A Associação José Afonso (AJA) 1 dirigiu à imprensa um apelo de evocação dos 30 anos da morte do “poeta, andarilho e cantor” e de divulgação da sua obra. O jornal MAPA aceitou com agrado a invocação e dedica o Retrovisor, desta edição e das próximas, à memória de José Afonso. Os artigos nutrem-se em várias das entrevistas por ele concedidas e divulgadas nos jornais, na rádio e na televisão; em vários livros e artigos publicados sobre ele ou a sua obra; e nalgumas recordações do autor.
José Manuel Cerqueira Afonso dos Santos (José Afonso, Zeca Afonso) nasceu em Aveiro em Agosto de 1929, ainda Salazar não tinha tomado o controle da ditadura que viria a ser derrubada pelo golpe militar de 25 de Abril de 1974, quase quarenta e cinco anos depois. Já não era moço quando aquela que, hoje, é a mais conhecida das suas obras, “Grândola, vila morena”, serviu de senha indicadora de que as operações militares passavam a estar em marcha irreversível e marcou indelevelmente o processo por elas iniciado.
O 25 de Abril não teria sido o mesmo sem a “Grândola”. As mensagens contidas nos seus versos, “…terra da fraternidade, o povo é quem mais ordena, dentro de ti ó cidade… em cada esquina um amigo, em cada rosto igualdade…”, ainda que de forma subliminar, deram um mote para o novo tempo que começava, do mesmo modo que funcionaram como contraponto aos apelos à população para que se mantivesse em casa, incluídos nos comunicados do posto de comando do MFA. E aparentemente não houve intenção deliberada nesta escolha, uma vez que a canção de José Afonso inicialmente escolhida por Otelo para o segundo sinal rádio do 25 de Abril era “Traz outro amigo também”, substituída à última hora pela “Grândola”, porque esta não estava proibida pela censura.
Até chegar a este ponto, José Afonso tinha vivido uma vida rara. Oriundo de uma família da pequena burguesia (o pai, José Nepomuceno Afonso, era magistrado de direito ultramarino e a mãe, Maria das Dores Dantas Cerqueira, professora primária), resumiria em poucas palavras, numa entrevista publicada num momento em que a doença que o vitimaria já o impedia de fazer uma vida normal, a consciência que tinha de si mesmo: “Sou um pequeno-burguês, filho de um juiz do Supremo que fez carreira nas colónias. Isto e uma infância vivida na solidão deixa marcas de cuja importância só nos damos conta muito mais tarde”; e dissipava possíveis dúvidas sobre a avaliação que fazia do seu próprio percurso, acrescentando: “Não me arrependo de nada do que fiz. Mais: eu sou aquilo que fiz” 2.
José Afonso teve uma infância e uma adolescência atípicas, marcadas por longas separações do convívio com os progenitores, colocados nas colónias. Em períodos alternados com as estadias em Angola e Moçambique, foi acolhido pelas famílias de quatro tios e tias, em Aveiro, Belmonte e Coimbra. Ali, quando ainda era estudante no curso de Ciências Histórico-Filosóficas da Faculdade de Letras, casou-se sem o conhecimento prévio dos pais, com uma jovem costureira de condição humilde, Maria Amália, mãe do seu primeiro filho, José Manuel, e da sua filha, Helena, de quem viria a separar-se no final da década de cinquenta. Este casamento motivaria um corte de relações durante algum tempo por parte do pai. Estes e outros aspectos da sua biografia não serão aqui aprofundados por falta de espaço, pelo que remetemos o leitor para as obras biográficas publicadas 3, onde transparece a vida intensa, mas nada fácil de Zeca Afonso.
Desde a época de estudante liceal destacara-se na interpretação dos temas clássicos do fado de Coimbra 4, em serenatas e festas de aldeia. O matrimónio não o afasta da boémia coimbrã, mas com o nascimento do seu primeiro filho, em 1953, viu-se obrigado a buscar trabalho para sustentar a família, fazendo revisões e dando explicações, ao mesmo tempo que prosseguia os estudos universitários. Neste ano gravou em disco os primeiros fados de Coimbra e iniciou o cumprimento do serviço militar obrigatório. A “falta de aprumo militar” determinou que fosse o último classificado do seu curso de oficiais milicianos. “Aqui dentro parecemos bonecos articulados que se encontram nas barracas das feiras e que saltam quando o tiro acerta no alvo: o meu tenente dá licença para aqui, o nosso capitão permite-me para acolá”, escrevia para Moçambique numa carta aos pais, onde também lhes solicitava o envio de 1500 escudos à Maria Amália, que permanecera em Coimbra com o filho. Quando despiu definitivamente a farda do exército, em 1955, e retomou os estudos para concluir o curso, já tinha nascido a sua filha Helena.
A falta de dinheiro para a sobrevivência da família levou-o a interromper os estudos em 1957, iniciando a sua actividade docente, como professor de História, num colégio particular, em Mangualde, onde foi encontrar um mundo substancialmente diferente do ambiente coimbrão, em que tudo gravitava à volta do universo estudantil. Ali verifica que os professores e directores acabavam por ser menos repressivos que o sistema familiar: “Lambada em carne fresca é que é preciso. Arreie-lhe sô professor…” 5. O convívio com esta nova realidade trouxe-lhe a oportunidade de iniciar a pesquisa de temas da música tradicional portuguesa. Uma versão popular de “Milho verde”, um dos temas do álbum “Cantigas do Maio” gravado alguns anos depois, recolheu-a de um aluno naquela vila beirã. Este primeiro contacto com o ensino permitiu-lhe aperceber-se também das contradições para as quais não estava preparado técnica e profissionalmente como professor. Contudo, o gosto por ensinar ajudou-o a sublimá-las, prosseguindo a docência numa peregrinação que o levou sucessivamente a Aljustrel (apesar de ter estado ali apenas alguns meses, teve uma despedida multitudinária na estação dos caminhos de ferro, por parte de estudantes e populares), Lagos, Alcobaça e Faro (onde o contacto com os trabalhadores-estudantes dos cursos nocturnos lhe abriu novas vias na sua experiência). Mais tarde, já depois de expulso do ensino oficial, expressava a sua opinião sobre aquela actividade a que estivera ligado dez anos: “um ensino de rotina, um ensino de quadro preto, um ensino verbalista, não me interessava, é pouco criativo. Até mais: o ensino destrói a criatividade tanto do próprio professor como do conjunto dos alunos” 6.
O papel transformador de José Afonso no panorama musical português começou com o desvio ao fado de Coimbra, considerado por ele “demasiado sebentarizado” (numa alusão às famosas sebentas das cadeiras dos cursos, limitativas do universo de consulta dos alunos, nas quais era cristalizada a ideia de que existe uma só verdade: a que sai da boca do professor). Como intérprete desta canção tinha atingindo um nível de reconhecida qualidade, materializado na gravação de três discos, entre 1953 e 1956. No final daquela década, para José Afonso, o fado de Coimbra, cujas formas considerava já esgotadas, “atingira uma fase de saturação” 7. Paralelamente, começara a manifestar o seu desacordo com “uma certa mentalidade que atribuía ao estudante de capa e batina um papel singular, a quem eram permitidas atitudes que de forma nenhuma se perdoariam aos populares” 8. Da conjugação destas duas conclusões surgiria a nova canção coimbrã, que trazia associada uma posição frontal contra a praxe estudantil. No plano musical, alterou o acompanhamento instrumental tradicional, “com a guitarra de Coimbra, parecia que tocava com arame farpado”, privilegiando a viola, que o deixava mais livre para fazer a sua música; e substituiu a mensagem dos fados clássicos pela sua própria poesia ou por temas baseados na música popular portuguesa. Para distinguir esta sua nova expressão denominou-a de “baladas” e passou a cantar sem capa e batina, considerada grave infração à praxe coimbrã, o que lhe valeu muitas ameaças e conflitos. Mais tarde chegará a afirmar: “o fado de Coimbra não me marcou nada (…), era um pretexto para a malta cantar de noite, levar uns garrafões de vinho, beber umas aguardentes, fazer umas viagens com a Tuna e o Orfeão e pouco mais” 9.
José Afonso era um compositor autodidata dotado de um instinto musical que lhe permitiu criar uma vasta obra sem ter formação específica, sem escrever música: “só sei dois ou três tons de viola, de modo que componho de cor, imagino as melodias… e realmente acato muito as apreciações das pessoas em quem deposito confiança”. Era professor em Faro, quando gravou o seu primeiro disco em 45 rotações, “Balada do Outono”(1960) 10. As canções já não eram fados de Coimbra, tanto na temática como na interpretação, e anunciavam que algo ia mudar na música portuguesa. A “Balada do Outono” é considerada um exemplo de transição entre o fado e a balada, curiosamente no refrão dizia: “Águas das fontes calai, ó ribeiras chorai, que eu não volto a cantar”. Voltou com mais baladas em 1962, já tinha começado a guerra em Angola e vivia-se o ambiente da crise académica, com contestações estudantis violentamente reprimidas, que se prolongaram por todo o ano e que contribuiriam para o envolvimento na contestação política e cultural ao Estado Novo de muitos da sua geração, alguns dos quais chegariam a posições de poder no Estado depois do derrube da ditadura. Este segundo EP, designado simplesmente “Baladas de Coimbra”, inclui “Menino d’oiro”, dedicada ao seu primeiro filho. No ano seguinte gravou o disco que surpreenderá todos aqueles que participavam no movimento de transformação da canção coimbrã. A designação repete-se: “Baladas de Coimbra”; inclui dois temas, “Menino do bairro negro” e “Vampiros”, que foram as bases estéticas 11 de uma intervenção de protesto através da música, que não parará de crescer. O alcance destas canções revela a genialidade de Zeca Afonso, expressa na simplicidade da música popular. A sua modernidade pode ser verificada hoje e enquanto perdurar a injustiça, a exploração e a repressão. É claro que artilharia deste calibre tinha de ser silenciada, a censura do Estado Novo rapidamente as proibiu, mas essa decisão já não podia impedir o aparecimento desta nova expressão da música portuguesa. Por esta altura José Afonso começara a frequentar colectividades e a cantar regularmente nos meios populares. De uma destas actuações, em 1964, na Sociedade Fraternidade Operária Grandolense, proveio-lhe a inspiração para compor a “Grândola, vila morena”.
