Selecção, introdução, tradução e notas por Júlio Marques Mota
Recordemos que Nafeez Ahmed é um politólogo britânico e jornalista de investigação, que trabalha com a BBC e o Guardian. É o director do Institute for Policy Research and Development de Brighton, e ensina na universidade do Sussex. Foi nomeado em 2003 para o prémio Napoli, equivalente do Goncourt francês.
Nafeez Ahmed, Islamic State is the cancer of modern capitalism
Les Crises.fr, 15 de Novembro de 2015
(continuação)
A chantagem da protecção
Um relatório classificado dos serviços de informação americanos, revelado pelo jornalista Gerald Posner, confirmou que os Estados Unidos estavam plenamente conscientes pelo facto de que um acordo secreto tinha sido concluído em Abril de 1991 entre a Arábia Saudita e bin Laden, então em residência supervisionada. Segundo este acordo, bin Laden era autorizado a deixar o reino com os seus financiamentos e partidários e a continuar receber um apoio unicamente financeiro da família real saudita na condição de que se abstivesse de orientar e desestabilizar o próprio reino da Arábia Saudita.
Longe de ser um observador distante deste acordo secreto, os Estados Unidos e a Grã-Bretanha participaram nele activamente.
O abastecimento maciço de petróleo proveniente da Arábia saudita está na base da saúde e do crescimento da economia mundial. Não podíamos permitir a sua desestabilização e por conseguinte devemos aceitar este compromisso: para proteger o reino, era necessário deixá-lo financiar bin Laden fora das suas fronteiras.
Como o historiador britânico Mark Curtis o descreve minuciosamente no seu livro sensacional, Secret Affairs: Britain’s Collusion with Radical Islam, os governos dos Estados Unidos e do Reino Unido continuaram a apoiar secretamente redes filiadas na al-Qaeda na Ásia central e nos Balcãs depois da guerra fria, e pelas mesmas razões que anteriormente, na sua luta contra a influência russa, e doravante chinesa, a fim de estender a hegemonia americana à economia capitalista mundial. A Arábia Saudita, primeira plataforma petrolífera do mundo, continuou a ser o intermediário desta estratégia anglo-americana irreflectida .
Na Bósnia
Curtis relata que um ano depois do atentado do World Trade Center de 1993, Osama bin Laden abriu um escritório no bairro de Wembley, em Londres, sob o nome de “Advice and Reformation Committee“, a partir do qual coordenou actividades extremistas no mundo inteiro.
Na mesma época, o Pentágono encaminhou por avião dos milhares de moudjahidines de al-Qaeda da Ásia central para a Bósnia Herzegovina, violando assim o embargo sobre as armas imposto pela O.N.U, de acordo com ficheiros dos serviços de informação neerlandeses. Estes combatentes eram acompanhados pelas forças especiais americanas. “O cheikh cego ” que foi condenado pelo atentado do World Trade Center era implicado profundamente no recrutamento e no envio de combatentes de al-Qaeda na Bósnia Herzegovina.
No Afeganistão
Desde 1994 cerca de e até ao 11 de Setembro, os serviços de informação militar americanos bem como os da Grã-Bretanha, da Arábia Saudita e do Paquistão, forneceram secretamente armas e fundos aos talibans, que protegiam al-Qaeda.
Em 1997, Amnesty International lamentou a existência “de relações políticas estreitas” entre a milícia talibã no país, que acabava de conquistar Kaboul, e os Estados Unidos. O grupo de defesa dos direitos do homem fez referência a relatórios credíveis “sobre os madrasas (escolas religiosas) frequentadas pelos talibans no Paquistão”, indicando que “estas relações podem ter sido estabelecidas mesmo no início do movimento talibã”.
