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sexta-feira, 11 de julho de 2014

O novo BES: Vítor Bento, o homem de Cavaco, e Moreira Rato, o homem de Passos e do Goldman Sachs

O novo BES: Vítor Bento, o homem de Cavaco, e Moreira Rato, o homem de Passos e do Goldman Sachs - e, pergunto eu, porque não o Porta Moedas, o berloque do FMI, o Cherne Barroso que está quase a ficar livre e que tem muita manha europeia naquele cabelinho oleoso, ou até o José Gomes Ferreira que tão simpático tem sido para a camarilha? Se isto é para ser um Conselho de Administração de Silvas, então que entre tudo o que é cão e gato.


No post abaixo já vos agradeci e já vos confessei que tenho sempre receio de vos andar a iludir. Não sou erudita, especial, etc e tal: sou marca branca, mesmo. 

Mas isso é a seguir. Aqui, agora, a conversa é outra.


Música, por favor





Há uma casta nacional, é sabido. Penso que sabem quem são. Famílias ungidas pela tradição. Os homens geralmente têm Maria como segundo nome e frequentemente têm letras dobradas no apelido, ou ou ambas, ou são Espírito Santo ou por aí.


Conto-vos.

Raros são os que tiveram formação académica a sério. Uns cursos à pressão para poderem ser chamados por doutor ou nem isso. Um ou outro lá tirou um curso normal mas, formação académica à parte, por fazerem parte de famílias ungidas, não foram habituados a conviver fora do restrito círculo das famílias ungidas e é sabido como é do convívio e da aprendizagem das diferenças que uma pessoa progride.

Em pequeninos foram criados pela criadagem (passe a quase redundância). Nestas famílias, as crianças não são autorizadas a perturbar o convívio dos adultos. Ou estão no colégio ou estão com os empregados. No entanto, se alguma formação mais humanista tiveram, foi a que puderam colher, em pequenos, no convívio com a criadagem.

Depois, como referi, estas famílias convivem em circuito fechado, umas com os outras. Ou seja, não conhecem o que quase toda a gente conhece. Festas de rua, manifestações culturais, mesmo museus, exposições, etc, não conhecem - excepto se as suas empresas os patrocinarem e, aí, irão lá prestigiar o evento com a sua presença mas, é claro, não vêem nada de jeito do que está exposto. Lamento dizer mas são, de forma geral, incultos como os mais simples carroceiros (profissão caída em desuso, mas enfim).
Usam um vocabulário muito próprio e carimbam os outros, os da plebe, a partir do uso de palavras proibidas. Alguém que tem berço diz encarnado, não diz vermelho (até porque vermelhos são os comunistas, essa raça infecta), diz carteira, não diz mala. E diz sófá, não diz sofá. 

Mas os ungidos dizem isto apenas porque têm um conhecimento muito restrito do vocabulário. Por terem um conhecimento assaz curto do que quer que seja, repetem acriticamente o que ouvem uns aos outros. Pelas mesmas razões, no meio de um jargão limitado e ridículo podem, volta e meia, ouvir-se suculentos pontapés na gramática. Nessas alturas, os da plebe fingem que não dão por nada, não vão os senhores ficar ofendidos.

Os senhores ungidos, com berço, de boas famílias, gostam dos colaboradores e, de certa forma e à sua maneira, gostam mesmo. Foram habituados a gostar dos pobrezinhos, em pequeninos as mães já os levavam a visitar os pobrezinhos. Aliás, contribuem para obras de caridade (não eles, claro, mas as suas empresas) e os seus filhos, depois de uma aprendizagem activa nos preceitos da Igreja Católica, são incentivados a fazerem voluntariado junto dos mais desfavorecidos. Sentem-se enternecidos perante os pobrezinhos, conviver com eles fá-los sentir ainda mais superiores e generosos.

Nas suas empresas, contratam - com mãos largas - boas assessorias jurídicas, fiscalistas de mão cheia. Estão sempre bem escudados: para cada acto: recolhem pareceres, toda a optimização fiscal (leia-se: fuga ao fisco) é sujeita a vários pareceres. É com voz grossa, porte superior e tranquilidade, que praticam toda a espécie de actos que nos trabalhadores por conta de outrem e outros plebeus seria tido como crime fiscal ou sujeito à maior censura social mas que neles é visto como um direito adquirido. Ter dinheiro lá fora, tirar das empresas tudo o que for necessário e das mais diversas formas ou fugir ao fisco é apenas uma forma de estar. Uma forma de estar legitimada por pareceres dos mais conceituados especialistas das áreas e, portanto, também aceite nas auditorias (aceite ou ignorada porque invisível).

