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quarta-feira, 15 de maio de 2013


Salazar e os 10 VW a um escudo cada

Publicado em 2013-05-13

 

A mentalidade tão austera quanto tacanha de António de Oliveira Salazar gerou um manancial de anedotas. Uma delas tem a ver, imagine-se, com a Alemanha (!) e retrata na perfeição a avareza de Sua Excelência o Presidente do Conselho, fórmula como à época se tratava o primeiro-ministro gestor de Portugal a seu bel-prazer.
Um dia, reza a anedota, viviam os germânicos a fase de recuperação de uma economia destruída pela II Grande Guerra e a Volkswagen, já então um potentado, preparava-se para lançar o último grito dos seus modelos. Numa fase ainda embrionária do marketing, telefonou o chanceler a Salazar a pedir-lhe que recebesse um administrador da fábrica de automóveis para lhe transmitir mensagem importante.
"Orgulhosamente só", mas nada parvo, Salazar acedeu e a S. Bento lá chegou um tipo anafado. O que tinha ele a dizer?
Vergado ao respeitinho pelo ditador, o homem da VW aprimorou o discurso do orgulho em ofertar ao governo português um exemplar do novo automóvel.
Jamais! Jamais! - terá exclamado Salazar. A independência do país, explicou, não se compadecia com prendas suscetíveis de castrarem a independência de decisão nacional.
O alemão gingou no sofá, argumentou, levou nega atrás de nega, até encontrar saída milagrosa. Qual? A VW estava disposta a proceder à venda de um exemplar pelo preço simbólico de um escudo.
Salazar apreciou a alternativa, deu nota ao alemão do seu espírito independente e ter-lhe-á atirado: "Sim, senhor. Como compra aceito. Faça o favor de considerar uma encomenda de dez automóveis a um escudo cada!".
Imagina-se o resto. O alemão terá corado, arranjou desculpa esfarrapada e ter-se-á escapulido do jogo duplo de Salazar. Longe de imaginar que tantos anos depois a VW seria vital para a economia portuguesa.
E por que raio vem a anedota de Salazar ao caso?
Para lá de retratar a personalidade unhas de fome de Salazar é reveladora de uma independência entretanto perdida pelo acumular de erros primários, felizmente já em regime democrático.
Hoje o orgulho nacional esbate-se nos argumentos ponderosos da sobrevivência segundo um modelo de protetorado. Bem mais deprimente que o condicionamento específico da construção de uma União Europeia.
Perceber-se-ão algumas das razões para se tirar o chapéu aos credores do país. Já é mais difícil entender a pura humilhação. Que a troika imponha condições para passar cheques após cada avaliação é admissível. Mas não encaixa no racional a disposição dos governantes para lhe fazerem sucessivos salamaleques públicos, aturando "aulas" dispensáveis.
Há casos para os quais não havia necessidade.
Duvida-se?
Eis o recentíssimo exemplo. Como já sucedeu com o FMI, o governo pediu à Organização para o Desenvolvimento e Cooperação Económica (OCDE) um estudo capaz de habilitar o país de pistas para proceder a mudanças estruturais sadias. Um comportamento normal. Incompreensível é sim a deslocação do primeiro-ministro amanhã a Paris para uma reunião na qual a OCDE divulgará a sua sabedoria.
Há casos para os quais o dobrar da cervical se dispensaria - e de Paris para Lisboa deveria ser o percurso normal dos estudiosos da OCDE.
Vivemos um tempo em que quem nos governa já nem faz esforços para parecermos independentes. Triste sina...

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