Amnesty relata que estes relatórios provinham de Benazir Bhutto, então Primeira ministra do Paquistão; esta última, hoje falecida, “tinha afirmado que as madrasas tinham sido postas em prática pela Grã-Bretanha, pelos Estados Unidos, pela Arábia Saudita e pelo Paquistão no decorrer da Djihad, a resistência islâmica contra a ocupação do Afeganistão pelos Soviéticos”. Sob a tutela americana, a Arábia Saudita continuava a financiar estas madrasas.
Os manuais redigidos pelo governo americano a fim de doutrinar as crianças afegãs com a ideologia da Djihad violenta durante a guerra fria foram então aprovados pelos talibãs. Foram integrados no programa básico do sistema escolar afegão e largamente utilizados nas madrasasmilitantes paquistanesas, financiadas pela Arábia Saudita e pelo ISI paquistanês com o apoio dos Estados Unidos.
As administrações Clinton e Bush esperavam servir-se dos talibãs para estabelecer um regime fantoche no país, à maneira do seu benfeitor saudita. A esperança vã e manifestamente infundada era de que um governo taliban assegurasse a estabilidade necessária para instalar uma canalização trans-afegã (TAPI) e encaminhar o gás da Ásia central para a Ásia do Sul, contornando ao mesmo tempo a Rússia, a China e o Irão.
Estas esperanças foram destruídas três meses antes do 11 de Setembro, quando os talibãs rejeitaram as propostas americanas. O projeto (TAPI) foi bloqueado seguidamente devido ao controlo intransigente de Kandahar e Quetta pelos talibãs; contudo, este projecto está doravante em vias de acabamento sob a direcção da administração Obama.
No Kosovo
Mark Curtis indica que a NATO continuou a patrocinar as redes filiadas à al-Qaeda no Kosovo no final dos anos 1990, quando as forças especiais americanas e britânicas forneceram em armas e formaram os rebeldes do Exército de libertação do Kosovo (UÇK), entre as quais figuravam recrutamentos moudjahidines. Estes efectivos contavam com uma célula rebelde dirigida por Mohammed al-Zaouahiri, irmão do braço direito de bin Laden, Ayman al-Zaouahiri, que é doravante o líder de al-Qaeda.
No mesmo período, Osama bin Laden e Ayman al-Zaouahiri coordenaram os atentados de 1998 contra as embaixadas americanas no Quénia e na Tanzânia a partir do escritório de bin Laden em Londres.
Havia contudo algumas boas notícias: as intervenções da NATO nos Balcãs, conjugadas à desintegração da Jugoslávia socialista, abriram a via à integração da região na Europa ocidental, à privatização dos mercados locais e ao estabelecimento de novos regimes em prol do projecto de canalização trans-Balcãs, destinado a transportar o petróleo e o gás da Ásia central para o Ocidente.
Uma reorientação da política no Médio Oriente
Mesmo após os atentados do 11 de Setembro 2001 e do de 7 de Julho 2005, a dependência dos Americanos e dos Britânicos dos combustíveis fósseis baratos para apoiar a expansão capitalista mundial levou-os a aprofundar esta aliança com os extremistas.
Por volta de meados da última década, os serviços de informação militar anglo-americanos começaram a supervisionar os financiamentos trazidos pelos Estados do Golfo, efectuados uma vez mais pela Arábia Saudita, para as redes extremistas islamitas, através do Médio Oriente e da Ásia central, para se oporem à influência chiita iraniana na região. Entre os beneficiários desta empresa figuravam grupos militantes e extremistas filiados à al-Qaeda do Iraque ao Líbano passando pela Síria, ou seja um verdadeiro arco do terrorismo islamita.
Uma vez mais, os militantes islamitas foram involuntariamente mantidos como agentes da hegemonia americana face aos rivais geopolíticos emergentes.
Comme Seymour Hersh o revelou no New Yorker em 2007, esta “reorientação” da política consistia em enfraquecer não somente o Irão, mas também a Síria, onde as larguezas dos Estados Unidos e da Arábia Saudita contribuíram para apoiar os Irmãos muçulmanos sírios, entre outros grupos de oposição. Evidentemente, o Irão e a Síria estavam alinhados estreitamente com a Rússia e a China.
