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segunda-feira, 17 de agosto de 2015

CONTOS FAMOSOS DE HANS CHRISTIAN ANDERSEN

 Hans Christian Andersen

Era uma vez um mercador, que era tão rico que podia calcetar toda a rua, e quase uma ruelazinha ainda, com moedas de prata. Mas não o fez, sabia empregar o seu dinheiro de outro modo e se despendia um xelim, recebia um táler em troca. Assim era o mercador…e assim morreu.
O filho ficou então com todo esse dinheiro e levou a vida a divertir-se. Foi todas as noites a mascaradas, armou papagaios com as notas de táleres e fez saltitar sobre a superfície do mar moedas de ouro em vez de pedrinhas. Bem podia o dinheiro sumir-se e assim sucedeu. Por fim não possuía mais do que quatro xelins e não tinha outra roupa senão um velho roupão e um par de pantufas. Então não se importaram mais os amigos com ele, pois já não podiam ir juntos para a rua; mas um deles, que era bom, mandou-lhe uma velha arca e disse: - Enche-a! – Sim, estava tudo muito bem, mas ele não tinha nada para a encher e assim sentou-se ele próprio na arca.


Era uma arca cómica. Logo que se premia a fechadura, a arca punha-se a voar. Foi isso que fez, bumba!, voou com ele por aí acima através da chaminé, alto por sobre as nuvens, cada vez mais longe. Rangia no fundo e ele estava com medo de que se fizesse em pedaços, pois sendo assim vinha a dar um bem bonito salto. Deus nos livre disso! E chegou à terra dos turcos. A arca, escondeu-a no bosque, sob folhas murchas e dirigiu-se à cidade. Bem o podia fazer, pois os turcos andam todos como ele, em roupão e pantufas. Encontrou assim uma ama com uma criancinha.
- Ouve, ama de turcos! – disse ele. – Que palácio é este grande, junto à cidade? As janelas são tão altas!
- Mora lá a filha do rei! – disse ela. – Foi-lhe profetizado que seria infeliz por causa de um namorado e por isso ninguém pode aproximar-se dela, sem o rei e a rainha estarem na sua companhia!
- Obrigado! – disse o filho do mercador e foi depois para o bosque, sentou-se na arca, voou para o telhado e deslizando entrou pela janela do aposento em que estava a princesa.
Estava deitada no sofá a dormir. Era tão bonita que o filho do mercador teve de a beijar. Ela acordou e ficou muito assustada, mas ele disse que era o deus dos turcos que tinha descido pelo ar e isso pareceu-lhe bem a ela.


Sentaram-se assim ao lado um do outro e ele contou-lhe histórias sobre os olhos dela, que eram os mais lindos lagos de tons escuros em que os pensamentos nadavam como sereias. E falou-lhe da sua testa que era uma montanha de neve com as mais belas grutas e figuras e contou-lhe de como as cegonhas trazem os bebés.
Oh! Eram histórias bem bonitas! Assim se declarou à princesa e ela disse logo que sim.
- Mas tem de vir aqui no sábado – disse ela. – O rei e a rainha estão comigo para o chá. Ficarão muito orgulhosos de eu receber o deus dos turcos, mas veja se sabe uma história verdadeiramente bonita, pois os meus pais gostam muito de histórias. A minha mãe gosta que elas sejam morais e finas e meu pai divertidas, para se rir!
- Sim, não trago outro presente de noivado senão uma história! – disse ele. E então separaram-se, mas a princesa deu-lhe um sabre, incrustado com moedas de ouro e, a estas, bem sabia como utilizá-las.
Voou lá para fora, comprou um roupão novo e sentou-se no bosque a compor uma história que teria de ficar pronta até sábado. E fácil não era.


