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quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

China, um parceiro a não imitar - A China tem passado por sucessivos períodos de transformação anticapitalista, adaptação comercial e formação de uma classe dominante. A dinâmica da acumulação, da desigualdade e do trabalho precário ilustra uma avançada etapa de restauração capitalista. Mas esta regressão não é definitiva pelos desequilíbrios que gera e pelas resistências sociais que enfrenta. Este factor introduz uma diferença comparativamente ao que se passou na antiga URSS.

China, um parceiro a não imitar

China, um parceiro a não imitar1

por Claudio Katz*/Argenpress




"Os teóricos do “socialismo de mercado” reivindicam a acelerada industrialização e o desenvolvimento tecnológico autônomo, o que permitiu à China ter, em primeiro lugar, os resguardos defensivos necessários para enfrentar a pressão imperialista. O país construiu primeiro uma bomba atômica (1964), depois outra de hidrogênio (1970) e, finalmente, colocou um satélite no espaço (1970). Sobre estes pilares negociou a abertura ao Ocidente, a partir da icônica viagem de Nixon (1972).

Também consideram que esse período de economia planificada se esgotou e foi secundado por mecanismos de gestão mercantil que revitalizaram o socialismo, dando azo ao grande desenvolvimento das últimas décadas (Yang, 2009).

Mas este argumento confunde a extensão da gestão mercantil com a introdução de normas capitalistas. Desde os anos 90, não só se flexibilizou a mexida nos preços, mas também se afirmou a nova propriedade dos capitalistas sobre um setor importante da economia. Esta mudança de propriedade das empresas estratégicas é incompatível com qualquer perspetiva do socialismo."

A China tem passado por sucessivos períodos de transformação anticapitalista, adaptação comercial e formação de uma classe dominante. A dinâmica da acumulação, da desigualdade e do trabalho precário ilustra uma avançada etapa de restauração capitalista. Mas esta regressão não é definitiva pelos desequilíbrios que gera e pelas resistências sociais que enfrenta. Este factor introduz uma diferença comparativamente ao que se passou na antiga URSS.

O entrelaçamento com capitais estrangeiros e a estratégia de livre comércio impedem que a China forje um bloco cooperativo internacional. Mas a América Latina precisa do contrapeso dessa potência como parceiro comercial e aliado geopolítico contra a hegemonia dos Estados Unidos. Cuba introduz um importante antecedente de estratégias revolucionárias autônomas.

As reformas econômicas são discutidas em Cuba à luz da gigantesca transformação registrada na China. A nova potência asiática não é apenas um parceiro comercial de primeira ordem. Devido à sua importância econômica e relevância internacional tornou-se um importante aliado geopolítico para contrabalançar as agressões norteamericanas. Mas, numa análise de esquerda, interessa questionar a China por uma questão adicional: mantém o seu modelo atual matrizes socialistas?2

Duas diferentes etapas

A China ocupa hoje um lugar tão significativo como o alcançado pela URSS no passado. Não é somente uma economia em crescimento. A sua expansão introduziu nas últimas décadas mudanças significativas na ordem internacional.
O país já faz parte das economias centrais após multiplicar por 13 vezes o seu PIB (1978-2010). Conseguiu prosperar no meio de três grandes convulsões contemporâneas. Não foi afetado pelas décadas perdidas que arrasaram os países subdesenvolvidos nos anos 80-90, manteve-se à margem do colapso sofrido pelo bloco soviético e agiu como um salvador de bancos internacionais na recente crise de 2008 (Lo, Zhang, 2011).

O seu crescimento não começou do zero, uma vez que já tinha nos anos 80 um PIB superior a muitos dos países emergentes actuais. Mas, posteriormente, atingiu um patamar histórico que aproxima, equipara ou situa a China acima de várias potências.

É evidente a importância do acervo acumulado durante as prévias transformações anticapitalistas. Sem a industrialização, a alfabetização, a superação da fome, a modernização produtiva e a acumulação extensiva tinha sido impossível a expansão extraordinária posterior. Basta comparar estas mutações com o subdesenvolvimento continuado que, por exemplo, afectou a Índia (Amin, 2012).