A angústia provocada pelo afastamento dos filhos, que se encontravam à guarda dos avós paternos em Moçambique depois da separação, levou Zélia, a companheira com quem vivia depois da sua ida para Faro, a sugerir-lhe a partida para a capital moçambicana. A sua chegada a Lourenço Marques, hoje Maputo, coincide com o início da luta armada contra o colonialismo português: “quando em 1964 fui para Moçambique estava interessado em conhecer as pessoas e o país em que ia trabalhar. Porque eu já considerava aquilo um país, com a identidade própria que o caracterizava. Tinha uma vaga percepção de que era uma realidade intocável, diferente da nossa, e que aquela é que estava certa naquele meio e naquele ambiente” 12. Apercebeu-se como professor que havia duas realidades completamente distintas: aquilo que ia ensinar não tinha nada que ver com a maneira de estar dos africanos na sua própria terra, nem com o seu passado. Conviveu com intelectuais moçambicanos e passou a frequentar os subúrbios, onde conheceu, ouviu e gravou a música local. Para além da sua actividade de professor do ensino oficial, dava aulas, acompanhado por Zélia, num centro associativo de negros. Eram os únicos brancos a desenvolver tal actividade e, como era de esperar, a reacção dos interesses instalados não se fez esperar, sendo transferido compulsivamente para a cidade da Beira, no litoral da parte central da colónia. Aqui assistiu revoltado às manifestações festivas dos colonos portugueses que exultavam pela declaração unilateral da independência da Rodésia. Continuou as actividades de recolha e registo das envolvências dos bairros africanos, da sua música e dos seus costumes, alimentando-se da sua cultura, o que lhe serviria para composições futuras, como “Lá no Xepangara”, uma bela canção-retrato da vida de um bairro de tabancas no tempo colonial. Com o seu irmão João Afonso e os amigos do cine-club local encenaram “A excepção e a regra”, de Brecht, com música da sua autoria. Sob observação permanente da PIDE, vivendo um sistema colonial para si insuportável por mais tempo, José Afonso, em 1967, decide regressar a Portugal com Zélia, Helena e a sua filha Joana, ali nascida em 1965; Zé Manuel fica ao cuidado dos avós e da sua irmã Maria. Regressava com o objectivo de retomar a sua actividade de professor em Faro e não fazia ideia exacta de que as suas canções tinham continuado a escutar-se e a ser cantadas nos ambientes da oposição ao regime.
Quando o barco atracou no cais de Alcântara, a única pessoa que o esperava era um jornalista da rádio, Adelino Gomes, a quem declara estar na disposição de ser exclusivamente professor, porque era seu propósito firme abandonar as cantigas. Este informa-o que havia grandes expectativas à volta dele, ao que Zeca respondeu: “Vou para o Algarve, vou deixar de cantar, porque isto de cantar não quer dizer nada, não interessa a ninguém”; explicando-lhe ainda que não lhe daria a entrevista que lhe solicitava porque já não se considerava um cantor. Perante a insistência: “Mas você não pode deixar de cantar, você é extremamente importante, para os estudantes, para a malta, aquilo que você canta diz-nos tanto, é através da sua voz que nós chegamos lá. Nós na rádio quando queremos dizer qualquer coisa dizemo-lo através das suas canções” 13, lá lhe deu a entrevista. José Afonso referir-se-á mais tarde a esta importância “exagerada” que encontrou no regresso de Moçambique “fui rodeado por um mito quase sebastianístico (…) constatei com alguma surpresa, que à minha volta se formava um clima de expectativa, como se eu viesse trazer alguma coisa de novo (…) Parecia que as pessoas queriam manifestar-se e não sabiam como. E agora estava ali um tipo que falava em vez deles” 14.
Regressou a Faro para exercer a actividade docente, mas pouco depois foi colocado em Setúbal. A chegada à cidade do Sado implicou um envolvimento nas actividades dos círculos mais variados da oposição ao regime, participando com outros dos cantores da música de protesto 15 nas sessões de convívio cultural nas colectividades populares da Margem Sul e em actos das associações e pró-associações de estudantes de Lisboa, nas quais o PCP como organização clandestina tinha a maior influência. As condições técnicas em que estas actividades decorriam eram muito precárias, a maior parte das vezes nem microfones havia, e muito menos “cachet”, quase sempre vigiadas e muitas interrompidas ou proibidas pela PIDE.
Toda esta actividade resultou num esgotamento que o levou ao internamento hospitalar durante 20 dias. Quando voltou a casa tinha sido expulso do ensino oficial por motivos políticos. De modo fortuito, por mais paradoxal que possa parecer, esta decisão do aparelho repressivo salazarista deu-lhe mais um empurrão para as cantigas. Confrontado com as necessidades da sobrevivência, viu-se obrigado a repensar a continuação da carreira musical, interrompida quando da ida para Moçambique, e profissionalizou-se. O contrato com a Orfeu, discográfica que teve a coragem de o editar, apesar dos riscos de ver os discos apreendidos pela censura, é sui generis: contra o pagamento de uma mensalidade, José Afonso tinha de gravar um álbum por ano. Contrato que cumprirá. Passa a viver uma situação original: era profissional do disco, mas não se considerava um cantor profissional porque não cantava em espectáculos. Compensava esta ausência dos palcos cantando em sessões populares e em colectividades de cultura e de recreio, onde vivia experiências diferentes “há mais qualquer coisa para lá das canções (…), uma esfera afectiva, comunitária, que é propensa ao despertar de uma série de preocupações (…), os sectores que consomem a minha música gravada são menos extensos do que aqueles que a ouvem”16. Os relatórios do posto da PIDE em Setúbal enviados para a sede, em Lisboa, revelam a vigilância permanente a que estava sujeito. “Além de bastante conhecido pelas canções subversivas que compõe e interpreta”, está referenciado em inúmeras reuniões clandestinas, desenvolve larga atividade nos meios ‘culturais’, ‘democráticos’, e recebe em casa muitos indivíduos estranhos, alguns deles estrangeiros, principalmente espanhóis. Sai de casa normalmente depois do almoço, instala-se na esplanada do Café Central, junta imediatamente à sua volta larga assistência de ‘jovens’, aos quais vai insinuando a sua doutrina, provocando a maior desorientação nesse meio”.
De 1968 a 1974, pelo Natal, José Afonso publicou todos os anos um álbum. Com “Cantares de Andarilho”, “Cantos Velhos Rumos Novos” e “Traz outro amigo também” 17, produziu uma transição no seu percurso estético-musical, recuperando formas musicais e poéticas ancestrais, e alargou o acompanhamento musical a novos instrumentos. Para além da sua poesia, cantou vários poetas portugueses, autores surrealistas e versões de temas da música tradicional portuguesa.
Em 1971, quando embarcava para gravar em Paris o álbum “Cantigas do Maio” 18, foi detido no aeroporto pela PIDE e interrogado durante um dia sobre a distribuição de um manual de guerrilha urbana, ficando preso e incomunicável durante outros vinte dias, naquela que foi a mais prolongada das suas várias detenções.
No Natal de 1972 foi lançado o álbum “Eu vou Ser Como a Toupeira”. Poucos dias depois, no final do ano, na Capela do Rato, Zeca apoiava uma acção de jejum contra a guerra colonial coordenada por um grupo de “católicos progressistas”, com ocupação das instalações do espaço religioso, mantendo as portas abertas a todos aqueles, crentes e não crentes, que desejassem debater o problema da guerra colonial, manifestando assim o crescente mal-estar provocado por uma guerra injusta e sem saída. Nesta acção participaram também as Brigadas Revolucionárias, com a colocação de petardos, cujo rebentamento provocava a distribuição de panfletos com a informação do acontecimento, em vários locais estratégicos de Lisboa e da Margem Sul. Dias antes da ocupação da Capela do Rato o Exército português tinha massacrado as populações civis das aldeias de Wiriyamu, Juwau e Chawola, em Moçambique, soube-se meses depois.
No decorrer deste período de dedicação já exclusiva à actividade musical, cantou em Madrid e Barcelona, nas Astúrias e Galiza (onde pela primeira vez, em 1972, interpretou em público a “Grândola”), França, Bélgica, Inglaterra, Cuba e no Brasil (em representação de Portugal no VII Festival Internacional da Canção Popular, depois de ter sido escolhido pelos votos dos leitores do Diário de Lisboa, interpretando “A morte saiu à rua”, uma canção que evocava o assassinato do escultor Dias Coelho, militante do PCP, pela PIDE, uma actuação a que o público reagiu mal, reação enfatizada na imprensa do regime). Nos países europeus actuava junto aos núcleos da emigração e mantinha contactos com a diáspora no exílio. Ficou conhecido um episódio provocatório, protagonizado por militantes afectos a uma organização maoísta, num concerto designado “Chanson de Combat Portugaise“ 19, realizado na sala parisiense La Mutualité, em Novembro de 1970. Começou com a distribuição de um panfleto à entrada em que acusavam Zeca de pactuar com o regime e com essa atitude poder continuar a viver em Portugal e a gravar discos. As provocações continuaram durante as actuações de Sérgio Godinho, José Mário Branco, Tino Flores, Luís Cília e, quando chegou a sua vez, Zeca Afonso perante as “bocas” que interrompiam as canções, desafiou os provocadores a ir ao palco e o concerto acabou à lambada.
Em Abril de 1973 José Afonso seria preso de novo, durante 20 dias, período em que compôs parte das canções do disco “Venham mais cinco”, editado no final desse ano. Esta nova detenção ocorreu poucos dias depois do 3º Congresso da Oposição em Aveiro, no qual tinha participado e cantado. A propósito das suas detenções e da perseguição que o regime movia aos seus opositores, afirmaria mais tarde numa entrevista: “estive incomunicável, masnunca me torturaram fisicamente. Alguns intelectuais afirmam ainda hoje que a minha geração foi muito castigada, mas eu não penso isso. Mesmo a repressão foi adaptada aos bons costumes deste povo. Não se mata um governante em Portugal há 75 anos. Isso diz tudo, se pensarmos que tivemos o regime fascista mais longo da história contemporânea”20.
A 29 de Março de 1974, iniciava-se com meia hora de atraso, no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, o primeiro Encontro da Canção Portuguesa, com a participação dos cantores 21da oposição ao Estado Novo que estavam no país. Esta demora devia-se às diligências de agentes da censura e do Director-geral dos Espectáculos que nos bastidores sugeriam aos organizadores, a Casa da Imprensa, o “bom senso de cancelar o espectáculo”, com o argumento de que a censura tinha recusado dezenas de canções, proibindo que se cantassem versos de algumas outras. A situação era bastante tensa e o Coliseu, com a sala de espectáculos a abarrotar com mais de seis mil espectadores que pateavam e entoavam canções proibidas, estava cercado por centenas de elementos da polícia de choque, equipados com canhões de água e de tinta azul, bastões, gás lacrimogéneo, polícias a cavalo e cães. Na rua, espalhadas pelas imediações estavam mais de mil pessoas, que não arredavam pé, apesar de impossibilitadas de entrar na sala. José Afonso, tido entre os seus pares como o fundador do movimento de música de protesto, encerrou a sessão cantando “Grândola, vila morena” e “Milho verde”, os únicos temas que lhe foram autorizados. Logo a seguir, com todos os outros músicos no palco de braços entrelaçados, oscilando da esquerda para a direita, em cadência alentejana, no que foram imitados pelo público, foi cantada de novo a “Grândola, vila morena”. Sem pausa nem transição, os últimos versos da canção fundiram-se, entre aplausos, com os primeiros do refrão do hino nacional, “às armas, às armas, sobre a terra sobre o mar, às armas, às armas…” 22, entoado pelo público num clima de grande emoção. O canto prolongou-se pelas ruas limítrofes, à medida que os assistentes iam abandonando o Coliseu, com a sensação de que a situação do regime era insustentável e algo estava a mudar.
