirei agora:

    1. Os estadunidenses somos incrivelmente bons para matar. Acreditamos em
    matar como forma de conseguir nossos objetivos. Três quartos de nossos
    Estados executam criminosos, apesar de que os Estados que têm as taxas
    mais baixas de homicídios são, em geral, os que não aplicam a pena de
    morte.

    Nossa tendência a matar não é somente histórica (o assassinato de
    índios, de escravos e de uns e outros na guerra "civil"): é nossa forma
    atual de resolver qualquer coisa que nos inspira medo. É a invasão como
    política exterior. Sim, lá estão Iraque e Afeganistão; porém, somos
    invasores desde que "conquistamos o oeste selvagem" e agora estamos tão
    enganchados que já não sabemos o que invadir (Bin Laden não se escondia
    no Afeganistão, mas no Paquistão), nem porque invadir (Saddam não tinha
    armas de destruição massiva, nem nada a ver com o 11-S). Enviamos nossas
    classes pobres para fazer matanças, e os que não temos um ser querido
    lá, não perdemos um só minuto de um só dia em pensar nessa carnificina.
    E agora, enviamos aviões sem pilotos para matar (drones), aviões
    controlados por homens sem rosto em um luxuoso estúdio com ar
    condicionado em um subúrbio de Las Vegas. É a loucura!

    2. Somos um povo que se assusta com facilidade e é fácil de ser
    manipulado pelo medo. De que temos tanto medo, que necessitamos ter 300
    milhões de armas de fogo em nossas casas? Quem vai machucar? Por que a
    maior parte dessas armas se encontra nas casas de brancos, nos subúrbios
    ou no campo? Talvez, se resolvêssemos nosso problema racial e nosso
    problema de pobreza (uma vez mais, somos o número um com maior número de
    pobres no mundo industrializado) teria menos pessoas frustradas,
    atemorizadas e encolerizadas estendendo a mão para pegar a arma que
    guardam na gaveta. Talvez, cuidaríamos mais uns dos outros (aqui vemos
    um bom exemplo disso).

    Isso é o que penso sobre Aurora e sobre o violento país do qual sou
    cidadão. Como mencionei, disse tudo nesse filme e se quiserem, podem
    assisti-lo e partilhá-lo sem custo com os demais. E o que nos faz falta,
    amigos meus, é valor e determinação. Se vocês estão prontos, eu também.

    *[*] Cineasta e escritor estadunidense

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