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domingo, 7 de outubro de 2018

Os primeiros turistas em Portugal

www.sabado.pt





Desembarcaram em Lisboa a 11 de Maio de 1911 e ficaram em Portugal nove dias. "Quando julgavam que iam ver uma cidade mesquinha, com um ou outro grande monumento, sem modernismos, sem as belezas dos grandes centros, viram a Lisboa nova e ficaram agradavelmente impressionados, com as avenidas largas, a casaria, os jardins e sobretudo com a forma porque a rua do Ouro se vestiu de flores para os receber", assegurava a revista semanal Ilustração Portuguesa, que descrevia assim a chegada de dezenas de congressistas estrangeiros a Lisboa. 

Vinham participar no IV Congresso Internacional de Turismo, que decorreu pela primeira vez em Portugal, apenas sete meses após a implantação da República.
Os estrangeiros passaram não só por Lisboa e pelo Porto, mas também por Évora, Setúbal, Estoril, Vila Franca, Coimbra e Vila Nova de Gaia. 

"Uns queriam constatar se era bem verdade o que se lhes afirmava, se havia paz e sossego [circulava a ideia de que a monarquia caíra quase sem derrame de sangue]; outros chegavam atraídos pelas belezas da paisagem (...), todos procuravam o sol luminoso e belo que nos faz alcunhar de pays du soleil [país do Sol]", contava a mesma publicação.


Era o início da institucionalização do turismo em Portugal – foi durante o IV Congresso Internacional, a 13 de Maio de 1911, que Batalha Reis, delegado do governo nacional, anunciou a criação da Repartição de Turismo, o primeiro organismo nacional dedicado a esta área.


Hoje, mais de 100 anos depois, Portugal soma recordes no sector. 

Em 2017, passaram pelo País mais de 20 milhões de visitantes. Mas não só: o Turismo de Portugal voltou a vencer os World Travel Awards 2017, na categoria de melhor organismo oficial europeu do sector, pelo quarto ano consecutivo, e o País foi premiado como melhor destino mundial e europeu de golfe 2017. 

"Se 2017 foi o ano de implementação da estratégia turística nacional, este ano é, certamente, o da sua consolidação. Ambicionamos posicionar Portugal como um dos destinos turísticos mais competitivos e sustentáveis do mundo", afirma à SÁBADO Luís Araújo, presidente do Turismo de Portugal.

As primeiras conquistas 

Este trajecto começou há mais de 100 anos. 
Por coincidência, foi no próprio dia de implantação da República, a 5 de Outubro de 1910, que se decidiu realizar em Lisboa a quarta edição do Congresso Internacional de Turismo. Perante as dúvidas dos participantes em aceitarem a candidatura de Lisboa, o representante português Fernando de Sousa deu garantias à Federação Franco -Hispano Portuguesa de Sindicatos de Iniciativa e Propaganda, promotora do evento, de que "os congressistas seriam acolhidos do modo mais conveniente".







De acordo com os relatos da imprensa da época, terá havido esforços para que isso acontecesse. 
A 12 de Maio de 1911, os turistas foram recebidos na Câmara Municipal de Lisboa, numa "esplêndida festa". 

Descrevia a Ilustração Portuguesa: "O povo aglomerava-se no largo do Município a ver a fachada iluminada, a bela escadaria ornada de plantas e onde os bombeiros se perfilavam. Lá dentro: nos magníficos salões os nossos hóspedes com as suas toilettes de cerimónia, as senhoras decotadas, gente de toda a Europa, representantes de todas as classes, viam como os homens do novo regime recebiam os estrangeiros." 

A recepção incluiu um concerto das cantoras da época "Madame Mantelli, e das srªs D. Alice Lopes e Cesaria Lyra".


Nos dias seguintes, além de um concurso hípico em Palhavã, os turistas foram presenteados com a inauguração de um museu em Mafra, uma festa de fogo -de -artifício no Estoril, uma visita aos armazéns de vinho do Porto e uma garden -party no jardim da Estrela, em Lisboa. A Câmara Municipal de Setúbal ofereceu-lhes um almoço na esplanada do Sanatório d’Outão, mas "foi o Ribatejo que lhes deu a mais sensacional impressão". Almoçaram "bem à portuguesa, com a sua salada de alface, o seu peru recheado e os vinhos da região" e foram recebidos por um cortejo imponente. 

