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domingo, 7 de julho de 2013

A IRMÃ DO FERNANDO PESSOA "Não sei o que o amanhã trará"

A IRMÃ DO FERNANDO PESSOA

"Não sei o que o amanhã trará"

(Fernando Pessoa)

Fernando Pessoa, com 16 anos, com a família em Durban, África do Sul. Da esquerda para a direita:
Mãe, João Maria*, Fernando Pessoa,
Henriqueta Madalena*, Luís Miguel*, João Miguel Rosa (padrasto). * meios-irmãos. Foto de www.prof2000.pt






Entrevista a Henriqueta Madalena, irmã de Fernando Pessoa no Jornal de Letras em 26-11-1985.

 Fernando Pessoa nas paredes para todos. Fotos encontradas na net.



POEMA EM LINHA RECTA

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,

Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenha calado, tenho sido mais ridículo ainda;

Eu que tenho sido cómico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenha agachado,
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um acto ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida…

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que, contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?

Ò príncipes, meus irmãos,
Arre estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e erróneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

Fernando Pessoa
(Álvaro de Campos)


"Por qualquer motivo temperamental que me não proponho analisar, nem importa que analise, construí dentro de mim várias 
personagens distintas entre si e de mim, personagens essas a que atribuí poemas vários que não são como eu, 
nos meus sentimentos e idéias, os escreveria." (Fernando Pessoa). Foto de luardejaneiro.blogs.sapo.pt

Citizen Grave

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