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sábado, 8 de agosto de 2015

PUBLICAÇÃO ESPECIAL NO DESENVOLTURAS&DESACATOS - O MOTOR GOOGLE FAZ HOJE NA SUA PÁGINA INICIAL UMA ALUSÃO AO "MONT BLANC" - DECIDI MOSTRAR PARA OS LEITORE(A)S DO DESENVOLTURAS&DESACATOS UMA PUBLICAÇÃO MAIS ANTIGA SOBRE "AS MAIS BELAS MONTANHAS DO MUNDO" E MAIS INFORMAÇÃO SOBRE ESTE TEMÁTICA COM A ODISSEIA DE PORTUGUESES NESTA MONTANHA

Mont Blanc

   
O Mont Blanc é um maciço composto por muitos picos e torres, cada um com suas próprias rotas. O maciço atravessa a fronteira franco-italiana. Fontes variam quanto ao que é a fronteira precisa entre a Itália e a França. Entretanto, a maioria insiste que a fronteira cruza por cima do cume do Mont Blanc.

Mont Blanc ou Monte Bianco (francês e italiano respectivamente, significa"montanha branca" ou Monte Branco) é a mais alta montanha dos Alpes, da Europa Ocidental e da União Européia. É às vezes também conhecido como "La Dame Blanche""A Dama Branca".

Sua altitude oficial é de 4.810,45 metros acima do nível do mar e está classificado em 11º no mundo em proeminência topográfica. A altitude máxima do Mont Blanc estava há muito tempo estabelecida em 4.807 metros acima do nível do mar, mas as medições feitas por GPS em 2001 e 2003, mostraram diferenças de alguns metros de ano para ano, por causa de flutuações na espessura do glaciar, provocadas por diferentes condições atmosféricas na espessura do glaciar que cobre o cume. Essa espessura das neves eternas que recobrem o monte desde a sua meia encosta até ao cume variam de 15 a 23 metros.

O maciço do Mont Blanc foi classificado como Património da Humanidade pela UNESCO em função do seu importante significado cultural, como local de nascimento e símbolo do alpinismo.

Partes significativas da montanha se dividam por França e Itália, a localização exata do pico mais alto em relação à fronteira permanece um tema de certa forma controverso. O cume parece coincidente com a fronteira nos mapas italianos, mas completamente no lado da França nos mapas franceses. As duas mais conhecidas cidades junto ao Mont Blanc são Chamonix (França) e Courmayeur (Itália).

Desde a Revolução Francesa que esta questão é polêmica. Antes dela, toda a região fazia parte do Reino da Sardenha e assim foi durante vários séculos.

O primeiro tratado para definir a fronteira na região, data de 15 de Maio de 1796. Neste, o rei da Sardenha foi forçado por Napoleão Bonaparte a ceder a Sabóia e territórios de Nice à República Francesa. No artigo 4 é dito que:

 "A fronteira entre o Reino da Sardenha e os departamentos da República Francesa será estabelecida pela linha determinada pelos mais avançados pontos do lado do Piemonte, pelos cumes ou picos das montanhas e outros locais subsequentemente mencionados, tal como pelos picos intermédios, observando que partem do ponto onde as fronteiras de Faucigny, do Ducado de Aosta e do cantão de Valais se encontram até à extremidade dos glaciares ou Montes Malditos: primeiro os picos ou planaltos dos Alpes, até ao tergo de Col Mayor".

Esta delimitação, assinada em Turim em 24 de Março de 1860 por Napoleão III da França e Vítor Emanuel II de Sabóia, é confusa, porque estabelece que a fronteira deve ser visível de Chamonix e de Courmayeur. Mas o cume não é visível de Courmayeur, porque se encontra obstruído por um pico mais baixo. O tratado foi entretanto substituído.

Posterior convenção de 7 de Março de 1861 reconhece as dificuldades apresentadas pelo tratado de 1796 e delimitação de 1860, e anexa um novo mapa, que tem em consideração os limites do maciço, e desenha a fronteira pelo cume do Mont Blanc, tornando-o francês e italiano.

Embora o fato da fronteira franco-italiana tenha sido redefinida em 1947 e 1963, as comissões ignoraram tacitamente a questão do Mont Blanc. A única certeza é que o ponto mais elevado da Itália totalmente em seu território é o Mont Blanc de Courmayeur.


Hoje em dia, um teleférico faz o percurso do centro da localidade de Chamonix (1.030 metros) ao cume da Aiguile du Midi (3.842 metros) em vinte minutos. A cada dia, cerca de cinco mil pessoas utilizam este meio para subir ao monte.

Existe a falsa idéia de que a escalada deste monte, apesar de longa seja fácil para quem estiver bem treinado e habituado às grandes altitudes. No entanto, a cada ano que passa, numerosos montanhistas vão engrossar a já extensa lista das vítimas do maciço do Mont Blanc. Na realidade, trata-se de uma escalada longa e cheia de passagens perigosas que não deve ser tentada sem o acompanhamento de um alpinista experiente.