Vinte e seis dias depois, “Grândola, vila morena” era emitida pelos emissores do Rádio Clube como sinal para o início das operações militares do golpe de Estado de 25 de Abril, mundialmente conhecido como “A Revolução dos Cravos”, convertendo-se logo a seguir no seu hino. Passados quarenta anos ressoa para silenciar discursos de ministros e em manifestações de resistência e protesto em Portugal e além fronteiras 23. Enquanto houver força, “cantai rapazes, dançai raparigas e vós altivas cantai também”.
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Notes:
- Apresentada publicamente nove meses depois da morte de José Afonso. A AJA “é uma associação cultural e cívica, não confessional, formada em torno da memória e do exemplo de José Afonso”, propondo-se, como primeiro objectivo, “dar a conhecer, nas suas múltiplas facetas, a personalidade e o papel de José Afonso e promover a difusão da sua obra”. Conta com 13 núcleos em funcionamento de norte a sul do país e uma página web (goo.gl/p0O1Pv) que divulga a actividade relacionada com os seus objectivos, onde pode consultar-se um acervo de documentação e ouvir on-line grande parte da obra de José Afonso.
- Entrevista a José Amaro Dionísio, in Expresso, 15 de Junho de 1985.
- “José Afonso o Rosto da Utopia”, por José A. Salvador, Edições Afrontamento, Porto, 1999; “Zeca Afonso, As Voltas de Um Andarilho”, por Viriato Teles, Ulmeiro, Lisboa, 1999; José Afonso. Um Olhar Fraterno, por João Afonso, Editorial Caminho, Lisboa, 2002; página web da AJA, Associação José Afonso.
- No Liceu D. João III conheceu António Portugal e Luis Goes, futuros companheiros de andanças musicais e, também, protagonistas da “nova vaga” do fado de Coimbra.
- “Zeca Afonso, As Voltas de Um Andarilho”, por Viriato Teles, p. 44,Ulmeiro, Lisboa, 1999.
- Entrevista a A.-P. Vasconcelos, E. G. Carneiro e J. A. in Cinéfilo n.º 8, Lisboa,1973.
- Entrevista a José Armando Carvalho, in Comércio do Funchal, 1 de Junho de 1970.
- Entrevista à RTP em 1980.
- Entrevista a A.-P. Vasconcelos, E. G. Carneiro e J. A. in Cinéfilo nº 8. Lisboa,1973.
- Com Rui Pato à viola, que o acompanhará como instrumentista nos anos seguintes.
- Às quais se junta “Trova do vento que passa”, poema de Manuel Alegre musicado por António Portugal e interpretado por Adriano Correia de Oliveira, perseguindo ainda de perto a linha melódica do fado de Coimbra.
- “Zeca Afonso, As Voltas de Um Andarilho”, por Viriato Teles, p. 48, Ulmeiro, Lisboa, 1999.
- Entrevista a Joaquim Vieira, documentário “Maior que o pensamento”, parte II, 2011.
- Entrevista à Vida Mundial, 15/12/72.
- Participavam nessas sessões Manuel Freire, José Jorge Letria, Francisco Fanhais e Benedito Garcia. A quem nos anos seguintes se juntam Fausto, Vitorino, A. P. Braga, Carlos Moniz e Nuno Santos.
- Entrevista a A.-P. Vasconcelos, E. G. Carneiro e J. A. in Cinéfilo, n.º 8. Lisboa,1973.
- Álbum que teve a colaboração de Carlos Correia (Bóris), por impedimento de Rui Pato que cumpria o serviço militar.
- Inicia a colaboração com José Mário Branco, produtor deste álbum.
- O concerto pode ouvir-se na íntegra aqui [Entretanto, retirado do site {Nota do Editor}].
- Entrevista a José Amaro Dionísio, in Expresso, 15/6/85.
- Adriano Correia de Oliveira, Manuel Freire, Fausto, José Jorge Letria, José Barata-Moura, Fernando Tordo, Carlos A. Moniz e Vitorino. Participaram também, entre outros, o poeta Ary dos Santos e o compositor e guitarrista Carlos Paredes. Os impedidos de estar presentes: José Mário Branco, Sérgio Godinho, Francisco Fanhais e Luís Cília foram evocados por Adriano e fortemente aplaudidos pelo público.
- Pode ouvir-se parte substancial do concerto, editado, aqui.
- A 16 de Fevereiro de 2013, na Plaza del Sol em Madrid, “Grândola, vila morena” foi cantada no decorrer de um acto da Plataforma de los Afectados por las Hipotecas, PAH.
Panegírico a Zeca Afonso | Segunda parte
Do 25 de Abril ao 25 de Novembro
O 25 de Abril surpreendeu José Afonso em casa de um amigo livreiro, em Lisboa, onde se acoitara para esquivar a crescente pressão da PIDE, que nos dias anteriores tinha colocado sob vigilância a sua residência, em Setúbal. A forma como decorrera o concerto no Coliseu em Março e a iminência do 1º de Maio, momento escolhido tradicionalmente pela polícia para prender activistas da oposição ao regime, levara-o a manifestar a vários amigos o receio de voltar a ser preso.
Foi acordado às sete horas da manhã com a informação de que havia um golpe militar. O seu primeiro pensamento foi que seria um golpe dos generais do regime, apoiado pela PIDE, mas as informações foram apontando para que não era assim e saiu para a rua. A mesma atitude que impeliu milhares de pessoas a desrespeitarem as advertências para ficar em casa contidas nos comunicados do MFA e que, num curto lapso de tempo, alastrou à generalidade da população, que acudiu apoiando o gesto dos militares, misturando-se com eles, passando a condicionar todos os planos previamente definidos, conferindo ao golpe militar um contorno revolucionário. “Vivi o 25 de Abril numa espécie de deslumbramento. Fui para o Carmo, andei por aí…” 1 – recordaria Zeca Afonso, mais tarde. Teve conhecimento de que a “Grândola, vila morena” tinha sido o sinal rádio desencadeador das operações militares, dois dias depois do golpe. Em pouco tempo, a sua difusão atingiria proporções inimagináveis, sendo entoada de norte a sul do país na generalidade das manifestações públicas.
Os telespectadores portugueses viram pela primeira vez a cara do autor da “canção emblema” do novo tempo, através das câmaras da RTP, a 30 de Abril, quando foi entrevistado, rodeado de populares, nas imediações do aeroporto de Lisboa, onde tinha ido esperar os cantores José Mário Branco e Luís Cília, que regressavam do exílio em Paris. Nas declarações então proferidas, Zeca Afonso referiu a necessidade naquele momento de uma frente da esquerda e apontou para o principal perigo que ameaçava o movimento social desencadeado:“os indivíduos de cima que vão cavalgar esses movimentos” (as vanguardas), ao mesmo tempo que defendia a formação de comissões, como forma de organização das camadas populares. Esta foi das poucas intervenções televisivas de Zeca Afonso. O conteúdo destas declarações 2, a coerência do seu discurso e da sua prática no tempo que mediou até à sua morte, quase treze anos depois, ditaram, certamente, a censura a que continuou votado, período do PREC 3incluído. Vale a pena recordá-las:
Interrogado pelo repórter sobre como via o facto de ter sido a Grândola, vila morena “a dar o pontapé de saída para esta grande modificação que todos nós com grande alegria desejávamos”, respondeu: “Isso foi um facto acidental, mas enche-me de contentamento a utilização que foi feita pelas pessoas, que, aliás, já estava a ser feita em sessões que nós fazíamos, sessões particulares, nas cooperativas, em piqueniques, nas colectividades populares de cultura e recreio. A Grândola era um factor estimulante, de congregação das pessoas, de congregação emocional (…) Mas acho que temos que passar a uma fase menos emotiva e organizar-nos, sobretudo as camadas populares. Formar comissões. Exigir a libertação de todos os presos políticos, os que estão aqui dentro e os que estão em França e, sobretudo, os que estão no ultramar (…) A mesma opressão que nos domina aqui dentro, domina os povos africanos do ultramar. (…) Creio que neste momento é preciso congregar uma frente da esquerda e organizar sobretudo as bases. Há uma extensão enorme de pessoas apolitizadas, mas que vão constituir os organismos que futuramente serão a frente de facto revolucionária deste país. (…) Para mim, a coisa mais calorosa, a coisa mais comovente, é a súbita politização, a súbita consciencialização das classes populares (…) Não é preciso sermos doutores para nos politizarmos, pelo contrário, é em contacto com a prática directa das realidades (…) é sobretudo nessa prática, que surgem os verdadeiros lideres populares e não os indivíduos de cima que vão cavalgar esses movimentos”.
Depois de fazer considerações sobre a relação profunda entre o trabalho colectivo dos cantores da oposição ao regime e o povo português, o repórter perguntou-lhe se a música ia continuar a ter um papel importante nessa missão. José Afonso referiu a impossibilidade de que isso pudesse ser realizado só a partir da meia dúzia de nomes dos cantores consagrados no consenso popular e revelou uma das dificuldades com que estes criadores se deparavam na nova situação: “Tenho uma série de coisas metidas na gaveta, ora acontece que eu também sou uma vítima da linguagem a que me habituei, a linguagem alegórica que exprimia de uma maneira um bocado retorcida a realidade, por razões que nós sabemos”, – referia-se à censura -, “agora é necessário remodelar completamente esse tipo de linguagem…”. O repórter interrompeu-o reconhecendo o seu próprio embaraço: “… e ao fim e ao cabo é o povo que tem de nos ensinar a nós como é que vamos começar a trabalhar a nossa linguagem…”. Zeca Afonso concluiu: “…E é mesmo do povo que vão surgir os verdadeiros cantores”.
No mesmo dia, populares do bairro de São João de Deus, no Porto, cidade em cujos bairros degradados José Afonso se inspirou para criar a balada “Menino do bairro negro”, começaram a “cantar” uma nova canção: nomearam uma comissão para acabar com o regulamento municipal, denunciando-o como “meio de intromissão abusiva na vida dos moradores, que atenta contra os princípios de dignidade e de liberdade”. E, bem conscientes de que não bastava exigir, incitaram outros bairros a fazer o mesmo 4. Nos dias e semanas seguintes estas comissões alastrariam pelos bairros das cidades, vilas e aldeias, iniciando um movimento imparável, que se tornou nacional, focado na solução do problema habitacional que afectava, de várias maneiras, uma grande parte da população do país. Esta forma organizativa de base estender-se-ia dos bairros às fábricas, nos meses que se seguiram eram poucas as fábricas sem comissão de trabalhadores.
