AVISO

OS COMENTÁRIOS, E AS PUBLICAÇÕES DE OUTROS
NÃO REFLETEM NECESSARIAMENTE A OPINIÃO DO ADMINISTRADOR DO "Pó do tempo"

Este blogue está aberto à participação de todos.


Não haverá censura aos textos mas carecerá
obviamente, da minha aprovação que depende
da actualidade do artigo, do tema abordado, da minha disponibilidade, e desde que não
contrarie a matriz do blogue.

Os comentários são inseridos automaticamente
com a excepção dos que o sistema considere como
SPAM, sem moderação e sem censura.

Serão excluídos os comentários que façam
a apologia do racismo, xenofobia, homofobia
ou do fascismo/nazismo.

segunda-feira, 19 de novembro de 2018

TUDO MAS MESMO TUDO SOBRE O FUTEBOL - ORIGENS, EVOLUÇÃO, HISTÓRIA - PARTE 2

La Soule, o jogo francês



É de uma palavra do franco antigo «keula», que significava «cavidade», «abóbada» e «objeto redondo» que surge a raíz da palavra soule (ou choule), nome de um jogo de bola que nasceu no noroeste da França, nas regiões da Normandia, Bretanha e Picardia.
O soule esteve sempre associado às festividades e às raízes pagãs do jogo. Jogado em dia de festa, no Carnaval, nos Santos Padroeiros, no Natal e Páscoa, em casamentos e outras cerimónias religiosas, o jogo desde cedo interessou à igreja que assim, como em tantas outras manifestações de cultura popular, «despiu» o jogo de simbologia e significado pagão. 

A verdade é que tanto as bolas douradas como as prateadas são reminiscências do culto do sol e da lua. Normalmente uma «partida de soule começava com um ofício religioso, uma missa solene celebrada por um reitor ou por um vigário rigorosamente neutro, isto é, não pertencendo a nenhuma das duas paróquias que o jogo ia colocar frente a frente» escreveu Jean-Pierre Fouch no seu «Bretagne est Univers».

Origens
As origens deste jogo são um mistério, mas estudiosos apontam o harpastum romano como o possível culpado do surgimento do jogo. Durante séculos, os legionários romanos estacionados nesta região da Gália jogariam esse jogo de bola e quando os romanos partiram, entre os diversos legados que deixaram na região, contava-se o jogo.
Outros defendem raízes nórdicas para o soule, referindo-se ao knattleikr dos vikings da Islândia, diversas vezes mencionado nas «Íslendingasögur» («As Sagas Islandesas») que teriam chegado às costas francesas pelas mãos dos guerreiros nórdicos, que ali ficaram conhecidos como normandos (homens do norte) e que fundaram o seu reino, a Normandia. 
Seja certa a raíz latina ou nórdica, a verdade é que na região existia já um substrato cultural que não podemos esquecer. Bem antes da chegada dos romanos já há muito as tribos celtas habitavam os dois lados da Mancha. 

Apesar de não haver referência a um jogo de bola céltico no período pré-romano, as evidências demonstram que no "universo celta" durante a Alta Idade Média surgiram diversos jogos de bola pelas Ilhas Britânicas como o Caid irlandês, o Hurling na Cornualha (Inglaterra), o Ba Game na Escócia e o Cnapan em Gales, todos eles podem ser tidos como antepassados do futebol.

Dois lados da Mancha, o mesmo jogo? 

Diversos grupos de bretões romanizados acompanharam as legiões romanas que abandonaram a Grã-Bretanha e mudaram-se para a Armórica. Durante os dois séculos seguintes, as migrações de bretões para a Armórica seriam constantes, fugindo das invasões dos anglos e saxões. Tão grande seria o número de bretões na Armórica que a região passou a ser conhecida como Bretanha. 


La Soule, na Baixa Normandia no século XIX. De um croquis de M. J. L. de Condé.
Os jogos de bola desenvolveram-se nos dois lados do canal e eram já uma tradição local, quando Guilherme da Normandia conquista a Inglaterra em 1066. Será esta a data que marcará a entrada do soule em solo inglês. Contudo, será no lado francês da Mancha que o jogo continuará até chegar aos nossos dias.

