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segunda-feira, 15 de outubro de 2018

Dos incêndios à tempestade Leslie – Maniqueísmo, ressentimento e outras raivas

estatuadesal.com



(Carlos Esperança, 14/10/2018)
leslie


Agostinho era um intelectual maniqueísta, nascido em meados do séc. IV que faleceu aos 75 anos, no século seguinte. Converteu-se ao cristianismo, foi bispo de Hipona e tornou-se seu santo doutor, quando ainda não se criavam santos com a facilidade com que as operárias das Caldas reproduzem recordações da cerâmica local, para turistas.

O maniqueísmo não deixou de impregnar o pensamento e inquinar a reflexão na nossa cultura. Permaneceu no ‘santo doutor’ e continua a determinar a culpa, outra herança da cultura judaico-cristã.

Quando a Proteção Civil fez advertências vigorosas quanto ao perigo da passagem da tempestade Leslie não se imaginaria o grau de eficiência que pouparia vidas humanas.

A ausência de mortes perante o fenómeno anómalo e violento é uma surpresa, por entre danos materiais elevados. Numerosas telhas do telhado da minha casa emigraram com a força do vento e, de um edifício próximo, outras vieram para me deixar a pintura do carro, onde caíram, com pior aspeto do que o chapéu de um pobre.

Calculo a frustração dos que cultivam a mórbida recordação da tragédia de Pedrógão e o gozo com que atribuíriam ao Governo a responsabilidade, os mesmos que calaram as mortes de uma procissão na Madeira pela queda de um carvalho do adro da igreja que esmagou os crentes e levou a que fossem arguidos, não a paróquia, mas uma vereadora e um funcionário da Câmara do Funchal (!).

Os incêndios são culpa do Governo; as quedas de árvores, quando em recintos pios, das autarquias; os tufões e outras catástrofes naturais, quando não há vítimas, são milagres.
Há pessoas que, se tivessem um pingo de pudor, já teriam felicitado os responsáveis da Proteção Civil, pala eficácia, vigor dos avisos e oportunas medidas de proteção.
Ah, mas o maniqueísmo tem em conta quem apoia o Governo e, nestas circunstâncias, o silêncio virtuoso é a marca genética de quem prefere a tragédia ao êxito das instituições que não comanda.

Na Figueira da Foz e em Coimbra parece existir um campo de batalha de onde saíram os corpos, mas não houve vítimas humanas, apesar dos esforços para as inventarem.

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