UM PONTO É TUDO
Carta-aberta à criadagem
por FERREIRA FERNANDES
Quando toca a alemães, a admiração só pode ser pelas virtudes coletivas. Rácicas até. Os admiradores das qualidades teutónicas reconhecem-se pelo boné. Este evidentemente tirado da cabeça, levado à altura do cinto e agarrado com ambas as mãos; o lento virar do boné entre as mãos e o inclinar respeitoso da cabeça completam a atitude correta do indígena. Ah, os alemães, que povo! O italiano Pirlo, por exemplo, é bom porque ele é genial ao colocar a bola onde quer, já o alemão Sami Khedira que cavalga o relvado como uma fome de anteontem faz isso porque traz no sangue as ganas dos Nibelungos. Sendo filho de tunisinos, não perguntem como. O português Cristiano Ronaldo investe como um bisonte porque se musculou quando foi para Manchester, já a inteligência de Mesut Ozil vem-lhe dos genes de Kant. Sendo o médio-ala filho de turcos, talvez seja porque o império otomano não foi derrotado às portas de Viena em 1683 como se julgava. O mexicano Ochoa agarra bolas porque se julga uma aranha de mil braços, já o alemão Miroslav Klose bate todos os recordes de golos nos Mundiais porque tem Wagner nas veias. Sendo ele de origem polaca, já sabem porquê - aquilo vem-lhe de algum alemão que por lá passou, e passaram muitos... Enfim, a Nationalmannschaft ganha porque a Alemanha é metódica, trabalhadora, de superior cultura e carácter. Aliás, nunca antes outro povo ganhou um Mundial. Dito isto, ponham o boné e podem ir à vida.
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