"Quando ia ao antigo Estádio da Luz o meu lugar favorito era no terceiro anel".
Vítor Gaspar revela admiração por Cunhal e por Mário Soares, em que votou em 1985.
Maria João Avillez queria saber quais as referências políticas de Vítor Gaspar. Na longa entrevista, que deu origem ao livro, a jornalista insiste várias vezes na pergunta. "Mas o que opinava? Havia de ter uma opinião sobre Soares, Sá Carneiro, Cunhal, há-de ter ido a algum comício, ter visto algum debate televisivo, ouvido falar de Cavaco". Da boca do ex-ministro das Finanças sai a resposta: "Sim, sim, fui a uns comícios na época do Cavaco. Certamente que vi o Freitas do Amaral e o Mário Soares. E fui pelo menos a uma Festa do Avante por causa do Chico Buarque".
Vítor Gaspar foi ministro das Finanças entre Junho de 2011 e Julho de 2013. As suas decisões políticas, os motivos da sua saída e as relações com Portas e Passos são mais conhecidas do público - com mais ou menos detalhe -, mas o lado mais íntimo de Gaspar só agora aparece com a publicação de um livro. "Vítor Gaspar" é o título e é lá que o próprio Gaspar, através de uma longa entrevista, dá corpo e alma ao Vítor.
Além de ter ido a uma Festa do Avante - embora para ouvir um cantor conhecido -, Gaspar tinha alguma simpatia por Álvaro Cunhal de quem foi até vizinho de praia. "Havia qualquer coisa que me interessava na sua vida para além do político totalitário: a parte literária, a pintura, os desenhos, e essa tensão que me parece ter havido entre as suas várias facetas". Encontravam-se cedo na praia do Vale do Garrão, entre Vale do Lobo e a Quinta do Lago. "Não, nunca nos falámos", revela.
No dia 25 de Abril de 1974, saiu à rua com a mãe. "Morávamos na Avenida de Roma, fomos ver o que se estava a passar e conversar com as pessoas", revela, acrescentando que "em casa foi uma alegria extraordinária".
Com Mário Soares, o contacto foi diferente do que teve com Cunhal. Esteve numa reunião de economistas organizada pelo então Presidente da República, em quem Gaspar assume ter votado nas eleições presidenciais de 1985, quando Soares concorreu contra Freitas do Amaral. "Foi muito interessante observar o modo como ele, ao fim de poucas horas, conseguiu que todos os presentes agissem como um grupo de amigos", conta, concluindo que Mário Soares é um "político profissional".
No livro, o ex-ministro das Finanças - do qual se chegou a construir a ideia de que teria mais poder no Governo do que o próprio primeiro-ministro - rejeita o título de político. "Encaro-me como um espectador do "grande espectáculo da política"", diz Vítor Gaspar, explicando que gosta de observar sem ser observado. O gosto pela última fila estende-se ao futebol. "Quando ia ao antigo Estádio da Luz o meu lugar favorito era no terceiro anel", diz.
Pai de filhas, filho de economista
Vítor Gaspar nasceu em 1960, filho de um economista e de uma funcionária pública. Foi para economia "por acidente" e se não tivesse sido esse o seu caminho "talvez fosse para engenharia".
Em 1986, tinha Gaspar 25 anos, teve a primeira filha. "Sempre me imaginei como um pai de meninas, tinha a convicção de que só teria filhas", conta a Maria João Avillez. E a experiência agrada-lhe: "Achei óptimo". A filha mais velha chama-se Catarina, revela Gaspar. "Depois veio a Marta. E depois a Madalena". Apreciador de música clássica e de jazz, é com as filhas que "de quando em vez", tem uma "grande revelação".
Em 1986, tinha Gaspar 25 anos, teve a primeira filha. "Sempre me imaginei como um pai de meninas, tinha a convicção de que só teria filhas", conta a Maria João Avillez. E a experiência agrada-lhe: "Achei óptimo". A filha mais velha chama-se Catarina, revela Gaspar. "Depois veio a Marta. E depois a Madalena". Apreciador de música clássica e de jazz, é com as filhas que "de quando em vez", tem uma "grande revelação".
Conhecido pelo seu lado disciplinado e racional, o ex-ministro das Finanças defende no livro que "não há qualquer contradição entre a intuição e a razão". "E sim, diria que sou intuitivo", remata.
Durante dois anos, Portugal assistiu a declarações pausadas de Vítor Gaspar. Uma forma de falar que o ex-ministro explica com a cautela. "Antes de dizer qualquer coisa procuro pensar, o que leva tempo", afirma. Além disso, estava "muito mais habituado a falar em inglês sobre as matérias que abordava em público. Às vezes estava a traduzir, o que novamente leva tempo".
Ao mesmo tempo que se exprimia de uma forma original, o humor de Vítor Gaspar - que não foi apreciado de forma consensual dentro do Governo - suscitava até gargalhadas nas difíceis conferências de imprensa no Ministério das Finanças. No livro, o ex-ministro conta uma história de quando esteve no Banco Central Europeu.
"Quando o Lorenzo Bini Smaghi deixou o BCE, houve uma festa de despedida, eu disse umas palavras e ele fez, um discurso dizendo algo do género 'Ao fim destes anos todos começo a compreender o sentido de humor do Vítor Gaspar e sinto-me tonto'". E conclui: "aparentemente tenho um sentido de humor desconcertante, completamente involuntário".
"Quando o Lorenzo Bini Smaghi deixou o BCE, houve uma festa de despedida, eu disse umas palavras e ele fez, um discurso dizendo algo do género 'Ao fim destes anos todos começo a compreender o sentido de humor do Vítor Gaspar e sinto-me tonto'". E conclui: "aparentemente tenho um sentido de humor desconcertante, completamente involuntário".
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