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quarta-feira, 15 de agosto de 2012



     
    A vida como ela é
    O Grande Viúvo


    Na volta do cemitério, ele falou para a família:
    - Bem. Quero que vocês saibam o seguinte: - minha mulher morreu e eu também vou morrer.
    Houve em torno um espanto mudo. Os parentes entreolharam-se. O pai do viúvo ergueu-se:
    - Calma, meu filho, calma!
    Jair virou-se, violento:
    - Calma porque a mulher é minha e não sua! 
    Pois fique sabendo, meu pai: - eu não tenho calma, não quero ter calma e só não me mato agora mesmo, já, sabe por quê?
    Uma tia solteirona atalhou:
    - Tenha fé em Deus!
    Por um momento, Jair esteve para soltar um palavrão. Dominou-se, porém. Numa serenidade intensa, fremente, completou:
    - Não me mato imediatamente porque quero fazer o mausoléu de minha mulher. Aliás, dela e meu. Quero dois túmulos, lado a lado. E vocês já sabem: - desejo ser enterrado
    com Dalila, perceberam?
    Ninguém disse nada, e vamos e venhamos: - é muito difícil argumentar contra o desespero. E quando Jair passou, imerso na sua viuvez, a caminho do andar superior,
    os presentes o acompanharam com o olhar, esmagados de tanta dor. Ele subiu lentamente a escada e foi trancar-se no quarto.


    O Inconsolável
    Na ausência do rapaz, um tio arrisca: - "Será que ele se mata?". O pai apanha um cigarro e dá a sua opinião:
    - Não creio. Cão que ladra não morde.
    Ponderam:
    - Às vezes, morde.
    E o velho, que era um descrente de tudo e de todos:
    - O que sei é o seguinte: - a dor de um viúvo ou de uma viúva não costuma durar mais de quarenta e oito horas.
    - Não exageremos!
    O pai, porém, insistia, polêmico:
    - Sim, senhor, perfeitamente! - E referiu um caso concreto, que todos conheciam: - Por exemplo: - a nossa vizinha do lado. O marido foi enterrado de manhã e, de
    tarde, ela estava no portão, chupando Chicabon. Isso é dor que se apresente?
    O episódio do sorvete calou fundo na sala. Sentindo o sucesso, o velho carregou no otimismo:
    - Vamos dar tempo ao tempo. Isso passa. - E concluiu, profundo: - Tudo passa.

    A Dor
    Quinze dias depois, porém, o viúvo estava tão desesperado como no primeiro momento. Não se podia dar um passo naquela casa que não se esbarrasse, que não se tropeçasse
    num retrato, numa lembrança da morta. E mais: - sabia-se, por indiscrição da arrumadeira, que Jair dormia, todas as noites, com vestidos, camisolas, pijamas da esposa.
    Certa vez, foi até interessante: - ele meteu a mão no bolso e tirou, de lá, sem querer, uma calcinha da falecida. O próprio pai já não sabia o que dizer, o que pensar.
    Começou a rosnar que o filho estava "le-lé", "tantã". Com seu implacável senso comum, chegou a cogitar de internação. Tiveram que chamá-lo à ordem:
    - Internação para saudade? Para viuvez? Sossega o periquito!
    - Mas qualquer dia ele mete uma bala na cabeça, ora pipocas!
    Alguém lembrou o que Jair dissera, isto é, que só se mataria quando estivessem concluídas as obras do mausoléu. Diante desse filho que entupia os bolsos com as calcinhas
    da falecida, o ancião gemia: - "Por que que uma grande dor é sempre ridícula?". Desesperava-o que Jair passasse os dias no cemitério, agarrado a um túmulo, chorando
    como no primeiro dia. E o pior é que a viuvez do filho era altamente declamatória. De volta do cemitério, ele vinha para casa deblaterar:
    - Não se esquece a melhor mulher do mundo! Eu desafio que alguma mulher chegue aos pés da minha!
    Dalila era muito mais amada morta do que em vida. O próprio Jair acabou sentindo um certo orgulho, uma certa vaidade, dessa dor que não arrefecia. E continuava fiel
    à idéia do suicídio. Batia sempre na mesma tecla: - não acreditava nos viúvos e nas viúvas que sobrevivem. E quando, certa vez, o pai quis argumentar contra esse
    suicídio datado, ele cortou:
    - Meu pai, não adianta: - o senhor já perdeu seu filho. Sou, praticamente, um defunto.
    E coisa curiosa: - fosse por auto-sugestão ou por motivo de saúde, o fato é que a pele de Jair adquiria um tom esverdeado de cadáver.