Mas a incógnita reside no que aconteceu depois. Esta nova trajetória reforçou ou abandonou o projeto socialista? A tese oficial enfatiza a continuidade. O Partido Comunista continua a dirigir os destinos do país e os seus líderes declaram oficialmente a preeminência de um modelo de “socialismo de mercado”, compatível com os princípios do marxismo. Esta visão destaca a presença de elementos pós capitalistas, juntamente com as regras de acumulação e lucro vigentes na economia.

A abordagem oficial ressalta que os princípios socialistas introduzidos nos anos 50-70 foram posteriormente ajustados às necessidades de modernização. Considera que essa evolução se adapta à tradição milenar de uma civilização que tem seguido caminhos de desenvolvimento muito diferentes dos do padrão ocidental.

O diagnóstico oposto sublinha a vigência de um processo de restauração capitalista, assente na exploração do trabalho, na polarização social e na corrupção das elites (Hart-Landeberg, 2011). Outras abordagens intermédias caracterizam o processo atual como uma etapa de acumulação primitiva transitória, o que pode levar à estabilização capitalista ou à renovação do socialismo (Yi, 2009). Quem tem razão?

Para clarificar este complexo problema importa reconhecer a existência das duas diferentes situações. Entre 1978 e 1992 reintroduziu-se de forma limitada o mercado dentro de um sistema de propriedade pública. Procurava-se com isto fomentar o desenvolvimento agrícola, a expansão do consumo e a gravitação da pequena empresa, num quadro de preços parcialmente livres.

Nessa fase, registrou-se um crescimento equilibrado impulsionado pelo mercado interno e a flexibilização dos preços agrícolas. Esta mudança aumentou o poder de compra no setor rural e originou uma descompressão no setor urbano. A taxa de crescimento subiu rapidamente e o investimento foi incentivado mediante uma rigorosa seleção estatal dos setores prioritários.

Este modelo incluía alguma diferenciação social e zonas francas para as multinacionais, mas mantinha restrições compatíveis com uma construção socialista. Porém, no início dos anos 90 foi implementada uma orientação diferente. Começaram as privatizações em grande escala, a generalização dos padrões de gestão capitalista e a formação de uma classe de grandes empresários com representantes diretos nos organismos dirigentes.

Este novo regime começou com investimentos destinados ao mercado interno e fortaleceu-se privilegiando as exportações. Na última década e num cenário de crescente desigualdade e insegurança no emprego, a apropriação privada das grandes empresas cresceu.

A principal transformação social gerada por essa reconversão foi o surgimento de uma classe capitalista local, associada às empresas multinacionais e promotora de uma ideologia neoliberal. A gravitação deste setor nas altas esferas do regime político verifica-se no pragmatismo desta condução. A tradição maoísta da revolução cultural é rejeitada e os empresários são bem-vindos no partido. O pensamento de Marx e Confúcio são combinados, consoante as necessidades políticas do momento (Xie, 2009).

Nesta segunda etapa, várias características clássicas do capitalismo foram incorporadas na economia chinesa. Há competição, lucro, exploração e acumulação. A desigualdade aumenta a um ritmo mais rápido do que no resto da região e os níveis de exploração ultrapassam os da Coreia, Taiwan ou Singapura.

O alcance da restauração

Os teóricos do “socialismo de mercado” reivindicam a acelerada industrialização e o desenvolvimento tecnológico autônomo, o que permitiu à China ter, em primeiro lugar, os resguardos defensivos necessários para enfrentar a pressão imperialista. O país construiu primeiro uma bomba atômica (1964), depois outra de hidrogênio (1970) e, finalmente, colocou um satélite no espaço (1970). Sobre estes pilares negociou a abertura ao Ocidente, a partir da icônica viagem de Nixon (1972).

Também consideram que esse período de economia planificada se esgotou e foi secundado por mecanismos de gestão mercantil que revitalizaram o socialismo, dando azo ao grande desenvolvimento das últimas décadas (Yang, 2009).

Mas este argumento confunde a extensão da gestão mercantil com a introdução de normas capitalistas. Desde os anos 90, não só se flexibilizou a mexida nos preços, mas também se afirmou a nova propriedade dos capitalistas sobre um setor importante da economia. Esta mudança de propriedade das empresas estratégicas é incompatível com qualquer perspetiva do socialismo.