Na Líbia
Em 2011, a intervenção militar da NATO para derrubar o regime de Kadhafi travou o passo ao importante apoio que estava a ser dado aos mercenários líbios, que eram com efeito membros do ramo oficial de al-Qaeda na Líbia. A França ter-se-ia visto propor o controlo de 35 % dos recursos petrolíferos da Líbia em troca do seu apoio aos insurrectos.
Após a intervenção, os gigantes petrolíferos europeus, britânicos e americanos estavam “perfeitamente prontos para tirar proveito” “das oportunidades comerciais”, de acordo com David Anderson, professor na universidade de Oxford. Os contratos suculentos assinados com os membros da NATO puderam “libertar a Europa Ocidental da influência dos produtores russos que praticam preços elevados e dominam actualmente o seu abastecimento de gás”.
Relatórios secretos estabelecidos pelos serviços de informação mostraram que os rebeldes sustentados pela NATO mantinham relações estreitas com al-Qaeda. A CIA serviu-se igualmente dos militantes islamitas na Líbia para encaminhar armas pesadas para os rebeldes do país.
Um relatório de 2009 dos serviços de informação canadianos descreve o bastião rebelde do leste da Líbia como “um epicentro do extremismo islamita”, a partir do qual “as células extremistas” agiam na região. De acordo com David Pugliese, cujos propósitos são retomados na Ottawa Citizen, é esta mesma região que “era defendida por uma coligação da NATO dirigida pelo Canadá”. De acordo com David Pugliese, o relatório dos serviços de informação confirmou que “vários grupos de insurrectos islamitas” tinham a sua base no leste da Líbia e que muitos destes grupos “exortaram igualmente os seus partidários a combater no Iraque”. Os pilotos canadianos gracejavam mesmo em privado, dizendo-se que faziam parte do exército do ar de al-Qaeda “na medida em que as suas missões de bombardeamento contribuíram para abrir a via aos rebeldes alinhados com o grupo terrorista”.De acordo com Pugliese, os especialistas dos serviços de informação canadianos enviaram um relatório premonitório à atenção dos oficiais superiores da NATO datado do 15 de Março de 2011, a alguns dias apenas antes do início da intervenção. “É cada vez mais possível que a situação na Líbia se transforme numa guerra tribal/civil a longo prazo, escreveu. Isto é particularmente provável se as forças de oposição receberem uma assistência militar por parte de exércitos estrangeiros.”
Como todos nós sabemos, a intervenção teve mesmo assim lugar.
Na Síria
Durante os cinco últimos anos pelo menos, a Arábia Saudita, o Catar, os Emirados árabes Unidos, a Jordânia e a Turquia, todos eles deram um apoio financeiro e militar considerável às redes militantes islamitas ligadas à al-Qaeda que geraram “o Estado islâmico” que conhecemos hoje. Este apoio foi trazido no âmbito de uma campanha anti- Assad cada vez mais intensa dirigida pelos Estados Unidos.
A concorrência para dominar os traçados potenciais das canalizações regionais que passam pela Síria e controlar os recursos inexplorados em combustíveis fósseis na Síria e no Mar Mediterrâneo oriental (em detrimento da Rússia e da China) contribuiu fortemente para fundamentar esta estratégia.
Roland Dumas, antigo ministro francês dos Negócios Estrangeiros, revelou em 2009 que os responsáveis do ministério britânico dos Negócios Estrangeiros lhe tinham indicado que as forças britânicas estavam eram já activas na Síria para tentar fomentar a rebelião.
A operação que se prossegue actualmente foi controlada estreitamente no âmbito de um programa secreto ainda e sempre em curso, coordenado conjuntamente pelos serviços de informação militar americana, britânicos, franceses e israelitas. Relatórios públicos confirmam que no final de 2014, o apoio trazido pelos Estados Unidos aos combatentes que lutam contra Assad situava-se, só este, em cerca de 2 mil milhões de dólares.
