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quinta-feira, 23 de outubro de 2014

PÁSCOA - O RITUAL DAS AMÊNDOAS (ANTIGAS TRADIÇÕES)

PÁSCOA - O RITUAL DAS AMÊNDOAS (ANTIGAS TRADIÇÕES)

Pela sua configuração, supõe-se que as amêndoas simbolizem a consagração do ovo, constituindo um presente alimentar cerimonial dos mais populares e específicos da doçaria da quadra pascal.
Na Figueira da Foz, antigamente, desde o início da Quaresma até ao Domingo de Ramos, aquele que fosse o primeiro a chamar «padrinho» ou a «pedir as amêndoas» a quem encontrasse ao sair de casa tinha direito a recebê-las no domingo de Páscoa. Costume idêntico regista-se ainda hoje em Monsanto (Beira Baixa), praticado pelos mais idosos que, à laia de brincadeira, lembrando tempos antigos, dizem ao encontrar alguém conhecido após as «aleluias», na noite de Sábado Santo: «Belamente se passou a Quaresma, passe para cá as amêndoas!» – como era costume dizer então.
Outro jogo/ritual da Quaresma com o nome «gancho dos compadres», acontecia nas aldeias do concelho de Alenquer (Estremadura), consistindo a praxe em duas pessoas (geralmente um rapaz e uma rapariga), na Quarta-Feira de Cinzas assumirem o «contrato» de ficarem «compadres». Como assentimento, enganchavam os dedos mindinhos de ambos. A partir desse momento sempre que um deles fosse o primeiro a ver o outro, dizia: «Contratar, contratar, ao almoço e ao jantar, quando eu te mandar rezar, reza!» Repetia-se isto tantas vezes quantas as que acontecia encontrarem-se. Havia quem chegasse a esconder-se para apanhar o «compadre» ou a comadre» de surpresa e somar pontos.
O jogo era interrompido na Quinta e na Sexta-Feira Santa, para recomeçar no Sábado Santo e terminar no domingo de Páscoa.
Se ganhava o «compadre», a «comadre» oferecia-lhe um folar, se acontecia o contrário, era o «compadre» que oferecia amêndoas à «comadre».
Em Afife (Minho) era hábito nesta quadra as raparigas oferecerem ovos aos rapazes, pedindo-lhes em troca um presente de amêndoas.
Na Sertã (Beira Baixa) eram os rapazes a oferecer em primeiro lugar as amêndoas às raparigas, para que estas lhas retribuíssem depois com bolos especialmente feitos para esta ocasião.Também em Nisa (Alto Alentejo) se cumpria o ritual de serem os rapazes a oferecerem às namoradas um pacote de amêndoas na Semana Santa. O cerimonial desta oferta repetia-se em Estremoz (ainda no Alto Alentejo), na Quinta-Feira Santa depois da missa, à porta da igreja.
Refira-se, por isso, o antigo uso verificado em Beja (Baixo Alentejo) na Quinta-Feira Santa, durante a cerimónia do «lava-pés» («lava-pedes» no dizer local). Nesse dia, as senhoras da melhor sociedade levavam à igreja salvas de prata com amêndoas – os «caroços de alcorça» –, recheadas com ovos-moles ou com chocolate, destinadas a treze idosos do lar da Misericórdia. Os pobres recebiam ainda vestuário completo, uma esmola em dinheiro e uma «maçã de alcorça» (ou alcorce) em tamanho natural. As treze «maçãs» (tal como o número de idosos a simbolizar Cristo e os Apóstolos), eram dispostas numa salva de prata, sobre uma credência apropriada para o efeito. No final da cerimónia cada idoso oferecia a sua «maçã» ao mesário, em casa do qual, nesse dia, todos eram recebidos para jantar, como mandava a tradição.
Ainda em Beja, as «amêndoas de alcorce» eram distribuídas aos «anjinhos» para que se «aquietassem e seguissem sossegados nas procissões».
AMÊNDOAS COBERTAS DE MONCORVO
 
Brancas e grandes, só de açúcar, ou castanhas com chocolate ou com cacau e canela, têm grande fama as amêndoas cobertas de Moncorvo.
Confeccionadas e vendidas durante todo o ano, principalmente na Páscoa, obedecem a um fabrico artesanal trabalhoso. Tempos atrás, misturavam-se as brancas com as castanhas em pacotinhos. Hoje, as confeiteiras ou «cobrideiras», raramente fazem estas últimas devido à morosidade da sua elaboração. Basta dizer que cinco quilos de amêndoa coberta representa um mês de trabalho com a duração de sete a oito horas por dia.
Com origem na doçaria conventual, confecciona-se utilizando a «bacia», em cobre, suspensa sobre o «caco», recipiente de barro (geralmente um pote ou fogareiro) com brasas dentro, ardendo em borralho, de modo a manter a «bacia» com uma temperatura moderada.
A antiga «partidela».
As operações são várias. Primeiro procede-se à «partidela», hoje por processo mecânico, seguindo-se a introdução do miolo da amêndoa em água fervente para «despelar o grão». Após «pelada» e seca vai ao forno para torrar levemente. Seguidamente, é separada para retirar a amêndoa partida, só depois sendo colocada na respectiva «bacia».
O trabalho moroso da fabricação da amêndoa coberta.
À parte faz-se uma calda de açúcar em «ponto de fio» (considerada «a base do segredo»), que as «cobrideiras» vão deitando lentamente sobre as amêndoas, mexendo sempre, conforme o preceito, de baixo para cima e de cima para baixo, utilizando quatro dedais em cada mão (dedais de costura), deles resultando os biquinhos que revestem a cobertura das amêndoas, a revelar, desde logo, a sua proveniência.
Em movimentos certos e lentos, mantendo uma temperatura constante, ao fim de uma semana o miolo da amêndoa apresenta a chamada «carapinha branca». Nessa altura dá-se-lhe o nome de «amêndoa peladinha». Até ficar totalmente coberta demora um mês ou mais, após iniciada a confecção.
As amêndoas de chocolate e as de cacau e canela são as «amêndoas cobertas», ou seja, as amêndoas brancas revestidas depois com uma camada destes dois ingredientes.
Em Moncorvo, faz parte da praxe nos casamentos, disporem-se sobre as mesas dos convidados amêndoas cobertas, embrulhadas em tule, que são oferecidas também à noiva.
A confecção tradicional destas amêndoas em casas particulares esteve praticamente perdida há uns vinte anos. Hoje, pode dizer-se que não chega para as encomendas, tanto do mercado nacional como do estrangeiro.
Soledade Martinho Costa
Do livro «Festas e Tradições Portuguesas», Vol III
Ed. Círculo de Leitores

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