Não são apenas os membros desta elite que acham que os portuguesinhos, os da pequena e média burguesia, viveram acima das suas possibilidades e que, por isso, causaram a crise e que, assim sendo, deverão ser muito justamente punidos: são os próprios remediados que, com sentimentos de culpa por terem comprado dois edredons quando bastaria um ou que foram de férias a Punta Cana a prestações, se apressam a ajoelhar, aceitando bem os castigos que os senhores recomendam.

Há uma unanimidade: pensam os senhores da nota e dizem os remediados que os trabalhadores e os pobres são uns esganados, gente mal agradecida, gente que tenta sempre ganhar mais uns tustos, que não aprendeu ainda a contentar-se com o que tem. No entanto, toda a gente fecha os olhos à fuga ao fisco no valor de milhões, ao desvio de dinheiros ou a toda a espécie de actos de má gestão ou mau comportamento cívico, quando ele é praticado pelos senhores das grandes famílias.

O que se passa é que estes senhores não apenas consideram que têm direito a tudo porque sim, porque as empresas, as propriedades e tudo isso é suposto estar na família - estar na família e alimentar principescamente a vasta família -como acha que está acima da lei, seja lá ela qual for.

Estas famílias são numerosas, muitos irmãos, muitos primos, cunhados, sobrinhos, e todos têm grandes herdades com picadeiros, vinha, grandes mansões, grandes barcos - mas, uma vez mais lamento desiludir-vos: não têm nada disso. Tudo isso é detido por empresas das sociedades. Uma vez mais, por razões fiscais e de segurança patrimonial, tudo isso é das empresas. A própria criadagem está afecta a empresas, para que os respectivos custos caiam nas empresas em vez de sairem dos bolsos dos patrões.

As Kikas desta vida falam do alto da mula ruça mas, de facto, excluindo o dinheiro que terá, eventualmente, sido posto a bom recato em contas no exterior, são mais pobrezinhos de que os outros de quem se sentem superiores.

Não lhes passava pela cabeça que todo o luxo que achavam que lhes era devido - sem terem que trabalhar ou tendo actividades pouco mais do que decorativas - provinha de empresas que, de facto, de facto, estavam e estão mais afundadas que o Tolan.

Nem saberiam disso (pois minudências dessas é coisa de gente simples, falar de dinheiro... que horror), mas, se o soubessem, também não se importavam porque havia sempre alguns colaboradores de confiança que se ocupariam de tirar dinheiro de outras empresas para o porem onde fosse preciso .


A esses colaboradores de confiança que se sentem ungidos pela confiança dos patrões e que, por isso, podem aflorar algumas das vivências de luxo deles, e sabem segredos, e fazem o que for preciso para satisfazer os seus amos, chamam os senhores os Silvas. Não estou a ironizar: estou a falar verdade. Para se referirem aos que lhes são próximos mas nos quais não corre o mesmo sangue, chamam-lhes 'os Silvas'.

Todas estas famílias têm, a gravitar à sua volta, os seus Silvas.

Os homens de confiança ou de mão, como se queira chamar, os que ganham grandes ordenados e grandes prémios, os que acabam por ter carta branca para muita coisa, os que acabam por ter grandes casas, andar em grandes carros, passar grandes férias, ter milionaríssimas contas bancárias e que, por tudo isso, se sentem os maiores, são, de facto, à boca pequena, com sorrisinhos superiores, tratados pelos senhores por 'os silvas'.

O Conselho de Administração do BES, agora que a família foi corrida, parece que vai ser um conselho de Silvas. 


Os colaboradores que foram aliciados a subscrever as obrigações de aumento de capital com melhores condições (porque, estando as empresas falidas, era preciso injectar lá mais dinheiro e nada como ir buscá-lo aos que estão mais à mão: os colaboradores) estão muito mais pobres com a desvalorização bolsista a que se tem vindo a assistir, e várias agências deverão vir a ser fechadas, algum sangue irá ser feito. Mas isso é pormenor. Neste momento as Kikas deverão andar doidas sem perceber o que poderá vir a ser delas - mas que se danem os trabalhadores, coitados, temos pena, mas agora não há cabeça para pensar neles.

Não sei a que amos vão agora os Silvas servir. Provavelmente aos Goldman Sachs e outros que estão de olho faminto à espera que a carniça esteja a preço de osso. Mas tanto faz. Os Silvas servem a qualquer dono. E Silvas dispostos a aceitar um lugar de Silva é também o que não falta.

E que me perdoem os Silvas de verdade que eu não tenho nada contra eles.



umjeitomanso.blogspot.pt

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