No aeroporto de Lisboa o repórter interrogou também José Mário Branco sobre o que ia fazer, agora que regressava, ao que este respondeu: “Não sei, temos de falar aqui com os camaradas para saber o que é que se faz. Eu não decido nada”. Estava rodeado por praticamente todos os cantores que no interior do país tinham usado a canção como forma de protesto contra o regime recém-derrubado. Ali decidiram encontrar-se naquela mesma noite. Nesse encontro, que se prolongou pela madrugada do 1º de Maio, decidiram constituir o Colectivo de Acção Cultural (CAC), que se dará a conhecer a 6 do mesmo mês, no “I Encontro Livre da Canção Portuguesa”, realizado no Palácio de Cristal, no Porto, com a leitura do manifesto assinado por diversos músicos e cantores 5, no qual fazem um apelo à intervenção de “todos os trabalhadores culturais anti-fascistas, anti-colonialistas e anti-imperialistas consequentes (…) no sentido de unificar e multiplicar a participação organizada e activa no movimento democrático e popular”. A mesma proclamação seria lida a 11 de Maio, no Teatro São Luíz, em Lisboa, num “espectáculo de canto livre” organizado pela Emissora Nacional.
O “colectivo” duraria apenas alguns dias. Em 25 de Maio realizou-se o “II Encontro de Canto Livre”, desta vez no Pavilhão dos Desportos de Lisboa. José Afonso abandonou o recinto depois do intervalo. Numa entrevista publicada semanas depois 6 explicou alguns dos motivos da sua atitude: “Acho grave neste momento desviar a atenção do público para aspectos secundários da realidade portuguesa: discutir a óptica política das canções (…), e acrescentava: “ Há objectivos muito mais concretos a partir dos quais as pessoas, na acção, terão de definir as suas opções políticas. Porque isto de as pessoas estarem diante de um cantor e dizerem ‘eu sou daqui, tu és dacolá’, é uma discussão académica, ridícula(…) de forma alguma penso que devamos contribuir para uma ilusória distinção de credos políticos, porque estes não se definem a partir de situações tão insignificantes como espectáculos no Pavilhão dos Desportos”. Por outro lado, sublinhava a distinção entre as actuações dos cantores de “intervenção” nos meios genuinamente populares (já tinha havido sessões em Porto Salvo, Belas, Belmonte, Covilhã, etc.), onde se excluía “um certo convencionalismo que é inerente ao espectáculo normal”, e as dos “espectáculos a pagar” do São Luiz e do Pavilhão dos Desportos. No intervalo deste último espectáculo esclareceu-se que os fundos se destinavam à sobrevivência do “Colectivo” e a custear as sessões e programas culturais que essa entidade se propunha realizar junto das massas populares, Zeca Afonso concluíria: “Portanto, eram as massas não populares, de extracção pequeno-burguesa, que estavam ali presentes, que iriam contribuir para a cobertura financeira de espectáculos dirigidos a massas populares. Eu acho isso, assim, um bocado equívoco”.
A separação verificada nos cantores tornava visível a divisão na esquerda e dava o tom da batalha que se travaria nos meses seguintes entre vários projectos de revolução, (“democrática e nacional”, do PCP; “democrática e popular”, das organizações maoistas; e “socialista”, da esquerda revolucionária). Ao mesmo tempo, o movimento revolucionário originado nos conflitos reais, alheio às desavenças partidárias, aproveitava a ocasião tão rara na vida das sociedades, quando o presente deixa de ser perpétuo, para, depois da explosão de alegria dos primeiros dias pela liberdade alcançada, partir para a solução dos seus problemas concretos.
A luta por melhores condições de vida estendeu-se como uma vaga alterosa que percorreu o país. A luta pelo restabelecimento do divórcio; a reviravolta nas escolas e universidades, com a demissão das direcções, reivindicação do fim dos exames e de faltas às aulas; as lutas no âmbito da habitação, com ocupações de casas devolutas e de prédios sociais já acabados, mas que permaneciam vazios; as reivindicações de aumentos de salários e redução do horário de trabalho, com centenas de greves declaradas em todo o país; todas estas e muitas outras conquistas foram possíveis pela dinâmica revolucionária que aproveitou o colapso das forças da ordem em todo o país, das forças policiais às autoridades administrativas de nível central e local. Os partidos e os sindicatos não impulsaram nenhuma destas conquistas, tendo sido apanhados de surpresa na generalidade das situações referidas. Os soldados enviados a missões repressivas, à palavra de ordem “soldados sempre, sempre ao lado do povo”, rapidamente apoiavam as acções em vez de as reprimir.
A tentativa falhada de golpe militar contra-revolucionário em 28 de Setembro deu um novo impulso ao processo revolucionário. Nos meses seguintes, incrementar-se-iam as ocupações de casas vazias por todo o país, as ocupações de empresas, abandonadas pelos proprietários e as ocupações de terras, abandonadas pelos latifundiários, adoptando um carácter de revolução social. À medida que o processo revolucionário foi avançando, sobretudo a partir dos primeiros meses de 1975, as iniciativas autónomas converter-se-iam em objectivos da intervenção partidária. Uns para as refrear, outros para as radicalizar artificialmente, todos para as controlar, aumentando, assim, a sua influência política 7.
Em Dezembro de 1974, José Afonso gravou em Londres o álbum “Coro dos Tribunais” 8, marcadamente influenciado pelos sons africanos. Todos os temas foram escritos e compostos antes do 25 de Abril, alguns para a peça “A Excepção e a Regra”, que musicou na Beira, em Moçambique. Já tinha admitido o seu embaraço em compor canções na nova situação “ponho mesmo o problema de saber se serei capaz de construir canções, também tenho dúvidas sobre se será o momento de as fazer e não as outras coisas mais importantes…”. Ao mesmo tempo, reafirmava a continuação da validade e actualidade das suas canções já editadas, uma vez que “o sistema mantém-se, logo, mantêm-se as formas tradicionais de opressão a que o povo português tem estado desumanamente sujeito” 9.
As “coisas mais importantes a fazer do que construir canções”, a que se referia Zeca Afonso, eram a participação empenhada na oportunidade real que se apresentava de concretização do sonho de acabar com este sistema opressivo, que acabou por sair frustrada, fruto da forte oposição dos interesses de classe instalados, do apoio internacional que receberam e daqueles que, assumindo-se como vanguarda, pouco mais fizeram do que controlar o ímpeto genuíno que saiu dos explorados e oprimidos deste povo.
Durante todo o período revolucionário, José Afonso acompanhou de perto as actividades do “Comité de Luta de Setúbal” (uma estrutura de poder popular constituída por comissões de trabalhadores, de moradores e de soldados, que teve uma intervenção importante nesta cidade, onde residia), e participou em muitas das iniciativas que se verificaram pelo país fora, correspondendo a inúmeros apelos que lhe foram dirigidos. “Quando havia alguma agitação telefonavam para o Zeca, o Zeca é que mobilizava a gente”, recorda Vitorino, que, em conjunto com Fanhais, Fausto, Júlio Pereira, Janita, Carlos Salomé, entre muitos outros músicos, calcorrearam o país num verdadeiro rodopio, sem receber “cachet”, algumas vezes cantando com megafones ou cornetas de circo. Participou também nas “Campanhas de Dinamização Cultural e Acção Cívica”10organizadas pelo MFA, que procurava com esta iniciativa conquistar a adesão das comunidades camponesas do centro e norte do país para o processo revolucionário. Logo depois da assinatura do Acordo de Alvor entre o Estado português e os movimentos de libertação angolanos, em Janeiro de 1975, que estabeleciam data para a independência da ex-colónia, José Afonso fez uma digressão por Angola, com Adriano, Fausto e Rui Mingas.
A tentativa de novo golpe contra-revolucionário, encabeçado por Spínola, em 11 de Março de 1975, teve como resposta imediata o levantamento de barricadas por todo o país e a declaração de greve geral. Este episódio ficaria marcado pelo fracasso da tomada do quartel do RAL1 por tropas paraquedistas, apoiadas por ataque aéreo, de que resultaria a morte do soldado Joaquim Carvalho Luís e ferimentos em dez outros militares 11. Dois dias depois, em solidariedade com os soldados do RAL1, que tinham resistido ao ataque e conseguido reverter a situação, José Afonso cantou naquela unidade militar, acompanhado por Sérgio Godinho e Francisco Fanhais. No álbum editado no ano seguinte, “Com as Minhas Tamanquinhas”, incluiria a canção “No Dia da Unidade”, que evocava os acontecimentos.
Com a neutralização do golpe, as ocupações de casas vagas estenderam-se a nível nacional. As comissões de moradores coordenaram-se: “Inter-Comissões de Moradores”, em Lisboa, “Conselho Revolucionário de Moradores do Porto” foram as designações adoptadas nestas cidades e passaram a ser, em muitas situações, a base organizativa do movimento social urbano, um verdadeiro poder dentro das cidades. Com o aumento das ocupações de empresas e o reforço do papel das comissões de trabalhadores surgiu também a coordenação destas na Inter-Empresas, que unia 24 das maiores empresas portuguesas “para auxiliar e apoiar as lutas dos trabalhadores”. Neste período assumiu preponderância o controle operário nas fábricas. Ao mesmo tempo intensificaram-se as ocupações de terras no sul do país.
Zeca Afonso conhecera e relacionara-se, nos tempos em que fora professor no Liceu de Faro, com três anti-fascistas que viriam a ter um papel importante na fundação e implantação da LUAR (Liga de União e Acção Revolucionária), nos anos sessenta: António Barracosa (que desertaria do exército na Guiné, entregando-se às forças do PAIGC, que o enviariam para a Argélia), Luís Benvindo e António Matias (seus alunos dos cursos nocturnos). Matias viria a morrer em 1967 devido a uma doença grave, no Hospital do Rego, onde estava internado sob prisão depois de ter sido detido numa passagem clandestina da fronteira, em Mértola, acusado de ligação ao assalto à delegação do Banco de Portugal na Figueira da Foz 12. A sua relação com o entorno da LUAR vinha de longe e não surpreende a sua participação nas actividades desta organização depois do 25 de Abril, uma vez que esta se definia desde 1968, como não sendo um partido político, nem estando submetida a nenhum sistema político, admitindo no seu seio a pluralidade de tendências e defendendo o socialismo e a instauração do Poder Popular (deixaria de ter actividade em 1976). Zeca Afonso referir-se-á à sua ligação à LUAR anos mais tarde: “Associei-me a um tipo de processo descentralizado, inspirado talvez pelo Paulo Freire. E fiz, de facto, as sessões mais espantosas da minha vida, junto da ‘nata’ do povo, ao lado do Camilo Mortágua 13, do Fanhais e de outros. Foram sessões de esclarecimento mútuo” 14.
Dois dias antes das eleições para a Assembleia Constituinte, a 23 Abril de 1975, foi ocupada, no Ribatejo, a herdade da Torre Bela, uma das maiores do país com 1700 hectares, propriedade do Duque de Lafões, pelos moradores das aldeias vizinhas, a maioria trabalhadores agrícolas desempregados, apoiados por membros da LUAR, entre os quais se encontrava Camilo Mortágua que viria a ter um papel preponderante na ocupação e ali permaneceria por muito tempo. No decorrer do processo prolongado e complicado da ocupação 15, Zeca Afonso, acompanhado por Fanhais e Vitorino fizeram acto de presença na herdade, cantando em solidariedade com os ocupantes.