Enquanto na Grã-Bretanha os diversos jogos de bola como o mob football ganharam tal popularidade que acabaram por ser proibidos pelas autoridades. Em França, apesar de haver registo de uma partida em Paris em 1393, o jogo ficou restringido às províncias do noroeste. 

As regras

As regras do jogo eram simples. Duas equipas, normalmente de duas paróquias diferentes disputavam o encontro. A bola, feita com a bexiga de um porco e coberta com pele, podia ser chutada, pegada com as mãos ou empurrada com paus. Durante vários anos o tamanho da bola ia crescendo de tal maneira que surgiram leis para impedirem que a bola ultrapassasse determinado tamanho.

Em 1412 um conjunto de regras estabelecia que a soule teria que ser suficientemente pequena para caber na mão de um jogador. O objetivo do jogo seria trazer a bola (a soule) de volta para o adro da igreja da paróquia da equipa, para o centro da praça da aldeia ou até para dentro de uma casa escolhida par tal fim.

Outras balizas (ou metas) seriam uma parede, um rio, dois postes, um muro ou até um sulco traçado no terreno. O número de participantes não estava definido, tanto podiam ser 20 como 200, chegando a defrontar-se aldeias inteiras em jogos que podiam demorar um ou vários dias. Em algumas ocasiões o jogo podia ser disputado por três equipas o que o tornava ainda mais confuso e violento. Em Auray, há registo de uma partida de soule em que participaram 16 paróquias para um número calculado de 500 jogadores. 

Anúncio público da interdição do jogo da soule no departamento de Morbihan na Bretanha.
A violência do jogo está documentada pelas muitas testemunhas que escreveram sobre encontros que presenciaram. «Os exércitos não fazem mais do que um, pois misturam-se, oprimem-se e machucam-se. Na superfície deste impenetrável caos, vêm-se mil cabeças a agitar-se, como as ondas de um mar furioso, e escapam-se gritos inarticulados e selvagens [...] Ninguém se dá conta do princípio: de tal modo é a embriaguez do combate que põe fora de si os frenéticos lutadores».

Proibição e declínio

A violência do jogo incomodava as autoridades que com o passar dos anos foram legislando sobre a matéria. Os reis de França chegaram a proibi-lo, mas a Bretanha como estado independente que era, manteve a tradição, tornando-se na casa e reduto do soule. 

Na Idade Moderna o jogo começou a perder a sua popularidade, acabando por quase cair em desuso no fim do século XIX. A Primeira Guerra Mundial e a Segunda Guerra Mundial acabaram com a popularidade do mesmo, que só voltou a renascer nos anos 90, voltando a ganhar alguma popularidade já no nosso século.

Hoje em dia, o Soule é recriado em feiras e festas locais, tanto na Bretanha como na Normandia e Picardia, para deleite dos locais e dos muitos turistas. 

O Nascimento do futebol luso


31 de Março de 1914, poucos meses antes do começo da Primeira Guerra Mundial, os dirigentes das associações de futebol de Lisboa, Porto e Portalegre, reuniam-se para fundar a União Portuguesa de Futebol, com o Dr. Sá e Oliveira como primeiro de uma longa lista de presidentes que na maior parte da sua história, teve assento na Praça da Alegria em Lisboa.

Mas o futebol não chegou a Portugal nesse dia de Primavera. Já muito antes, a bola de futebol chegara a estas paragens, começando, timidamente a princípio, a conquistar a alma deste povo, tornando-se com o passar dos anos, numa das maiores paixões nacionais, capaz de medir meças ao próprio fado...

O Futebol chega a Portugal

Não há certeza quanto ao momento em que uma bola de futebol rolou pela primeira vez em Portugal. Alguns historiadores defendem que foi na Ilha da Madeira, freguesia da Camacha, no lugar da Achada, onde se jogou uma partida de futebol pela primeira vez, corria o ano de 1875. Seria ao inglês Harry Hinton,  jovem residente na Madeira que estudava em Londres, que devemos a introdução do «Foot-Ball», em solo português.


Monumento na Camacha, que celebra o suposto primeiro jogo de futebol jogado em Portugal em 1875.
Treze anos mais tarde, é certo que uma bola trazida pelos irmãos Pinto Basto, rolou num Domingo de tarde na Parada de Cascais, num jogo que o organizador, Guilherme Pinto Basto, denominou de «ensaio», que seria na gíria da época, a forma como se denominava um treino. Para todos os efeitos, era a primeira vez que se jogava futebol em Portugal continental. 