"Passaram primeiro os campinos com os seus trajes, os pampilhos erguidos, desbarretados, (...); depois uma série de carros alegóricos com alfaias, máquinas, ranchos de ceifeiras, cavadores, camponeses, espécimes dessa população que leva a vida na labuta cantando e rindo ao sol", relatava a Ilustração Portuguesa. Quase no fim, um grupo de congressistas espanhóis, grato pelo acolhimento, depositou uma coroa de flores, junto à estátua de Luís Vaz de Camões, em Lisboa.


Além da fausta recepção, o congresso procurou juntar à criação da Repartição de Turismo (Portugal foi o terceiro país do mundo a ter uma organização oficial do turismo), outras iniciativas com impacto social e político. Entre as 30 recomendações e conclusões resultantes do evento encontram-se a construção da linha ferroviária entre Tomar, Batalha, Alcobaça e Nazaré, o estabelecimento de rotas marítimas entre os países federados e os Estados Unidos e a criação da federação dos hoteleiros da raça latina. Mas não só: foi no seguimento do IV Congresso que Portugal adoptou a hora do meridiano de Greenwich, que ainda hoje vigora.


"A Federação Franco -Hispano Portuguesa de Sindicatos de Iniciativa e Propaganda [que deu origem à Organização Mundial do Turismo] e, em particular, o seu IV Congresso, foram os grandes pioneiros do turismo moderno e estabelecem a primeira iniciativa de coordenação oficial de turismo ao nível internacional", explica à SÁBADO Licínio Cunha, ex-secretário de Estado do Turismo, professor catedrático e autor de várias obras sobre o sector.


Não há números exactos sobre turistas em Portugal no início do século, mas sabe-se que eram sobretudo europeus e americanos.


Portugal começou a despertar para o turismo ainda no fim do século XIX, pela mão de alguns dos mais emblemáticos escritores. Almeida Garrett defendia que as viagens "faziam parte da boa e nobre educação" e Ramalho Ortigão garantia que "nada há de mais valioso e propício à nossa higiene intelectual e moral". 
Foram ambos, aliás, autores de títulos sobre a temática. Basta recordar As Viagens na Minha Terra, de Garrett, e As Praias de Portugal, de Ortigão.


A sociedade de propaganda Em 1893, durante a crise que levou à falência de bancos e à suspensão da amortização da dívida pública, Mariano de Carvalho, ministro da Fazenda, defendia que Lisboa lucraria com a "afluência de passageiros". "Se 10 mil estrangeiros viessem morar temporariamente para Portugal e 30 a 40 mil nos visitassem por uns dias, então teríamos uma receita de 500 mil libras por ano."


Em 1899, o jornalista Leonildo de Mendonça e Costa, director da Gazeta dos Caminhos de Ferro, escreveu a Alfredo Cunha, director do Diário de Notícias, sugerindo a criação de uma associação que promovesse o País. 

A carta, porém, só seria publicada sete anos depois, a 23 de Janeiro de 1906, com destaque na primeira página. Graças à sua "aliciante doutrina (..) e a uma série de fervilhantes diligências para recrutamento dos membros fundadores da almejada associação", como refere Paulo Pina em Portugal – O Turismo no Século XX, a Sociedade Propaganda de Portugal (SPP) nasceria pouco depois, a 28 de Fevereiro desse ano. 

Entre os fundadores estavam nomes influentes da época como o advogado e escritor Magalhães Lima, o médico e político Eduardo Burnay e o militar e historiador Henrique Lopes de Mendonça. Começou com 73 sócios, mas em 1915 já ultrapassava os 9.000.


De acordo com vários documentos disponibilizados pelo Centro de Documentação do Turismo de Portugal, a acção da SPP estendeu-se a vários domínios. 

Além de desenvolver e divulgar cartazes e folhetos, e fazer projecções luminosas, precursoras dos diaporamas, organizou o primeiro curso de formação profissional para pessoal de hotelaria, em 1909. 

Foi também responsável pela "primeira viagem educacional", que trouxe a Portugal, em 1913, um grupo de jornalistas britânicos. Editou o Guia Sociedade Propaganda de Portugal e contribuiu para o estabelecimento de ligações diárias a Paris, através do comboio Sud Expresso, e de rotas marítimas entre Lisboa e Nova Iorque. 