A radicalização da situação política ganhou maior ímpeto nos meses seguintes. As ocupações de herdades alastram pelo Ribatejo e Alentejo; as greves e os conflitos laborais estenderam-se a todos os sectores de actividade. As eleições para a Assembleia Constituinte, realizadas em Abril, em plena efevercência revolucionária, cujo resultado colocara o PS como partido maioritário, com quase o quádruplo de mandatos do PCP, seguido do PPD, com quase o triplo, não refletia, nem podia reflectir pela sua artificialidade, a correlação de forças real na situação político-militar e social do país. O PS, o PSD e o PCP estavam no Estado, a revolução estava na rua.
Já em pleno “verão quente”, a LUAR editaria à margem do circuito comercial um disco com duas canções musicadas por José Afonso: “Viva o Poder Popular”, um apontamento da situação que se estava a viver no país, com letra também sua, que dava o nome ao disco; e “Foi na Cidade do Sado”, uma crónica dos acontecimentos vividos a 7 de Março de 1975, em Setúbal, quando a polícia matou um jovem e feriu duas dezenas de pessoas na sequência de uma manifestação de protesto contra a realização de um comício do PPD, com letra escrita em colaboração com intervenientes nos acontecimentos. Em Outubro, José Afonso deslocou-se a Itália para participar na gravação do álbum “República”, produzido por várias organizações italianas da área da autonomia operária, em solidariedade com o jornal República e a Reforma Agrária. O produto da venda deste disco, que nunca chegou a ser editado em Portugal, destinava-se a apoiar aquele jornal ocupado pelos trabalhadores ou, caso o jornal fosse entretanto extinto, como veio a acontecer, ao Secretariado Provisório das Cooperativas Agrícolas de Alcoentre.
Em Julho a Assembleia Geral do MFA tinha aprovado o Documento-Guia da Aliança Povo/MFA, uma tentativa de converter o MFA num intermediário entre os partidos e a realidade que se vivia no país. Nele preconizava-se a participação popular na vida do Estado, incentivava-se a criação de organismos populares de base que constituiriam “o embrião de um sistema experimental de democracia directa”. As reacções não se fizeram esperar. O PS e o PPD abandonaram o governo nos dias seguintes, deixando o PCP e o MFA a governar o país em convulsão revolucionária.
Em Setembro, o MFA revelava as suas divisões intrínsecas, com os “militares moderados” a tomar conta do Conselho da Revolução, ao mesmo tempo que a revolução se estendia definitivamente nos quartéis, pela acção dos SUV (Soldados Unidos Vencerão). As bombas colocadas pelo MDLP/ELP (a extrema-direita) contra objectivos “da esquerda” aumentavam, de frequência e de potência, ao mesmo tempo que as homílias nas igrejas do centro e norte do país preparavam os espíritos para os assaltos às sedes dos partidos de esquerda e dos sindicatos. A esquadra da NATO fazia manobras na costa portuguesa. O Governo mobilizava em manifestações de rua os sectores contra-revolucionários e, pressionado pela pressão popular, acabava por fazer greve. O plano do golpe militar para acabar com a indisciplina que grassava nos quartéis e nas ruas estava preparado, tinha a aprovação do capitalismo internacional, faltava o pretexto.
Não era difícil amotinar os paraquedistas na situação que então se vivia, bastava passá-los à disponibilidade. Foi o que a chefia da Força Aérea fez. Os paraquedistas de Tancos reagiram ocupando as principais unidades do ramo aéreo no centro e sul do país, na noite de 24 para 25 de Novembro. “Não podemos aceitar a decisão de nos destruir (…) Afirmamos desde já que não se tratou de nenhum golpe militar como estamos a ser acusados”, explicaram os “páras” em dois comunicados sucessivos divulgados no decorrer dos acontecimentos. Contudo, ficaram com a fama de terem desencadeado um golpe de esquerda, o tal que justificou o golpe de direita, que acabou com o processo revolucionário.
As “vanguardas”, algumas delas armadas, não mobilizaram os “seus” militantes, nem apelaram às “massas”, para suster o golpe contra-revolucionário, acabando por ficar para a história que perderam a batalha por falta de comparência.
Muitos populares acorreram aos quartéis na expectativa de resistir 16. Zeca Afonso com dois companheiros de Setúbal e um amigo cineasta 17 dirigiram-se à base de Tancos, para apoiar os “páras” na sua luta e ali permaneceram até ao dia seguinte, quando Melo Antunes, um dos principais artífices do golpe vitorioso, veio a público para salientar que “a participação do partido comunista português na construção do socialismo é indispensável” 18. Os tempos que se avizinhavam seriam complicados e alguém tinha de continuar a manter debaixo de controle as massas trabalhadoras. José Afonso acompanharia o estertor do PREC nos anos seguintes, como a seguir se verá.
Em Portugal, a 25 de Novembro de 1975, a revolução mais importante da história da Europa do pós-guerra foi represada de um modo novo. Contrariamente ao conjecturado a contra-revolução não adoptou o modelo “golpe de estado seguido de ditadura militar”, utilizado dois anos antes no Chile, com milhares de revolucionários confinados em estádios de futebol à espera de fuzilamento (entre eles outro cantautor, Victor Jara, a quem simbolicamente partiram os dedos das mãos antes de ser passado pelas armas). Embora algumas vozes do Conselho da Revolução pedissem insistentemente a prisão de Zeca Afonso e dos três civis que o tinham acompanhado a Tancos, os que realmente dirigiram esta nova forma de atalhar revoluções não as ouviam, por não lhes interessar que fossem feitas quaisquer comparações com o caso chileno, estimuladoras de reacções ao golpe. Nenhum partido foi ilegalizado, o estado de sítio imposto na região militar de Lisboa foi parcialmente levantado cinco dias depois, tantos quantos tinha estado suspensa a publicação dos jornais da capital.
Nos dias seguintes aos acontecimentos seriam presos 160 militares e civis acusados de envolvimento no pseudo-golpe de esquerda, tendo sido encarcerados na cadeia de Custóias e no Forte de Caxias. Com estas prisões, saneamentos e passagem à disponibilidade em massa de soldados e oficiais revolucionários, o movimento popular, até então apoiado no poder de facto destes militares, passava a contar com as suas próprias forças na defesa das conquistas alcançadas durante o PREC, ameaçadas pela recuperação capitalista propiciada pelo êxito do golpe contra-revolucionário.
A solidariedade com os militares e civis presos manifestou-se logo a partir dos dias seguintes ao golpe e viveu momentos marcantes no dia 1 de Janeiro de 1976, junto à Cadeia Civil de Custóias, nos arredores do Porto, quando a GNR abriu fogo sobre uma multidão de dezenas de milhar de manifestantes ali concentrados em solidariedade com os detidos na sequência do 25 de Novembro, provocando a morte a tiro de três manifestantes e ferindo outros sete (um dos quais sucumbiria também no dia seguinte) entre eles uma criança 1. Na noite anterior tinham sido os Comandos da Amadora a reprimir os milhares de manifestantes concentrados em Caxias provocando vários feridos.
Apesar de uma certa desmobilização motivada pelo êxito do golpe contra-revolucionário e pela atmosfera de medo que se foi estendendo na sociedade, levando ao recuo de muitos dos que se tinham envolvido e empenhado nos vários processos de luta, entre Novembro e Fevereiro, foram ainda ocupados quatro latifúndios no Alentejo e seguiram-se centenas de lutas em que os trabalhadores tomaram atitudes e praticaram acções mais radicais do que nos meses anteriores ao golpe de 25 de Novembro de 1975 2. Durante Fevereiro e Março os trabalhadores de centenas de empresas entraram em greve, reivindicando aumentos salariais que compensassem o aumento de 40% dos preços dos bens alimentares verificado no mês de Janeiro. Estas atitudes dão uma ideia da situação política e social que se vivia no país depois de ano e meio de processo revolucionário, indicadoras, também, de que seria dada batalha à recuperação capitalista que inevitavelmente se seguiria.
Na amálgama de interesses internos que formavam o bloco contra-revolucionário, representados no espectro político por um leque de partidos e organizações que ia do PS ao ELP/MDLP, a direcção que se impôs considerava prioritária a substituição da “legitimidade revolucionária” pela “legitimidade eleitoral”. Mas uma outra linha, associada às tentativas de golpe militar de 28 de Setembro de 1974 e de 11 de Março de 1975, nas quais pontificou o General Spínola, insistia na táctica golpista, para o caso de “as coisas não correrem de feição” às forças contra-revolucionárias nas eleições que se avizinhavam, assumindo as funções de braço armado desta aliança de interesses.
Quando se fala de terrorismo em Portugal quase ninguém o associa às centenas de bombas que rebentaram por todo o território, continente e ilhas, colocadas contra objectivos “de esquerda”. Por estranho que possa parecer hoje, os atentados bombistas recrudesceram depois do PREC, só no ano que se seguiu ao golpe de 25 de Novembro de 75, foram colocados 210 engenhos explosivos, realizados 12 atentados a tiro e assaltadas ou incendiadas 14 sedes de partidos e sindicatos, de que resultaram 10 mortos e 26 feridos 3. Os atentados com o selo da “direita” prologaram-se até bem entrado o ano 1977.
Foi um amigo de Zeca Afonso, o jornalista alemão Günter Wallraff, quem deu a conhecer ao mundo pormenores importantes desta conspiração numa extensa reportagem publicada na Alemanha 4, onde se denunciava o bombismo e a sua relação com a preparação de um golpe de estado em Portugal. No início de 1976, Wallraff tinha logrado aproximar-se aos círculos da extrema-direita no Norte do país, sob disfarce de representante de uma instituição ligada à direita alemã, encarregado de avaliar a hipótese de fornecer armas e dinheiro às organizações que combatiam o “comunismo” em Portugal. E desempenhou tão bem esse papel que, a 25 de Março, sentava-se finalmente com Spínola à mesa de um restaurante de luxo, em Düsseldorf, para negociar aquele suposto apoio numa conversa de três horas gravadas integralmente de forma clandestina. A reportagem seria publicada 15 dias depois. Esta investigação jornalística, que seria editada desenvolvidamente em livro mais tarde 5, estava recheada de pormenores reveladores da articulação dos vários interesses representados no bloco contra-revolucionário. As declarações e testemunhos de alguns dos protagonistas desse conluio, produzidos muitos anos depois, reconhecendo o essencial dos factos então revelados, vieram contrariar claramente a tese, amplamente veiculada na altura, de que a reportagem fora forjada, e teria como objectivo prejudicar os partidos “democráticos” nas eleições legislativas, convocadas para quinze dias depois da sua publicação, assim como o General Ramalho Eanes, escolhido por estes como o seu candidato às presidenciais de Junho, também referenciado no artigo pelas suas ligações ao ELP/MDLP.