Mas o primeiro jogo de facto só teria lugar só a 22 de Janeiro do ano seguinte, no Campo Pequeno em Lisboa, novamente pela mão dos Pinto Basto. Uma equipa de portugueses enfrentou uma equipa de ingleses, e a vitória sorriu às cores nacionais, numa auspiciosa estreia para o nosso futebol.

Seria ainda Guilherme Pinto Basto o responsável pela fundação do Clube Internacional de Foot-Ball (CIF), fundado em 1902, como uma continuação do extinto Foot-Ball Club Lisbonense (1892), o clube que tinha defrontado o Foot-Ball Club do Porto a 2 de Março de 1894, no Campo Alegre, na disputa da Taça D. Carlos I no primeiro jogo de futebol entre equipas de Lisboa e Porto, que os lisboetas venceram.

Mas o que todos recordam desse momento, é que a equipa portuense que jogou essa tarde no campo do Oporto Cricket Club, era a génese do FC Porto, que nascera uns meses antes pelas mãos de António Nicolau de Almeida, que tal como os irmãos Pinto Basto, travara conhecimento com o jogo em Inglaterra, apaixonando-se imediatamente pelo beautiful game

Reação anti-britânica
O futebol, como outras atividades provenientes de Inglaterra, viveram dificuldades depois do «Ultimato Inglês» de 1890. A reação popular e a revolta republicana falhada a 31 de Janeiro de 1891 no Porto, lançaram as sementes para o descontentamento antibritânico.
É dessa altura a autoria de «A Portuguesa», composta em 1890, com letra de Henrique Lopes de Mendonça e música de Alfredo Keil, que cedo se tornou num símbolo patriótico e da causa republicana. O famosa parte da letra que hoje cantamos «contra os canhões, marchar, marchar», no original era «contra os bretões, marchar, marchar», bem elucidativo do espírito antibritânico da época.

22 de janeiro de 1889, no Campo Pequeno em Lisboa, disputa-se um encontro que fica na história do futebol nacional.
O futebol chegou ao país pela mão, ou melhor, pelos pés, dos «estrangeirados» da alta burguesia e aristocracia, que importavam da Grã-Bretanha todas «as modas» mais recentes, entre elas, obviamente se contavam as do desporto.
Será quase impensável hoje em dia conceber tal ideia, mas no Portugal do fim de oitocentos, o futebol estava bem longe de ser popular, com as classes mais baixas completamente divorciadas dessas «maluquices dos ingleses» praticadas pelas elites.
A Portuguesa" foi composta em 1890, com letra de Henrique Lopes de Mendonça e música de Alfredo Keil, e foi utilizada desde cedo como símbolo patriótico mas também republicano
Apoiado no ócio das classes dirigentes e no gosto pelas diversões novas, o jogo espalhou-se lentamente pelo país, através de novos clubes, associações e praticados em escolas e colégios privados. Até ao final do século, já existiam associações e clubes nas principais cidades do país, como o Clube Lisbonense, o Carcavelos, o Braço de Prata, o Real Ginásio Clube Português, o Estrela Futebol Clube, o Futebol Académico, o Campo de Ourique, o Oporto Cricket, o Sport Clube Vianense ou o  Ginásio Clube Português.
O nascimento dos grandes clubes

FC Porto seria o primeiro dos grandes clubes portugueses a nascer, corria o ano de 1893. A sua existência seria breve e durante muito tempo, este período de 1893 seria esquecido até pelos próprios portistas, que durante muito tempo pensavam que a fundação do clube fora a 2 de agosto de 1906.
O CIF seria o primeiro clube português a jogar no estrangeiro, visitando a capital espanhola em 1907, onde derrotou o Madrid Foot-Ball Club, hoje universalmente conhecido como Real Madrid.
Quatro anos antes, os funcionários da Fábrica Graham fundavam o BoavistaFootballers - mais tarde Boavista  FC - na Cidade Invicta. Mais a sul, um ano depois, um grupo de 24 ex-Casa Pia - entre eles Cosme Damião - fundam o Sport Lisboa, que quatro ano mais tarde, após fusão com o GS Benfica, daria lugar ao Sport Lisboa e Benfica em 1908.
Antes dessa fusão, já nascera o Sporting Clube de Portugal, em 1906 pela mão do Visconde de Alvalade e do seu neto José de Alvalade. As rivalidades entre clubes iam crescendo e apaixonando cada vez mais os adeptos. O futebol popularizava-se e os confrontos atraiam cada vez mais atenção. Surgiam as primeiras competições, primeiro em Lisboa, depois no Porto, organizadas pelas associações locais.
O nascimento da UFP
Seriam precisamente essas duas associações, juntamente com a de Portalegre, que a 31 de Março de 1914 se reuniram para fundar a União Portuguesa de Futebol (UFP).

