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domingo, 7 de setembro de 2014

A NOIVA PORTUGUESA DA JIHAD - A filha de 19 anos de um casal alentejano fugiu para a Síria no início do mês e casou-se com um guerrilheiro do Estado Islâmico, também ele português. Os pais só sabem dela através do Facebook. Na semana em que os jihadistas decapitaram mais um jornalistas norte-americano,


A NOIVA PORTUGUESA DA JIHAD




A filha de 19 anos de um casal alentejano fugiu para a Síria no início do mês e casou-se com um guerrilheiro do Estado Islâmico, também ele português. Os pais só sabem dela através do Facebook. Na semana em que os jihadistas decapitaram mais um jornalistas norte-americano, o Expresso recupera um artigo publicado na edição de 30 de agosto do semanário.


A NOIVA PORTUGUESA DA JIHAD
Em Menbij, no nordeste da Síria, junto à fronteira com a 
Turquia, ninguém a conhece por Ângela. Ali chama-se Umm. 
O marido também não é Fábio. É Abdu. Ele cresceu na linha 
de Sintra, nos arredores de Lisboa. Ela na Holanda, para 
onde os pais alentejanos emigraram. Ele já está na Síria há 
mais de um ano. É jihadista, combatente nas fileiras do 
exército radical do Estado Islâmico (EI). Ela chegou lá este 
mês. Nunca se tinham visto, mas já estavam noivos há vários 
meses no Facebook. Através da rede social partilharam 
radicalismos e ambições de vida: são ambos muçulmanos 
convertidos, extremistas, defensores do califado islâmico, 
adversários do Ocidente e dos países "infiéis". E são ambos 
portugueses.
Em três anos, a guerra síria atraiu cerca de 2800 
combatentes estrangeiros. Nos últimos meses começaram a 
chegar as noivas da guerra santa. Em Al-Bab, a norte de 
Alepo, os rebeldes abriram em julho um posto onde se 
registam as mulheres solteiras e viúvas que querem casar 
com os mujahedin. A notícia foi avançada pela agência 
Reuters, mas Ângela, 19 anos, não precisou dessa i
nformação. Como qualquer adolescente combinou tudo 
pela internet. Fugiu a 9 de agosto, casou a 10.
"Sim, sim, são os olhos dela. Não há dúvida de que é ela". 
O pai - que pediu para não ser identificado - vê pela primeira 
vez o perfil que a filha mais velha criou no Facebook com o 
nome árabe que adotou, onde junta à dela a identidade do 
marido. Nas fotos, Umm surge de niqab, um véu preto que 
lhe cobre o rosto, só deixando de fora os olhos escuros. 
No estado civil lê-se: casada. O pai não sabe bem o que 
pensar, o que dizer. Quando o Expresso falou com ele 
tinham passado poucas horas desde que a ex-mulher lhe 
contara da fuga, da Síria, do casamento. A internet estava 
agora a confirmar o que lhe parece "inacreditável, irreal".
Os pais de Ângela estão separados. O pai vive no Alentejo, 
onde nasceu. Ela morava com a mãe e a irmã mais nova nos 
arredores de Utrecht, na Holanda, para onde o casal tinha 
emigrado há largos anos. "No fim de semana em que fugiu a 
mãe tinha ido à Bélgica. Ela ficou em casa sozinha, o que era 
absolutamente normal. Ninguém suspeitou de nada. 
Porventura já estava tudo combinado há muito tempo. 
Já lá falou com a mãe pela internet a contar o que tinha feito. 
Que nojo. Nem sei com quem casou, não sei nada".
O Facebook volta a dar uma ajuda ao pai de Ângela. 
Como a  maioria dos mujahedin, Abdu também tem uma 
página pessoal onde promove a guerra santa. Aparece de 
cara descoberta, sorridente, com várias armas, a bandeira 
preta e branca do Exército Islâmico a surgir em quase todas 
as fotografias. "A Guerra Santa é a única solução para a 
Humanidade", escreve.
O que falta no seu perfil online consta seguramente dos 
registos dos serviços secretos portugueses e internacionais: 
Fábio é um dos dez radicais islâmicos portugueses 
monitorizados por suspeita de atividade terrorista, e um 
dos mais ativos, na rede e na guerra. A família tem raízes 
em Benguela (Angola), mas ele nasceu e cresceu nos 
subúrbios de Lisboa, onde a mãe ainda vive. Apaixonado 
por futebol, emigrou para os arredores de Londres, 
converteu-se ao islamismo e desde outubro de 2013 que 
combate na Síria contra o regime de Bashar al-Assad.
A história de Ângela é contada pelo pai (a mãe não quis falar). 
"Tornou-se muçulmana radical há cerca de um ano, 
foi tudo extremamente rápido. Por isso é que fiquei 
surpreendido, não consigo entender". Nasceu na Holanda, 
numa família de tradição católica mas não praticante. 
Só por azar não foi batizada: uma tia, destinada para 
madrinha, morreu no ano em que estava agendada a 
cerimónia. Foi adiada para nunca mais. "Era uma miúda 
liberal em todos os sentidos: fumava, gostava de se divertir, 
de beber uma cerveja ou duas ou três. Era sociável, não 
tinha nada a ver com burqas, com os fatos dessas loucas. 
De um momento para o outro começou com estas ideias".

