A história das duas mulheres piratas é contada num livro primoroso publicado em 1724, The General History of the Pirates, assinado por um capitão Charles Johnson, com várias edições e também conhecido por Uma História Geral de Roubos e Crimes de Piratas Famosos (1). O autor tinha tal domínio da técnica literária que existiu durante muito tempo a suspeita de ser o pseudónimo de Daniel Defoe, o autor deRobinson Crusoe. Parece que não é assim: o livro terá mesmo sido escrito por um antigo pirata. As suas fontes não são conhecidas, mas grande parte da narrativa baseou-se em factos ou em lendas que circulavam entre os marinheiros, talvez até em histórias vividas.
Num dos capítulos do livro do capitão Johnson apareciam os nomes de duas mulheres, Mary Read e Anne Bonny, que integravam a tripulação do temível capitão John Rackam, que assolou os mares das Caraíbas por volta de 1720. De início, toda a gente pensava que neste relato o autor deixara à solta a fantasia, mas as duas mulheres piratas existiram mesmo. Johnson conta como ambas se defenderam em tribunal mostrando os ventres inchados. A justiça britânica não executava grávidas e foi assim que elas evitaram o enforcamento.
Mary Read (2) tinha 32 anos quando enfrentou a ameaça de pena capital na Jamaica. Vivera muito tempo sob disfarce masculino, a começar nos primeiros anos de vida, ainda em Inglaterra. A sua mãe mentiu, dizendo à família que tinha um filho, obrigando a filha ilegítima a fazer-se passar por uma criança anterior, do sexo masculino, que morrera pouco antes dela nascer.
Este detalhe é importante para perceber a mentalidade da pirata e exige alguma explicação: a mãe de Mary era casada com um capitão da marinha inglesa e o casal teve um filho, que morreu na infância, numa altura em que o marinheiro estava fora de casa. A senhora não informou o marido sobre o que sucedera. Ela era jovem e bonita, tivera um descuido do qual resultou uma outra bebé, mas do sexo errado. Não podendo aparecer à família com uma menina nos braços, Mary era disfarçada de rapaz, assumindo de alguma forma a aparência da criança falecida.
O pai de Mary (pai no papel, naturalmente) nunca regressou a Inglaterra, por motivos que não são referidos, presumindo-se que tenha morrido durante as suas perigosas expedições. A família do marinheiro acreditava na existência de um descendente masculino e tentava ajudar a viúva, enviando regularmente algum dinheiro. Este era o principal motivo do disfarce e foi sem dúvida o início apropriado de uma vida rebelde.
Desde cedo, Mary teve o gosto da aventura. Após uma passagem por França, ao serviço de uma senhora muito rica, a rapariga disfarçou-se de homem e partiu para a guerra na Flandres (Guerra da Sucessão Espanhola). Durante este conflito, sempre a fazer-se passar por homem, a intrépida inglesa lutou na infantaria e num regimento de cavalaria, mas apaixonou-se por um camarada de armas e, segundo o relato do capitão Johnson, isso tornou-se incompatível com os deveres dos soldados, “pois parece que Marte e Vénus não podem ser servidos ao mesmo tempo”.
Esta enorme frase podia servir de epitáfio a Mary Read, que perdeu o marido no momento de máxima felicidade, já terminada a guerra, quando ambos geriam uma estalagem perto de Breda, nos Países Baixos. A inglesa deve ter ficado abalada com a morte do amante e certamente hesitou sobre o futuro. Num primeiro tempo, tentou o regresso à vida militar, no entanto a guerra terminara. Então, decidiu emigrar para as Índias Ocidentais, sempre disfarçada de homem, mas o barco em que viajava foi capturado pelo pirata John Rackam, conhecido por Calico Jack.
Vários episódios demonstram que John Rackam não era propriamente um terror dos sete mares, antes um capitão hesitante e fraco, que não teria saído da segunda divisão da pirataria nas Caraíbas se não tivesse capturado o navio holandês em que viajava Mary Read. A prisioneira era uma mulher invulgar, uma verdadeira força da natureza: o navio foi pilhado e seguiu viagem, mas Read (fazendo-se passar por homem) viu ali uma oportunidade e juntou-se à tripulação dos piratas, mantendo o disfarce.
Rackam nunca foi o Terrível, isso veio mais tarde, quando o pirata das Caraíbas serviu de inspiração para uma das personagens mais impetuosas das aventuras de Tintim, a banda desenhada do belga Hergé. No seu tempo, o verdadeiro John Rackam viria a ficar famoso sobretudo devido à ligação com outra mulher, Anne Bonny, e ao facto de ter usado uma bandeira com um desenho original, que incluía uma caveira cruzada por dois sabres, em fundo preto, já muito próximo do ícone que viria a dar grande fama à pirataria do século XVIII, a chamada Jolly Roger, bandeira também de fundo preto, com uma caveira e duas tíbias cruzadas (3).