Dr. Sá e Oliveira, o primeiro presidente da UFP.
Nascia assim a primeira entidade vocacionada para a organização e gestão do futebol português em todo o território nacional. Os principais objetivos da UFP passavam por conseguir a criação de novas associações no resto do país e poder finalmente organizar uma prova de âmbito nacional.
Baseado no modelo da Federação Espanhola, a UFP, ao contrário das federações francesas e belgas, não aceitava que os clubes se filiassem diretamente na Federação, mas sim em associações locais.
O Artigo 6 dos estatutos da Federação eram dedicados à realização do Campeonato de Portugal, que só seria realizado em 1921/22, com o FC Porto a derrotar o Sportingna final.
Seleção, Campeonato, Taça
Também em 1921, a Seleção, capitaneada por Cândido de Oliveira, teria o seu primeiro jogo, em Espanha, onde perdeu por 3x1. Para a História ficava o primeiro golo nacional da autoria do benfiquista Alberto Augusto. A seleção estreava-se nas grandes competições, sete anos depois, em Amesterdão, na Holanda, onde chegou aos quartos-de-final do Torneio Olímpico.
Em 1926, em Congresso da UFP, decidiu-se alterar a denominação para Federação Portuguesa de Futebol (FPF), assim como se decidiu organizar uma prova em formato de Campeonato (todos contra todos e a duas voltas), que teria lugar em 1934, sob auspícios da Liga. 
A FPF chamaria a si as rédeas do processo em 1938, passando a organizar o Campeonato - ganho pelo FC Porto na primeira edição - , juntamente com a Taça de Portugal, que se estreou nesse ano com a vitória da Académica.
A seleção só se qualificaria pela primeira vez para uma grande competição em 1966, em Inglaterra, onde conseguiu o seu melhor lugar de sempre até hoje na competição. A estreia no Euro só chegaria em 1984, e vinte anos mais tarde, Portugal jogaria a primeira final de uma grande prova, perdendo para a Grécia em Lisboa (0x1), naquele que foi o primeiro grande torneio de futebol internacional sénior realizado no nosso país.

Quando ser «internacional» valia um boné


As ilustrações que chegaram aos nossos dias, do primeiro encontro internacional entre seleções de futebol, disputado em Partick na Escócia, a 30 de novembro de 1872, mostram os jogadores da Escócia com um género de gorro usado pelos futebolistas então, enquanto os ingleses jogam com os «caps».

Nesses tempos, ainda não estava convencionada a utilização de uniformes distintos pelas duas equipas e eram as diferentes cores dos «caps» que distinguiam uma equipa da outra. 

Ilustração representando vários momentos do primeiro encontro internacional de seleções. O Escócia x Inglaterra (0x0) que teve lugar a 30 de novembro de 1872.
Seria o inglês N. Lane 'Pa' Jackson, fundador do mítico Corinthian FC, que então era Secretário Honorário da Football Association (1) a propor que cada jogador que jogasse pela seleção inglesa recebesse um boné branco com um rosa bordada, como prémio pela distinção de jogar pela Inglaterra. A proposta foi oficialmente aceite a 10 de maio de 1886 pela Football Association (FA). Na proposta apresentada por Jackson podia ler-se:
Todos os jogadores que a partir de agora joguem partidos internacionais pela Inglaterra usarão um boné de seda branca com uma rosa vermelha bordada na parte da frente. Estas se denominarão como «bonés internacionais» (2).
O uso do «cap» estendeu-se rapidamente a outras seleções como a Escócia, Irlanda ou Gales, e com tempo saiu das ilhas britânicas e deixou de ser um exclusivo do futebol, passando a ser usado também no râguebi e no críquete. 
Com o passar do tempo, deixou de ser hábito oferecer um boné aos que ganhavam uma internacionalização, mas a palavra «cap» continuou a ser usada em inglês para referir uma internacionalização.