    O Outro
    Então, a família começou a procurar, desesperadamente, uma maneira de salvá-lo. Foi quando um primo longe de Jair teve uma idéia. Chamou o pai do rapaz e começou:
    - Olha aqui, o negócio é o seguinte: - só há um meio de curar Jair.
    - Qual?
    O outro baixa a voz:
    - Destruindo o amor que o prende à falecida.
    O velho esbugalha os olhos: - "Mas como? Com que roupa? É impossível!". Seguro de si, o primo encosta o cigarro no cinzeiro: - "Nada é impossível!". Pigarreia e
    continua:
    - Digamos que se descobrisse, de repente, que a falecida teve um amante.
    O outro pulou:
    - Mas Dalila era honestíssima, séria pra chuchu!
    Ri o primo:
    - Que era séria, sei eu. Mas até aí morreu o Neves. - Novo pigarro e insinua: - Nenhuma mulher, viva ou morta, está livre de uma boa calúnia. Podíamos inventar,
    não podíamos, um amante de araque? E quem pode provar o contrário?
    Pálido, o pai balbucia:
    - Continua.
    E o outro:
    - Ora, uma vez convencido de que Dalila foi uma vigarista, Jair perderia, automaticamente, a paixão. Compreendeu o golpe?
    Custou a responder:
    - Compreendi.

    A Revelação
    O achado da calúnia era tão persuasivo que, depois de uns escrúpulos frouxos, a família aprovou a idéia. Disseram, a título de escusa: - "Os fins justificam os meios".
    Uma manhã, enquanto prosseguiam no cemitério as obras do mausoléu, convocam o viúvo. O pai, nervoso, começa perguntando: - "Você tem certeza que sua esposa merecia
    a sua dor?".
    Jair percebeu, no ar, a insinuação. Aperta o pai, que, em dado momento, não tem outro remédio senão desfechar o golpe: - "Embora seja muito desagradável falar de
    uma morta, a verdade é que Dalila teve um amante!".
    O viúvo recua: - "Que amante? Como amante?". E não queria entender. Então, possuído pela calúnia, cada um, ali, confirmou que sabia do amante, sabia da infidelidade.
    Atônito, ele perguntava: - "Mas quem era ele? Quero o nome! Quero a identidade!". A verdade é que ninguém tinha pensado no detalhe.
    Fora de si, Jair agarrou o pai pelos dois braços e o sacudia:
    - Eu estou disposto a acreditar no amante. Mas quero saber quem foi. Quem é? Digam! Pelo amor de Deus, digam!
    O pai refugiou-se na desculpa pusilânime: - "Diz-se o milagre, mas não o nome do santo!". Então, o filho fez, na frente de todos, promessas delirantes: - "Vocês
    pensam que eu vou matar? Fazer e acontecer? Juro que não! Não tocarei num cabelo do cara!". E berrava, no meio da sala:
    - Se me disserem quem foi, eu não me matarei! Preciso desse homem para viver! Ele será meu amigo, meu único amigo, para sempre amigo! Digam!
    Pausa. Espera o nome. E como ninguém fala, ele dá um pulo para trás e puxa o revólver que, desde a morte da mulher, jamais o abandonava. Encosta o cano na fronte:
    - "Ou vocês dizem o nome ou me mato, agora mesmo!". Então, o pai vira-se na direção do primo e o aponta:
    - Ele!
    Apavorado, o primo não sabe onde se meter. Jair pousa o revólver em cima do piano. Aproxima-se do outro, lentamente. Súbito, estaca e abre os braços para o céu:
    - Graças por ter encontrado quem possa falar de Dalila, comigo, de igual para igual!
    Agarra o primo em pânico: - "Diz para esses cabeças-de-bagre se ela foi ou não a melhor mulher do mundo?". E chorava no ombro do pobre-diabo, como se este fosse,
    realmente, seu irmão, seu sócio, seu companheiro em viuvez.
    Nelson Rodrigues 

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