Este apoio aos extremistas islamitas é considerado geralmente como um erro, e os factos falam por si-mesmos. De acordo com avaliações classificadas da CIA, os serviços de informação americanos sabiam que o apoio dado aos rebeldes anti-Assad dirigido pelos Estados Unidos através dos seus aliados no Médio Oriente acaba sempre nas mãos dos extremistas mais virulentos. Contudo, continuou.
No ano anterior ao do lançamento da campanha do Estado islâmico para conquistar o interior do Iraque, os responsáveis do Pentágono estavam igualmente conscientes que a grande maioria dos rebeldes “os moderados” do Exército sírio livre (ASL) era com efeito conctituida de militantes islamitas. Assim como o reconheceram os responsáveis, era cada vez mais impossível estabelecer uma fronteira clara entre os rebeldes ditos “moderados” e os extremistas ligados à al-Qaeda ou ao Estado islâmico devido à fluidez das interacções que existem entre estas duas componentes.
Cada vez mais, os combatentes frustrados do ASL juntaram-se às filas dos militantes islamitas na Síria, não por razões ideológicas mas simplesmente devido à sua maior força militar. Até agora, a quase totalidade dos grupos ditos rebeldes “moderados” formados e recentemente armados pelos Estados Unidos estão em vias de dissolução ou de defecção, e os seus membros não deixam de passar do lado de al-Qaïda e do Estado islâmico na luta contra Assad.
Na Turquia
Graças a um novo acordo com a Turquia, os Estados Unidos coordenam actualmente o abastecimento contínuo em ajuda militar aos rebeldes “os moderados” para combater o Estado islâmico. No entanto, não é um segredo para ninguém que durante todo este período, a Turquia patrocinou directamente al-Qaeda e o Estado islâmico no âmbito de uma operação geopolítica destinada a esmagar os grupos de oposição curdos e a fazer cair Assad.
Fez-se grande caso dos esforços “afrouxados” da Turquia para impedir a travessia do seu território pelos combatentes estrangeiros que se desejam juntar ao Estado islâmico na Síria. Ancara recentemente tem respondido anunciando ter impedido vários milhares deles.
Estas afirmações são imaginárias: a Turquia protegeu deliberadamente e encaminhou o apoio trazido ao Estado islâmico e à al-Qaeda na Síria.
No verão passado, o jornalista turco Denis Kahraman entrevistou um combatente do Estado islâmico que recebe um tratamento médico na Turquia; este último disse-lhe: “A Turquia abriu-nos a via. Se a Turquia não tivesse feito prova de tanta compreensão a nosso respeito, o Estado islâmico não seria onde está actualmente. [A Turquia] manifestou muita afeição a nosso respeito. Um grande número dos nossos moudjahidines [djihadistes] recebeu um tratamento médico na Turquia.”
Mais cedo neste ano, os documentos oficiais do exército turco (o Comando geral do posto da guarda) divulgados em linha e autenticados revelaram que os serviços de informação turcos (MIT) tinham sido surpreendidos por oficiais militares à Adana enquanto estavam a transportar para os camiões os mísseis, os morteiros e as munições anti-aérias “com destino à organização terrorista al-Qaïda” na Síria.
Os rebeldes “moderados” do ASL estão implicados na rede de apoio turco-islamita patrocinada pelo MIT. Um deles explicou ao Telegraph que “gere doravante refúgios na Turquia que alojam combatentes estrangeiros que procuram juntar-se a Front al-Nosra e [ao Estado islâmico]”.