As eleições presidenciais vieram dar oportunidade à mobilização dos sectores populares envolvidos nas formas de organização autónoma nascidas durante o processo revolucionário. A ideia de uma candidatura que pusesse em marcha “uma campanha de unidade do povo trabalhador, de reforço das suas organizações populares de base e de relançamento das lutas” rapidamente ganhou força. A detenção preventiva de Otelo, ordenada por Ramalho Eanes na condição de Chefe do Estado-Maior do Exército, a 19 de Janeiro, facilitou a sua escolha como candidato. Em Maio, já com Otelo em liberdade, representantes de dezenas de órgãos populares de base davam o primeiro passo propondo-lhe a candidatura. Nos dias seguintes passaram a ser centenas, ao mesmo tempo que a generalidade das organizações da chamada esquerda revolucionária manifestavam também publicamente o seu apoio à “candidatura popular”.
Da campanha, na qual Zeca Afonso teve uma participação destacada desde o comício de abertura, em Grândola, recordo um episódio, no qual participei, ilustrativo do ambiente de tensão política que se respirava naqueles dias em Portugal: o atentado a Otelo em Lamego (ver caixa). José Afonso admitiu em várias entrevistas que convivia com o medo, chegando a afirmar: “o medo é uma coisa substancial em mim”, mas confessava também que em geral nunca tinha deixado de fazer alguma coisa por causa do medo, referindo duas excepções vividas durante esta campanha: em Lamego, defendendo a alteração do itinerário da caravana, para evitar a ida a Viseu e, outra vez, nos Açores, quando aconselhou Otelo a não comparecer num comício, face às prévias ameaças dos separatistas.
Na véspera das eleições presidenciais, José Afonso explicava numa longa entrevista 6, as razões que o tinham impulsado a esta participação empenhada no terreno estritamente político: “Não apoio propriamente a figura de Otelo, apoio a relação entre Otelo e o Povo. Alguns aspectos mais interessantes da ‘revolução‘ foram conseguidos com o apoio dos efectivos que Otelo comandava no COPCON: as ocupações de casas, de terras, o impedimento de acções de despejo. Apesar de certas hesitações e até de atitudes incorrectas (…) tudo isso não invalida o que de bom o Otelo fez e é reconhecido pelas massas populares”. Depois de explicar como se dera o seu envolvimento e como se dispusera a colaborar com a candidatura apoiada pelos órgãos de poder de base, aclarava que a sua motivação ao acompanhar Otelo na campanha eleitoral, o que lhe daria mais gosto, “seria ajudar a constituir GDUPs [grupos dinamizadores de unidade popular] ou estabelecer ligações entre os diversos grupos a partir do conhecimento que tenho do país, das minhas múltiplas relações e da conduta que sempre me esforcei por ter: ser não sectário. (…) Se neste período se reforçarem as organizações por todo o lado, se esse trabalho for feito com o espírito de unidade e prático, isto é, cada intervenção for consequente, se os diversos grupos forem contactando uns com os outros, e se surgir daí um princípio de coordenação, tenho a certeza de que ficará qualquer coisa de toda esta campanha, mesmo que o Otelo não ganhe. À pergunta se via a possibilidade de Otelo se transformar num elemento catalisador desta movimentação popular, respondia: “sem uma figura popular e unificadora, capaz de fazer estalar as divergências partidárias que impedem que os explorados se unam, também não existirá organização popular”. Depois de referir a “responsabilidade enorme contraída por Otelo” assinalava a necessidade de se constituir uma direcção política com funções de coordenação “que aponte o caminho para soluções eminentemente práticas” e que simultaneamente fosse a “aliança de uma base de luta anti-fascista e anti-imperialista”. Perante o previsível endurecimento do regime resultante da eleição de Eanes e a intensificação dos ataques bombistas, afirmaria na mesma entrevista: (…) A violência reaccionária já existe por todo o lado. Na própria criação de polícias e para-polícias profissionalizadas. Nas próprias Forças Armadas reduzidas à função de reprimir o povo. Quando as contradições se agudizarem, quando os trabalhadores nas suas reivindicações começarem a ser reprimidos pela violência, (…)nessa altura haverá choque, e esse choque terá que assumir formas de violência, de todas as formas e feitios. Temos que estar preparados para esta circunstância (…)Temos que nos preparar para a violência revolucionária (…) É urgente que a consciência de classe das massas trabalhadoras motive a formação de uma organização que corresponda às suas necessidades”.
Como se esperava, os resultados eleitorais foram concludentes: os partidos do bloco contra-revolucionário elegiam 80% dos deputados para a Assembleia da República, em Abril, e Eanes seria eleito presidente com 62% dos votos em Junho. Estava assim alcançada, entre nós, a tal “legitimidade eleitoral” perseguida pela nova estratégia do capitalismo mundial para combater ou evitar processos revolucionários. Os ensinamentos retirados do laboratório em que se converteu a experiência portuguesa seriam imediatamente postos em prática em Espanha, depois, nos anos oitenta, na América latina e nos países do Leste europeu, mais recentemente, já neste século, nas “primaveras árabes”.
No verão de 1976 José Afonso edita aquele que considera o seu melhor álbum: “Com as minhas tamanquinhas” 7. Em contrapartida, os críticos musicais classificaram-no como o pior disco da música portuguesa desse ano e, segundo declarações do cantautor Vitorino, um radialista, de quem não consegue recordar o nome, partiu o vinil numa emissão em directo. Nesse disco estão refletidas vivências do processo revolucionário, lutas de pequenas comunidades, mostras de solidariedade com povos oprimidos ou com Alípio de Freitas, ex-padre transmontano, fundador das Ligas Camponesas e guerrilheiro no Brasil, onde estava preso e era vítima de severas torturas. Alípio seria libertado quatro anos depois, regressando a Portugal, onde conheceria Zeca Afonso com quem estabeleceria uma relação de amizade profunda e, depois da sua morte, tornar-se-ia o primeiro presidente da AJA. Alípio faleceu em Lisboa no passado mês de Junho.
Numa demonstração óbvia do conluio entre os vencedores das eleições realizadas no segundo trimestre de 1976, os militares golpistas e as redes bombistas, logo em Agosto, Spínola regressava a Portugal após um exílio vivido entre Espanha, Suiça, Brasil e Estados Unidos. Tratava-se também duma experiência, preparatória do regresso em procissão dos grandes senhores da banca, latifundiários, patrões sabotadores, fascistas, pides e legionários, fugidos durante o processo revolucionário. Aquele que fora o chefe militar do golpe reaccionário falhado a 11 de Março de 1975; tendo fugido para Espanha acompanhado por dezasseis oficiais transportados em quatro helicópteros depois de ter ordenado o bombardeamento do RAL 1, de que resultara a morte de um soldado e ferimentos de outros 11 militares; que organizara a partir do país vizinho, com a cumplicidade das autoridades espanholas, o ELP/MDLP, responsável até então por centenas de atentados à bomba; expulso do território suiço no mês de Abril anterior, acusado pelas autoridades locais de “conspiração contra Estado Amigo”; regressava a Portugal, com a cobertura do presidente Ramalho Eanes, eleito um mês e meio antes, e era colocado em liberdade sem cargos, depois de ouvido pelas “autoridades militares” 8.
Quatro dias antes tinham sido detidos vários indivíduos relacionados com a rede bombista, onde se destacava Ramiro Moreira, militante com o cartão nº 7 do PPD, que “deixara a sua marca” em mais de cento e cinquenta atentados, como ele próprio reconheceu. As suas declarações implicam na actividade terrorista vários militares, dirigentes partidários, agentes da polícia judiciária, industriais e personagens destacadas da igreja. Estas informações já estavam na posse da polícia desde Fevereiro de 1976, através das declarações prestadas por José Ribeiro da Silva, um elemento dos CODECO (comandos operacionais de defesa para a civilização ocidental), ligados à FNLA (frente nacional de libertação de Angola) e ao CDS, detido na sequência do assalto à Standard Eléctrica 9.
O julgamento do processo da rede bombista iniciar-se-ia no final do ano seguinte. Apesar da natureza civil dos crimes, decorreria no Tribunal Militar sob grande polémica ao longo de quase oito meses. Da sentença resultou a absolvição da esmagadora maioria dos réus e a condenação de uns poucos com base nas confissões “na parte em que se comprometiam a si próprios”, mas rejeitando-as quando esclareciam quem os mandara e quem lhes fornecera os meios para espalharem o terror. De qualquer modo, os condenados sairiam meses depois em liberdade, com a anulação do julgamento decidida pelo Supremo Tribunal Militar. Os militares contra-revolucionários controlaram todo o processo, desde a fase de investigação até ao julgamento dos autores materiais das actividades bombistas de que tinham sido cúmplices. Ramiro Moreira, apesar de condenado a 21 anos de prisão, viveu tranquilamente em Madrid, onde era funcionário superior da Petrogal, uma empresa pública portuguesa e nunca teve contra si mandatos de captura. No início da década de noventa foi indultado por Mário Soares.
Os 800.000 votos alcançados por Otelo seriam a base em que se apoiaria a iniciativa de organização de um “movimento de unidade popular”, que aproveitava a dinâmica gerada em torno à candidatura, para unir e organizar os trabalhadores na defesa das conquistas alcançadas durante o processo revolucionário, ao mesmo tempo que preparava a defesa contra a possibilidade de golpe fascista, ameaça sempre presente nas conjecturas destes dias. Estes eram os objectivos que supostamente aglutinavam as organizações políticas envolvidas nesta iniciativa unitária, uma amálgama que reunia praticamente todas as organizações da “esquerda revolucionária”, mas com vida curta, como se verificaria poucos meses depois. Zeca Afonso posicionar-se-ia em comunicado público 10 sobre o debate e as práticas na organização nascente, onde critica o papel dos partidos apoiantes do movimento, distinguindo “a UDP e o seu pai ideológico, o PCP(R) pelo sectarismo, dirigismo, oportunismo e, causa ou consequência disso tudo, pelo seu eleitoralismo”, apontando duas situações concretas: “o comportamento frente à mobilização popular desencadeada pela prisão de Otelo”, que tinha sido encarcerado em Caxias a 23 de Outubro, acusado de implicação no “golpe” de 25 de Novembro, e “pela apresentação oportunista e golpista do seu deputado parlamentar, Acácio Barreiros, como candidato à presidência da Câmara de Setúbal”. A tentativa de edificar uma “alternativa de esquerda, progressista e revolucionária para Portugal” ficar-se-ia pelo ensaio. O Congresso dos GDUPs, realizado uma semana depois, tornaria visíveis as divergências estratégicas entre as “vanguardas”, liquidando o MUP (movimento de unidade popular) à nascença.
Com o estouro de qualquer possibilidade de organização unitária a partir dos GDUPs, o PRP inicia a organização de um projecto revolucionário de carácter secreto. Caracterizava-se por estar compartimentado em quatro componentes com funcionamento autónomo: Otelo, como catalisador; uma organização política unitária de massas (que viria a constituir-se num congresso fundador em Abril do ano seguinte na Marinha Grande sob a designação “Organização Unitária de Trabalhadores”, OUT); Quartéis, com o objectivo de organizar os militares revolucionários em duas estruturas separadas: os do quadro permanente, que não tinham sido saneados; e os do quadro não permanente, que cumpriam o serviço militar obrigatório; e uma “estrutura civil armada”, com o objectivo de militarizar os trabalhadores.