Cap de um jogo internacional entre a Escócia e a Inglaterra, disputado em 1893.
Nos nossos dias, o boné só é oferecido a quem chegar às 100 internacionalizações, depois de há poucos anos, a UEFA ter recuperado a tradição de homenagear os «centenários» com a oferta de um «cap». Em PortugalCristiano Ronaldo foi o primeiro a ser premiado com tal distinção, mas também Luís Figo e Fernando Couto já anteriormente tinham ultrapassado a mítica marca.
A nível internacional, o destaque vai todo para o egípcio Ahmed Hassan que detém o recorde mundial com 184 internacionalizações, obtidas entre 29 de dezembro de 1995 e 1 de junho de 2012. Se ainda estivéssemos nos tempos de 'Pa' Jackson, Hassan por certo que ia precisar de muitas gavetas onde guardar tanto boné...
------------------------------------------------------------------
(1) - Football Association (FA) - A Federação Inglesa de Futebol.
(2) - «International caps» no original.


Râguebi: o primo direito


Futebol e râguebi... tantos anos passados de evolução e transformação das regras de ambos os jogos escondem uma verdade que muitos adeptos desconhecem. É que o râguebi e o futebol são apenas variações do mesmo jogo. Râguebi e futebol são duas modalidades de um conjunto de jogos que evoluíram de forma diferente do velho football inglês que se jogava no começo do século XIX.

Essa lista inclui variantes como o futebol gaélico, o rugby league ou râguebi de 13, o futebol americano, o futebol canadiano, o futebol australiano e ainda o international rules football. Pelo caminho ficaram algumas variantes de football que se perderam, tanto pela menor popularidade da versão como pela queda em desuso do seu código de regras. 

A evolução distinta das variantes de futebol, o porquê da escolha de um caminho ter vingado e outros não, a sobrevivência da variante mais forte, a razão que levou o football association (que nós jogamos) a conquistar a Europa, África e América do Sul e a ser uma modalidade marginal nos países anglo-saxónicos onde o râguebi e outras variantes locais de futebol prevaleceram sobre o soccer são questões pertinentes, especialmente de um ponto de vista darwinista, mas não serão a matéria deste texto.

Estudantes jogam râguebi na famosa Rugby School, o local onde tudo começou.
Se bem que Darwin e a sua famosa «A Origem das Espécies» (1) fossem coevos desta história, não há memória que o naturalista alguma vez tenha chutado uma bola ou segurado a «oval» debaixo do braço.

Aqui fala-se apenas de futebol e râguebi, ou de football association e rugby football union, a forma como são conhecidas oficialmente as duas modalidades, tendo por base o nome das duas associações fundadoras das modalidades. De Cambridge a uma taberna em Londres, de estudantes de Eton e Rugby, à história do rapaz que um dia pegou na bola com as mãos e começou a correr com ela, esta é a história da separação entre o râguebi e o futebol.

Os primeiros códigos

Os jogos de futebol há muito que eram jogados na Inglaterra. Descendentes do velho «mob football» que se jogara pelos campos e cidades de Inglaterra na Idade Média, diversas variações do jogo chegaram até ao século XIX em pontos distintos de Inglaterra.

Durante as primeiras décadas de novecentos era comum os diversos colégios ingleses praticarem a sua versão de futebol. A confusão de códigos de regras tornava-se clara quando esses rapazes chegavam às universidades e queriam jogar o seu adorado futebol com as regras que tinham aprendido. 

Apesar das diferenças esses jogos tinham vários pontos em comum. Eram disputados por duas equipas, num terreno demarcado. Cada equipa defendia um lado do campo e a outra equipa tentava marcar pontos fazendo atravessar a bola pela linha do fundo ou através de dois postes. Os jogadores só podiam usar o corpo para fazer mover a bola, fossem os pés, as mãos e ocasionalmente a cabeça ou o peito. Podiam chutar, rematar, fintar, correr, driblar... As similitudes faziam acreditar os apaixonados pelo jogo que seria possível criar um código unificado de regras. 