Ficou por fim pronta e chegou o sábado.
O rei e a rainha e toda a corte esperavam, convidados para o chá da princesa. Ele foi admiravelmente bem recebido!
- Quer então contar uma história? – disse a rainha. – Uma que seja de sentido profundo e instrutivo!
- Mas que faça também rir! – disse o rei.
- Certamente! – disse ele e começou a contar. Temos de ouvi-la bem!
Era uma vez um pacote de fósforos, extraordinariamente orgulhoso pelo facto de ser de alta estirpe. A sua árvore genealógica, quer dizer, o grande abeto, de que eram um pedacinho, tinha sido uma grande árvore antiga do bosque. Os fósforos estavam agora na prateleira entre um isqueiro e uma velha panela de ferro e entre si contavam histórias da juventude. – Sim, quando estávamos no ramo verde! – diziam eles. – Estávamos então verdadeiramente num ramo verde! Todas as manhãs e todas as noites chá de diamantes, que era o orvalho. Todos os dias tínhamos luz do sol, quando o sol brilhava e todas aves vinham contar-nos histórias. Bem podíamos aperceber-nos de que éramos ricos, pois as árvores de folha caduca só estavam vestidas no Verão, mas a nossa família possuía meios para ter vestuário verde tanto no Verão como no Inverno. Vieram então os lenhadores, foi a grande revolução e a nossa família dispersou-se. O tronco obteve um lugar no mastro real num belo navio que podia navegar à volta do mundo, se quisesse. Os outros ramos foram para outros lugares e nós temos agora a tarefa de acender a luz para a arraia-miúda. Por isso somos gente distinta vinda parar aqui, à cozinha.
- Sim, comigo passa-se de outro modo! – disse a panela de ferro, ao lado da qual estavam os fósforos. – Desde que vim ao mundo que sou esfregada e posta ao lume continuamente! Cuido dos alimentos sólidos e sou, a nem dizer, a coisa primeira aqui em casa. A minha única alegria é, depois da refeição, ficar aqui limpa e bonita na prateleira e ter uma conversa razoada com os camaradas. Mas, se exceptuarmos o balde de água que, uma vez por outra, desce ao jardim, vivemos sempre dentro de portas. O nosso único porta-novas é o cesto de compras, mas ele fala tão violentamente contra governo e o povo! Sim, outro dia até um velho pote caiu lá de cima, de medo, e desfez-se em pedaços! Tem cá umas ideias! Vou-vos dizer! – Agora está a falar demais! – disse o isqueiro e o aço bateu na pederneira de modo que faiscou. – Não queremos ter uma noite agradável?
- Sim, falemos sobre aquele de nós que é o mais distinto! – disseram os fósforos.
- Não, não gosto de falar de mim…– disse a panela de ferro. – Façamos uma espécie de serão! Começo eu. Vou contar-lhes algo que cada um já viveu. Podem compreender melhor a situação e é mais agradável. Junto ao Báltico, nas baías dinamarquesas…
- É um lindo começo! – disseram todos os pratos. – Vai ser certamente uma história de que se irá gostar.
- Sim, aí passei a minha juventude, em casa de uma família tranquila. Os móveis eram polidos, o chão esfregado e havia cortinas lavadas todos os quinze dias!
- Como conta isso de modo tão interessante! – disse o espanador. – Pode-se perceber logo que o narrador é feminino. Há em tudo algo de asseado!
- Sim, sente-se isso! – disse o balde de água e deu assim, de alegria, um saltinho, de modo que fez “clatch” no chão.
E a panela continuou a contar e o fim foi tão bom como o princípio.
Todos os pratos matraquearam de alegria e o espanador foi buscar salsa verde do buraco de areia e coroou a panela, pois sabia que isso aborreceria os outros e pensou “se a coroo hoje, vai coroar-me ela amanhã”.
- Agora vou dançar! – disse a tenaz e dançou. Deus meu! Como sabia pôr uma perna no ar! O velho pano que cobria a cadeira ao canto rasgou-se ao vê-la. – Posso ser coroada? – perguntou a tenaz. E foi-o.
“É populaça da pior!” pensaram os fósforos.
Agora era a vez de o samovar cantar, mas estava resfriado, disse ele, não o podia fazer sem estar a ferver. Era, porém, simples delicadeza. Não queria cantar, senão quando se encontrava à mesa dos senhores.
Na janela estava uma velha pena, com a qual a criada costumava escrever. Nada havia de notável nela, senão que fora mergulhada demasiado fundo no tinteiro e por isso se julgava grande. – Se o samovar não quer cantar – disse ela – deixá-lo! Lá fora, numa gaiola, está um rouxinol que sabe cantar. Verdadeiramente, não estudou nada, mas não queremos malzizer esta noite, pois não ?!
- Acho muito impróprio – disse a chaleira que era a cantora da cozinha e meia-irmã do samovar – que se tenha de ouvir um pássaro estrangeiro! Isso é patriótico? Quero ouvir a opinião do cesto de compras!
- Estou simplesmente desgostoso! – disse o cesto de compras. – Estou tão interiormente desgostosos como ninguém pode imaginar! Isto é maneira própria de passar a noite? Não seria mais acertado dar uma boa volta pela casa? Cada um iria para o seu lugar e eu dirigiria a confusão. Sempre seria outra coisa!
- Sim, façamos algazarra! – disseram todos. Nesse momento, a porta abriu-se. Era a criada. Ficaram todos quietos. Nenhum tugiu nem mugiu. Mas não havia panela alguma que não soubesse a sua valia e como era distinta.
“Sim, se tivesse querido”, pensavam elas, “teria sido verdadeiramente uma noite divertida!”
A criada pegou nos fósforos, fez fogo com eles. Deus meu! Como faiscaram e flamejaram!
“Agora podem todos ver”, pensaram eles, “que somos os primeiros! Que brilho temos! Que luz!” Mas, assim, arderam completamente.



