Helena Pato.
FOI HÁ 40 ANOS (1)
História simples do roubo de um carro às forças policiais
O ano de 1973 seguia particularmente animado por algumas correntes políticas democráticas. Em Abril, o III Congresso da Oposição abalara o regime. Em Outubro, íamos voltar às eleições legislativas e a campanha eleitoral estava em marcha (e que marcha!). A constituição de uma comissão nacional de recenseamento, apelando à mobilização dos portugueses com direito a voto, tinha sido reprimida, desde logo, na sua acção.
Decorria o mês de Setembro, a campanha acontecia sob o olhar atento do novo Presidente do Conselho, mas a expectativa de abertura do regime, com que alguns sectores da oposição haviam recebido a queda de Salazar e a nomeação de Marcelo Caetano, encontrava-se já praticamente esvaecida, que a demagogia «liberalizante» fora sol de pouca dura.
História simples do roubo de um carro às forças policiais
O ano de 1973 seguia particularmente animado por algumas correntes políticas democráticas. Em Abril, o III Congresso da Oposição abalara o regime. Em Outubro, íamos voltar às eleições legislativas e a campanha eleitoral estava em marcha (e que marcha!). A constituição de uma comissão nacional de recenseamento, apelando à mobilização dos portugueses com direito a voto, tinha sido reprimida, desde logo, na sua acção.
Decorria o mês de Setembro, a campanha acontecia sob o olhar atento do novo Presidente do Conselho, mas a expectativa de abertura do regime, com que alguns sectores da oposição haviam recebido a queda de Salazar e a nomeação de Marcelo Caetano, encontrava-se já praticamente esvaecida, que a demagogia «liberalizante» fora sol de pouca dura.
Nos concelhos de Lisboa, sucediam-se os comícios, as festas para angariar fundos e as colagens de cartazes (alguns proibidos) produzidos em catadupas - com a espantosa criatividade de Ary dos Santos, então publicitário, e de Ruben Carvalho; e com a inestimável colaboração fotográfica de Eduardo Gageiro. As caravanas de automóveis animavam e despertavam os mais adormecidos, numa contínua luta de guerrilha contra a PIDE/DGS que não dava sossego, reprimindo tudo.
A legislação tinha limitado o uso da palavra, em comícios e sessões da oposição, apenas aos candidatos efectivos do respectivo distrito, com expresso impedimento, em cada distrito, da intervenção de não candidatos e de candidatos de qualquer outro distrito.
A legislação tinha limitado o uso da palavra, em comícios e sessões da oposição, apenas aos candidatos efectivos do respectivo distrito, com expresso impedimento, em cada distrito, da intervenção de não candidatos e de candidatos de qualquer outro distrito.
Dia após dia, constatava-se que, nessas eleições, continuava a não se dispor de um mínimo de condições de liberdade para uma participação democrática: o direito de voto muito limitado, os cadernos eleitorais não mereciam confiança, esperava-se um acto eleitoral, novamente recheado de «chapeladas» de votos e, acima de tudo, sabia-se que os limites à liberdade de expressão surgiriam permanentes e infindáveis. Da guerra colonial, pura e simplesmente, não se podia falar: interdição total.
Não havia, pois, qualquer dúvida de que se tratava de mais uma «farsa eleitoral», isto é, ninguém tinha a ilusão de ganhar o que quer que fosse naquelas eleições legislativas, e já poucos admitiam que se sairia da ditadura por transição democrática. (A História veio dar razão àqueles que acreditavam que a democracia teria de ser conquistada pela via revolucionária). Mesmo assim, havia que aproveitar aquela oportunidade – embora ínfima, seria maior a tolerância propiciada nesse período – para se divulgar a situação do país e se provocar outro abanão na ditadura. Íamos à luta, preparados para a repressão, mais ou menos brutal, e sabendo de antemão que prisões haveria, seguramente – eram um dado de facto. O que fazíamos, então? Protegíamo-nos, o mais possível, ao mesmo tempo que nos atirávamos para a frente, também o mais possível.
No distrito de Lisboa, a oposição apresentou-se com uma lista única (um luxo!)* e, nesse período, os candidatos a deputados passaram tempo sem fim nas esquadras da PSP e da GNR, ora porque aí acorriam, tentando libertar activistas detidos em iniciativas pacíficas, ora por serem «detidos para averiguações», eles próprios. O clima de violência e de sucessivas intimidações surpreendeu os próprios dirigentes do movimento democrático e acabou com as expectativas dos últimos crentes na regeneração do regime.
No distrito de Lisboa, a oposição apresentou-se com uma lista única (um luxo!)* e, nesse período, os candidatos a deputados passaram tempo sem fim nas esquadras da PSP e da GNR, ora porque aí acorriam, tentando libertar activistas detidos em iniciativas pacíficas, ora por serem «detidos para averiguações», eles próprios. O clima de violência e de sucessivas intimidações surpreendeu os próprios dirigentes do movimento democrático e acabou com as expectativas dos últimos crentes na regeneração do regime.
É neste quadro que tem lugar a «historinha» que passo a contar.