Está na altura de conhecermos Anne Bonny, que também seguia a bordo e que se juntara à tripulação pirata em circunstâncias que se desconhecem. Ela era uma irlandesa com pouco mais de vinte anos, filha de um negociante rico que a viria a proteger no momento de maior aflição. Bonny achou graça ao suposto rapaz do navio capturado que se juntara aos piratas e só mais tarde descobriu que este era de facto uma mulher. Como guardou o segredo, o capitão Rackam começou a ficar ciumento das cumplicidades entre Bonny e o recém-chegado e, a certo ponto, perdeu as estribeiras e ameaçou cortar o pescoço ao suposto namorado. Foi assim que Bonny o informou sobre o verdadeiro sexo do alegado rival. O relato do capitão Johnson não dá mais explicações sobre estes equívocos picantes, apenas nos informa que as duas mulheres eram muito amigas, que se vestiam como os outros tripulantes e que sabiam combater.
Observando com mais cuidado, o pirata Rackam fez bem em não tentar cortar o pescoço ao suposto namorado da sua Bonny. Em primeiro lugar porque não havia namoro algum e, depois, Mary Read era militar profissional, como revela uma das pequenas historietas dentro desta história: Read, já sem disfarce, embora com direitos de combatente, apaixonara-se por um dos tripulantes e, em certo dia, soube que este teria de combater em duelo até à morte. Era assim o código de honra dos piratas, que exigia a reparação de insultos através do sangue. Ora, o amante de Mary tinha escassas hipóteses de sobreviver a essa luta, por isso ela insultou gravemente o mesmo adversário e combinou um combate duas horas antes do duelo em que o amante estaria envolvido e na mesma praia. Mary combateu com espada e matou o opositor, salvando assim a vida do namorado.
Tudo indica que John Rackam era um capitão bastante incompetente e, em Outubro de 1720, foi surpreendido com metade da tripulação num estupor alcoólico. Atacado pelas autoridades navais britânicas, a resistência foi mínima, excepto a de um grupo onde estavam as duas mulheres, que tentaram em vão incentivar os restantes piratas à luta. Este facto complicaria mais tarde a sua defesa em tribunal. Ficou provado que eram lutadoras voluntárias e não simples cativas. O que as salvou da forca foi o facto de estarem grávidas.
Por especial favor do tribunal, Calico Jack, antes de morrer, ainda teve uma conversa com a sua amante, Anne Bonny. Esta disse-lhe que lamentava a situação em que ele se encontrava, mas “se tivesse lutado como um homem, não haveria necessidade de morrer como um cão”.
Assim aconteceu: Rackam foi enforcado a 18 de Novembro de 1721 e o seu corpo pendurado à entrada de Port Royal, na Jamaica. Tinha 32 anos. A irlandesa sobreviveu a todas estas aventuras, com aparente ajuda dos pais ricos. Johnson afirma saber que ela não foi executada e mais tarde surgiram provas documentais de que, na realidade, a amante de John Rackam morreu na Carolina do Sul, em 1782, com quase 90 anos, o que era uma idade extremamente avançada nessa época. Ela teve pelo menos dez filhos, pelo que haverá muitos descendentes seus nos Estados Unidos.
Mary Read não teve tanta sorte. Morreu na prisão em Abril de 1721, de uma febre não especificada. Não se sabe se teve a criança ou o que aconteceu ao amante que salvara na praia, mas presume-se que ele tenha seguido o mesmo fim que os outros piratas, o enforcamento. Tanto tempo depois, o que se sabe é que Rackham não era assim tão terrível, que houve mesmo duas mulheres entre os piratas das Caraíbas, e que uma delas, Mary Read, foi uma incomparável mistura de Vénus e de Marte, de amor e de guerra.
(1) O livro do Capitão Johnson foi recentemente editado em Portugal pela Cavalo de Ferro, História Geral dos Piratas, trad. de Nuno Batalha.
(2) A história de Mary Read tem interessado a literatura. Em português, existe uma biografia romanceada, A Pirata, da autoria de Luísa Costa Gomes (D. Quixote, 2006).
(3) A grande fama dos piratas das Caraíbas veio sobretudo deste livro do capitão Johnson, que inspirou muitos autores durante dois séculos e tem preciosa informação sobre a pirataria da época e os seus efeitos, nomeadamente no caso de Portugal. Há muitos relatos históricos sobre as sucessivas vagas de pirataria e os seus protagonistas, geralmente náufragos de guerras ou fugitivos de injustiça. As façanhas mais sinistras foram sendo envolvidas em lenda e certa dose de romantismo. A pirataria tornou-se tema de romances e sustentou o género literário das aventuras.
delitodeopiniao.blogs.sapo.pt
Sem comentários:
Enviar um comentário