Notícia de jornal que relata a fundação da Football Association. Aí pode-se ler o nome de Campbell, dirigente do Blackheath, nomeado tesoureiro da FA.
Ainda nos últimos anos do século XVIII algumas escolas criaram as suas próprias regras, em especial sobre o conceito de fora de jogo. Nesses tempos um jogador estaria «off side» se simplesmente estivesse entre a bola e a baliza (ou meta) que fosse o seu objetivo, os passes para a frente eram proibidos e a bola só podia ser avançada ao pé por intermédio de «scrums» (2). Contudo as regras tendiam a afastar-se cada vez mais, como podemos ver se analisarmos os códigos de regras publicados entre 1810 e 1850 em Winchester, Rugby, Harrow e Cheltenham. 

Coube a Eton em 1815 o primeiro código de regras - no sentido em que hoje conhecemos - seguido depois pelo código de regras de Aldenham, publicado dez anos depois. 

Seria em 1845 que a Escola de Rugby, um colégio localizado na pequena cidade com o mesmo nome no Warwickshire, publicou o seu famoso código de regras. 

Tentativas de unificação: Cambridge


Ex-alunos de Rugby há muito que levavam as suas regras para as universidades. Em Cambridge, um ex-alumnus de Rugby, Albert Pell, organizava regularmente jogos na Universidade por volta de 1839, mas a grande dificuldade de Pell e dos seus colegas era conseguir um compromisso entre os diversos códigos de regras. Cada jogador queria jogar da maneira que aprendera a jogar em casa e não era fácil conseguir harmonizar as diferentes vontades. 

Seria em Cambridge em 1846 que a situação se começou a resolver quando H. Winton e J.C. Thring, dois ex-alumni de Shrewsbury, convenceram um grupo de antigos alunos de Eton a formarem um clube de futebol na universidade. Seria este núcleo inicial que combinava etonianos e rapazes de outros colégios que participaria num conjunto de reuniões que se foram desenrolando ao longo do ano 1848. 

Estátua de William Webb Ellis a em Rugby a celebrar o momento fundador da modalidade.
Os relatos contam que cada representante levou um exemplar das regras dos seus colégios de origem e depois foram debatendo ponto por ponto um novo conjunto de regras. Este conjunto misturava as regras de Rugby (passes para trás e pegar a bola com as mãos), com as de Eton (com os dribles e o fora-de-jogo) e as de Charterhouse (com um jogo de dribles e passes para a frente), além de contribuições dos restantes colégios. 
A nova regra de fora-de-jogo do código de Cambrige ditava: «se a bola ultrapassar um jogador e vier da direção da sua meta, ele não poderá toca-la até o campo adversário a tiver chutado, a não ser que haja três ou mais adversários em frente dele». 

Esta regra estaria incluída no conjunto de regras adoptado pela Football Associaton (FA), instituição que nasceu em 1863, depois de uma famosa reunião na Freemason´s Tavern em Londres. De 26 de outubro a 1 de dezembro realizaram-se seis reuniões que definiram o futuro do jogo e firmaram a cisão entre o football association e o rugby football. 

A cisão de Blackheath
Treze clubes de diversas partes de Inglaterra reuniram-se na capital aceitando o repto de Ebenezer Cobb Morley, dessa reunião surgiram as primeiras treze regras, que com poucas alterações ainda são as regras que hoje regem o futebol.
Um dos pontos mais polémicos da reunião prendia-se com a proibição de se usar as mãos durante o jogo e a possibilidade de se proceder a tackles para derrubar o adversário. As regras de 1848 permitiam ambas as situações, mas a maioria dos clubes estava disposto a impedi-las.

Na última das reuniões na Freemasons, o representante do Blackheath FC, Francis Maule Campbell, informou os colegas que o seu clube abandonaria a recem criada Football Association. Blackheath sempre jogara de acordo com as regras de Rugby e assim queria continuar. Uma das regras mais polémicas que a maioria dos clubes se opunha era a antiga regra que permitia o «hacking», ou pontapé e joelhada no queixo, bem comum durante as «scrums». Seria a recusa do «hacking» que enfureceu Campbell, que achava que o desporto perdia virilidade e se tornaria num «jogo de meninas».
Diz-se que Campbell, bastante irritado, jurou que iria trazer um grupo de onze franceses que seria capaz de bater as equipas dos restantes clubes só com uma semana de treino.

