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sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

O spin-doctoring da Comissão Europeia


Comissário EuropeuO que se passou nestes dois dias sobre o orçamento de Estado para 2016 vem nos livros de comunicação estratégica, no capítulo spin-doctoring. Também é possível encontrar a matéria  nos manuais de jornalismo, neste caso, no capítulo dedicado à relação com as fontes. Vejamos então:
Como os entendidos no funcionamento das instituições europeias sabem, a Comissão não pode, nesta fase, relativamente ao nosso país, reprovar formalmente o orçamento de Estado de 2016 nem sequer obrigar Portugal a apresentar uma nova proposta, como começou por ser noticiado. Desde logo, porque não há ainda um orçamento mas apenas um draft e é sobre este que a Comissão deve dar parecer. Mas nem por isso a Comissão deixa de ter poder e de o usar com as melhores técnicas de spin, tal como fazem os estrategas de comunicação. Foi isso que a Comissão fez e está a fazer com o draft do orçamento de Estado que o governo português lhe enviou.
A Comissão começou por fazer constar de maneira informal (off the record) que o orçamento português lhe merecia críticas e desconfiança, e que podia ser chumbado. Como era suposto, a notícia fez o seu caminho: os jornalistas imediatamente lhe deram o maior destaque com títulos alarmistas, anunciando o chumbo do orçamento.
Perante o crescendo de informação negativa, o governo decidiu revelar a carta da Comissão, ao mesmo tempo que o primeiro-ministro desdramatizava a situação considerando naturais as dúvidas e as perguntas da Comissão.
Conseguida a primeira (má) impressão sobre o orçamento, desde logo com as agências derating a carregarem “as tintas”, veio então a Comissão, desta vez dando a cara e a voz, confirmar as palavras do primeiro-ministro, esclarecendo que o que existe é uma troca de informação e esclarecimento de dúvidas, desdramatizando em on o que antes dramatizara em off.
Mas não ficou por aqui o trabalho de spin da Comissão: mantendo a pressão sobre o governo português e sem qualquer preocupação sobre os efeitos da sua estratégia de (des)informação, a Comissão promoveu uma fuga de informação de um documento no qual confronta os seus números com os do draft do orçamento do governo português. Os jornalistas embandeiraram em arco com os novos dados, as televisões chamaram os seus comentadores para os telejornais, enquanto o PSD e o CDS cavalgavam a onda apoiando tudo o que viesse de Bruxelas. O discurso jornalístico e o discurso da oposição política seguiram, aqui também religiosamente, o discurso da Comissão. Do lado dos jornalistas de economia ninguém ousou, fosse por convicção ou por seguidismo, questionar o discurso da Comissão e muito menos a pressão exercida sobre o governo português e sobre eles próprios, através de métodos eticamente questionáveis.
Ora, os jornalistas sabem como as coisas se passam e não desconhecem que o comportamento da Comissão constitui uma pressão sobre o governo, colocando-o debaixo de fogo para  o obrigar a ceder às suas pretensões.  Por seu turno, a Comissão sabe que pode confiar nos jornalistas que cobrem os seus trabalhos e que eles não denunciarão as suas manobras porque se “alimentam” muito mais do que se passa nos bastidores da própria Comissão do que nos discursos oficiais dos seus porta-vozes.
(artigo originalmente publicado no jornal electrónico TORNADO)

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