Acerca de…
Gente que viveu sob dois fogos, dividida entre agradar “a gregos e troianos”.
…com o esfuziante pôr do sol no rio.
…pelos caminhos atravessando infindáveis “bolanhas”.
…por entre capim verde e alto.
…ou no emaranhado e traiçoeiro “tarrafe”.
………………………………………………………………………….
O Autor
em 1965.
Foi mais um a chegar… dos muitos atiradores integrado numa Companhia de Caçadores de tropa-macaca mas trazia na bagagem um “kodak” e a cabeça cheia de ideias.
Andava sempre por aí… só desaparecendo às vezes quando o chamavam para dentro do aquartelamento para “fazer os serviços”.
Mas voltava… voltava sempre com a mesma curiosidade de nos conhecer. Por vezes as coisas não lhe corriam bem mas nunca o deixava transparecer… antes aproveitando o que de bom esta terra tinha para lhe oferecer: o pôr do sol esfuziante, não fora a deprimente época das chuvas; o verde das matas e seus sons inesquecíveis, não fora os perigos que escondem; a água quente dos rios, não fora algum dos seus habitantes menos agradáveis; as noites claras de lua cheia e cruzeiro do sul, não fora os indesejáveis mosquitos.
Usou 3 máquinas fotográficas que sucessivamente se foram avariando devido às péssimas condições a que eram sujeitas, tendo “disparado” cerca de 3.000 vezes.
Aldeia (tabanca) I
Aspecto geral de uma “tabanca”. A enorme árvore ao fundo, a regorgitar de vida proteje esta gente. Entretanto uma criança bem pequena já ajuda a mãe no “pilão”.
Trabalho com o “pilão”.
Outro aspecto da vida na “tabanca”.
Bem cedo já começa o trabalho… com o “pilão”.
Pormenor onde se vê o espigueiro em primeiro plano. Ao centro, uma cabra faz pela vida e tenta roubar algo que ficou dentro do “pilão”.
Não há descanso mesmo para os mais pequenos… mais “pilão”. Sapatos? “Cá tem”.
As ostras existem em grande abundância nos braços de rio, agarradas ao “tarrafe”. Infelizmente não fazem parte da dieta alimentar mas são usadas como moeda de troca.
(cortesia: http://animals.nationalgeographic.com/)
Mais duas bajudas pilando ao desafio.
E as galinhas já estão à espera dos grãos que saltam. Podem estar descansadas… a sua vida irá ser longa pois só irão para a panela em situações muito especiais.
Uma pausa para dar atenção às crianças. No chão podem ver-se vários utensílios como por exemplo uma pequena vassoura (nome?). A mulher ostenta no braço grandes escarificações que são incisões profundas na pele untadas com negro de fumo e cicatrizadas com cinza e óleo de palma.
Pendurados alguns rolos de atilhos (nome?).
A “torpessa”, banco de três pés feito de um bloco.
Mais um aspecto duma “tabanca” onde se vê a fabricação do óleo de palma vermelho (“den-den”). No chão espalhadas as bagas e no panelão outras já a ferver. A mulher aqui de costas lava o caldeirão.
Aqui ainda na árvore, estão quatro suculentos e doces frutos do cajueiro vendo-se as castanhas-de-caju (sementes exteriores) que serão comidas depois de torradas. Com alto poder calórico e algumas propriedades químicas, são usados na culinária e noutros preparados.
(cortesia de : http://www.mecol.com.br/)
Mulher dobrada, na cozinha, prepara talvez a única refeição do dia. Os homens comem sempre separados das mulheres.
Sentada, esta “bajuda” aguarda calmamente que o seu penteado, que pode demorar horas, esteja acabado.
As mulheres penteiam-se umas às outras. As “bajudas” treinam a pentear os mais pequenos.
(foto gentilmente enviada por: César Dias, ex Furriel Mil. do B.C. 2885, Mansoa 69/71)
Separando a farinha da casca. No interior desta tabanca não corre uma aragem mas as “sombras” espreitam em redor.
(foto gentilmente enviada por: César Dias, ex Furriel Mil. do B.C. 2885, Mansoa 69/71)
O ferreiro. Com o pé acciona o fole… com as mãos e muita imaginação transforma tudo o que já foi transformado. Nestas paragens o metal escasseia!