Blackheath seguiria jogando sob as regras de Rugby e em 1871 estaria entre os fundadores da Rugby Football Union (RFU). Curiosamente Campbell estaria na fundação tanto da FA como da RFU, tendo assim papel fundamental na história dos dois desportos. Não deixa de ser curioso notar que o «hacking» seria também proibido nas novas regras de Rugby, um ano mais tarde da sua criação, com acusação que a sua permissão tornava o jogo demasiado perigoso e violento.
Uma corrida para a história
A lenda, não confirmada e mais tarde contestada, é que em 1823 durante um jogo de futebol na escola de Rugby, um rapaz pegou na bola com as mãos e começou a correr em direção à linha de fundo, evitando todos os adversários que o tentavam placar. Para a lenda esse é o momento fundador da modalidade. 
Há uma placa na escola, colocada em 1895, que comemora o momento e honra o rapaz, e até o próprio troféu de vencedor do Campeonato do Mundo de râguebi recebeu o nome do jovem estudante que nessa tarde pegou na bola com as mãos. O seu nome era William Webb Ellis e ainda hoje em dia se visitar a escola de Rugby encontrará uma estátua sua com uma bola oval na mão. 

O «Haka», cerimonial que a seleção neo-zelandesa apresenta momentos antes do pontapé de saída, em cada jogo internacional que participa.
Até a sua sepultura, em Mentón, pequena cidade da Provença, no sul de França, onde viveu os seus últimos anos, é cuidada pela Federação Francesa de Râguebi. 
Contudo o verdadeiro papel que este mancuniano teve na "invenção" do râguebi é muito discutido. Na investigação de 1895 tentou-se entrevistar possíveis testemunhas do evento. Mas dos poucos que tinham sobrevivido desde esse dia de 1823, nenhum tinha presenciado o acontecimento ou sequer se lembrava da história ser contada na altura.
Por outro lado, a proibição de correr com a bola nas mãos nos jogos de futebol em Rugby está documentada anos depois do acontecimento, o que levou alguns a questionarem a veracidade da história.
Convém recordar que a investigação de 1895, ano em que Ellis se tornou o «herói fundador» do râguebi era um período de grande tensão dentro da modalidade, com a cisão entre a Rugby Football Union e a Rugby League.
Talvez tentando «puxar galões» à sua antiguidade e supremacia histórica, os homens de Rugby tenham criado este mito fundador que permitia aos rugbeains manterem uma certa autoridade sobre a modalidade, quando efetivamente estavam a perder o controlo sobre a mesma.
Amadorismo vs Profissionalismo

Os créditos pela "invenção" da Rugby Union Football não devem ser creditados à escola de Rugby mas sim ao Blackheath FC. A escola de Rugby não faria parte da RFU por muitos anos.

A RFU fundada em 1871 era composta na sua maioria por clubes do Lancashire e Yorkshire, onde o jogo era uma paixão da classe operária, ao contrário do sul, onde era uma diversão das classes abastadas. 

O râguebi expandira-se com os emigrantes que partiam de Inglaterra para os Dominions (3) da Coroa de população maioritariamente branca provocando grande paixão na Austrália e na Nova Zelândia. 
Em Inglaterra o número de adeptos e praticantes crescia, com multidões a assistirem aos jogos mais importantes na região de Yorkshire onde se realizava a Yorkshire Cup.

O jogo começou a atrair cada vez mais espetadores mas os jogadores continuavam impedidos de receberem qualquer tipo de pagamento. Como a maioria dos jogadores nortenhos era proveniente da classe operária, estavam limitados em horários de treino e a maioria dos jogadores tinham de ter muito cuidado para não se lesionar. Quando lesionados tinham de arcar com a conta do médico e provavelmente ficar em casa, assustados com a possibilidade de perder o emprego. 