Uma transição rumo à sociedade igualitária pode incluir formas de gestão centralizadas ou descentralizadas, com formatos mais ou menos flexíveis de planificação. Contudo, a manutenção de classes proprietárias e de classes despojadas dos meios de produção só augura a vigência do capitalismo.

Os teóricos das misturas entre os dois sistemas afirmam que esta combinação é, de facto, consumada através de mudanças paralelas no capitalismo mundial, que teria incorporado formas do estado de bem-estar e valores de igualdade (Yang, 2009).

Porém, omitem que a tendência contemporânea predominante deste sistema tem sido diametralmente oposta. O neoliberalismo, nas últimas décadas, tem enterrado as conquistas sociais do pós-guerra, garantindo, assim, os lucros dos grandes bancos e empresas. Em vez de uma adaptação do capitalismo ao ímpeto socialista da China, ocorre um processo inverso: aumenta a gravitação dos padrões de rentabilidade e de exploração na economia asiática.

Esta incidência é inegável, mesmo para os defensores do processo em curso. Reconhecem a magnitude das diferenças de salário e esperam que seja a própria dinâmica do mercado a nivelar essas desigualdades (Yang, 2009).

Mas nunca explicam como é que esse mecanismo lograria corrigir o defeito que inseriu. A sua expetativa é inconsistente e desconhece que as brechas sociais têm origem na existência de uma nova classe capitalista interessada em manter essas diferenças.

Outras abordagens do mesmo tipo aceitam a existência de segmentos patronais mas relativizam a sua influência. Apresentam a incorporação de empresários no Partido Comunista como um sinal de patriotismo dos ricos e uma demonstração de maturidade do serviço público (Ding, 2009).

Mas, de facto, os novos capitalistas consolidam a sua posição social ao ganhar influência nas cúpulas do sistema político. Seja qual for o grau de veracidade das suas intenções patrióticas, reforçam uma fratura de classes, o que contraria os enunciados básicos do socialismo. Pode-se discutir qual o grau de intercâmbio mercantil que deve prevalecer numa sociedade pós-capitalista avançada, mas seria insólito imaginar que esse estádio incluísse a exploração, a mais-valia e altos níveis de desigualdade social.

Essas incongruências foram destacadas por muitos críticos do atual rumo, que apresentam contundentes indícios da rota da restauração. As mudanças no sistema de fixação de preços planificados são disso um exemplo. O declínio nesses números em benefício de cotações comerciais foi monumental.

O primeiro tipo de preços diminuiu de 97,8% (1978) para 2,6% (2003) para a categoria de retalho e de 100% (1978) para 10% (2003), no sector industrial. Outra evidência da mesma tendência verifica-se ao nível da perda da propriedade estatal na indústria, que decresceu de 100% (1978) para 41,9% (2003). O Estado só mantém a supremacia em cinco setores e perdeu peso nas 23 atividades mais dinâmicas (Hart-Landeberg, 2011).

Esta evolução pró-capitalista é confirmada com a erosão do tecido social gerada pelo avanço da precarização e do declínio do emprego tradicional. Dos 30 milhões de operários que foram demitidos entre 1998 e 2004, 21,8 milhões passaram a auferir o salário mínimo.

Em muitas empresas praticam-se, aliás, horários de trabalho de 11 horas, durante mais de 26 dias por mês. A superexploração afeta duramente 200 milhões de trabalhadores rurais que migraram para as cidades nos últimos 25 anos, sem alcançar autorização de residência (Hart-Landeberg, 2011).

A China colocou-se no topo dos índices de desigualdade medidos pelo coeficiente de Gini. Na região – só é superada pelo Nepal e, logo após, os Estados Unidos – alberga o maior número de bilionários do mundo. Por esta razão florescem os negócios de luxo e os “Yacht clubs”. Toda a geração de afilhados da velha liderança comunista gere as grandes empresas. É aí que a nova elite está concentrada. Basta notar que um terço das 800 pessoas mais ricas do país são membros da PCC [Partido Comunista da China – NT].

Estes dados econômicos, sociais e políticos não deixam margem para dúvidas sobre a tendência para a restauração do capitalismo que orienta a China. Os neoliberais congratulam-se com esta mudança e os heterodoxos limitam-se a apresentá-lo apenas como um momento necessário à acumulação.

