Vala comum de crianças ajudou a desenterrar nova vergonha escondida na Irlanda
Historiadora descobriu que quase 800 crianças morreram numa casa que acolheu durante décadas mães solteiras e os seus filhos. Era uma das instituições onde a Irlanda católica escondia as “mulheres caídas” e os “filhos do infortúnio”.
Há uma lembrança que continua a assombrar os sonhos de Barry Sweeney. “Havia uma placa de cimento. Nós costumávamos brincar ali, mas havia qualquer coisa oca por baixo, por isso decidimos levantá-la. [A fossa] estava cheia até cima de esqueletos”.Sweeney tinha dez anos e o amigo Frannie Hopkins tinha 12 quando, em 1975, fizeram a macabra descoberta. Mas a população de Tuam, no Oeste da Irlanda, acreditou que os pequenos ossos pertenciam a vítimas da Grande Fome, que no século XIX dizimou mais de milhão de pessoas. Só 39 anos depois, também por causa de memórias antigas (e de um peso na consciência), uma outra habitante da pequena cidade tirou o caso do esquecimento, destapando mais uma das vergonhas escondidas da História recente da Irlanda – a morte de dezenas de crianças, todos os anos, nas instituições onde as mães, solteiras, eram fechadas para que o seu pecado não contaminasse a moral pública.
As más condições nas casas criadas para alojar as raparigas que engravidavam fora do casamento (e para onde eram também mandados órfãos e crianças abandonadas) não são uma novidade. Vários relatórios, alguns escritos ainda na década de 1930, dão conta da elevada taxa de mortalidade entre as crianças que ali viviam – em algumas delas houve anos em que morreram metade dos menores internados. A malnutrição e as doenças (sobretudo tuberculose e gastroenterite) ceifavam a vida de crianças que, em muitos casos, nasciam com baixo peso ou tinham deficiências congénitas. Os inspectores falavam também na degradação de edifícios sobrelotados, de cuidados médicos escassos, de crianças de ar alheado e enfermo.
Os irlandeses sabiam também que as mães solteiras, “mulheres caídas em desgraça”, e os filhos que geravam tiveram durante décadas poucos ou nenhum direito – sabiam-no pelo menos desde Philomena, o filme nomeado neste ano para um Óscar de Hollywood e que é baseado na vida de Philomena Lee que, em 1952, quando tinha 18 anos, foi levada para uma destas instituições para ter um filho que foi vendido depois pelas freiras a um casal americano e que ela nunca mais viu.
Mas como nos outros escândalos que mudaram a forma como os irlandeses olham para o seu passado recente – os padres pedófilos que a hierarquia protegeu, os maus-tratos nas escolas industriais para onde eram enviados os órfãos, a escravatura nos asilos para “raparigas problemáticas” – foi preciso um choque para que aquilo que “toda a gente já sabia” se transformasse em indignação. Coube a Catherine Corless, uma historiadora local, dar agora esse abanão.
"Um passado negro"
Interrogando-se sobre o que teria acontecido às “Crianças da Casa”, como eram conhecidos em Tuam os meninos e meninas que viviam no asilo para mães solteiras gerido pelas irmãs do Bom Socorro, Corless ouviu falar dos esqueletos descobertos numa antiga fossa séptica nos terrenos que tinham pertenciam à instituição. Decidiu pedir à conservatória local os registos de todos os óbitos de crianças ocorridos na Casa entre 1925 e 1961, o ano em que o asilo fechou.
“Uma semana depois a pessoa que contactei telefonou-me a perguntar se eu queria todos aqueles dados. Eu disse-lhe que sim. Ela explicou-me que teria de pagar por cada um dos registos e perguntou-me se eu tinha noção da enormidade de mortes que ali tinham acontecido”, contou a historiadora aosite de notícias IrishCentral. Eram 796 crianças, quase uma morte a cada duas semanas nos 36 anos que a instituição esteve em funcionamento. Segundo os registos, a mais velha tinha nove anos, a mais pequena dois dias. As certidões de óbito, quando as havia, indicavam que tinham morrido de tuberculose, tosse convulsa, convulsões, sarampo, bronquite, meningite…
Corless confirmou que os cemitérios locais não têm registo de que alguma das crianças ali tenha sido sepultada, o que a leva a acreditar que os corpos terão sido enterrados, sem direito a marcação nos terrenos que pertenceram à Casa para Mães e Filhos de Santa Maria, entretanto demolida e onde a população erigiu um pequeno altar após a descoberta de 1975.
Em entrevista ao Irish Times, a historiadora sublinha que, ao contrário do que a imprensa noticiou, nunca afirmou que os quase 800 cadáveres tivessem sido todos depositados na fossa séptica – Frannie Hopkins, ouvido pelo mesmo jornal, disse que no tanque de 120 por 60 cm estariam “cerca de 20” esqueletos. “Eram pequeninos, pareciam muitos para uma campa tão pequena como aquela”, contou ao jornal Irish Independent.
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