Responsáveis políticos procuraram chamar a atenção sobre este assunto, mas em vão. No ano passado , Claudia Roth, Vice-Presidente do Parlamento alemão, ficou grandemente consternada face ao facto que a NATO autorizava a Turquia a proteger um campo do Estado islâmico em Istambul, a facilitar as transferências de armas com destino aos militantes islamitas através das suas fronteiras, e apoiar tacitamente as vendas de petróleo do Estado islâmico. Não se passou nada.
A coligação conduzida pelos Estados Unidos contra o Estado islâmico financia o Estado islâmico
Os Estados Unidos e a Grã-Bretanha não somente permaneceram estranhamente silenciosos em face da cumplicidade do seu parceiro de coligação que apadrinha o seu inimigo. Pelo contrário, reforçaram a sua parceria com a Turquia e cooperam fortemente com este mesmo Estado-benfeitor do Estado islâmico para formar os rebeldes “moderados” a fim de lutar contra o Estado islâmico.
Não é unicamente a Turquia que está causa. No ano passado, o Vice-Presidente americano Joe Biden indicou aquando de uma conferência de imprensa à Casa Branca que a Arábia Saudita, os Emirados árabes unidos, o Catar e a Turquia, designadamente, forneciam “centena de milhões de dólares e dezenas de milhares de toneladas de armas” “aos elementos jihadistas extremistas de Front al-Nosra e de al-Qaeda” no âmbito “de uma guerra por procuração entre sunitas e chiitas”. Biden acrescentou que era impossível, de todos os pontos de vista, identificar os rebeldes “moderados” na Síria.
Nada indica que este financiamento se esgotou. Não mais tarde que em Setembro de 2014, mesmo quando os Estados Unidos começaram a coordenar os raides aéreos contra o Estado islâmico, os responsáveis do Pentágono revelaram que sabiam que os seus próprios aliados da coligação financiavam sempre o Estado islâmico.
Neste mesmo mês, o general Martin Dempsey, chefe de Estado-maior dos exércitos dos Estados Unidos, foi interrogado pelo senador Lindsay Graham aquando de uma audiência do Comité das forças armadas do Senado. Quando este último lhe perguntou se conhecia “um principal aliado árabe que abraçava a ideologia [do Estado islâmico]”, o interessado respondeu: “Conheço vários grandes aliados árabes que o financiam. ”
Apesar disso, o governo americano não somente recusou sancionar os aliados em questão mas recompensou-os incluindo-os na coligação que é suposto combater esta mesma entidade extremista que eles financiam. Pior ainda, estes mesmos aliados continuam a ver ser-lhes atribuído uma grande margem de operação de manobra na selecção dos combatentes chamados para ser formados.
Membros chave da nossa coligação contra o Estado islâmico bombardeiam o Estado islâmico por via aérea patrocinando ao mesmo tempo o grupo nos bastidores o que é visto e sabido pelo Pentágono.
(continua)
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Nafeez Ahmed, Islamic State is the cancer of modern capitalism. Texto disponível em:
http://www.middleeasteye.net/columns/cancer-modern-capitalism-1323585268
Este texto foi publicado em Middle East Eye e encontra-se disponível na versão francesa em Les-crises.fr com o título L’Etat islamique, cancer du capitalisme moderne, no seguinte endereço :
https://www.les-crises.fr/letat-islamique-cancer-du-capitalisme-moderne-par-nafeez-ahmed/
Biografia de Nafeez Ahmed
Nafeez Ahmed, PhD, is an investigative journalist, international security scholar and best-selling author who tracks what he calls the ‘crisis of civilization’. He is a winner of the Project Censored Award for Outstanding Investigative Journalism for his Guardian reporting on the intersection of global ecological, energy and economic crises with regional geopolitics and conflicts. He has also written for The Independent, Sydney Morning Herald, The Age, The Scotsman, Foreign Policy, The Atlantic, Quartz, Prospect, New Statesman, Le Monde diplomatique, New Internationalist. His work on the root causes and covert operations linked to international terrorism officially contributed to the 9/11 Commission and the 7/7 Coroner’s Inquest.
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