Mas muitos teóricos do marxismo enfrentam este cenário com perplexidade. Alguns recorrem a malabarismos para apresentar os dados da China como sinais de modernização do socialismo. Além do desgastado argumento de sublinhar as singularidades do país (“socialismo com características chinesas”), não conseguem demonstrar como se conjuga esse sistema com a crescente hegemonia dos ricos.

A linguagem diplomática, as abstrações e a substituição do termo capitalismo por mercado, não são suficientes para disfarçar uma rota evidente. O grau de consolidação alcançado pela restauração capitalista é discutível, mas não a primazia desta tendência (Weil, 2009).

As novas resistências

Ao caracterizar a existência de dois períodos distintos – introdução do mercado numa economia planificada (1978-1992) e mudança pró-capitalista (1992-2014) – pode entender-se a natureza da transformação em curso. A passagem do primeiro modelo para o segundo marca uma rutura qualitativa, que bloqueou (ou enterrou) qualquer transição socialista.

Esta mudança não implicou apenas uma outra política econômica (de primazia do consumo para o investimento) ou do entrelaçamento do setor financeiro com o produtivo. Também não se resume a uma passagem das comunas rurais a unidades agro-industriais ou à constituição de zonas francas no litoral para produzir bens exportáveis através de investimento estrangeiro.

A modificação fulcral entre os dois períodos foi uma mudança nas regras de propriedade, o que facilitou a conversão de funcionários de elite em donos de grandes empresas. Esta mudança foi acompanhada pela concessão de mais poderes aos gestores para reorganizar as unidades de produção. Embora o elevado crescimento econômico tenha reduzido a pobreza, o esquema de profunda desigualdade em vigor impede as famílias operárias de suportar os gastos correntes de saúde e educação (Li, Piovani, 2011).

A segunda fase econômica da China foi marcada por um crescimento econômico explosivo e acompanhada por agudas manifestações de corrupção. Por esse meio, a nova classe privilegiada apropria-se de uma fatia leonina do desenvolvimento atual.

Esses grupos da alta burocracia fizeram por tolerar – durante o longo período que sucedeu à revolução – a supremacia de grandes conquistas populares, que obstruíam o seu enriquecimento. Quando alcançaram poder bastante para arrebatar essas conquistas, começou o assalto ao seu novo status capitalista. Atualmente detêm o seu poder na gestão do Estado e contam com apoio social de uma uma classe média que ascendeu socialmente, sonhando alcançar o modo de vida norte-americano (Li, 2009).

Entre os autores que destacam este nítido curso pró-capitalista muitos deixam em aberto uma definição da maturidade desta regressão. Ter-se-á inteiramente consumado a restauração, como aconteceu na Rússia ou nos países da Europa Oriental?

O carácter irreversível desta mutação é posto em causa por aqueles que questionam a solidez da nova classe capitalista. Alegam que o Estado mantém um grande poder de intervenção e uma consequente capacidade para introduzir mudanças nas tendências (Lin, 2009; Lo, Zhang, 2011).

Outros enfatizam a persistência do legado socialista na vida cotidiana e a sensibilidade (ou medo) das autoridades perante qualquer expressão de descontentamento popular. Apontam que a reacção destas elites é muito diferente do comportamento das classes opressoras no Ocidente, que acumulam séculos de experiência no exercício da sua dominação (Wang, 2009).

Finalmente, as novas resistências populares que brotaram nos últimos anos são vistas como mais um sintoma de grandes reservas de oposição ao curso capitalista, subjacentes à sociedade chinesa (Li, Li Xie, 2012).

Esta variedade de argumentos ilustra o quão complexo é definir o grau de concretização da restauração capitalista. Este processo não envolve somente transformações objetivas à escala da propriedade privada vigente, mas também mudanças drásticas ao nível de aceitação subjetiva do capitalismo. A restauração implica um processo dual de consolidação de ambos os componentes.

Na caracterização que fazemos destes processos estabelecemos cinco critérios para medir esta restauração, destacando três aspectos econômicos (preços livres, planificação reduzida, crise por acumulação), um pilar político (modalidade institucional) e um elemento social-subjetivo de resistência e defesa do ideal socialista (Katz, 2006: 72-76).

