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quarta-feira, 10 de abril de 2013

FOI HÁ 40 ANOS (1) História simples do roubo de um carro às forças policiais


Helena Pato.
FOI HÁ 40 ANOS (1) 
História simples do roubo de um carro às forças policiais 

O ano de 1973 seguia particularmente animado por algumas correntes políticas democráticas. Em Abril, o III Congresso da Oposição abalara o regime. Em Outubro, íamos voltar às eleições legislativas e a campanha eleitoral estava em marcha (e que marcha!). A constituição de uma comissão nacional de recenseamento, apelando à mobilização dos portugueses com direito a voto, tinha sido reprimida, desde logo, na sua acção. 
Decorria o mês de Setembro, a campanha acontecia sob o olhar atento do novo Presidente do Conselho, mas a expectativa de abertura do regime, com que alguns sectores da oposição haviam recebido a queda de Salazar e a nomeação de Marcelo Caetano, encontrava-se já praticamente esvaecida, que a demagogia «liberalizante» fora sol de pouca dura.
 Nos concelhos de Lisboa, sucediam-se os comícios, as festas para angariar fundos e as colagens de cartazes (alguns proibidos) produzidos em catadupas - com a espantosa criatividade de Ary dos Santos, então publicitário, e de Ruben Carvalho; e com a inestimável colaboração fotográfica de Eduardo Gageiro. As caravanas de automóveis animavam e despertavam os mais adormecidos, numa contínua luta de guerrilha contra a PIDE/DGS que não dava sossego, reprimindo tudo.
A legislação tinha limitado o uso da palavra, em comícios e sessões da oposição, apenas aos candidatos efectivos do respectivo distrito, com expresso impedimento, em cada distrito, da intervenção de não candidatos e de candidatos de qualquer outro distrito.
Dia após dia, constatava-se que, nessas eleições, continuava a não se dispor de um mínimo de condições de liberdade para uma participação democrática: o direito de voto muito limitado, os cadernos eleitorais não mereciam confiança, esperava-se um acto eleitoral, novamente recheado de «chapeladas» de votos e, acima de tudo, sabia-se que os limites à liberdade de expressão surgiriam permanentes e infindáveis. Da guerra colonial, pura e simplesmente, não se podia falar: interdição total. 
Não havia, pois, qualquer dúvida de que se tratava de mais uma «farsa eleitoral», isto é, ninguém tinha a ilusão de ganhar o que quer que fosse naquelas eleições legislativas, e já poucos admitiam que se sairia da ditadura por transição democrática. (A História veio dar razão àqueles que acreditavam que a democracia teria de ser conquistada pela via revolucionária). Mesmo assim, havia que aproveitar aquela oportunidade – embora ínfima, seria maior a tolerância propiciada nesse período – para se divulgar a situação do país e se provocar outro abanão na ditadura. Íamos à luta, preparados para a repressão, mais ou menos brutal, e sabendo de antemão que prisões haveria, seguramente – eram um dado de facto. O que fazíamos, então? Protegíamo-nos, o mais possível, ao mesmo tempo que nos atirávamos para a frente, também o mais possível. 
No distrito de Lisboa, a oposição apresentou-se com uma lista única (um luxo!)* e, nesse período, os candidatos a deputados passaram tempo sem fim nas esquadras da PSP e da GNR, ora porque aí acorriam, tentando libertar activistas detidos em iniciativas pacíficas, ora por serem «detidos para averiguações», eles próprios. O clima de violência e de sucessivas intimidações surpreendeu os próprios dirigentes do movimento democrático e acabou com as expectativas dos últimos crentes na regeneração do regime.
É neste quadro que tem lugar a «historinha» que passo a contar.

A caravana do dia 22 de Setembro, no concelho de Loures, partiu de Lisboa já com dezenas de carros, muitos deles conduzidos pelos candidatos a deputados do distrito. Começaram a circular pela manhã, procedendo à distribuição de manifestos de apresentação das candidaturas e, como ainda não tivera lugar a abertura oficial da campanha, receava-se o pior. Chegou, pois, sem surpresa. 
Loures era um concelho aguerrido, especialmente activo na dinamização de acções de luta e de resistência. Prestigiados militantes anti-fascistas, integrados na caravana – lembro o Zé Gouveia e o A. Cerqueira – agitavam bandeiras nos carros, e alguns dos candidatos tomavam a dianteira do desfile. O demasiado impacto nas populações rurais – que assistiam na berma da estrada, expectantes ou em atitude de manifesto apoio - deixou a polícia política a disparar ordens em todas as direcções. Prenderam diversos manifestantes, dando igual tratamento aos candidatos, apreenderam-lhes os automóveis e, depois de exigirem cauções à direcção da CDE e esta ter recusado, esperaram alguns dias, até às vésperas da abertura da campanha, para os libertarem. Assim aconteceu, excepto com um deles: José Tengarrinha, de quem a DGS contava vir a maior «agitação» em torno da questão colonial, por ser o tema com que, nesse período, o candidato vinha encerrando todas as intervenções. Que não, que não seria libertado até ao início da campanha, e que não podia sair enquanto não assinasse uma declaração de compromisso, em como não voltava a falar da guerra colonial. E ele, que não, que não assinava. Assim sendo, apenas saiu à meia-noite do exacto dia de início oficial da campanha eleitoral. Entretanto…

Durante o tempo em que os candidatos e restantes activistas se mantiveram presos, os carros da caravana permaneciam todos apreendidos, em frente do edifício da CM de Loures, lugar onde os condutores tinham sido obrigados a estacionar. Horas depois da detenção, soubemos por activistas que o «Renault 16» do J.Tengarrinha, cujo porta-bagagem estava atafulhado de cartazes e propaganda, escapara à revista, no momento em que aí estacionara sob apreensão. Receando que todos aqueles materiais viessem a ser descobertos e fossem destruídos, pus-me a caminho de Loures, ao princípio da noite, com uns companheiros, a Esmeralda Gonçalves André e o irmão, para inspeccionarmos o local e a posição do carro. Que hipótese teríamos de o resgatar? 
Irresistível! Um fino cordel envolvia cada automóvel, ao jeito de fita de seda em embrulho de Natal: voltas e voltas, à volta, passando por cima, em cruz, e para terminar, finalmente, uma laçada com um nó. Um nó cego, não fosse desatar-se! Tudo sob a alçada (e a vigilância) da GNR, que àquela hora, repousava adormecida ou pelo menos descansada, uma vez que os presos tinham sido recambiados para Caxias e aí se encontravam.
Já a noite ia avançada, voltámos lá, munidos do duplicado da chave e de uma tesoura. Chegámos à Praça do Município, pelas 3 ou 4 horas da madrugada. Nem vivalma por perto. A vila dormia, pacata, longe da violência, das ameaças e da estupidez da PIDE/DGS. Cortámos o fio, abrimos o carro e conduzimo-lo rumo à morada do candidato, na Rua da Penha de França, a menos de 50 metros do Quartel da Legião Portuguesa. As «forças da ordem», geralmente, não primavam pela coordenação, e não seria dessa vez. Efectivamente.

Quando, dias depois, na hora de abertura da campanha eleitoral (meia-noite) libertaram J.T., este, na sequência dos acontecimentos relacionados com o aprisionar dos carros, dirigiu-se com alguns companheiros à GNR de Loures. Entrou, cumprimentou e, sem mais, quis conhecer o destino do seu próprio automóvel. Agitação nas hostes. Enquanto aguardava resposta, os guardas saíam, entravam, falavam ao telefone e entre si, e tornavam a sair. O mistério enchia-lhes as cabeças, sem folga para mais. Foi então que o candidato exigiu que rapidamente lho devolvessem, que não tinha tempo a perder, fazendo menção de apresentar queixa ali mesmo, na GNR. Perturbação, perplexidade, quase aflição nas «forças da ordem».
- «Um carro? Parece que o roubaram, senhor Tengarrinha. Já vamos ver o que se passa».
O resto desta história pouco interessa. Creio que alguém do «nosso lado» esclareceu, a seguir, que o «veículo» estava na posse dos serviços da candidatura. 
O fascismo tinha destas fragilidades.

(*) Candidatos (efectivos e suplentes): Arons de Carvalho; António Abreu; António de Carvalho; Caiano Pereira; Costa Fernandes; Helena Neves; Herberto Goulart; Sequeira Branco; Gonçalves André; José Tengarrinha; Luísa Amorim; Pe- dro Coelho; Vítor Dias; Roque Lino; Tavares da Cruz; Pereira de Moura; Lindley Cintra; Martins Coelho; Sottomayor Cardia; Marcelo Curto; Urbano Tavares Rodri- gues; Gilberto Lindim Ramos; Salgado Zenha; Abranches Ferrão.
FOI HÁ 40 ANOS (1)
História simples do roubo de um carro às forças policiais

O ano de 1973 seguia particularmente animado por algumas correntes políticas democráticas. Em Abril, o III Congresso da Oposição abalara o regime. Em Outubro, íamos voltar às eleições legislativas e a campanha eleitoral estava em marcha (e que marcha!). A constituição de uma comissão nacional de recenseamento, apelando à mobilização dos portugueses com direito a voto, tinha sido reprimida, desde logo, na sua acção.
Decorria o mês de Setembro, a campanha acontecia sob o olhar atento do novo Presidente do Conselho, mas a expectativa de abertura do regime, com que alguns sectores da oposição haviam recebido a queda de Salazar e a nomeação de Marcelo Caetano, encontrava-se já praticamente esvaecida, que a demagogia «liberalizante» fora sol de pouca dura.
Nos concelhos de Lisboa, sucediam-se os comícios, as festas para angariar fundos e as colagens de cartazes (alguns proibidos) produzidos em catadupas - com a espantosa criatividade de Ary dos Santos, então publicitário, e de Ruben Carvalho; e com a inestimável colaboração fotográfica de Eduardo Gageiro. As caravanas de automóveis animavam e despertavam os mais adormecidos, numa contínua luta de guerrilha contra a PIDE/DGS que não dava sossego, reprimindo tudo.
A legislação tinha limitado o uso da palavra, em comícios e sessões da oposição, apenas aos candidatos efectivos do respectivo distrito, com expresso impedimento, em cada distrito, da intervenção de não candidatos e de candidatos de qualquer outro distrito.
Dia após dia, constatava-se que, nessas eleições, continuava a não se dispor de um mínimo de condições de liberdade para uma participação democrática: o direito de voto muito limitado, os cadernos eleitorais não mereciam confiança, esperava-se um acto eleitoral, novamente recheado de «chapeladas» de votos e, acima de tudo, sabia-se que os limites à liberdade de expressão surgiriam permanentes e infindáveis. Da guerra colonial, pura e simplesmente, não se podia falar: interdição total.
Não havia, pois, qualquer dúvida de que se tratava de mais uma «farsa eleitoral», isto é, ninguém tinha a ilusão de ganhar o que quer que fosse naquelas eleições legislativas, e já poucos admitiam que se sairia da ditadura por transição democrática. (A História veio dar razão àqueles que acreditavam que a democracia teria de ser conquistada pela via revolucionária). Mesmo assim, havia que aproveitar aquela oportunidade – embora ínfima, seria maior a tolerância propiciada nesse período – para se divulgar a situação do país e se provocar outro abanão na ditadura. Íamos à luta, preparados para a repressão, mais ou menos brutal, e sabendo de antemão que prisões haveria, seguramente – eram um dado de facto. O que fazíamos, então? Protegíamo-nos, o mais possível, ao mesmo tempo que nos atirávamos para a frente, também o mais possível.
No distrito de Lisboa, a oposição apresentou-se com uma lista única (um luxo!)* e, nesse período, os candidatos a deputados passaram tempo sem fim nas esquadras da PSP e da GNR, ora porque aí acorriam, tentando libertar activistas detidos em iniciativas pacíficas, ora por serem «detidos para averiguações», eles próprios. O clima de violência e de sucessivas intimidações surpreendeu os próprios dirigentes do movimento democrático e acabou com as expectativas dos últimos crentes na regeneração do regime.
É neste quadro que tem lugar a «historinha» que passo a contar.

A caravana do dia 22 de Setembro, no concelho de Loures, partiu de Lisboa já com dezenas de carros, muitos deles conduzidos pelos candidatos a deputados do distrito. Começaram a circular pela manhã, procedendo à distribuição de manifestos de apresentação das candidaturas e, como ainda não tivera lugar a abertura oficial da campanha, receava-se o pior. Chegou, pois, sem surpresa.
Loures era um concelho aguerrido, especialmente activo na dinamização de acções de luta e de resistência. Prestigiados militantes anti-fascistas, integrados na caravana – lembro o Zé Gouveia e o A. Cerqueira – agitavam bandeiras nos carros, e alguns dos candidatos tomavam a dianteira do desfile. O demasiado impacto nas populações rurais – que assistiam na berma da estrada, expectantes ou em atitude de manifesto apoio - deixou a polícia política a disparar ordens em todas as direcções. Prenderam diversos manifestantes, dando igual tratamento aos candidatos, apreenderam-lhes os automóveis e, depois de exigirem cauções à direcção da CDE e esta ter recusado, esperaram alguns dias, até às vésperas da abertura da campanha, para os libertarem. Assim aconteceu, excepto com um deles: José Tengarrinha, de quem a DGS contava vir a maior «agitação» em torno da questão colonial, por ser o tema com que, nesse período, o candidato vinha encerrando todas as intervenções. Que não, que não seria libertado até ao início da campanha, e que não podia sair enquanto não assinasse uma declaração de compromisso, em como não voltava a falar da guerra colonial. E ele, que não, que não assinava. Assim sendo, apenas saiu à meia-noite do exacto dia de início oficial da campanha eleitoral. Entretanto…

Durante o tempo em que os candidatos e restantes activistas se mantiveram presos, os carros da caravana permaneciam todos apreendidos, em frente do edifício da CM de Loures, lugar onde os condutores tinham sido obrigados a estacionar. Horas depois da detenção, soubemos por activistas que o «Renault 16» do J.Tengarrinha, cujo porta-bagagem estava atafulhado de cartazes e propaganda, escapara à revista, no momento em que aí estacionara sob apreensão. Receando que todos aqueles materiais viessem a ser descobertos e fossem destruídos, pus-me a caminho de Loures, ao princípio da noite, com uns companheiros, a Esmeralda Gonçalves André e o irmão, para inspeccionarmos o local e a posição do carro. Que hipótese teríamos de o resgatar?
Irresistível! Um fino cordel envolvia cada automóvel, ao jeito de fita de seda em embrulho de Natal: voltas e voltas, à volta, passando por cima, em cruz, e para terminar, finalmente, uma laçada com um nó. Um nó cego, não fosse desatar-se! Tudo sob a alçada (e a vigilância) da GNR, que àquela hora, repousava adormecida ou pelo menos descansada, uma vez que os presos tinham sido recambiados para Caxias e aí se encontravam.
Já a noite ia avançada, voltámos lá, munidos do duplicado da chave e de uma tesoura. Chegámos à Praça do Município, pelas 3 ou 4 horas da madrugada. Nem vivalma por perto. A vila dormia, pacata, longe da violência, das ameaças e da estupidez da PIDE/DGS. Cortámos o fio, abrimos o carro e conduzimo-lo rumo à morada do candidato, na Rua da Penha de França, a menos de 50 metros do Quartel da Legião Portuguesa. As «forças da ordem», geralmente, não primavam pela coordenação, e não seria dessa vez. Efectivamente.

Quando, dias depois, na hora de abertura da campanha eleitoral (meia-noite) libertaram J.T., este, na sequência dos acontecimentos relacionados com o aprisionar dos carros, dirigiu-se com alguns companheiros à GNR de Loures. Entrou, cumprimentou e, sem mais, quis conhecer o destino do seu próprio automóvel. Agitação nas hostes. Enquanto aguardava resposta, os guardas saíam, entravam, falavam ao telefone e entre si, e tornavam a sair. O mistério enchia-lhes as cabeças, sem folga para mais. Foi então que o candidato exigiu que rapidamente lho devolvessem, que não tinha tempo a perder, fazendo menção de apresentar queixa ali mesmo, na GNR. Perturbação, perplexidade, quase aflição nas «forças da ordem».
- «Um carro? Parece que o roubaram, senhor Tengarrinha. Já vamos ver o que se passa».
O resto desta história pouco interessa. Creio que alguém do «nosso lado» esclareceu, a seguir, que o «veículo» estava na posse dos serviços da candidatura.
O fascismo tinha destas fragilidades.

(*) Candidatos (efectivos e suplentes): Arons de Carvalho; António Abreu; António de Carvalho; Caiano Pereira; Costa Fernandes; Helena Neves; Herberto Goulart; Sequeira Branco; Gonçalves André; José Tengarrinha; Luísa Amorim; Pe- dro Coelho; Vítor Dias; Roque Lino; Tavares da Cruz; Pereira de Moura; Lindley Cintra; Martins Coelho; Sottomayor Cardia; Marcelo Curto; Urbano Tavares Rodri- gues; Gilberto Lindim Ramos; Salgado Zenha; Abranches Ferrão.

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