«O que eu penso das praxes», por António Louçã
António Louçã (n. 1955) é historiador e jornalista. Licenciou-se em História na Faculdade de Letras de Lisboa, em 1979, e fez o Mestrado em História Contemporânea de Portugal em 2000, com uma tese sobre Portugal e o ouro nazi. É colaborador e redactor de diversas publicações periódicas desde 1974. Foi correspondente do Diário Popular em Madrid em 1979, director da revista Versus entre 1983 e 1987, chefe de redacção da Semana Informática em Lisboa e correspondente em Berlim entre 1989 e 1994, editor da revista História em 2000. É jornalista da RTP desde 2001. Venceu, com Sofia Leite, o Grande Prémio Gazeta 2008 de Jornalismo. Tem vários livros publicados.
GREGARISMO PRAXISTA OU ACÇÃO COLECTIVA E SOLIDÁRIA?
Pedem-me umas linhas sobre a praxe e custa-me a escrevê-las. Não devia custar, porque andei na Universidade nos anos 70 do século passado. Como tradição, a praxe seria, supostamente, mais viva nessa época distante e ter-se-ia, supostamente, diluído nos nossos tempos de globalização e de internet.
Mas a suposição é falsa. Naquele tempo de universidade que era o meu, nunca vi praxe alguma nem nada que cheirasse, remotamente, sequer à praxe actual. Aquele tempo tinha, por certo, as suas tradições: as do movimento estudantil, contra a reforma de Veiga Simão, contra os gorilas nas faculdades, contra a ditadura fascista, contra a guerra colonial, contra o genocídio imperialista no Vietname.
Quem hoje vê estudantes trajando de negro como bandos de corvos não consegue reprimir a ideia de que a tradição já não é o que era. Esta “tradição” é coisa muito recente. Ela foi tão fabricada pelas conveniências da política dominante nos nossos dias como a “tradicional” indumentária vermelha do Pai Natal foi fabricada pela Coca-Cola.
A praxe é bem a antítese artificial de tradições solidárias e combativas, internacionalistas e libertárias, que identificaram a juventude do século XX, em vagas sucessivas até ao ponto culminante de Maio de 68. Onde ali prevalecia a acção de massas por um mundo novo, aqui sobressai a mesquinhez dos tiranetes de trazer por casa, o abuso de poder por parte das almas de lacaios, o desforrar-se para baixo por parte de quem habitualmente se desbarreta para cima.
E, no entanto ...
No entanto, esta mentira, para ser mentira, tem de trazer à mistura qualquer coisa de verdade. A praxe combina o individualismo tacanho e egoísta com um gregarismo atávico e primitivo, tirbutário da psicologia do rebanho – como as claques futebolísticas, como os fanatismos religiosos. E, no entanto, foi no meio das claques futebolísticas que a resistência ucraniana pôde jogar em casa contra os ocupantes nazis, foi no meio delas que despontaram algumas das primeiras grandes manifestações contra a ditadura argentina de 1976-1982. Os e as estudantes com sentido crítico, que hoje são uma pequena vanguarda na resistência aos tiques autoritários das praxes, não têm de desanimar por se sentirem, temporariamente, em minoria. À mínima viragem no ambiente, a acção colectiva pelas aspirações sociais da grande massa virá, como a velha toupeira que fez o seu caminho, irromper sob a carcaça do gregarismo praxista.
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quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014
«O que eu penso das praxes», por António Louçã António Louçã (n. 1955) é historiador e jornalista. Licenciou-se em História na Faculdade de Letras de Lisboa, em 1979, e fez o Mestrado em História Contemporânea de Portugal em 2000, com uma tese sobre Portugal e o ouro nazi. É colaborador e redactor de diversas publicações periódicas desde 1974. Foi correspondente do Diário Popular em Madrid em 1979, director da revista Versus entre 1983 e 1987, chefe de redacção da Semana Informática em Lisboa e correspondente em Berlim entre 1989 e 1994, editor da revista História em 2000. É jornalista da RTP desde 2001. Venceu, com Sofia Leite, o Grande Prémio Gazeta 2008 de Jornalismo. Tem vários livros publicados.
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