(foto gentilmente enviada por: César Dias, ex Furriel Mil. do B.C. 2885, Mansoa 69/71)
Contrariamente a todas as outras anteriores, esta é uma imagem de uma tabanca de guerrilheiros, completamente dissimulada na mata. A sua integração com a natureza é total, não se vendo nem do ar nem no chão a escassos metros. Pode ver-se aqui em primeiro plano 4 reservatórios de água para beber e mais atrás um grande baga-baga que pode servir para protecção numa retirada estratégica, o que deve ter acontecido pois ficou esquecida (encostada a uma árvore, à esquerda em primeiro plano) uma catana, utensílio valioso e imprescindível na mata.
(foto gentilmente enviada por: César Dias, ex Furriel Mil. do B.C. 2885, Mansoa 69/71)
Tudo vestido a preceito para um “ronco”. No primeiro plano, este homem exibe as suas duas mulheres.
(foto gentilmente enviada por: Jorge Picado, ex Cap Mil, CCaç 2589 e CCart 2732, 70/72)
Quem não se lembra deles?
O jagudi (necrosyrtes monachus), sempre em bandos, este personagem atrevido estava sempre presente na tabanca à espera das sobras…e não só pois eram grandes larápios.
(foto cortesia de wikimedia.org)
O “homem grande”, de costas, dá as ordens. As mulheres escutam.
Sena do quotidiano. O pilão é bem maior que a “bajuda”. Em primeiro plano à direita, está um recipiente tapado já com o grão moído não vá aparecer algum “curioso” de bico afiado.
Sem fósforos ou isqueiros, o rapaz sentado tenta fazer crescer o fogo que foi iniciado por atrito de dois paus. Uma técnica ancestral aparentemente de fácil execução mas que requer a escolha certa de todos os materiais e muita paciência.
Na nascente as bajudas lavam a loiça feita de cabaças e latas velhas. Tarefa por vezes arriscada devido à distância a que local se situava.
A lenha – único material combustível – era necessário ir apanhar bem longe. Aqui uma bajuda tem a tarefa de a rachar.
A procura e recolha da lenha – tarefa penosa e com muitos perigos – é também feita pelas mulheres.
(foto gentilmente enviada por Mário Trindade, ex-Operador Cripto, CMI/Cumeré-Guiné 1971/1973)
Pormenor de um rudimentar mercado.
(foto gentilmente enviada por Mário Trindade, ex-Operador Cripto, CMI/Cumeré-Guiné 1971/1973)
Coser à máquina é tarefa dos homens.
(foto gentilmente enviada por Mário Trindade, ex-Operador Cripto, CMI/Cumeré-Guiné 1971/1973)
Tocador de “bombolom” em pleno batuque.
(foto gentilmente enviada por Mário Trindade, ex-Operador Cripto, CMI/Cumeré-Guiné 1971/1973)
Oficina de sandálias. (fotografado circa 1960)
(adaptação de foto, cortesia do Instituto de Investigação Cientifica Tropical, Arquivo Histórico Ultramarino,http://actd.iict.pt/)
A gozar a sombra. (fotografado circa 1960)
(adaptação de foto, cortesia do Instituto de Investigação Cientifica Tropical, Arquivo Histórico Ultramarino,http://actd.iict.pt/)
Venda de cestos. (fotografado circa 1960)
(adaptação de foto, cortesia do Instituto de Investigação Cientifica Tropical, Arquivo Histórico Ultramarino,http://actd.iict.pt/)
Vista aérea de uma pequena “tabanca”. (fotografado circa 1960)
(adaptação de foto, cortesia do Instituto de Investigação Cientifica Tropical, Arquivo Histórico Ultramarino,http://actd.iict.pt/)
Raparigas (bajudas)
Bajudas do “fanado” posando para o fotógrafo.
(foto gentilmente enviada por Jorge Picado, Ex-Cap Mil – CCaç 2589 e CArt 2732, 70/72)
Outro grupo de “bajudas” preparadas para o “ronco”, todas com o seu “corpinho” (soutien).
(foto gentilmente enviada por Jorge Picado, Ex-Cap Mil – CCaç 2589 e CArt 2732, 70/72)
Um trio de “bajudas” a posar para a objectiva. (fotografado circa 1960)
(adaptação de foto, cortesia do Instituto de Investigação Cientifica Tropical, Arquivo Histórico Ultramarino,http://actd.iict.pt/)
Uma pose e um certo sorriso desta “bajuda”.
(foto com origem num postal ilustrado edição Casa Mendes – Bissau, gentilmente enviada por Mário Trindade, ex-Operador Cripto, CMI/Cumeré-Guiné 1971/1973)
“Bajuda” aqui muito compenetrada do seu papel.
(foto com origem num postal ilustrado edição Casa Mendes – Bissau, gentilmente enviada por Mário Trindade, ex-Operador Cripto, CMI/Cumeré-Guiné 1971/1973)
Um farto sorriso da “bajuda” com os seus “mezinhos” aos pescoço.
(foto com origem num postal ilustrado edição Casa Mendes – Bissau, gentilmente enviada por Mário Trindade, ex-Operador Cripto, CMI/Cumeré-Guiné 1971/1973)
Transportando a água em “fiminhas” (potes).
Com 3 expressões bem diferentes…e agora com latões e alguidares. Nestas duas fotos de “bajudas” de etnias diferentes são evidentes as diferenças no trajar e nos recipientes.
Em dia de festa um simples chapéu de chuva é “ronco”.
Com “mama firmada” mas um olhar triste e enigmático . “Mulher grande” atrás observa tudo.
Continua a festa e estas “bajudas” arranjaram um pente e um “corpinho” (soutien) para o “ronco”.
Apenas uma “bajuda”. (fotografado circa 1960)
(adaptação de foto, cortesia do Instituto de Investigação Cientifica Tropical, Arquivo Histórico Ultramarino,http://actd.iict.pt/)
Olhar submisso mas distante.
Com seus generosos e duros seios esta bajuda apresenta uma estrutura pouco feminina, de espáduas musculosas e mãos enormes e calejadas. Uma sobrevivente que irá certamente, ser mãe por várias vezes.
(foto gentilmente enviada por: César Dias, ex Furriel Mil. do B.C. 2885, Mansoa 69/71)
Os olhos são o espelho da alma. Mais um olhar.
Se ficar grávida não pode casar. Se há divórcio ou a mulher foge o dote é restituído ao pai da noiva.
Com os seus grandes olhos trespassa a objectiva.
Cenas do quotidiano.
A água não é límpida mas é quente aqui na borda de água.
Observando os putos dentro de água.
A hérnia no umbigo é vulgar devido a falta de cuidados no pós-parto.
Depois de pilar há que joeirar.
As “lavadeiras” bem próximo e as “madrinhas de guerra” bem longe, foram para muitos um importante apoio.
“Bajuda” acartando água à cabeça. O seu rosto espelha bem o esforço e concentração necessária para fazê-lo. Esta foto é curiosa porque o que parece ser o braço esquerdo da rapariga é o braço direito de outra que está precisamente por detrás a fazer o mesmo. Coincidência ou habilidade do fotógrafo?
(foto gentilmente enviada por Mário Trindade, ex-Operador Cripto, CMI/Cumeré-Guiné 1971/1973)
Mais sorriso bem engraçado.
(foto gentilmente enviada por Mário Trindade, ex-Operador Cripto, CMI/Cumeré-Guiné 1971/1973)
“Bajudas” dançando. (fotografado circa 1960)
(adaptação de foto, cortesia do Instituto de Investigação Cientifica Tropical, Arquivo Histórico Ultramarino,http://actd.iict.pt/)
entrefogocruzado.wordpress.com
Penteados
Aqui “manga de ronco” pessoal.
Com muita atenção a ver a luta.
A expectativa é muita…tenham calma.
Aqui com um gesto muito característico de quem espera.
A pousar para o retrato.
Preparado para tudo.
Falando…
Na perfeição.
Perfil preocupado.
Pronto. Já está.
“Manga de ronco” outra vez.
Mais um curioso penteado.
Duas “bajudas” agachadas mostram os seus penteados. (fotografado circa 1960)
(adaptação de foto, cortesia do Instituto de Investigação Cientifica Tropical, Arquivo Histórico Ultramarino,http://actd.iict.pt/)
Neste até há rapadela bem curiosa.
“Bajuda” de perfil.
(foto gentilmente enviada por Mário Trindade, ex-Operador Cripto, CMI/Cumeré-Guiné 1971/1973)
Mulher de perfil. (fotografado circa 1960)
(adaptação de foto, cortesia do Instituto de Investigação Cientifica Tropical, Arquivo Histórico Ultramarino,http://actd.iict.pt/)
Guerra
Foi assim que tudo começou. Para tráz ficaram os sonhos… rumo à incerteza.
Coluna da tropa serpenteia pelos campos de arroz caminhando por cima de um dique (“perike”) em direcção ao objectivo, com as suas G3 ao ombro.
O aparente sossego pode trazer surpresas…os guerrilheiros podem estar algures à espera desta coluna. O cantar da “costureirinha” (pistola metralhadora PPSH) pode iniciar “manga di chocolate”.