- Foi uma bela história! – disse a rainha. – Senti-me perfeitamente na cozinha com os fósforos. Sim, vais ter a nossa filha!
- Certamente! – disse o rei. – Vais ter a nossa filha na segunda-feira! – Agora tratavam-no por “tu” pois ia ser da família.
A data da boda foi fixada e na noite anterior toda a cidade foi iluminada. Bolos e biscoitos voaram ao desbarato. Os rapazes da rua punham-se em bicos de pés, davam hurras e assobiavam com os dedos. Foi uma maravilha.
“Sim, tenho de ver se faço também alguma coisa”, pensou o filho do mercador. E comprou foguetes, estalinhos e todo o fogo de artifício que se podia imaginar. Carregou-o na arca e voou pelo ar.
Rutch! Como saltava! E como flamejava!
Todos os turcos deram pulos de contentes, de modo que as pantufas voaram-lhes até às orelhas. Um espectáculo do céu, assim, nunca se tinha visto. Agora podiam bem compreender que era o próprio deus dos turcos que ia casar com a princesa.
Logo que o filho do mercador desceu de novo com a sua arca ao bosque, pensou: “Quero ir agora à cidade para ouvir contar como viram o espectáculo!” E era bem natural que tivesse vontade disso.
Oh! O que contavam! Cada uma das pessoas a quem perguntou, tinha-o visto a seu modo, mas bonito tinha sido para todas.
- Eu vi o próprio deus dos turcos – disse uma. – Tinha os olhos como estrelas brilhantes e barba como água espumante!
- Voava com uma capa de fogo – disse outra. – Os mais lindos anjinhos espreitavam de dentro das pregas.
Sim, foram coisas bonitas que ouviu e no dia seguinte seriam as bodas.

Então voltou ao bosque para se sentar na sua arca… mas onde estava ela? A arca ardera completamente. Uma fagulha do fogo de artifício tinha ficado lá, dentro e ateara o fogo. Agora, a arca era cinza. Não podia voar mais. Não mais voltar para junto da noiva.

Ficou todo o dia no telhado à espera, está ainda à espera. Mas ele corre mundo e conta histórias. Não são já, contudo, tão divertidas como a que contou sobre o pacote de fósforos.

Hans Christian Andersen, “A arca voadora”, In Os Cisnes Selvagens e Outros Contos, Lisboa, Editorial Estampa, 2003, pp. 77-83.

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