O primeiro cartaz turístico produzido por Portugal, em 1907, apostava precisamente nas ligações transatlânticas. Intitulava-se Portugal the shortest way between America and Europe ( Portugal a via mais rápida entre a América e a Europa).
Portugal? Um povo triste

Se, por um lado, se procurava dinamizar o turismo ao nível institucional, por outro, sabia-se que Portugal carecia de infra-estruturas e condições que o tornassem, de facto, atraente aos olhos de um estrangeiro. 

Em Por Terras de Portugal e Espanha, de 1911, o poeta espanhol Miguel de Unamuno dizia que " Portugal (...) é um povo triste, até mesmo quando sorri".


Um guia humorístico, publicado em 1911 no jornal O Século e dirigido aos participantes do IV Congresso Internacional, sugeria uma imersão de realidade. Recomendava uma ida à praça do peixe do Cais do Sodré, em Lisboa, para "admirar o asseio das nossas varinas". Aconselhava um almoço num restaurante da Baixa para que "aturassem os criados malcriados, os garotos das cautelas, os pedintes, e comessem um bife de sola, um peixe queimado e pagassem caríssimo". 

O ponto quatro do guia incidia sobre os hábitos da cidade, alertando para as "saloias com trouxas à cabeça" e "os fadistas encostados às montras".
A hotelaria também não era um sector bem-visto. 

A capacidade de alojamento era reduzida – um relatório de 1913 contabilizava apenas 3.000 quartos em todo o País – e estava concentrada sobretudo nos centros urbanos e nas estâncias termais. José Ataíde, primeiro executivo oficial do turismo português, descrevia assim os profissionais do sector, em 1911. "O hoteleiro, quase sempre na profissão por um acaso da vida, dirigia o hotel com a mesma consciência com que, não sendo marinheiro, dirigia um navio."


No Guia de Portugal de 1924, o autor Raul Proença garantia que fora das "estâncias termais e balneares e de duas ou três estâncias de vilegiatura [tempo de férias], ninguém frequenta hotéis portugueses senão por absoluta necessidade, tal é o desconforto e a falta de asseio da maioria deles". No Porto, onde existiam 21 hotéis em 1918, houve uma tentativa de inovar com o Hotel Fructi Vegetarino, para naturistas e vegetarianos. Não teve grande sucesso.

O Algarve? Nem pensar 
A oferta de luxo era diminuta – fora de Lisboa e do Porto destacavam-se apenas o Buçaco (1907) e o Vidago Palace Hotel (1910). Perante este cenário, Fausto Figueiredo criou, nas palavras de Licínio Cunha, "aquele que constitui o primeiro projecto de destino turístico: a Estação Marítima Climatérica, Termal e Desportiva" do Estoril. A primeira pedra foi lançada em 1916, com a presença do Presidente da República, Bernardino Machado.


Nesta época, o Algarve tinha pouca expressão, explica Licínio Cunha. "Não havia ligações, o que tornava o acesso difícil", diz, acrescentando que a região só começou a ter relevo na década de 60. Em 1911, o estado das estradas era, em geral, mau.


Apesar do cenário, Jorge Mangorrinha, que presidiu à Comissão Comemorativa do Centenário do Turismo em Portugal, elogia os esforços do regime. "A I República aproximou profissionais e amadores de hotelaria, com o objectivo de de senvolver essa indústria. Lançou as condições para que quem estivesse em cada localidade desenvolvesse os seus recursos. Por isso, o Estado criou as Comissões de Iniciativa Local e Turismo e entregou-as às comunidades locais", diz. E sublinha: "Os primeiros tempos foram de utopia, mas também de concretização."


O que é certo é que o turismo procurou colmatar a crise económica, atraindo visitantes e investimento. Semelhanças com a actualidade? Luís Araújo, presidente do Turismo de Portugal, diz que não. 

"Não podemos comparar a digitalização do sector no século XXI com o que se fazia no início do século XX. Se pensarmos, por exemplo, na área da promoção, conseguimos hoje competir com destinos com orçamentos muito superiores ao nosso, precisamente, porque vivemos numa era digital. 

Era impensável, no início do século XX, promovermo-nos nos EUA com grandes outdoors e anúncios na imprensa."

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