Esta coluna corre grande risco ao atravessar a “bolanha”. A exposição é total. A aproximação da mata cerrada pode ser “zona de morte” dos guerrilheiros aí emboscados. Os eventuais abrigos não existem!
Esta coluna auto segue lentamente ao ritmo dos “picadores”, e é sempre um alvo fácil e preferencial dos guerrilheiros que por vezes estão emboscados tão perto que a luta corpo a corpo pode acontecer. As minas escondidas podem passar despercebidas. Os condutores esforçam-se por pisar o rasto do carro da frente. A tensão é grande. Há que ir e voltar.
Algures no interior da mata um guerrilheiro é condecorado.
(foto cortesia de “O Jornal”)
Um grupo de guerrilheiros atravessa a “bolanha” com as suas armas típicas. O da frente leva a muito conhecida “costureirinha” cuja alcunha se deve ao som ritmado dos seus disparos. Na realidade trava-se da PPSH-41, calibre 7,62, tambor com 71 munições e 900 tiros por minuto.
(foto cortesia da Fundação Mário Soares emhttp://www.fmsoares.pt/aeb/fotografias/)
Este grupo de guerrilheiros ostenta o seu equipamento e arsenal militar.
(foto cortesia de Bara István emhttp://www.fotobara.hu/galeria.htm)
Cerimónia entre os guerrilheiros do PAICG algures na mata.
(foto cortesia da Fundação Mário Soares emhttp://www.fmsoares.pt/aeb/fotografias/)
Entretanto, bem longe, mais uma “cerimónia” do último adeus para muitos.
Um grupo de guerrilheiros atravessa um rio de canoa.
(foto cortesia no livro “Guiné-Bissau e Cabo Verde, uma luta, um partido, dois países” de Aristides Pereira)
Coluna de guerrilheiros em plena mata cerrada vendo-se algumas das suas armas caratcterísticas. O guerrilheiro da frente transporta uma AK-47, Kalashnikova.
(foto cortesia de Bara István emhttp://www.fotobara.hu/galeria.htm)
Passado um pequeno obstáculo, esta coluna em bicha de pirilau vai perigosamente atravessando uma clareira junto a uma mata impenetrável e em breve o matraquear da kalash soará sobre as suas cabeças. O morteiro 60, aqui ao ombro, irá mais uma vez mostrar-se ineficaz na resposta ao ataque dos guerrilheiros.
Um “heli” faz uma evacuação. Ao fundo, mas bem perto, vê-se o fumo dos rebentamentos que persistem. O “heli” tem que sair rápido (“goss, goss”).
A espera, a ansiedade, o medo. Mas tudo foi esquecido ao ouvir-se o primeiro tiro. A visibilidade era nula mas todavia as palavras de ordem dos antagonistas eram perfeitamente audíveis.
Quando o azar acontece para uns… é “ronco” para outros. O Deus da Guerra não pode agradar a todos.
O sol vai agora subindo no horizonte, mas o calor já aperta e a sede também. Devagar esta coluna que passou a noite emboscada, a ser pasto dos mosquitos, avança rente a uma “tabanca” destruída por um bombardeamento. Nem o enorme “poilão” agora também chamuscado valeu aos seus habitantes. Onde estaria o seu Irã?
Lentamente a coluna vai afrouxando o andamento até que pára. Com cuidado todos se deitam esperando não ser mesmo em cima de algum carreiro de formigas. A pequena clareira mesmo ao lado transmite alguma segurança mas por cima da cabeça um enorme aracnídeo parecia mau presságio… o “kodak” disparou… e os guerrilheiros também.
Finalmente a guerra acabou! Os antigos antagonistas encontram-se para festejar.
(foto gentilmente enviada por: In illo tempore, Alferes Mil. Morais – CART 6254 – Companhia independente, na Guiné de Mar.1973 aAgo.1974)
Uma pausa de pouca dura para engolir à força a intragável ração de combate. Não foi certamente por acaso que se encostaram a um embondeiro e a um baga baga. Dois “bunkers” inexpugnávies para quem os detiver.
(foto gentilmente enviada por: César Dias, ex Furriel Mil. do B.C. 2885, Mansoa 69/71)
O seu ruído no silêncio da mata trazia-nos sensações antagónicas – segurança e desgraça.
(foto gentilmente enviada por: César Dias, ex Furriel Mil. do B.C. 2885, Mansoa 69/71)
entrefogocruzado.wordpress.com
Sem comentários:
Enviar um comentário