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Vencido o golpe, resta a lição: fazer política
"O governo pode ter vencido, temporariamente, o golpe,
mas o apagão político e comunicacional ainda não foi superado",
diz o jornalista Miguel do Rosário, em artigo publicado no
Tijolaço; segundo ele, "basta pôr de lado os convencionalismos,
os formalismos, os discursos cerimoniais, a agenda burocrática, e
se concentrar exclusivamente numa agenda política e
comunicacional feita com os mais modernos recursos da
tecnologia moderna"
Os jornalões amanheceram prudentes. A capa da Folha de
hoje joga água na fervura.
Só o fato dos jornalões darem esse tipo de notícia, num
cenário midiático geralmente de oposição histérica e
manipulação sistemática da informação, já mostra uma
mudança de rumos. Ao menos temporariamente.
Todo o sistema oligárquico pareceu recuar fortemente nos
últimos dias, após análise de último minuto das trágicas
consequências de um golpe de Estado para a democracia
brasileira.
Boletim de alguma consultoria séria, provavelmente
estrangeira, deve ter circulado nos altos escalões do poder
econômico: bancos, indústrias e mídia, com previsões
catastróficas de um golpe para a imagem do Brasil lá fora
e para a economia aqui dentro.
Protestos, greves, revolta, cenário de guerra civil.
O presidente da CUT, ao falar que pegaríamos em armas e
iríamos todos às ruas defender a democracia, usou uma
metáfora.
Mas também falou uma verdade literal.
Derrubar o poder do voto, depois de uma campanha tão
difícil em 2014, seria uma profunda ofensa para milhões de
brasileiros que se deram ao trabalho de fazer campanha e votar.
Seria humilhante para os 54 milhões de eleitores de Dilma
Rousseff.
E a humilhação é um péssimo conselheiro.
54 milhões de humilhados, então, seriam um barril com
54 milhões de toneladas de pólvora.
Agora é importante que a sociedade civil organizada,
os setores do governo, e todo o campo progressista e
popular não se deixe iludir com esse recuo das oligarquias.
Evidentemente, trata-se de estratégia.
Fizeram um cálculo e constataram que um golpe machucaria
seus bolsos. Então vão tentar usurpar o poder de outra maneira.
O governo tem de entender que a melhor defesa é o ataque.
E que esse recuo das oligarquias é a sua oportunidade de reagir.
Seria uma colossal estupidez voltar a enfiar a cabeça num buraco.
É hora das grandes agendas positivas, e voltadas sobretudo
para o campo progressista e popular.
Inaugurar casas populares é legal, mas isso pode ficar por
conta de ministros. A presidenta precisa tomar as rédeas das
grandes narrativas políticas e ideológicas.
Com verve e inteligência, com discursos bem escritos, com
uma assessoria de comunicação eficaz, a presidenta poderia
recuperar sua liderança política e ajudar o governo na sempre
dificílima missão de gerenciar expectativas, ou seja, de fazer a
mediação entre as utopias e as realizações possíveis.
Todos continuam reclamando muito da falta de horizontes.
O governo corta verbas de bolsas estudantis, por exemplo, mas
não sinaliza quando haverá recomposição. Com isso, deixa seus
defensores nos sindicatos rendidos, sem discurso.
A sociedade precisa de algo a que se agarrar para não
sucumbir às tempestades de más notícias da mídia brasileira.
O governo pode ter vencido, temporariamente, o golpe, mas
o apagão político e comunicacional ainda não foi superado.
As dificuldades orais de Dilma precisam ser superadas através
do uso da palavra escrita. Por que Dilma não assina artigos e
os divulga via redes sociais? Por que não faz discursos diários
para veicular em seu blog?
Por que não organiza conversas públicas, com empresários,
sindicalistas, jornalistas, ativistas, parlamentares, para veicular
na internet?
É importante que Dilma se exponha em eventos públicos, mas
se ela é tímida e tem dificuldade para discursar em palanques,
porque não faz eventos mais fechados, mais organizados, voltados
para a internet?
Por que o governo federal não lança aplicativos voltados
especialmente para as atividades, escritos, discursos e entrevistas da presidenta?
O problema do governo está extremamente concentrado
na figura de Dilma Rousseff. Isso tem um lado ruim, que é
jogar peso demais numa pessoa, mas também possui um lado
bom.
O lado bom é que bastaria melhorar a imagem de Dilma, e
melhoraríamos a imagem do governo.
Para isso, basta pôr de lado os convencionalismos, os
formalismos, os discursos cerimoniais, a agenda
burocrática, e se concentrar exclusivamente numa agenda política
e comunicacional feita com os mais modernos recursos
da tecnologia moderna.
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