No plano econômico, as regras do capitalismo estão muito avançadas na China, tanto na forma que assume o ciclo e a gestão macroeconômica, como na gestão das empresas. Este facto é reconhecido pelos próprios defensores do modelo actual, que descrevem o comportamento de uma classe capitalista com influência preponderante sobre todas as instituições e meios de comunicação. Mas as elites mais neoliberais não dominam o aparelho do Estado na sua totalidade e os grandes desequilíbrios regionais, sociais e agrários, causados pela acumulação, põem em causa a consistência do capitalismo nascente.

O culminar deste processo é incerto, uma vez que, ao contrário do que aconteceu na URSS, a classe operária tem vindo a ganhar protagonismo. Ocorrem grandes greves que impõem concessões aos governantes. O número de protestos cresceu de 58.000 (2003) para 87.000 (2005) e 94.000 (2006). Desde 2009, o aumento destas resistências determinou uma mutação no comportamento dos líderes, que optaram por substituir a reação repressiva inicial por negociações e concessões (Yu, 2012).

Esta mudança dá-se em simultâneo com a multiplicação de correntes críticas e tomadas de posição anticapitalistas de tendências de esquerda, que exigem medidas de renacionalização e reversão das privatizações. Exigem o restauro da educação e saúde grátis e entram em choque com os que enriqueceram. (Zhu, Kotz, 2011).

Estas franjas militantes são mais influentes do que o se supõe no Ocidente. Costumam combinar reivindicações básicas com reivindicações de mudanças nos impostos e nos padrões de crescimento. Muitos mesclam a defesa do igualitarismo com propostas de democratização política. Todas as referências a um “modelo chinês de socialismo” deveriam ser identificadas com estas vertentes de resistência das bases à restauração (Choi, 2009).

A política internacional

Alguns analistas registam linhas de continuidade da China com o seu passado antiimperialista. Consideram que o país resgata os princípios de soberania e de cooperação impulsionados durante a emblemática reunião de 1955 com o Egito (Nasser) e com a Índia (Nehru) (Revista Bandung, 2011).

Mas é muito difícil corroborar algum resquício desses projetos. A China encetou um caminho radicalmente oposto, de expansão dos investimentos no estrangeiro e de fortalecimento dos tratados de livre-comércio.

Outros autores estimam que o país está a construir as bases do novo modelo global, que substituirá a hegemonia dos Estados Unidos em declínio. Supõem que edificará um esquema de cooperação favorável à maioria dos países periféricos. Este ponto de vista foi difundido por Arrighi, ao contrapor o belicismo ianque em declínio, com um ascendente “Consenso de Pequim”, baseado no pacifismo da potência asiática (Arrighi, 2007: cap 5-6).

Esta mesma abordagem é apresentada por aqueles que assumem que este país vai orientar a economia mundial em direcção ao igualitarismo, encabeçando o novo bloco contra hegemónico dos BRICS.

Contudo, não é sensato conceber um futuro pós-capitalista sob a direção de uma potência que emerge em termos capitalistas e com tanto de rivalidade como de associação com os Estados Unidos. Os próprios dirigentes chineses enfatizam este perfil em todas as iniciativas à escala global nas quais participam. Têm por hábito ostentar uma ideologia mais próxima da idolatria mercantil-liberal do que exibirem qualquer vestígio de mensagens socialistas.


A significativa associação das elites chinesas aos principais bancos e empresas do Ocidente contradiz a almejada formação de um bloco de economia cooperativa global. Esse entrelaçamento com o capital estrangeiro verifica-se, dentro da China, na incidência desse setor nas vendas industriais. Também se expressa na fanática adoção de princípios do livre-comércio logo após a adesão à OMC. O país sobe ao palco mundial como um parceiro das grandes corporações e é um natural guardião do status quo em vigor.

Este importante vínculo com a produção e com o comércio e a finança globalizados impede que a nova potência cumpra um papel progressista. Tornou-se num dos pilares da globalização neoliberal e não pode atuar simultaneamente como gestor de modelos pós-capitalistas.

