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terça-feira, 3 de maio de 2016

A importância da palavra "radical"


Só anteontem vi as duas emissões sobre os últimos dias da PIDE/DGS, realizadas pelo jornalista Jacinto Godinho da RTP. O arquivo da RTP é fabuloso em imagens que, para mim – e ao fim de 42 anos do 25 de Abril – ainda são novas.































As reportagens tinham depoimentos originais e reconstituíam – através desses depoimentos – os dias em que era ainda incerto o regime que iria sair daquele dia. A reportagam torna clara a dúbia situação da PIDE/DGS. É dito que a PIDE estava a par da movimentação do MFA e que não foi apanhada desprevenida. Ao contrário: estava como que articulada com o general António Spínola a sua manutenção depois do 25 de Abril. O MFA cerca o Carmo para prender o chefe de Governo, mas deixa a PIDE operacional. Estava prevista no programa do MFA a extinção da PIDE, mas os PIDEs entram e saem da sede, a poucas dezenas de metros do Carmo no próprio dia 25 de Abril. Apenas quando os populares irrompem pela António Maria Cardoso e os PIDEs abrem fogo, matando quatro populares, é que o projecto começa a derrapar. Os populares chamam os militares do Carmo e estes cercam a PIDE. Sente-se, nas tropas envolvidas no cerco, as diversas nuances políticas – não referidas na reportagem – entre os diversos corpos das Forças Armadas. Mesmo assim Spínola ainda nomeia – à revelia do MFA – um PIDE seu apaniguado para chefiar a “nova” DGS. 

E de repente, foi aí que esbarrei na reportagem. Uma voz off fala das intenções de Spínola que iriam contra os “militares radicais”. 

Tentei saber mais sobre Jacinto Godinho. Inteirei-me da suahistórica contada por ele próprio. Jacinto não é um jornalista imberbe, muitopelo contrário. E é, como diz na entrevista à Diana Andringa, um alentejano que – como todos os alentejanos – gosta de filosofia, de pensar longamente sobre uma pedra, “a ver pormenores que não passam pela cabeça de ninguém. Com uma atenção imensa à vida. E isso depois nota-se na maneira como trabalham a palavra. Percebem as palavras tão bem que todo o jogo de palavras que os alentejanos usam tem a ver com a capacidade de perceber a palavra em todos os seus sentidos.” 

E é isso que não faz sentido.  Por que eram  “radicais” os militares que queriam acabar com a PIDE? Não o era mais Spínola ao defender uma rentrée do regime pelas portas do fundo? Uma primavera marcelista sem Marcello, com DGS e tudo?

Spínola - como se pode ver na sua biografia – foi um militar do regime, um íntimo de Marcello e familiar de Champalimaud, com cuja família tinha por hábito discutir as grandes decisões políticas da sua vida. Participou - orgulhosamente - como observador na frente leste do exército nazi, monitorizando as movimentações da Werhmacht no cerco de Leninegrado. Esteve de 1961 a 63 em Angola onde se distinguiu na guerra contra os movimentos de libertação. Manteve uma guerra secreta em África enquanto esteve como governador da Guiné Bissau: incapaz de deter a ofensiva do PAICG, tentou dinamizar economica e socialmente a colónia, defendeu uma solução pacífica para a Guiné sob o seu bengalim e monóculo, mas as negociações goraram-se e Amílcar Cabral foi morto, o que não impediu o recrudescimento da ofensiva guerrilheira. Defendeu então num relatório secreto ao governo português  - mais tarde transformado no famoso livro "Portugal e o futuro" - uma solução política para a guerra nas colónias, mas na verdade nunca quis a descolonização. Desde o início do 25 Abril tentou torpedear as ideias do MFA, tentando manter presos os políticos que teriam praticado crimes, entre os quais a falsificação de identidades... Enquanto isso os PIDEs eram soltos, protegidos ou – como disse à reportagem da RTP o militar que os foi buscar à delegação do Porto – mesmo libertando-os das “garras da população” que os queria matar. Não conseguindo os seus intentos, tentou suster o papel da esquerda militar e sabotou – enquanto era presidente da República - a jovem democracia com a convocação de uma manifestação da “maioria silenciosa”  para 28 de Setembro de 1974 (abortada pela esquerda), tentou um golpe militar em 11 de Março de 1975 (novamente abortado), fugiu e esteve por detrás da rede bombista, do Exército de Libertação de Portugal e do MDLP, que praticaram no norte do país – com a conivência do CDS e de uma certa Igreja Católica anticomunista - toda uma série de actos (terroristas) de destruição de sedes de partidos de esquerda, tornando os seus militantes como alvos de rajadas de metralhadoras, bombas e agressões físicas.  E acabou por ser apanhado pelo jornalista Gunter Walraff - que se fez passar por um financiador discreto alemão - a tentar armar um exército de milhares de homens, com o apoio dadireita alemã, da CSU da Baviera, para fazer um golpe em Portugal que levasse à chacina defendida de comunistas e o regresso a uma musculada democracia ocidental. 

Aliás, a releitura do livro de Walraff - editado pela Beltrand - é muito elucidativa de como a direita "radical" portuguesa pensava em 1976, como era transparente o seu discurso, como camuflavam a sua actividade golpista e terrorista com rumores de que os seus actos teriam sido praticados pela esquerda e como se organizou - aliás, em contacto com a extrema-direita internacional através da Aginter Press, em actividades que se manifestaram sobretudo em Itália (pela rede Gladio), numa luta contra o perigo comunista. Ainda me tentei a reproduzir partes do livro, mas são demais. Aconselho a que encontrem o livro.

Mas a esta luz, quem eram os verdadeiros radicais? Será que apenas o pessoal mais à esquerda pode ser “radical”? Ou eram-no face ao regime deposto, porque o queriam destruir, desmantelar, desarticular? Ou eram-no face a outros militares mais "moderados"? Mas nesse caso os primeiros tinham de ser "radicais"? Se o regime era de uma direita “radical”, como só “radical” pode ser um regime apoiado numa polícia política, quem o combatia era “radical”? Ou não entronca esta ideia de “radical” na própria palavra presentemente usada pela direita quando quer designar as forças (“radicais”) que, por natureza, nunca deverão estar no poder? Seja na Grécia, seja em Portugal? Mesmo que contra um programa “radical” de direita?

Jacinto é um alentejano que pensa nas palavras.  É a única coisa que sei dele. Resta-me, pois, a inocência. A inocência inconsciente. E aí é verdade: a História é sempre uma narrativa contada pela cabeça de quem a pode contar. E a direita está mais presente em Portugal do que se possa imaginar. Eu diria – repetindo o meu pai - que está por fazer a história do anticomunismo e do anticomunismo em Portugal. Talvez dê para uma nova série da RTP.

ladroesdebicicletas.blogspot.pt

1 comentário:

José Gonçalves Cravinho disse...

Eu,filho de pobres trabalhadores do campo e um simples operário emigrante na Holanda onde resido desde 1964 e já velhote,92 anos de idade,digo que afinal segundo o Dicionário de Português/Latim,a palavra RADICAL é uma palavra de origem latina e tem a ver com Radix que é Raíz em português E assim temos que toda e qualquer ideia é radical e que se radica em algum princípio filosófico ou doutrina.Radical não é nenhum nome feio para ofender a pessoa.