Há 50 anos, um Homem com Três Metros de Altura foi assassinado
19Segunda-feiraDez 2011
A sua capacidade de intervenção e de organização distinguem-se tanto na política como nas artes. É um dos organizadores das Exposições Gerais de Artes Plásticas, numa Sociedade Nacional de Belas-Artes, recuperada pelos artistas democratas. Nessa altura Dias Coelho, que tinha começado por frequentar o curso de arquitectura, muda de rumo e inscreve-se em escultura, numa escola que continua dramaticamente parada no tempo.
Faz inúmeros desenhos preparatórios de esculturas que também começam a soltar-se das suas mãos. O desenho sai fácil. O traço é de grande clareza. O seu acentuado realismo deixa, no entanto transparecer o conhecimento e a prática de abstracções provavelmente de cariz geométrico que nunca dará a conhecer. A interdisciplinaridade entre a arquitectura, a pintura e a escultura, afirmada no 1º Congresso nacional dos Arquitectos Portugueses, dá-lhe oportunidade de obras suas serem integradas nas escolas primárias de Vale Escuro e de Campolide, na Fábrica Secil no Outão, no Café Gelo, no Café Central das Caldas da Rainha. Obras que anunciam um artista.
A prática artística é exigente. Requer trabalho, trabalho continuado. Procura conciliar isso com uma intensa actividade política e também com as paixões da vida que o levam a casar com a sua colega de pintura, Margarida Tengarrinha. Escasseia o tempo para tanta actividade. Não quer perder a mão e o conhecimento da arte. Trabalha com os modelos que lhe estão próximos, o pai, a irmã, os amigos. Trabalha com materiais pobres: o barro, o gesso. Risca papel com grafite e carvão. Pinta com aguarelas e guaches. Isto enquanto vai dedicando cada vez mais tempo à actividade política onde lhe são reconhecidas invulgares capacidades de organizador. O seu prestígio nos meios intelectuais é imenso.
É um homem que quer ser artista e a quem não era difícil prever um lugar destacado nesse universo, um homem que é um artista de quem nunca se saberá o artista que teria sido, porque a sua alma de artista não permite que o seu olhar se desvie do seu país vergado à tirania do fascismo e por ser incapaz de alienar a sua função social e o seu sentido de pertença às massas populares.
Opta pela luta política. Entra na clandestinidade. Sabe que vai abandonar qualquer possibilidade de ter tempo para aprofundar a prática das artes. O que irá realizar a partir desse momento está sujeito ao contingente, às urgências militantes. Distante ficava o tempo em que observava e reflectia sobre as obras de Matisse ou Chagall que claramente fulguram em muitos dos seus desenhos. Os tiros que assassinaram o homem, o combatente antifascista são os mesmos que, antes de terem sido disparados, tinham cortado cerce uma carreira artística que se adivinhava promissora, que merecera o incentivo de várias críticas e premiações mas que ficara trancada quando, por funda convicção e opção assumida, meteu a chave para abrir a porta da clandestinidade a mesma que lhe fechava o acesso a uma vida normal dentro da anormalidade quotidiana que se vivia em Portugal.
Hoje, neste ano de 2011, passam cinquenta anos sobre o dia 19 de Dezembro em que um homem com três metros de altura foi assassinado a sangue frio, morrendo com ele um artista de quem nunca se viria a saber a altura.
blog Praça do Bocage
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