| O jornalista e o advogado. Histórias de pimenta e refresco |
Era uma vez, há muitos anos, um advogado e um jornalista. Trabalhavam ambos na mesma cidade grande mas pouco se conheciam. Cada um ocupava-se dos seus afazeres. Não nutriam, um pelo outro, grande amizade. Nas poucas vezes que se encontravam o advogado interrompia sempre a conversa. O pouco que aquele podia contar e que podia ultrapassar as estreitas fronteiras do sigilo era revelado numa linguagem de tal forma cifrada que o jornalista não parecia compreender. E com isso, fazendo o seu papel, repetia o jornalista as mesmas perguntas utilizando outras formas e outras abordagens. Enfadado e limitado nos seus deveres profissionais o advogado terminava abruptamente a conversa sem que o jornalista compreendesse verdadeiramente o motivo. E mesmo quando o jornalista pretendia ir um pouco mais além, procurando assistir às vivências profissionais do advogado, ou não encontrava motivos de interesse ou perdia-se nas hermenêuticas da tal linguagem cifrada. E durante muito tempo foi assim: o advogado lá ia advogando entre o seu escritório, os tribunais e os seus clientes e o jornalista ia jornalando, recolhendo matérias para a edição do dia seguinte. Um belo dia, porém, os clientes do jornalista – entre os quais o próprio advogado – amanheceram com muita necessidade de informação e ela cresceu de forma exponencial. Foram criados meios de comunicação que não existiam e os que existiam cresceram e multiplicaram-se. Deixou de ser notícia o homem que mordeu o cão porque as pessoas passaram a querer também saber o nome do cão e a conhecer a casa do homem. A sociedade criou e multiplicou regras e o advogado passou a ter mais trabalho. E surgiram mais jornalistas para alimentar os meios, e mais advogados para criar regras e para defender a sua aplicação. Tudo muito. Tudo mais. Da janela do escritório do advogado e do local de trabalho do jornalista passou a ver-se mais mundo. Passou a ver-se o mundo. Era, por isso, inevitável que se reencontrassem mais vezes, que os seus caminhos se cruzassem com mais frequência. Na primeira vez em que se reencontraram neste novo mundo, os dois profissionais olharam-se com desconfiança. O advogado queria continuar a viver no seu escritório, contemplando a placa com o seu nome que ostentava orgulhosamente a sua profissão. O jornalista, por seu lado, queria saber coisas dos clientes do advogado incluindo os seus segredos e passou a escrever mais sobre o mundo dos advogados e sobre as teias da justiça que o advogado urdia juntamente com os magistrados nos seus encantados tribunais. Outrora lugares frios e desconfortáveis estes locais tornaram-se destinos de romaria e objecto de notícia. Os jornalistas passaram a opinar sobre tudo o que mexia, mesmo que sobre movimento nada soubessem. O advogado passou a dar-se melhor com o jornalista. Aliviou o seu segredo, aliviaram-lhe o seu segredo. Alguns passaram a desconhecer a palavra “segredo”. Antes falava o jornalista e depois o advogado. Fala agora o advogado pelo jornalista, o jornalista pelo juiz, o advogado é jornalista e o jonalista é advogado. Um por todos e todos por um. Não raras vezes ao mesmo tempo. A notícia também mudou. O homem continuou a morder o cão mas o homem tem agora gravata e colarinho branco e o cão passou a chamar-se Estado. E não raras vezes morde também no homem. E isso é também notícia. Criaram-se reguladores do homem e do cão, regulações de reguladores. Supervisões de regulação e reguladores de supervisão. Nomes finos para quem pouco faz. Mas tudo é notícia ou consumido como se tal fosse. Um dia destes, nos novos tempos, o jonalista encontrou-se com o advogado. Queria mudar-lhe os hábitos, os ritmos e as Leis. Tinha opinião sobre a justiça e sobre a forma como ela devia funcionar. Sobretudo a justiça para os outros. Reclamou resultados com avidez e veemência. Manifestou incompreensão. O advogado deteve-se e depois de uma pequena pausa olhou longamente a paisagem e contou-lhe uma história antiga com pimenta, fundo das costas e refresco.*
Paulo Farinha Alves
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