Depois de ter passado um ano sem editar obra nova, José Afonso volta em 1978 com o álbum “Enquanto há Força” 11, em cujo tema que dava nome ao disco se seguem os versos: “no braço que vinga / que venham ventos / virar-nos as quilhas / seremos muitos /seremos alguém”. Uma canção de desafio a que se segue outra de precaução e estímulo: “Tinha uma sala mal iluminada / perguntavas pelo amigo e estava a monte / a fuga era a última cartada / a pide estava ali mesmo de fronte”, que finalizava com claras referências ao momento que se vivia: “a velha história ainda mal começa / agora está voltando ao que era dantes / mas se há um camarada à tua espera / não faltes ao encontro sê constante”.
No início de 1978, agentes da Polícia Judiciária montam uma cilada, em Massarelos, na cidade do Porto, de que resulta a morte a tiro de um agente e ferimentos noutros três 12 e levaria ao desencadear, em Junho do mesmo ano, de uma ofensiva contra o PRP resultando na prisão de dezenas de militantes, entre os quais Carlos Antunes e Isabel do Carmo, fundadores das Brigadas Revolucionárias antes do 25 de Abril e “dirigentes históricos” do partido. A eliminação de um delator, José Plácido, membro da Direcção Estratégica do projecto secreto já referido, em Novembro de 1979, na Marinha Grande, estaria na origem da expulsão daqueles dirigentes e de outros militantes também presos, depois de terem repudiado em comunicado essa acção. Zeca Afonso iria estar na primeira linha da solidariedade com os presos do PRP desde o primeiro momento da sua prisão, até à sua libertação quatro anos depois.
Na sequência da aprovação da lei da Reforma Agrária, da responsabilidade de António Barreto, tinham-se intensificado as entregas de herdades aos antigos proprietários. Estas acções nunca foram pacíficas, mas atingiriam um ponto crítico na herdade do Escoural a 27 de Setembro de 1979. No decorrer dos confrontos a GNR matou a tiro dois trabalhadores rurais, António Casquinha e João Geraldo, “Caravela”, ferindo gravemente outro, Florival Carvalho.
José Afonso editava em 1979 o álbum “Fura Fura” 13 que inclui temas criados para as peças de teatro “Zé do Telhado” da Barraca e “As Guerras de Alecrim e Manjerona” pela Comuna Teatro de Pesquisa, com a participação de músicos das novas gerações.
Numa tentativa de reeditar a iniciativa unitária do MUP, experimentada sem êxito a partir dos GDUPs três anos e meio antes, em Janeiro de 1980, Otelo impulsou a criação da FUP (força de unidade popular). Em Março constituia-se como partido, através de um acordo subscrito por representantes da OUT, PRP, MES, PC(ml)P, PC(R), UC, UDP e quatro personalidades independentes. Entretanto, a cisão verificada no PRP no final do ano anterior tinha dado origem a uma transformação no “projecto das quatro componentes”, mudando a sua designação interna para “Projecto Global”. A estrutura civil armada, que até ali não reivindicava as acções armadas levadas a cabo, passava a assumi-las sob a sigla FP-25 de Abril, que viriam a dar-se a conhecer publicamente com lançamento de petardos a 20 de Abril de 1980. As primeiras acções reivindicadas fizeram estalar o consenso, seguindo-se a debandada da maior parte das organizações subscritoras do acordo de constituição da FUP. Otelo candidatar-se-ia nas eleições presidenciais, realizadas em Dezembro, nas quais recolhe pouco mais de dez por cento dos votos conseguidos nas anteriores. Zeca Afonso volta a apoiá-lo empenhadamente. A análise das condições políticas para o salto qualitativo que implicava a prática assumida da luta armada estava influenciada pela existência de dezenas de militantes clandestinos, originados no processo repressivo contra o PRP, e pela situação económica e social dramática que afectava já largas camadas da população, com tendência para agravar-se. Os salários em atraso passaram a ser uma prática consentida pelo poder, foi incrementada a devolução de terras aos latifundiários e de fábricas aos ex-donos que as tinham abandonado, seguiram-se as privatizações de sectores da economia nacionalizados durante o PREC. Em paralelo, este projecto foi intervindo com acções armadas contra esta escalada da recuperação capitalista, ao mesmo tempo que definhava numa agonia que se prolongaria nos sete anos seguintes.
Zeca Afonso revelaria numa entrevista 14, publicada quando já Otelo e dezenas de militantes do Projecto Global / Forças Populares 25 de Abril se encontravam presos acusados de terrorismo, a sua posição sobre a luta armada: “Penso que é um recurso legítimo (…) Não faz a revolução, presta-se mesmo a alguns equívocos, mas tem ao menos a vantagem de radicalizar a indignação e sobretudo de repor pontos de equilíbrio numa relação de forças em que o cidadão comum é permanentemente ludibriado pelos profissionais da política”. E num programa de rádio 15 na mesma época consideraria: “essa violência é, do ponto de vista moral, perfeitamente legítima. Perfeitamente aceitável. Foi o poder que deu origem a que essa violência surgisse”
Em 1981, numa decisão que pode ser interpretada como um sinal do refluxo, José Afonso grava um álbum com fados de Coimbra, voltando a cantar os temas que o deram a conhecer. Nele presta homenagem a Edmundo Bettencourt a quem dedica o disco, o único dedicado por si de forma expressa.
Voltei a ter contacto directo com Zeca Afonso no verão de 1982. Ferreira da Costa 16, libertário, detentor do recorde da “frigideira” durante o seu tempo de reclusão no Tarrafal entre 1942 e 1944, otorrinolaringologista de Coimbra, informado por mim do estado de saúde de Zeca Afonso, incumbiu-me de lhe fazer chegar o seu interesse em observá-lo e dar-lhe a sua opinião de “médico não comprometido com o negócio da doença”, como gostava de sublinhar. Através de Natércia Oliveira que, com Ivone Chinita, ambas já falecidas, coordenava os trabalhos da cooperativa cultural Era Nova, concretizou-se o encontro em Lisboa e combinou-se a ida a Coimbra. Ali, no consultório arcaico do velho lutador anti-salazarista, Zeca não ouviu palavras esperançosas. Ao acabar a visita, no seu estilo directo, com os olhos brilhantes de emoção, apoiando as suas mãos nos ombros de Zeca, Ferreira da Costa exprimiu-lhe a grande admiração que tinha por ele e a sua trajectória e aconselhou-o a não se fiar nos “charlatães” que lhe davam falsas esperanças, “tinhas de te ter cuidado antes, agora não há nada a fazer”, concluiria. A ida a Coimbra foi um passo dos muitos que deu no périplo em busca de remédio para a doença que o minava. Zeca Afonso deixaria uma boa parte da sua saúde sobre os palcos, a própria sensação de palco foi para ele uma situação agressiva a que dificilmente se adaptou: “eu estava pouco preparado do ponto de vista biológico, para andar de terra em terra a cantar”.
Na noite de 29 de Janeiro de 1983 realiza-se no Coliseu dos Recreios aquele que pode ser considerado como o primeiro e único “espectáculo” de José Afonso. Já visivelmente afectado pela doença, Zeca interpreta dignamente canções das várias fases do seu percurso de cantautor. Na sala, esgotada muitos dias antes, as emoções provocadas pelas memórias transportadas pelas canções misturavam-se com as que emergem nas despedidas. Do registo do concerto foi editado o duplo álbum “Ao vivo no Coliseu”. Em Novembro tinha iniciado as gravações daquele que seria o último disco em que participava activa e integralmente, “Como se fora seu filho” 17, que se prolongariam até Abril do ano seguinte. Um disco onde repassam memórias e sonhos, muitos insatisfeitos, a crítica incisiva à realidade do tempo e a presença da utopia.
A proposta de condecoração de José Afonso com a Ordem da Liberdade da iniciativa do Presidente da República Ramalho Eanes, um dos principais artífices do regime construído sobre a derrota do processo revolucionário português, surge numa altura de debilidade física provocada pela doença e num momento de grandes dificuldades económicas, apenas superadas pela solidariedade dos seus amigos portugueses e estrangeiros. As pressões para que a aceitasse foram muitas, mesmo no seu entorno mais próximo, ao ponto de ter chegado a admitir numa entrevista a um programa de rádio 18 que a aceitaria. Depois de referir que gostava de estar arredado daquele tipo de celebrações e de considerar que, antes dele, outros eram mais merecedores daquela distinção, Zeca Afonso acaba por afirmar: “(…) finalmente, depois de aconselhado, de pedir o conselho a várias pessoas, a alguns dos meus ex-companheiros da LUAR e tantos outros, entendi que seria correcto aceitar essa homenagem”. A verdade é que nunca a aceitou, como se pode verificar na lista dos condecorados 19 Anos mais tarde, outro Presidente da República, Mário Soares, mais um artífice do regime, tentou condecorá-lo a título póstumo, intento que lhe saiu gorado pela resposta inequívoca da sua companheira Zélia Afonso: “se não quis ser condecorado em vida, não o será depois da morte”.
Com o álbum “Galinhas do Mato” 20 José Afonso conclui a sua obra musical no final de 1985. Devido ao debilitamento provocado pela doença, apenas dois dos dez temas originais do disco são por si interpretados: ”Escandinávia Bar” e “Década de Salomé”.
A última iniciativa política a que Zeca Afonso apareceu ligado foi a candidatura às presidenciais de Lurdes Pintassilgo, justificando o seu apoio com a conjuntura vivida “que não aponta para nenhuma acção popular ou revolucionária. Afirmar isto era pura demagogia. Portanto eu apoio uma candidata que dê margem para determinadas movimentações a que eu chamo de contra poder…”. Manteria até ao final da vida o apoio à luta do povo de Timor Leste e à Fretilin.
A notícia da sua morte (já esperada) espalhou-se num ápice por toda a Ala A da Penitenciária de Lisboa, onde se encontravam, isolados da restante população prisional, a maioria dos presos do “caso FUP/FP25”. As mostras de solidariedade de José Afonso com os implicados neste processo judicial tinham sido constantes. Foi das poucas personalidades publicamente conhecidas que sempre defendeu “Amnistia para Otelo e todos os companheiros”, em contraste com muitas que apenas arriscavam “amnistia para Otelo e companheiros da FUP” e com outras que apenas defenderam “amnistia para Otelo”. Quando começou a luta pela amnistia já tinham sido iniciados os contactos entre o Projecto Global/Forças Populares 25 de Abril e o Estado para encontrar uma solução política para o “caso” que constituía o último vestígio do PREC. Os primeiros presos, entre os quais estava Otelo, saíram das prisões um pouco mais de dois anos depois (quando a maior parte já levava cinco anos de prisão preventiva) na sequência de um imbróglio jurídico que marcou o sistema judicial: a anulação do julgamento do “caso FUP/FP25” pelo Tribunal Constitucional. Os últimos presos viram abrir-se-lhes as portas da prisão oito anos depois, encerrando o ciclo histórico 21.