A caravana do dia 22 de Setembro, no concelho de Loures, partiu de Lisboa já com dezenas de carros, muitos deles conduzidos pelos candidatos a deputados do distrito. Começaram a circular pela manhã, procedendo à distribuição de manifestos de apresentação das candidaturas e, como ainda não tivera lugar a abertura oficial da campanha, receava-se o pior. Chegou, pois, sem surpresa.
Loures era um concelho aguerrido, especialmente activo na dinamização de acções de luta e de resistência. Prestigiados militantes anti-fascistas, integrados na caravana – lembro o Zé Gouveia e o A. Cerqueira – agitavam bandeiras nos carros, e alguns dos candidatos tomavam a dianteira do desfile. O demasiado impacto nas populações rurais – que assistiam na berma da estrada, expectantes ou em atitude de manifesto apoio - deixou a polícia política a disparar ordens em todas as direcções. Prenderam diversos manifestantes, dando igual tratamento aos candidatos, apreenderam-lhes os automóveis e, depois de exigirem cauções à direcção da CDE e esta ter recusado, esperaram alguns dias, até às vésperas da abertura da campanha, para os libertarem. Assim aconteceu, excepto com um deles: José Tengarrinha, de quem a DGS contava vir a maior «agitação» em torno da questão colonial, por ser o tema com que, nesse período, o candidato vinha encerrando todas as intervenções. Que não, que não seria libertado até ao início da campanha, e que não podia sair enquanto não assinasse uma declaração de compromisso, em como não voltava a falar da guerra colonial. E ele, que não, que não assinava. Assim sendo, apenas saiu à meia-noite do exacto dia de início oficial da campanha eleitoral. Entretanto…
Durante o tempo em que os candidatos e restantes activistas se mantiveram presos, os carros da caravana permaneciam todos apreendidos, em frente do edifício da CM de Loures, lugar onde os condutores tinham sido obrigados a estacionar. Horas depois da detenção, soubemos por activistas que o «Renault 16» do J.Tengarrinha, cujo porta-bagagem estava atafulhado de cartazes e propaganda, escapara à revista, no momento em que aí estacionara sob apreensão. Receando que todos aqueles materiais viessem a ser descobertos e fossem destruídos, pus-me a caminho de Loures, ao princípio da noite, com uns companheiros, a Esmeralda Gonçalves André e o irmão, para inspeccionarmos o local e a posição do carro. Que hipótese teríamos de o resgatar?
Irresistível! Um fino cordel envolvia cada automóvel, ao jeito de fita de seda em embrulho de Natal: voltas e voltas, à volta, passando por cima, em cruz, e para terminar, finalmente, uma laçada com um nó. Um nó cego, não fosse desatar-se! Tudo sob a alçada (e a vigilância) da GNR, que àquela hora, repousava adormecida ou pelo menos descansada, uma vez que os presos tinham sido recambiados para Caxias e aí se encontravam.
Já a noite ia avançada, voltámos lá, munidos do duplicado da chave e de uma tesoura. Chegámos à Praça do Município, pelas 3 ou 4 horas da madrugada. Nem vivalma por perto. A vila dormia, pacata, longe da violência, das ameaças e da estupidez da PIDE/DGS. Cortámos o fio, abrimos o carro e conduzimo-lo rumo à morada do candidato, na Rua da Penha de França, a menos de 50 metros do Quartel da Legião Portuguesa. As «forças da ordem», geralmente, não primavam pela coordenação, e não seria dessa vez. Efectivamente.
Quando, dias depois, na hora de abertura da campanha eleitoral (meia-noite) libertaram J.T., este, na sequência dos acontecimentos relacionados com o aprisionar dos carros, dirigiu-se com alguns companheiros à GNR de Loures. Entrou, cumprimentou e, sem mais, quis conhecer o destino do seu próprio automóvel. Agitação nas hostes. Enquanto aguardava resposta, os guardas saíam, entravam, falavam ao telefone e entre si, e tornavam a sair. O mistério enchia-lhes as cabeças, sem folga para mais. Foi então que o candidato exigiu que rapidamente lho devolvessem, que não tinha tempo a perder, fazendo menção de apresentar queixa ali mesmo, na GNR. Perturbação, perplexidade, quase aflição nas «forças da ordem».
- «Um carro? Parece que o roubaram, senhor Tengarrinha. Já vamos ver o que se passa».
O resto desta história pouco interessa. Creio que alguém do «nosso lado» esclareceu, a seguir, que o «veículo» estava na posse dos serviços da candidatura.
O fascismo tinha destas fragilidades.
(*) Candidatos (efectivos e suplentes): Arons de Carvalho; António Abreu; António de Carvalho; Caiano Pereira; Costa Fernandes; Helena Neves; Herberto Goulart; Sequeira Branco; Gonçalves André; José Tengarrinha; Luísa Amorim; Pe- dro Coelho; Vítor Dias; Roque Lino; Tavares da Cruz; Pereira de Moura; Lindley Cintra; Martins Coelho; Sottomayor Cardia; Marcelo Curto; Urbano Tavares Rodri- gues; Gilberto Lindim Ramos; Salgado Zenha; Abranches Ferrão.