Os clubes nortenhos queixavam-se da maior representação dos clubes do sul na RFU e acusavam esses clubes de terem castigado os clubes do norte que tinham ajudado os seus jogadores quando estes tinham estado de baixa. A divisão norte-sul aprofundava-se, com os clubes mais abastados (e amadores) a ameaçarem banir os clubes que recorressem ao profissionalismo para sustentar os seus atletas.

O segundo cisma

Enquanto o râguebi se debatia com o caminho a seguir o futebol trilhava o caminho da profissionalização. A Football League nascera em 1888, formada por 12 clubes do norte de Inglaterra. O sucesso da prova, vencida na primeira edição pelo Preston North End terá influenciado os dirigentes dos diversos clubes da RFU a pensarem na ideia de criar uma liga profissional para o râguebi. 
A Taça Webb Ellis, ou a Taça do Mundo, o mais importante troféu do mundo do râguebi, tem a equivalência no futebol na Taça da Campeão Mundial da FIFA.
Com os clubes do sul a bloquearem qualquer tentativa de alteração ao estatuto do jogador amador, a ideia de uma associação nortenha surgiu em agosto de 1895. Após uma reunião em Manchester, 22 clubes reuniram-se no George Hotel em Huddersfield e nesse dia 29 de agosto fundaram a Northern Rugby Football Union, mais conhecida pelo acrónimo NU.

Durante os anos seguintes o jogo desenvolver-se-ia de forma diferente nas duas associações, acabando por divergir no número de jogadores, no sistema de pontuação, nas punições e na distribuição de jogadores em campo e nas «scrums», entre outras diferenças. Hoje em dia são considerados dois desportos distintos.
Um desporto global
O râguebi permaneceu um desporto de cavalheiros e 100% amador e assim haveria de ser até quase ao fim do século XX. Durante o século passado o jogo estabeleceu-se definitivamente nas quatro Home Nations: Inglaterra, Escócia, País de Gales e Irlanda, mas também em França, na Itália e nas potências o hemisfério sul: Austrália, África do Sul, Nova Zelândia e mais recentemente a Argentina. 
Desporto de paixões, o râguebi cresceu com o Torneio das Cinco Nações, assim chamado depois da inclusão da França em 1947 (4) e com um cada vez maior número de países que praticavam a modalidade.
O sucesso do râguebi esteve em causa com as polémicas em volta do Apartheid, com diversas equipas e seleções a furarem o bloqueio internacional imposto ao regime sul africano, assim como com o falso amadorismo e a hipocrisia dos valores não declarados que ameaçava minar a confiança dos adeptos no seu amado desporto.
O fim deste estado de pseudo-amadorismo e mais tarde o fim do Apartheid e o regresso da nova África do Sul de Mandela à família do râguebi ajudou a recuperar a credibilidade do jogo.

O primeiro mundial realizou-se só em 1987, mas edição após edição o evento tornou-se num dos mais importantes do planeta, gerando muitas receitas e atraindo milhões de espetadores, jogo após jogo. 
--------------------------------
(1) A Origem das Espécies (em inglês: On the Origin of Species), do naturalista britânico Charles Darwin, apresenta a Teoria da Evolução. O nome completo da primeira edição (1859) é «On the Origin of Species by Means of Natural Selection, or the Preservation of Favoured Races in the Struggle for Life» (Sobre a Origem das Espécies por Meio da Selecção Natural ou a Preservação de Raças Favorecidas na Luta pela Vida). Somente na sexta edição (1872), o título foi abreviado para The Origin of Species (A Origem das Espécies), como é popularmente conhecido.
(2) Em Portugal no râguebi o termo técnico empregue é «formação ordenada», sendo raro o uso do original inglês «scrum». Já o termo francês «mêlée» é ainda muito usado entre nós pelos adeptos e comentadores do jogo da bola oval. 
(3) Domínios eram entidades políticas semi-independentes que se encontravam sob o domínio da Coroa, fazendo parte do Império Britânico e da Commonwealth. Desde o século XIX a lista de Domínios da Coroa incluiu o Canadá, a Austrália, o Paquistão, a Índia, Malta, o Ceilão, a Nova Zelândia, a Terra Nova, a África do Sul e o Estado Livre da Irlanda.
(4) O torneio é hoje conhecido como «Seis Nações» depois da entrada da Itália na prova em 2000. 


https://www.zerozero.pt/

Sem comentários: