por João Céu e Silva
Fotografia © Orlando Almeida / Global Imagens
A definição mais sucinta sobre António Borges Coelho pode ser a de que nasceu em Murça em 1928 e é historiador. Mas quem não ficar satisfeito com esse resumo insignificante pode saber que também é poeta e dramaturgo. Que publicou bastantes volumes sobre História medieval e o início da Idade Moderna.
E que em resposta à quase inexistência de estudos sobre ocupação muçulmana da Península Ibérica se dedicou bastante ao tema. Ainda que a sua investigação sobre a Inquisição portuguesa alterou para sempre o modo como se via a instituição.
Há quem só o conheça desde que decidiu voltar à vida académica em idade avançada, aos 50 anos, na Faculdade de Letras de Lisboa. Há também quem não se esqueça da sua vida política e dos tempos de clandestino e de preso político. Contribuiu então para mudar o olhar sobre a Revolução de 1383 e, preocupado com a questão filosófica, não ignorou o estudo profundo de Leibniz e de Espinosa.
Foi professor catedrático da Faculdade de Letras de Lisboa, diretor do Centro de História da Universidade de Lisboa, diretor da Revista de História da Sociedade e da Cultura, entre vários cargos, depois de ter exercido jornalismo em A Capital, Diário de Lisboa e Diário Popular, e de ter colaborado nas revistas Vértice e Seara Nova. O seu mais recente trabalho de investigação trata do período em que Portugal perde a independência, 1580 a 1640, em que faz uma reconstituição histórica que surpreende pela riqueza de pormenores e clareza de explicação. Com este volume intitulado Os Filipes, além da descrição exaustiva da oposição à integração nacional na dominação de Castela, permite observar-se o paralelo histórico entre uma época passada e a atualidade, com a diminuição do peso do Estado nacional perante a União Europeia.
Preferia ter sido um cronista como Fernão Lopes ou um historiador na atualidade?
Digamos que o historiador da atualidade tem de ser também o cronista Fernão Lopes. Que não é apenas um cronista pois mete-se por caminhos que são os que hoje exploramos. Vai para o quotidiano; não exclui nenhum grupo social, o que por vezes mesmo na historiografia contemporânea não se faz, deixando setores da população num gueto. O foco está sempre nas elites, como se fossem tudo no processo e no movimento histórico.
E no Fernão Lopes não faltava a arraia-miúda!
A arraia-miúda tem um papel fundamental, tal como Lisboa tem também um papel fundamental. Aliás, Lisboa, ao longo da história portuguesa, teve um papel determinante até ao século XX e só hoje está a perder parte desse papel. Por ter diminuído população e dinamismo, Lisboa deixou de ser o centro clássico.
Está a perder para outras cidades do país ou para a Europa?
Está a perder para a Europa, isso é nítido. Também começaram a surgir, embora ainda muito limitadamente, outros espaços em Portugal nos últimos anos. Braga, por exemplo, embora fosse a sede de um arcebispado que queria disputar o poder a Toledo, era um povoado muito fraco do ponto de vista populacional.
Preferia ter sido um cronista como Fernão Lopes ou um historiador na atualidade?
Digamos que o historiador da atualidade tem de ser também o cronista Fernão Lopes. Que não é apenas um cronista pois mete-se por caminhos que são os que hoje exploramos. Vai para o quotidiano; não exclui nenhum grupo social, o que por vezes mesmo na historiografia contemporânea não se faz, deixando setores da população num gueto. O foco está sempre nas elites, como se fossem tudo no processo e no movimento histórico.
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