A caravana do dia 22 de Setembro, no concelho de Loures, partiu de Lisboa já com dezenas de carros, muitos deles conduzidos pelos candidatos a deputados do distrito. Começaram a circular pela manhã, procedendo à distribuição de manifestos de apresentação das candidaturas e, como ainda não tivera lugar a abertura oficial da campanha, receava-se o pior. Chegou, pois, sem surpresa.
Loures era um concelho aguerrido, especialmente activo na dinamização de acções de luta e de resistência. Prestigiados militantes anti-fascistas, integrados na caravana – lembro o Zé Gouveia e o A. Cerqueira – agitavam bandeiras nos carros, e alguns dos candidatos tomavam a dianteira do desfile. O demasiado impacto nas populações rurais – que assistiam na berma da estrada, expectantes ou em atitude de manifesto apoio - deixou a polícia política a disparar ordens em todas as direcções. Prenderam diversos manifestantes, dando igual tratamento aos candidatos, apreenderam-lhes os automóveis e, depois de exigirem cauções à direcção da CDE e esta ter recusado, esperaram alguns dias, até às vésperas da abertura da campanha, para os libertarem. Assim aconteceu, excepto com um deles: José Tengarrinha, de quem a DGS contava vir a maior «agitação» em torno da questão colonial, por ser o tema com que, nesse período, o candidato vinha encerrando todas as intervenções. Que não, que não seria libertado até ao início da campanha, e que não podia sair enquanto não assinasse uma declaração de compromisso, em como não voltava a falar da guerra colonial. E ele, que não, que não assinava. Assim sendo, apenas saiu à meia-noite do exacto dia de início oficial da campanha eleitoral. Entretanto…
Durante o tempo em que os candidatos e restantes activistas se mantiveram presos, os carros da caravana permaneciam todos apreendidos, em frente do edifício da CM de Loures, lugar onde os condutores tinham sido obrigados a estacionar. Horas depois da detenção, soubemos por activistas que o «Renault 16» do J.Tengarrinha, cujo porta-bagagem estava atafulhado de cartazes e propaganda, escapara à revista, no momento em que aí estacionara sob apreensão. Receando que todos aqueles materiais viessem a ser descobertos e fossem destruídos, pus-me a caminho de Loures, ao princípio da noite, com uns companheiros, a Esmeralda Gonçalves André e o irmão, para inspeccionarmos o local e a posição do carro. Que hipótese teríamos de o resgatar?
Irresistível! Um fino cordel envolvia cada automóvel, ao jeito de fita de seda em embrulho de Natal: voltas e voltas, à volta, passando por cima, em cruz, e para terminar, finalmente, uma laçada com um nó. Um nó cego, não fosse desatar-se! Tudo sob a alçada (e a vigilância) da GNR, que àquela hora, repousava adormecida ou pelo menos descansada, uma vez que os presos tinham sido recambiados para Caxias e aí se encontravam.
Já a noite ia avançada, voltámos lá, munidos do duplicado da chave e de uma tesoura. Chegámos à Praça do Município, pelas 3 ou 4 horas da madrugada. Nem vivalma por perto. A vila dormia, pacata, longe da violência, das ameaças e da estupidez da PIDE/DGS. Cortámos o fio, abrimos o carro e conduzimo-lo rumo à morada do candidato, na Rua da Penha de França, a menos de 50 metros do Quartel da Legião Portuguesa. As «forças da ordem», geralmente, não primavam pela coordenação, e não seria dessa vez. Efectivamente.
Quando, dias depois, na hora de abertura da campanha eleitoral (meia-noite) libertaram J.T., este, na sequência dos acontecimentos relacionados com o aprisionar dos carros, dirigiu-se com alguns companheiros à GNR de Loures. Entrou, cumprimentou e, sem mais, quis conhecer o destino do seu próprio automóvel. Agitação nas hostes. Enquanto aguardava resposta, os guardas saíam, entravam, falavam ao telefone e entre si, e tornavam a sair. O mistério enchia-lhes as cabeças, sem folga para mais. Foi então que o candidato exigiu que rapidamente lho devolvessem, que não tinha tempo a perder, fazendo menção de apresentar queixa ali mesmo, na GNR. Perturbação, perplexidade, quase aflição nas «forças da ordem».
- «Um carro? Parece que o roubaram, senhor Tengarrinha. Já vamos ver o que se passa».
O resto desta história pouco interessa. Creio que alguém do «nosso lado» esclareceu, a seguir, que o «veículo» estava na posse dos serviços da candidatura.
O fascismo tinha destas fragilidades.
(*) Candidatos (efectivos e suplentes): Arons de Carvalho; António Abreu; António de Carvalho; Caiano Pereira; Costa Fernandes; Helena Neves; Herberto Goulart; Sequeira Branco; Gonçalves André; José Tengarrinha; Luísa Amorim; Pe- dro Coelho; Vítor Dias; Roque Lino; Tavares da Cruz; Pereira de Moura; Lindley Cintra; Martins Coelho; Sottomayor Cardia; Marcelo Curto; Urbano Tavares Rodri- gues; Gilberto Lindim Ramos; Salgado Zenha; Abranches Ferrão.

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