Heil, estupidez fascista!
Anda a correr uma imagem pelo Facebook a “denunciar” pagamentos “vergonhosos” feitos a romenos, ciganos, etc., sem nunca terem contribuído para o país.
Já perdi a conta às vezes em que me envolvi em discussões com pessoas, por causa de comentários destes. Custa-me acreditar que, neste século, e no seio de pessoas com educação superior, ainda se cultive esta espécie de pensamento. Aliás, nem é preciso ser-se um espertalhão, basta pensar um pouco na história e reflectir sobre os resultados que este tipo de pensamento trouxe para a humanidade.
Mas não, não vale a pena. Quem pensa assim, vem munido de uns óculos de Alcanena. Só vê o que lhe metem à frente dos olhos. E o que lhe metem à frente é uma explicação fácil e uma fácil resolução para os problemas da nação, bem ao jeito fascista. Depois não se queixem.
O problema é que eu sou uma teimosa e por muito que queira fingir que não ouço, ou que não leio, não consigo ficar calada perante uma estupidez tão grande. Por isso, peço-vos que reflictam um pouco sobre estes pontos:
1) Onde estão os 1400€ no vale de correio?
2) Quem vos diz, meus pequenos otários, que o titular do vale é de etnia cigana?
3) Como depreendem que o valor é mensal?
4) De que país vêm os “etc.”? Quem são eles?
Conseguiram encontrar as respostas, mentes brilhantes? Já vos ocorreu que isto possa ser informação forjada (Hã? Não!!!) por pessoas de extrema direita, para fomentar os seus ideais entre o povinho? Não? Vamos pensar um pouco.
Todos os dias vemos na televisão, em reportagens, pessoas que contribuíram uma vida inteira e têm reformas miseráveis. Na vossa cabecinha, os ciganos, os romenos e os “etc.”, que eu gostava mesmo de saber quem são, têm um estatuto especial, que lhes permite receber mais? Porquê? No máximo, recebem subsídios de inserção social. Uma pesquisa na Net dir-vos-á de que valor se trata. Recebem abonos? Recebem. Têm filhos, recebem. Infelizmente, para todos nós, os valores dos abonos não são assim tão altos que nos permita viver disso. Senão, faríamos como tantos portugueses, que iam para a França e Luxemburgo apenas para ter filhos. O quê? Os portugueses?? Não...
Suponho que também não vos passe pela cabeça que muitos ciganos, romenos e “etc.” trabalhem. Mas é um facto. Muitos trabalham. E quanto aos que não trabalham, preocupa-vos mais o facto de poderem receber qualquer coisa do Estado, do que a situação precária em que aquelas mulheres e crianças vivem, sem terem quem as apoie, tendo de se resignar ao costume imposto pelos homens. Já pensaram que se elas tivessem escolha, se calhar gostavam de ter estudado mais, e gostavam de não ter de parir constantemente? Se calhar até gostavam de dormir no aconchego de um quarto, em vez de dormirem ao relento. Aqueles sacanas, cheios de luxos!
Já pensaram que muito disto acontece por nossa culpa? O Estado não faz e nós não exigimos. Devia existir uma fiscalização apertada, que obrigasse estas famílias subsidiadas a cumprirem determinadas regras. Uma delas: deixar estudar as miúdas. Tenho a certeza de que, pelo menos, a geração seguinte já não andaria na rua. Mas isto sou eu que digo, que não percebo nada de nada. Se calhar o mais fácil é mandar os malandros todos para fora do país.
Agora, pensem bem. Pensem bem em quem são os malandros. É que eu não vejo imagens de indignação contra aqueles que acumulam reformas com reformas, salários com salários, reformas com salários. Também não vos vejo a indignarem-se contra aqueles que recebem baixas e subsídios de desemprego, quando podiam estar a trabalhar, ou pior, quando estão a trabalhar. E sabem que também há muitos portugueses que vivem só de subsídios, não sabem? Vamos mandá-los lá para fora também! Nisto podíamos fazer uma espécie de pacote promocional e enviar os políticos com eles. Podia ser que algum país caísse na esparrela.
Gostava que percebessem que este tipo de conversa não é treta. O ódio atrai ódio. O discurso da imagem é puro ódio e é extremamente perigoso. O ódio espalha-se como um rastilho de pólvora. Nós temos um país de emigrantes. Hoje, são os ciganos, os romenos, os “etc.”. Amanhã, são todos os baixinhos de pele morena. Quiçá os portugueses honestos, que estão lá fora a tentar ganhar a vida.

Sem comentários:
Enviar um comentário