Pai proibiu burqa no Alentejo
Pai e mãe conversaram então sobre o assunto. 
Concluíram que "era só para chamar a atenção. Andar de 
cara e corpo cobertos num meio pequeno como aquele onde 
ela vivia punha toda a gente a falar". Ângela vinha todos os 
anos a Portugal passar férias. Em 2013 fez a viagem pela 
última vez: "Já havia essa questão do islamismo, já não 
comia carne de porco, queria respeitar o Ramadão", conta 
o pai. "Este ano veio a mãe e a irmã e ela ficou na Holanda. 
Proibi-a de usar burqa aqui. 'Vens a Portugal mas a burqa 
não metes', disse-lhe. Ela não viajou".
Ângela estava desempregada. "Não quis estudar. A mãe 
tentou tudo, escolas especiais mas nunca chegou a bom 
porto. Ela só queria computador, computador, computador". 
No computador era Umm, fundadora e administradora do 
grupo Islão no Coração (assim mesmo em português - 
entretanto desativado), defensora acérrima da guerra santa 
na Síria e no Iraque e frequentadora de vários grupos radicais islâmicos 
holandeses e ingleses. Por tudo isto começou então a ser monitorizada 
pela secreta portuguesa. Identificava-se como alentejana, e foi assim que, 
em maio, o Expresso a descobriu na rede e falou com ela.
"Os jihadistas estão na Síria e no Iraque para que o regime 
não mate todo um povo. A Jihad é uma coisa boa, não é má 
como dizem na televisão", justificou por telefone. Revelou que gostaria 
também ela de ir para Síria - "tenho lá uns dez, quinze amigos, 
e também amigas holandesas. Os meus pais estão assustados com essa 
possibilidade. É normal, sou a única muçulmana da família, 
mas já lhes expliquei que não vou, não posso ir, só se 
tivesse marido. A minha jihad é na internet. Tenho de cuidar 
da minha mãe, que esteve muito doente, e da minha irmã 
mais nova. Se partisse agora iria contra as regras do Islão", 
explicou Umm.
O impedimento terminou três meses depois. A decisão foi 
comunicada já em solo sírio, num cibercafé. "Alhamdoulilah, 
cheguei em segurança ao Sham [grande Síria]. Irmãs, não 
hesitem. Sinto-me tão bem, como se tivesse sempre vivido 
aqui, sinto-me em casa. Insha'Allah, Alá irá reunir-nos a 
todos em breve!".
O pai leu todos os posts das páginas de Ângela e de Fábio 
à procura de informações e explicações. Em nenhum lado se 
lê como a filha chegou ali, mas a pausa declarada por Abdu 
no início do mês - "há 30 dias sob disfarce, a frente de guerra 
espera por mim" - poderá indicar que o jihadista português foi 
buscar a noiva algures no caminho que a levou da Holanda à 
Turquia e depois à Síria.
"Sinto-me acabado, infeliz, atraiçoado, sinto-me perdido. 
Se pudesse ir buscá-la ia já, mas é impossível, ela já tem 
19 anos, fez este mês. Vou fazer tudo para conseguir 
trazê-la de volta à Holanda ou a Portugal. Mas conhecendo-a 
como conheço não vai querer regressar". As mensagens com 
que Umm alimenta o novo perfil no Facebook indiciam isso 
mesmo - "Antes chamava alegria a momentos temporários 
de felicidade. Só agora que vim para um estado islâmico 
percebi que todos os ingredientes da felicidade estão aqui, 
pois estou no paraíso".
Ângela e Fábio moram numa zona residencial, juntamente 
com vários casais ocidentais, da Holanda, Inglaterra e 
Alemanha. "Todos aqui vivem sob o estado islâmico, sob as 
regras do Alcorão e da Sunnah", escreve Umm. As mulheres 
têm de usar o niqab e só saem de casa com a permissão do 
marido. "É para nossa segurança. Os homens sabem a que 
horas os aviões vêm e quando podem cair bombas. Nesses 
dias é melhor ficar em casa", explica a uma amiga que vive 
na Holanda e que lhe pergunta sobre as restrições impostas 
às mulheres.
De dia, a portuguesa vai às compras no centro da cidade 
"com as irmãs", ao mercado buscar "coisas saborosas", há 
crianças a brincar, as ruas estão cheias de pessoas e carros, 
relata. As fotografias que publica mostram edifícios pintados 
a preto e branco (as cores do EI) e os produtos que lhes 
enchem a despensa: muita comida empacotada, batatas 
fritas, molho satay, frango e arroz, a Pepsi e a Nutella que 
ela não dispensa ao pequeno-almoço.
"Os media criam a ideia de que se vive no meio de uma 
guerra, mas não é tão inseguro como dizem. É verdade que 
às vezes cai uma bomba, mas não se sente medo. E se a 
bomba tiver escrito o nosso nome, tornamo-nos mártires, 
Insha'Allah". Numa das últimas fotos que colocou no 
Facebook mostra o interior da sua mala de mão: "Sempre 
me perguntei o que uma mulher tem dentro da bolsa: bem, 
tenho uma [pistola de] 9 mm", graceja.
O pai de Ângela recorda as últimas conversas com a filha, 
diálogos meio crispados, opostos. "Às vezes ficava mesmo 
revoltado. Sabendo o que se está a passar na Síria, o 
genocídio praticado por esses radicais que querem acabar 
com os cristãos, os vídeos que vi no YouTube a matarem 
pessoas, a queimá-las vivas, e ela a defender tudo, a 
justificar".
O radicalismo de Umm mantém-se. No dia 22, publicou nas 
redes sociais a fotografia tirada antes da decapitação do 
repórter James Foley, e escreveu: "Para aqueles que dizem 
que era um jornalista, supostamente inofensivo, ele não era 
mais do que um soldado americano que mata o nosso povo. 
Quantas pessoas foram mortas por este tipo de palavras? 
São mortes inúteis? Uma morte americana fica muitos 
milhares atrás de quanto eles nos têm matado". Noutro post 
comenta os placards publicitários, que ali enaltecem a luta do 
Estado Islâmico: "Quem vai ganhar? Os nossos outdoors ou 
aquelas mulheres seminuas a vender desodorizantes?"