Primeiras Ascensões e outras importantes

As primeiras ascensões marcaram este local como berço do alpinismo moderno. Desde que Jacques Balmat e Michel Gabriel Paccard conquistaram o Mont Blanc em 1786, os recém surgidos alpinistas, não pararam de buscar os inumeráveis cumes do maciço. Os precursores do alpinismo foram ingleses de classe alta que contratavam os serviços dos guias do vale de Chamonix. Pouco a pouco, este esporte foi se evolucionando até que conquistassem as paredes mais desafiantes.

O homem sempre tratou de ultrapassar os limites do impossível, realizando feitos como a conquista da face norte do pico Walker (1938), da face do Eiger (1938), do Linceul (1968), as Grandes Jorasses, do pilar sudoeste do Petit Dru (1955), da passagem norte do Dru (1973) ou inclusive a face sul do Fou (1963).

A história de Chamonix é repleta de feitos de grandes montanhistas como Terray, Rébuffat, Cassin, Bonatti, Desmaison, Hemming ou Bérault, que se forjaram ao ritmo das conquitas alcançadas no maciço.

A primeira escalada de que se tem notícia ocorreu em 8 de Agosto de 1786, realizada por Jacques Balmat e Michel-Gabriel Paccard. A primeira mulher a atingir o cume foi Marie Paradis em 1808, e Balmat foi o seu guia.

1838 - Henriette d"Angeville foi a segunda mulher a chegar ao cume.

1840 - Grand Muler sobre o Grand Plateau: Marie Coutlet e Companhia.

1861 - Aiguille du Goûter e Crista Bosses: Melchior Anderegg, JJ Benen, Peter Peren, Leslie Stephen, FF Tuckett.

1865 - Esporão de Brenva: J&M Anderegg, GS MAthews, AW Moore, pai e filho Frank e Horace Walker.

1872 - Face Sudoeste: Jean-Antoine Carrel, J Fischer, TS Kennedy.

1886 - o futuro presidente dos Estados Unidos, Theodore Roosevelt, liderou uma expedição ao pico.

1890 - Giovenni Bonin, Luigi Grasselli e Fr. Achille Ratti (depois se tornou papa Pio XI) descobriram a rota normal italiana (Face Oeste Direta).

1893 - Aresta do Peuterey: Emile Rey, Christian Klucker, César Ollier, Paul Güssfeldt

1901 - Aresta do Brouillard com aproximação Noroeste: GB&GF Gugliermina, Joseph Brocherel.

1911 - 9 de agosto, Direta Aresta Brouillard: Joseph Knubel, GW Young, HO Jones, K Blodig.

1919 - Aresta Innominata: Adolphe e Henri Rey, Adolf Aufdenblatten, SL Courtald e EG Oliver.

1927 - Face do Brenva por Red Sentinel: T Graham Browne, FS Smythe.

1928 - Face do Brenva pela rota Major: T Graham Browne and FS Smythe.

1940 - Direita do Pillar Frêney (Gervasutti Pillar): Giusto Gervasutti e P. Bollini di Predosa.

1959 - Esquerda do Pilier Rouge no Pic Luigi Amedeo: Walter Bonatti e Andrea Oggioni.

1960 - o piloto de avião Henri Giraud pousou no cume.

1961 - Pilar Central do Frêney: Chris Bonington, Don Whillans, Ian Clough e Jan Dlugosz.

1990 - o suiço Pierre-André Gobet, partindo de Chamonix, completou a subida e descida em 5 horas, 10 minutos e 14 segundos.

2003 - 30 de maio, Stéphane Brosse e Pierre Gignoux tentaram quebrar o recorde de caminhada com auxílio de esquis. Eles subiram em 4 horas e 7 minutos, e desceram em 1 hora e 8 minutos. No total eles realizaram a ascensão e descida em 5 horas e 15 minutos.

2003 - 13 de agosto, sete pilotos franceses de paraglider pousaram no cume. Eles alcanpçaram a altitude de 5.200 m aproveitando as correntes de ar quente. Cinco haviam partido de Planpraz, um de Rochebrune de Megève e o último de Samoëns.

2007 - 8 de junho, o artista dinamarquês Marco Evaristti cobriu o pico do Mont Blanc com tecido vermelho, juntamente com um mastro de 6,1 m com uma bandeira escrito "Estado Rosa". Ele foi detido anteriormente em 6 de junho, ao tentar pintar uma passagem que antecedia o cume. Seu objetivo era aumentar a conscientização sobre a degradação ambiental.

2009 - 29 de Maio, a medalhista de ouro olímpica de snowboard, Karine Ruby e um companheiro morreram, ela e alguns membros de seu grupo cairam em uma profunda fenda na geleira enquanto desciam da montanha. Ruby estava treinando para se tornar uma guia de montanha.


ROTAS

Há quatro rotas consideradas "normais", que não são muito difíceis, mas muito popular em especial o Gouter, uma rota muito frequentada. Todas as rotas normais coincidem no final com a mesma crista.

Há também uma trilha chamada Tour du Mont Blanc que circunda a montanha.

Todas as rotas exigem conhecimentos especializados em travessia de glaciar. O tempo no Mont Blanc pode mudar muito rapidamente, de modo que é preciso estar preparado para tudo, inclusive esperar ventos fortes na crista de cume, que é estreita e exposta.


