Quando todos fingem que o euro pode sobreviver
Nos últimos anos, o clamor dos protestos contra a austeridade não produziu mais que um fechar de olhos da UE à derrapagem no cumprimento dos objectivos do Tratado Orçamental, aliás uma forma de amaciar os efeitos perversos da política adoptada. Já as expectativas dos especuladores quanto ao reembolso dos seus créditos mereceu a maior atenção. Temendo o efeito bancarrota de uma deflação instalada, os "mercados" clamaram por uma intervenção do BCE (QE - Quantitative Easing) para que compre em larga escala títulos de dívida pública na posse dos bancos. Hoje quase todos os observadores qualificados assumem que esta intervenção não tem condições para salvar a zona euro [ver Richard Koo]. Em primeiro lugar, porque o aumento da liquidez na posse dos bancos não se converte automaticamente em aumento do crédito às empresas e famílias num tempo de grande incerteza. Ou seja, não se traduz num aumento de procura efectiva capaz de fazer subir os preços. Ainda assim, nas instituições da UE todos fingem que esta é a grande arma que vai travar a implosão do euro.
Em segundo lugar, os bancos não vão guardar a liquidez em depósitos no BCE porque teriam de pagar juros, em vez de receber. Também não vão ficar com ela imobilizada. Vão aplicá-la em activos de natureza diversa, o que alimentará bolhas especulativas na bolsa e no imobiliário, na Europa e noutros continentes. Temendo o afluxo em grande escala de mais euros, a Suíça e a Dinamarca já anteciparam medidas defensivas. Assim, em resultado da saída de capitais, o euro está a desvalorizar a um ritmo considerável, de que resultará o agravamento do excedente comercial da Alemanha e a agudização da guerra global de moedas já em curso. Ainda assim, a Alemanha vive na ilusão de que todos os países podem ter excedentes, assim se esforcem.
Em terceiro lugar, o clamor da opinião pública alemã e seus partidos maioritários contra a execução de um QE numa escala significativa vai gerar receios nos mercados financeiros quanto à viabilidade do euro, dados os efeitos colaterais que terá na esfera jurídica. É importante não esquecer que as decisões do Tribunal Constitucional alemão vinculam as instituições alemãs, incluindo os representantes do Bundesbank no BCE, mesmo que o Tribunal de Justiça da UE considere que o QE é compatível com os Tratados da UE. Que fique bem claro para os europeístas lunáticos: a Alemanha cumpre as normas europeias, mas apenas na medida em que são compatíveis com a sua Constituição. Na verdade, não haveria riscos para o contribuinte alemão com a compra de dívida dos países da periferia feita pelo BCE, dado que se trata do banco emissor da moeda. Ainda assim, os contribuintes alemães acreditam que um banco central pode ir à falência e boa parte das elites alemãs partilha essa ignorância, ou pelo menos finge bem.
Num contexto em que ninguém ao mais alto nível quer enfrentar o problema da inviabilidade da moeda única, resta esperar uma resposta corajosa do povo grego à chantagem a que foi sujeito nas últimas semanas. E esperar também que o Syriza esteja à altura do desafio que lançou à Alemanha. Afinal de contas, a crise do euro é sobretudo uma crise política que dramaticamente tarda em chegar ao fim.
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