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domingo, 7 de julho de 2013

NOTAS DA INQUIETAÇÃO - António Manuel Gomes Rodrigues - A Imoralidade e o Abuso de poder não são assunto novo. E a resistência também não. As ideias acerca da Desobediência Civil não nasceram no século dezanove com o Senhor Thoreau. Verdade ou não vale o símbolo histórico e bíblico das parteiras que desobedeceram às ordens do faraó para matar os bebés hebreus. O senhor Sófocles deu ao mundo a tragédia de uma Antígona que, com bravura e sacrifício, manda às urtigas a ordem coroada do tirano Creonte.


 NOTAS DE INQUIETAÇÃO

António Manuel Gomes Rodrigues (no facebook)

Grafite sobre papel. desenho feito em Maio de 2013


GARIBALDI E LAMPEDUSA

(reflexões sobre as mudanças que asseguraram a continuidade) ou
Será possível uma mudança em que nada volte a ser como era?

"A utopia está no horizonte. Aproximo-me dois passos, ela afasta-se dois passos. Caminho dez passos e o horizonte afasta-se dez passos. Por muito que caminhe, nunca a alcançarei. Para que serve a utopia? Para isto: serve para caminhar" - Eduardo Galeano

A Imoralidade e o Abuso de poder não são assunto novo. E a resistência também não. As ideias acerca da Desobediência Civil não nasceram no século dezanove com o Senhor Thoreau. Verdade ou não vale o símbolo histórico e bíblico das parteiras que desobedeceram às ordens do faraó para matar os bebés hebreus. O senhor Sófocles deu ao mundo a tragédia de uma Antígona que, com bravura e sacrifício, manda às urtigas a ordem coroada do tirano Creonte. Falamos de gente que colocou a sua consciência moral, as suas convicções éticas e o respeito pelos direitos, os seus e os dos outros que afinal são os mesmos, acima do respeito pela lei. Mais tarde veio o Thoreau, em boa hora, estruturar o ensaio em que define a sua base de pensamento. É verdade que os escritos nascem da sua indignação com a invasão do México, ao tempo, e surgem depois de ter sido preso por se recusar a pagar impostos que iriam financiar esse acto bélico. Também é verdade que o seu espírito, sem dúvida lúcido, era mais reformista que revolucionário. Revolução sim, mas para mais tarde. Acabar ali e então, as barbaridades no México. Contudo, escreveu, como disse em muito boa hora. Daquelas sementes escritas, mais tarde aproveitaram Mahatma Gandi e Martin Luther King de forma excelente, para falar apenas dos mais conhecidos, injustiçando tantos outros que o fizeram ao longo do tempo e não refiro, por impossibilidade prática uns e desconhecimento outros.

Vivemos um tempo em que, talvez mais que nunca, há pessoas mobilizadas em torno de novas ideias e práticas. Diversas correntes encontram espaço para se articularem sem conflito. Inúmeros pensadores expõem publicamente ideias válidas e sólidas. Andrej Grubacic fala de "Novo Anarquismo" para referir um pensamento bem recente, mais ajustado a esta realidade do que as ideias do princípio do século passado e mesmo as dos anos 60 e 70. Podemos, ainda assim rever as ideias de Paul Goodman e Colin Ward desses tempos, mas passar a reflectir sobre o que dizem pessoas como David Rolfe Graeber ou John Zerzan sem nunca deixar de exercer a nossa análise crítica individual.

Nestes  últimos tempos de angústia e inquietação tenho pensado muito nestes assuntos. Desde que, há muitos anos, li pela primeira vez o ensaio do Senhor Thoreau que guardo, com um sorriso, as graciosas palavras do seu início:

"Aceito com entusiasmo o lema "O melhor governo é o que menos governa"; e gostaria que ele fosse aplicado mais rápida e sistematicamente. Levado às últimas conseqüências, este lema significa o seguinte, no que também creio: "O melhor governo é o que não governa de modo algum"; e, quando os homens estiverem preparados, será esse o tipo de governo que terão."


Na verdade, nestas últimas semanas, retirei do sono na estante alguns volumes de Proudhon, Sébastien Faure e, sobretudo, os escritos de Errico Malatesta. Cabe dizer, neste momento, antes que os juízos se precipitem e os rótulos chovam, que estou sempre indisponível para aceitar as ideias, sejam as destes senhores ou as dos seus oponentes, por comodismo ou entusiasmo apaixonado,sem uma análise crítica, dentro das minhas capacidades. E essa capacidade vai mudando com o passar do tempo e as conclusões também. Por isso justifica-se a que faço agora. Mais que nunca, como já disse e repeti, aqui mesmo, inúmeras vezes, cada vez mais, apenas tenho a certeza de não haver certezas de nada. Contudo isso não me impede de saber que há que procurar, há que encontrar um sentido para o facto de existir. Não sei se a luz que as reflexões parecem trazer ilumina um corpo palpável ou um expectro mas, o que procuro, neste caso é a crisálida que envolve a possibilidade da felicidade humana. Pouca coisa e grande modéstia a minha, dirão ironicamente quase todos vós. São reflexões pretenciosas de facto, mas paradoxalmente, feitas com humildade. São apenas a observação da minha responsabilidade de usar a minha capacidade de pensar, valha ela o que valer, e pô-la ao serviço dos outros. Se o resultado for estéril terá a reciclagem natural. Do vosso lado, se tiverem a generosidade de me ler, terão apenas de equacionar o risco de poderem desperdiçar o vosso valioso tempo. Ou não. Na verdade, não tenho a presunção de colocar aqui a pedra filosofal dos problemas sociais ou a chave para a escravidão política que acompanha a humanidade desde que se organizou de forma mais complexa. Apenas abrir um espaço de conversa que possa ser proveitoso para todos nós e em que todos possamos contribuir com igual valor.

Estou consciente de muita da argumentação que é sustentada a favor e contra a transformação radical das estruturas sociais existentes. Uma grande parte delas são válidas, de um lado e de outro, e só referirei as que me parecem ter essa qualidade. Por pensar isso, e por julgar entender os pressupostos, que não são considerados nesses pensamentos é que me parece haver necessidade de incluir esses pressupostos na argumentação, de forma a que uma nova utopia possa ter a característica que, fatalmente, sempre lhe faltou: a possíbilidade, ainda que tímida, de viabilidade.

Antes de terminar, por agora, refiro só para deixar uma ideia, que tenho consciência de que nascemos e fazemos parte de sociedades organizadas em que, por via, dessa organização, permitimos a gestão da totalidade dos direitos individuais por uma minoria. Tudo isto, desde o alvorar da civilização, porque somos uma espécie egoísta e violenta. Se não houver governos que controlem as massas populares e as soberanias das nações, entendeu-se sempre por inevitável a ruína através dos focos de rebelião ou a conquista pelas nações mais poderosas. Há sempre que equacionar o abuso dos mais fracos pelos mais fortes que escravizariam, violariam, roubariam...

Estas são realmente algumas questões que merecem ser debatidas. Voltarei a este assunto para falar do assunto fundamental da ética humana, se os meus amigos acharem que vale a pena...

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