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quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Escreveram-nos da serra há 2500 anos, mas ainda não sabemos o que nos queriam dizer


A Escrita do Sudoeste está ainda por decifrar. Reside aí parte do seu fascínio. Nova teoria liga-a aos celtas, mas a aposta mais forte continua a ser nos fenícios. Duas pequenas exposições e um documentário da BBC voltam a falar-nos dela.
Nada fazia prever que ali, naquela pequena aldeia do interior algarvio, um rapaz que fazia 30 km a pé para ir à escola de 15 em 15 dias se haveria de transformar num coleccionador de peças arqueológicas, cada vez mais informado. José Rosa Madeira era invulgar, pode dizer-se. Tão invulgar que desde cedo percebeu que aqueles artefactos estranhos que ia encontrando no Ameixial, freguesia do concelho de Loulé, teriam algum interesse. Entre eles estavam várias estelas de xisto com inscrições curiosas que pareciam letras. Ninguém sabia, no início do século XX, formar palavras com elas – ninguém sabe ainda hoje, aliás -, mas isso não impediu este homem que acabaria por se mudar para Faro para trabalhar como relojoeiro de se deixar inquietar por estes blocos de pedra e até de se corresponder com Leite de Vasconcelos, linguista e etnógrafo a quem a arqueologia portuguesa deve muito. Os textos que estas estelas guardam fazem parte daquilo a que os especialistas chamam Escrita do Sudoeste e continuam a intrigar.
Duas exposições com comissariado científico que envolve o Projecto Estela, uma no Museu Municipal de Faro, dedicada ao acervo que José Rosa Madeira (1890-1941) ali deixou, e outra no Museu Nacional de Arqueologia (MNA), em Lisboa – Quem nos Escreve desde a Serra, pequena mostra de rua que já passou por várias localidades do Algarve (Ameixial, Salir, Penina ou Quarteira) – voltam a colocar o foco nesta escrita com 2500 anos que vem sendo definida como a mais antiga da Península Ibérica. Um documentário que o canal 2 da televisão britânica BBC está a preparar sobre os celtas, e que deverá ser transmitido em três episódios até ao final do ano, também passou pelo território destas estelas da Idade do Ferro, nomeadamente pelos concelhos de Almodôvar e Loulé.



Filmado em parceria com a emissora alemã ZDF em seis países europeus, o documentário expõe uma nova teoria que aponta para semelhanças entre a escrita do sudoeste e a língua celta, defendida pelo linguista John Koch, da Universidade de Gales. Uma teoria que não ignora, certamente, que haveria trocas comerciais entre a península e a Europa mais a norte. Parte da rodagem foi feita no museu de Almodôvar, onde foi possível filmar ao pormenor algumas das estelas com esta escrita, que tem vindo a tornar-se uma imagem de marca dos territórios serranos que separam o Alentejo e o Algarve.
O arqueólogo Pedro Barros, que com o colega Samuel Melro forma o Projecto Estela - núcleo de investigação científica que desde 2008 tem vindo a sistematizar a informação reunida desde o século XVIII sobre esta forma de escrita, ao mesmo tempo que se dedica a estudar os povoados que lhe deram origem e a promovê-la como instrumento de incentivo ao turismo junto das autarquias e como garantia do reforço da identidade cultural da região-, não concorda com a teoria de John Koch, mas não se cansa de dizer que todos os contributos sérios são bem-vindos ao debate. Sobretudo os que garantirem uma ampla divulgação deste “tesouro europeu” que muitos ainda desconhecem.
Barros conhece bem o terreno – foram várias as escavações em que participou e tem uma em curso, na Portela da Arca, da Idade do Ferro – e as muitas peripécias ligadas à Escrita do Sudoeste e aos arqueólogos que percorreram o seu território nas últimas décadas à procura de placas com inscrições. Peripécias como aquela que envolve a Estela do Guerreio – a única das cerca 100 conhecidas com uma figura humana -, encontrada em 1972 a cobrir uma sepultura, fora do seu local original, e que hoje faz parte da colecção do Museu Regional de Beja, a cidade que, com Frei Manuel do Cenáculo, um franciscano que haveria de ser arcebispo de Évora e que se destacou como intelectual, teve o primeiro museu em Portugal. A história, explica este investigador, envolve arqueólogos, um Volkswagen Carocha atolado numa ribeira e uma população que expôs o bloco com inscrições no café local e que se recusou, mesmo perante ofícios do MNA e os militares da GNR, a enviá-lo para Lisboa.
“Estas pedras fazem parte da história daqueles montes, daquelas pequenas comunidades. Quem estuda ou estudou esta escrita sabe bem que quem conhece o terreno não são os arqueólogos é quem o trabalha, quem lá vive”, diz Pedro Barros, sublinhando a importância de levar esta pequena exposição de rua que agora se pode ver em Lisboa, associada à instalação da artista plástica Ângela Menezes, às localidades onde as estelas têm vindo a ser encontradas e onde morariam aqueles que as fizeram.
Estácio da Veiga, Leite de Vasconcelos, Caetano de Mello Beirão, Amílcar Guerra, Virgílio Correia, Mário Varela Gomes, Jürgen Untermann, António José Correa e Javier Hoz estão entre os muitos especialistas que antes de Pedro Barros e Samuel Melro se dedicaram a esta antiga forma de escrita que se pode encontrar no sul de Portugal e na Andaluzia, que aponta para populações já com um certo grau de sofisticação, que viveram num período de grandes desenvolvimentos tecnológicos.
Mas o primeiro a identificar estas estelas – blocos de pedra fixados no solo em que o texto é gravado em arco para ser lido de baixo para cima e da direita para a esquerda, orientação contrária à que hoje usamos – ainda em finais do século XVIII, foi mesmo Frei Manuel do Cenáculo (1724-1814), presidente da Real Mesa Censória e homem de confiança do Marquês de Pombal, que desde logo argumentou que havia naquela escrita uma filiação mediterrânica, fenícia, tal como no etrusco e no grego antigo. Uma filiação que contraria a tese do linguista da Universidade de Gales.

Lucinda Canelas

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