As próprias tendências geradas pela crise de 2008 desmentem essa possibilidade. Se a China decide reforçar a sua posição no cenário mundial – transformando em propriedades os seus enormes créditos em dólares – consolidará a sua parceria com grandes empresas capitalistas. Os ativos adquiridos ao seu rival seriam reciclados sob o mesmo esquema da globalização neoliberal, afetando assim todos os perdedores da reorganização capitalista 3.

Mas não é necessário analisar estas hipóteses para verificar qual é o comportamento predominante das elites chinesas no plano internacional. Os acordos com os fornecedores de matérias-primas são regulados por rigorosos critérios de livre comércio.

A associação dos capitalistas chineses com os seus homólogos ocidentais obstruiu, aliás, a esperada dissociação internacional e a consequente mudança chinesa para o crescimento interno. Os efeitos desta limitação pesam severamente sobre uma economia que reduziu significativamente o seu ritmo de crescimento. Os laços transnacionais interditam as margens de manobra autônoma da nova potência.

Na própria direcção chinesa, os partidários de estreitar relações com o Ocidente (elite da Costa) colidem com os críticos dessa associação (elite do Interior). Todavia nenhuma das duas promove as matrizes de rutura anti-imperialista necessárias para dar azo a um modelo de cooperação internacional.

Neste âmbito verifica-se uma significativa diferença com a estratégia defendida pelos líderes da antiga URSS. Também aqui todos os sectores da burocracia governante tinham posto de lado qualquer perspetiva de estratégia socialista. Mas a coexistência pacífica que mantinham com o imperialismo baseava-se num princípio de divisão territorial (“áreas de influência”), que recriava os conflitos permanentes da Guerra Fria. Os campos de ação econômica estavam inteiramente separados e as ligações comerciais, financeiras ou comerciais entre os dois contendores eram mínimas.

Durante as últimas décadas a burocracia chinesa seguiu um caminho diferente de plena integração no mercado mundial. Por esta razão, o programa da Nova Ordem Internacional (NOEI) – que a URSS impulsionava para associar o Segundo e Terceiro Mundo – não tem continuidade na liderança chinesa.

Esta direção concebe todas as suas ações internacionais baseada no entrelaçamento estabelecido com as empresas e bancos do Primeiro Mundo. Por isso desenvolve uma política externa mais cautelosa que os soviéticos, de low profile, alto realismo e convivência com a economia estado-unidense.

Alianças sem imitação

Na sua configuração actual a China pode ser vista como um parceiro dos processos transformadores da América Latina, mas nunca como o modelo a seguir para a construção do socialismo. O gigante asiático distanciou-se estruturalmente desse objetivo.

Como a União Soviética no passado, a China é hoje muito importante para Cuba e a América Latina. A região precisa de aliados para qualquer batalha contra o imperialismo estado-unidense. O gigante do Norte continua a tratar as nações a sul do Rio Grande como parte do seu quintal. Os EUA nunca abandonaram as suas pretensões de anexação da América Central e de custodiar a América do Sul. Enviaram marines, organizaram golpes de estado e projetaram todos os massacres necessários para perpetuar sua dominação.

Os Estados Unidos responderam ao surgimento de projetos socialistas no hemisfério com sabotagens, invasões e conspirações. Encabeçaram uma rigorosa monitorização anticomunista e levaram a cabo ações de intervenção explícita contra o Chile e a Nicarágua. As décadas de bloqueio que Cuba suporta ou as conspirações que a Venezuela enfrenta atestam essa ingerência.

É totalmente falsa a crença de que os EUA se esqueceram da América Latina e que renunciaram ao intervencionismo. Basta atentar no protagonismo ianque no golpe de Estado nas Honduras, na implantação geral da IV Frota ou nas novas bases na Colômbia para dissipar estas ilusões. Há mudanças na linguagem (do anticomunismo ao antiterrorismo) e uma maior delegação de ações nos militares locais. Mas o Pentágono persiste como a principal barreira para qualquer perspetiva não só de socialismo, mas de independência efetiva.

O alívio observado nos últimos anos (declínio da OEA, aparecimento da CELAC, o regresso de Cuba à diplomacia regional) é um resultado temporário do cenário criado pelas rebeliões populares. Há governos mais autónomos, mas a obstrução imperial a qualquer projeto de emancipação da América Latina não mudou.

