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terça-feira, 4 de agosto de 2015

Via Algarviana em risco de abandono após investimento de 1,2 milhões


Embora mostrem interesse em incentivar o turismo de mochila às costas, que privilegia as caminhadas, os municípios do Algarve acabaram por não aprovar o plano de gestão da Via Algarviana, destinada a estes viajantes. A prioridade passou para outros projectos.
Os alemães são os principais utentes desta rota, logo seguidos dos holandeses VIRGÍLIO RODRIGUES
A Via Algarviana (VA) – a grande rota pedestre que atravessa o interior da região – corre o risco de ficar ao abandono. Após um investimento de 1,2 milhões de euros para criar uma via que conduz o turista a novos destinos na natureza, os municípios não se entendem quanto ao modelo de gestão e sustentabilidade do projecto. “Não há condições”, diz Anabela Santos, a coordenadora do projecto VA, enquanto arruma os “dossiers” a aguardar por dia melhores. A candidatura dos fundos comunitários que suportava o projecto, gerido pela associação ambientalista Almargem, terminou no fim do mês de Julho.Ao fim de ano e meio de conversações com os 11 municípios envolvidos no projecto, Anabela Santos manifesta-se decepcionada, por não vislumbrar uma solução sustentável. “Tudo foi feito para que não se caísse num impasse”, comenta. Por seu lado, o presidente da Comunidade Intermunicipal do Algarve (Amal), Jorge Botelho, reconhece a sua incapacidade de liderança neste processo: “Não foi possível consensualizar uma solução, no seio da Amal, quanto ao modelo de gestão”. Estamos no Verão, observa Anabela, lembrando outros interesses: “As atenções estão viradas para as sunset party e outras festas à beira-mar”. Nos concelhos de Alcoutim e Castro Marim, o verniz da esteva derrete com o calor e raros são os caminhantes que ousam subir às montanhas. Por estes dias, o apelo das piscinas e da água do mar fala mais alto. Quando chega o Outono, inverte-se a situação: as praias ficam desertas e o cheiro da terra molhada puxa os visitantes à aventura pelos montes – lugares perdidos no interior, onde se destila o medronho e o mel adoça paladares.
No combate à sazonalidade, as prioridades parecem ser outras, valorizando-se acções de “inovação” e “criatividade”. O Plano Intermunicipal da Amal (documento que define a estratégia de desenvolvimento até 2020) faz eco disso. Dentro do pacote dos 319 milhões de euros destinados à região, surgem alguns exemplos da criatividade. Para o concelho de Portimão, – que pediu resgate financeiro para evitar a bancarrota – anuncia-se a realização do "Festival das Cidades Invisíveis” e, em Alcoutim, o projecto “Aves à Vista”.
Nesta altura, festas e eventos não faltam no calendário de animação regional, com apoios significativos. Mas, para a zona do interior, não houve entendimento das câmaras para disponibilizar 3000 euros ­– o valor que cada município teria de suportar durante um ano – para garantir a manutenção e gestão da Via Algarviana. O projecto soma 1,2 milhões de euros, suportados por duas candidaturas a fundos comunitários. As autarquias entraram com cerca de 360 mil euros, sendo os restantes 840 mil euros suportados pelo Feder.
Cinco novos percursos
No Nordeste algarvio, o proprietário da Casa do Lavrador (turismo rural), João Henriques, desabafa: “As entidades lá de baixo [litoral] têm muito pouca sensibilidade para o que se passa aqui na serra”.
A rota da VA, criada em 2006, na altura com 300 quilómetros, foi entretanto alargada para os 800 quilómetros. À Grande Rota Pedestre (que liga Alcoutim ao Cabo de São Vicente-Sagres), foram acrescentadas cinco novas ligações: Marmelete/Aljezur, Mexilhoeira Grande/Monchique, Estação da CP de Loulé/Salir, Paraíses/São Brás de Alportel e Lagos/Bensafrim. A ideia, explica Anabela Santos, é criar rotas temáticas permitindo a inter-ligação entre o litoral e interior.
Monchique, por exemplo, possui a “rota das árvores monumentais”, Alcoutim a “a rota do contrabandista” e Loulé a “rota da água”. Os trilhos estão sinalizados e apoiados com guias e folhetos informativos. “Um bom trabalho desenvolvido pela Almargem”, elogia Jorge Botelho, reconhecendo que “não foi ainda possível um entendimento com todos os municípios [sobre a importância do projecto]”, admite.
No passado dia 3 de Julho, na Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional (CCDR-Algarve), a Almargem reuniu-se com todos os presidentes das câmaras e outras entidades envolvidas no projecto. Apresentou um plano de contingência para assegurar a gestão do projecto, em fase de transição de candidaturas a fundos comunitários. “Todos concordamos em manter a VA, mas não chegamos a acordo quanto ao modelo de gestão e custos”, diz Botelho. A decisão ficou adiada para a reunião ordinária da Amal a meio de Julho, mas o assunto não foi incluído na ordem de trabalhos.
Jorge Botelho adianta, no entanto, que ficou “combinado, informalmente”, entre os autarcas presentes que cada um iria contribuir com 1700 euros até final do ano para assegurar “a continuação do projecto”. A concretização da promessa, explica, passa agora por cada um dos municípios por onde passa a rota levarem a proposta para aprovação em reunião de câmara. Jorge Botelho, também presidente da Câmara de Tavira, reconhece que o assunto tem de ser “debatido e aprofundado no seio da Amal, a partir de Setembro”.

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