Quatro portugueses no EI
Ângela comenta a Jihad nas redes sociais, Fábio vai para a 
frente de combate. Fonte ligada aos serviços de informação 
portugueses coloca-o na brigada Kataub al Muhajireen do EI, 
constituída apenas por combatentes de países ocidentais, 
como a Grã-Bretanha, Alemanha, França ou Dinamarca. Ao 
seu lado há pelo menos mais três portugueses: dois irmãos, 
de 26 e 30 anos, que como Fábio, cresceram na linha de 
Sintra; e um jovem de Quarteira, de 28 anos. São amigos no 
Facebook e irmãos de armas na frente de guerra. Os quatro 
converteram-se ao islamismo quando estavam emigrados 
nos arredores de Londres e daí partiram para a Síria. 
O algarvio terá sido ferido com gravidade nas pernas há 
alguns meses e ainda não regressou ao combate. Os 
restantes mantêm-se ativos.
O Sistema de Informações da República Portuguesa (SIRP) 
confirmou em abril ao Expresso que se encontram 
"referenciados alguns cidadãos nacionais que integram 
esses grupos de combatentes", sendo que alguns "detinham 
um estatuto de residência temporária em outros países 
europeus, embora apresentem conexões sociais e familiares 
ao território nacional". O recrutamento é feito "através da 
Internet" e de "estruturas logísticas formais e informais que 
atuam à escala regional e global", adiantou a secreta.
Na semana passada, os Estados Unidos consideraram que o 
Estado Islâmico representa uma ameaça terrorista "para lá" 
de qualquer outra conhecida até hoje, "junta ideologia, uma 
estratégia sofisticada, habilidade militar e tática e está 
tremendamente bem financiado. É preciso estar preparados 
para tudo". No Facebook, Ângela usa outras palavras para 
descrever a luta jihadista na Síria, mas o sentido é o mesmo: 
"Quando olhamos para o cano de uma arma vemos 
o paraíso, quando um avião sobrevoa as nossas casas 
estamos prontos para receber a bomba, quando um pai cai 
mártir o filho está pronto para substituí-lo. Faremos tudo para 
manter e expandir o nosso estado islâmico. Como se pode 
ganhar a um povo que não teme a morte?"


Ler mais: http://expresso.sapo.pt/a-noiva-portuguesa-da-jihad=f888068#ixzz3Ccp6KlVc

1 comentário:

Unknown disse...

deixou a religião católica para se dedicar a uma outra