Portanto, é essencial sustentar alianças internacionais que permitam proteger os processos anti-imperialistas na região do esmagador poderio do Pentágono. Pelo seu peso geopolítico à escala global, a China pode atuar como um contrapeso a essa ameaça.

A trajectória seguida por Cuba desde os anos 60 constitui um interessante antecedente de como implementar uma política externa revolucionária, sem subordinação aos mandatos dos grandes jogadores mundiais. Che colocou em prática uma estratégia de expansão internacional do socialismo, em oposição ao status quo permanente com o imperialismo que os líderes da antiga União Soviética praticavam. No seu discurso na Argélia foi particularmente crítico em relação à escassa solidariedade destes dirigentes para com os levantamentos no Terceiro Mundo.

Guevara exortou a que se forjassem “um, dois, três, muitos Vietnames”, em oposição à passividade do Kremlin. Impulsionava estes levantamentos contra a utopia de restringir a construção do socialismo a um único país ou região. No Congo deu o corpo e na Bolívia deu a sua vida por estes ideais (Katz, 2008; Sánchez Vázquez, 2007).

Além do resultado dessas acções, a experiência cubana ilustrou como a aliança com uma potência para contrabalançar o peso do imperialismo não implica uma submissão ou imitação do parceiro. Esse modelo fornece um importante ponto de partida para conceber as relações da China com os processos radicais atuais e futuros da América Latina.


* Claudio Katz é economista, investigador do CONICET 4, professor da UBA 5, membro do EDI6.





Referências:

- Amin, Samir, (2012), “El mundo visto desde el Sur”, ALAI, 30-3.

- Arrighi Giovanni, (2007), Adam Smith en Pekín, Akal, Madrid.

- Choi, Wai Kit, (2009), “Toward a Communist immnent critique”, Science and Society, vol 73, April.

- Ding, Xiaoqin, (2009), “The socialist market world economy, china and the world”, Science and Society, vol 73, April.

- Dos Santos, Theotonio, (2011), “Algunos comentarios a la entrevista de Wallerstein”, ALAI, 18/8.

- Hart-Landeberg Martin, (2011), “The Chinese Reform experience: A critical assessment”, Review of Radical Political Economics, vol 43, n 1.

- Katz Claudio (2014), “La epopeya de Cuba”, www.lahaine.org/katz.

- Katz Claudio, (2008), “El legado del Che”, 2008, www.lahaine.org/katz.

- Katz, Claudio, (2006), El porvenir del socialismo, Edición venezolana: Monte Ávila, Caracas, 2006

- Li, An; Li, Zhongjin; Xie, Fuaheng, (2012), “Guojinmintui: China new public-private debate”, Science and Society, vol 76, n 3, july.

- Li, Minqi, (2009), “A harmony of capitalism and socialism?, Science and Society, vol 73, April.

- Li, Minqui; Piovani, Chiara, (2011), “One hundred millón jobs for the chinese workers”, Review of Radical Political Economics, vol 43, n 1.

- Lin, Chun, (2009), “The socialist market economy, Step forward or backward”, Science and Society, vol 73, April.

- Lo, Dic; Zhang, Yu, (2011), “Making sense of China´s economic transformation”, Review of Radical Political Economics, vol 43, n 1.

- Revista Bandung, (2011), Vol 1, setembro 2011, Cedebras, Belo Horizonte.



Notas:

1 Publica-se este artigo por considerarmos que fornece importantes elementos de reflexão sobre a evolução do processo chinês, mas não acompanhamos na íntegra as teses do seu autor, nomeadamente a expressa no final do texto. – [NE]

2 Este texto continua a análise abordada em: Katz (2014).

3 Esta possibilidade é analisada com outras conclusões por Dos Santos (2011).

4 CONICET – Conselho Nacional de Investigações Científicas e Técnicas: é o principal organismo dedicado à promoção da ciência e da tecnologia na Argentina. – [NT]

UBA – Universidade Bicentenária de Aragua, na Venezuela. – [NT]

6 EDI – Intercâmbio Eletrónico de Dados. [NT]



Publicado em: http://www.insurgente.org/index.php/2012-04-11-10-03-53/mundo/item/14938-china-unsocio-para-no-imitar


Tradução do castelhano de RG






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