Uma multidão de dezenas de milhar de pessoas acompanhou o féretro, daquele que terá sido porventura o melhor cantautor português de sempre, transportado em ombros pelos amigos, do ginásio da escola secundária até ao cemitério de Setúbal.
Muito ficou por dizer da individualidade extraordinária que foi Zeca Afonso. Resta-me manifestar admiração pela atitude de coragem, frontalidade e coerência com que temperou a sua vida; gratidão pelas palavras e pela música; e reconhecimento pelo exemplo de resistência e de solidariedade, essa qualidade que nos dias de hoje continua a ser a melhor arma dos que resistem.
Atentado em Lamego
Do atentado a tiro contra Otelo, no dia 16 de Junho de 1976, pouco se soube. A maioria dos jornais, rádios e televisão deram a notícia sem entrar em pormenores, descrevendo os acontecimentos vagamente com referências a “pedradas e tiros à passagem de Otelo por Lamego”. Mas alguns deles, como o Diário Popular, aprofundavam um pouco mais, apontando a ameaça à vida de Otelo a “grupos de violência organizada”, que teriam contado com a passividade da PSP, “conhecedora da situação existente na praça principal da cidade, porque muito antes da chegada da caravana, já grupos de violentos desordeiros tinham insultado e provocado a equipa que a RTP ali deslocara”.
Zeca Afonso era um dos membros da Comissão Nacional de apoio à candidatura que ladeavam Otelo no banco traseiro do carro à chegada da caravana a Lamego, já não recordo quem era o outro. Ao lado do condutor, viajava o Capitão Belo, responsável pela segurança. Eu integrava a comissão distrital de Viseu de apoio à candidatura e, nessa condição, seguia num dos automóveis caracterizados com o cartaz da campanha, “Otelo, na presidência um amigo”, que tinham ido esperar a caravana, procedente de Trás-os-Montes, à saída da ponte da Régua.
Pouco antes da chegada ao centro de Lamego, onde uma pequena multidão, maioritariamente hostil, nos esperava, uma camioneta embateu na porta traseira do lado esquerdo do carro em que viajava Otelo, danificando-a, obrigando à troca deste veículo por aquele em que seguiam os encarregados da segurança pessoal do candidato. O ambiente era de grande agitação. De um lado da caravana populares gritando: “Otelo!Otelo!Otelo”, do outro, uma maioria provocadora vociferando: “Eanes! Eanes! Eanes!”. Depois de uma breve paragem para se dirigir aos manifestantes, Otelo voltou a entrar no carro e, com enorme dificuldade, o cortejo foi avançando, enquanto apoiantes e antagonistas acompanhavam as viaturas. A oferta de um ramo de flores a Otelo provocou nova paragem, nesta altura começaram a ser atiradas pedras aos automóveis da caravana. De repente ouviram-se tiros. Das janelas do carro em que seguiam os elementos da segurança, no qual tinha viajado Otelo até à chegada a Lamego, saíam braços empunhando pistolas que disparavam para o ar ao mesmo tempo que o veículo arrancava a grande velocidade, logo seguido pelo carro onde ia Otelo e por todos os outros que compunham a caravana. O elemento da segurança que protegia a cabeça de Otelo, sentado na parte de trás do tejadilho do automóvel, dada a mudança brusca de velocidade, não conseguiu manter o equilíbrio e caiu, ficando ali, (tendo sido detido a seguir por agentes da PSP pela posse de arma). A caravana parou logo à saída da cidade. Os elementos da segurança explicaram, então, que quando voltámos a parar para a entrega do ramo de flores a Otelo, uma bala tinha entrado pelo centro do para-brisas do carro em que seguiam. Verificámos depois que havia orifícios de entrada, no encosto do assento traseiro, exactamente no lugar onde Otelo tinha viajado até à chegada a Lamego, e de saída, na parte de trás da mala. Outro orifício de um projéctil de grande calibre era visível a poucos centímetros da tampa do depósito da gasolina na parte lateral do automóvel.
Nos dias anteriores já tinham havido incidentes de menor gravidade em Chaves e Vila Real. O acto seguinte da campanha estava programado para Viseu e o ambiente que grassava na comitiva era de consternação. Os jornalistas que tinham ficado para trás depois do tumulto juntaram-se entretanto à caravana. Dos contactos que tinham estabelecido com as redacções traziam a informação de que em Viseu nos esperavam muitas centenas de pessoas, a maioria exibindo autocolantes de Eanes, num ambiente de grande tensão. Otelo, os membros da comissão nacional presentes e os da distrital de Viseu juntámo-nos em círculo, para avaliar a situação e decidir o que fazer. Nós, os de Viseu, que convivíamos todos os dias neste ambiente reaccionário, exprimimos a opinião de que devíamos ir, Otelo também, Zeca Afonso argumentou que não seria prudente expormo-nos em território hostil noutro confronto de consequências imprevisíveis e acabou por nos convencer que o melhor seria evitar Viseu e seguir directamente para Aveiro.
(Abro um parêntesis para referir outros dos muitos incidentes ilustrativos do ambiente em que decorreu a primeira campanha eleitoral para a Presidência da República depois do derrube da ditadura. Na véspera das eleições, a 27 de Junho, rebentou uma bomba na sede da Associação de Amizade Portugal-URSS, em Lisboa. No dia anterior, outra bomba tinha rebentado no Porto, junto ao Palácio de Cristal, onde decorria o comício de encerramento da campanha de Octávio Pato, o candidato do PCP. A quatro dias das eleições, Pinheiro de Azevedo, tinha sido acometido por um ataque cardíaco, interpretado por alguns como “um atentado contra a vida do candidato” 22, que o impediria de participar no debate televisivo marcado para esse dia, no qual o Almirante prometia “importantes revelações”. No dia seguinte ao atentado a Otelo, no final do comício de apoio a Ramalho Eanes realizado em Évora, caiu morto João Parreira Lúcio, 39 anos, natural do Redondo e outros 6 alentejanos resultaram feridos por tiros de rajadas de metralhadora disparados por membros da segurança daquele que viria a ser eleito Presidente da República, quando manifestavam o seu repúdio pelo candidato defensor da recuperação capitalista, símbolo do 25 de Novembro e do fim do processo revolucionário em Portugal, que contava com o apoio do PS, da direita e da extrema-direita.)
Não é conhecida nenhuma investigação policial ao atentado a Otelo. Com o passar dos anos foi-se sabendo que um envolvido nas actividades da extrema direita no distrito de Viseu, morto anos depois no Brasil, se jactava de ter participado no atentado e que este tinha sido realizado com carabina dotada de mira telescópica a partir do entorno do santuário de Lamego.
Notes:
- (42) Ainda hoje se desconhece o resultado do inquérito a estes acontecimentos.
- (43) As greves dos empregados dos transportes colectivos em Coimbra, Porto e Barreiro assumiram a forma de não-cobrança de bilhetes. Na Firestone, os trabalhadores raptaram os patrões anericanos e exigiram o resgate à empresa mãe, para o pagamento de salários em atraso. Phil Mailer, obra citada, p. 205.
- (44) Obras consultadas: “Quando Portugal Ardeu” de Miguel de Carvalho, Oficina do Livro, 2017, Lisboa; “Polícias e Ladrões“, de João Paulo Guerra, Ed. Caminho, Lisboa, 1983; O Julgamento da Rede Bombista, de Josué da Silva, Ed. Caminho, 1978, Lisboa; e “Dossier Terrorismo”, Editorial “Avante!”, 1977, Lisboa.
- (45) Reportagem publicada na edição de 7 de Abril da revista alemã Stern, 1976, Hamburgo.
- (46) Gunter Wallraff, “A Descoberta de uma Conspiração – A Acção Spínola”, Bertrand, 1976, Lisboa.
- (47) Entrevista ao jornal “página um”, nº 16, de 26 de Junho de 1976, pp. 9/10. Pode ler-se aqui.
- (48) Com produção de José Niza.
- (49) Spínola seria promovido a Marechal em 1981 e designado chanceler das Antigas Ordens Militares portuguesas, pelo P.R. Mário Soares em 1987, “pela sua importância no início da consolidação do novo regime democrático”.
- (50) “Quando Portugal Ardeu” de Miguel de Carvalho, pp. 297-342 Oficina do Livro, 2017, Lisboa.
- (51) Comunicado publicado na íntegra com o título: “Considerando em 4 pontos”, Zeca Afonso, in “página um”nº 99, 10 de Novembro de 1976, p. 7., Lisboa. Pode descarregar-se aqui.
- (52) Com arrajos e direcção musical de Fauto e José Afonso.
- (53) Estes factos nunca chegaram a julgamento, o que adensa a suspeita de provocação policial. Mais informação in: “Contributos para a história da luta armada em Portugal”. Pode ler-se aqui.
- (54) Com misturas de Jorge Mendes Barata, Júlio Pereira e José Mário Branco e a participação na gravação dos Trovante.
- (55) Entrevista a José Amaro Dionísio, in “Expresso”, p. 34-R, de 15 de Junho de 1985, Lisboa.
- (56) Entrevista concedida aos jornalistas Carlos Júlio e Carlos Carvalho no programa “Ver, Ouvir e Contar” da RDP1, em Março de 1985.
- (57) Ferreira da Costa ao regressar do Tarrafal, em 1944, publicou uma carta aberta ao ministro do interior de Salazar, onde denunciou com pormenores a vida dos presos naquele campo de morte. Pode ler-se aqui.
- (58) Com arranjos musicais de Júlio Pereira, José Mário Branco e Fausto.
- (59) Entrevista a Manollo Bello, programa “Fim-de-semana”. Pode escutar-se aqui.
- (60) Pode consultar-se aqui.
- (61) Produzido por José Mário Branco e Júlio Pereira. Participam como intérpretes: Helena Vieira, Né Ladeiras, Luis Represas, Janita Salomé e as suas filhas, Marta e Catarina.
- (62) O Estado ver-se-ia na contingência de julgar os crimes de sangue que tinham ficado de fora na amnistia de 1996, aprovada na Assembleia da República quando já nenhum dos implicados estava preso. A sentença desse julgamento, que decorreu com sessões semanais durante um ano, no Tribunal da Boa Hora em Lisboa, foi conhecida em Abril de 2001. A generalidade dos arguidos foi absolvida por falta de provas e, surpreendentemente, os “arrependidos”, “por terem confessado a sua participação nos crimes”, foram condenados a penas que não cumpriram. O Ministério Público não recorreu da sentença.
- (63) Comunicado da UDP, in “página um”, nº. 17, p.4, edição de 28 de Junho de 1976. Pode descarregar-se aqui (A UDP era o único partido apoiante de Otelo com representação parlamentar, tinha um deputado).
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