Rotas via Chamonix


Tanto a Aiguille du Goûter e a do Grand Mulet são rotas classificadas PD (pouco difícil), e ambas têm suas vantagens e desvantagens, bem como perigos.

A ascensão através da Aiguille du Goûter na maioria das vezes envolve o cruzamento do perigoso "Grand Couloir" com sua constante queda de rochas.

A Grand Mulets é uma rota mais longa para o cume, e é mais protegido do que o Goûter. No entanto a subida para o Col du Dôme pode ser bastante complicado, com longas trechos de neve quebrada por crevasses (gretas), e expostas a quedas de seracs. Há escadas entre algumas das gretas maiores, mas estas podem ser que nem sempre estejam lá. Com mal tempo, pode ser quase impossível encontrar o caminho nesta rota.

Outra opção é a Aiguille du Midi, percurso que atravessa o Mont Blanc du Tacul, depois o Mont Maudit até o Mont Blanc. Pode ser feito na descida depois de ascender por uma das outras rotas, ou se pode subir esta via e descer uma das outras rotas normais.


Rotas do lado italiano


A forma usual do lado italiano é através da cabana Gonella, a partir do Val Veny. A rota sobe o glaciar gretado Dôme para um pouco acima do Col de Bionnassay e para o Dôme du Gouter, ligando a via Aiguille du Goûter. Também é possível escalar a crista rochosa que é paralela ao glaciar.

FOTOS











Fontes de Pesquisa
Wikipedia
chamonix.com
Summitpost.org

http://www.imontanha.com/




ALGUMAS DAS MAIS BELAS MONTANHAS DO MUNDO - O desporto de escalada de montanha nasceu em 1760, quando um jovem cientista genovês, Horace-Benedict de Saussure, ofereceu um prémio em dinheiro para a primeira pessoa que chegasse ao cume do Monte Blanc, o pico mais alto da Europa.


O desporto de escalada de montanha nasceu em 1760, quando um jovem cientista genovês, Horace-Benedict de Saussure, ofereceu um prémio em dinheiro para a primeira pessoa que chegasse ao cume do Monte Blanc, o pico mais alto da Europa. Mas muito tempo antes os humanos já escalavam montanhas pelo desafio que isso representa. Ou "porque está lá", como respondeu certa vez o famoso alpinista inglês George Mallory, quando lhe perguntaram por que ele queria escalar o Monte Everest. Poucos meses depois, ele desapareceu quando desafiava o cume.


Algumas das montanhas desta lista também proporcionam um grande desafio para o montanhista profissional, mas outros podem ser visitadas mais facilmente a pé ou de teleférico e até mesmo de carro. Mas todas eles podem ser apreciadas a partir de uma distância segura proporcionando vistas magníficas e paisagens espectaculares.


Flores de cerejeira e Monte Fuji, no Japão
Algumas das montanhas mais bonitas do mundo 01
Via: Pichost

Montes Chocolate, China
Algumas das montanhas mais bonitas do mundo 02
Via: George Steinmetz

Pilares de Lena, Yakutia, na Rússia
Algumas das montanhas mais bonitas do mundo 03
Via: 7chydessveta

Ferrovia nos Alpes Suíços
Algumas das montanhas mais bonitas do mundo 04
Via: Xtreme-photos

Majestosas Montanhas Altai, Rússia
Algumas das montanhas mais bonitas do mundo 05
Via: Sibnet

Descida do Monte Rainier, EUA
Algumas das montanhas mais bonitas do mundo 06

Retiros para meditação. Shlegeysspayher, Áustria
Algumas das montanhas mais bonitas do mundo 07
Via: Imgur

Pendurado na borda de um penhasco nos Alpes, Suíça
Algumas das montanhas mais bonitas do mundo 08
Via: Florin Biscu

Passeio de balão de ar quente sobre Yangshuo, China
Algumas das montanhas mais bonitas do mundo 09
Via: Carl Wilson

Leão da montanha, Sri Lanka
Algumas das montanhas mais bonitas do mundo 10
Via: Abctravels

Zona Buffer "Jurassic Coast", na Inglaterra
Algumas das montanhas mais bonitas do mundo 11

Parque Nacional de Seoraksan, Coreia do Sul
Algumas das montanhas mais bonitas do mundo 12
Via: An Chung Ho

Dolomitas, Itália
Algumas das montanhas mais bonitas do mundo 13
Via: David Bhutan

Pôr do sol nas montanhas, Egito
Algumas das montanhas mais bonitas do mundo 14
Via: Sergey Pesterev

Buscando o topo do Everest
Algumas das montanhas mais bonitas do mundo 15
Via: Blogspot

Uma dos mais alta montanhas de gelo , Nanga Parbat, no Paquistão
Algumas das montanhas mais bonitas do mundo 16


Kilimanjaro, na Tanzânia
Algumas das montanhas mais bonitas do mundo 17
Via: Kyle Mijlof

Montanhas da Perito Moreno, Argentina
Algumas das montanhas mais bonitas do mundo 18
Via: Yu Fumero

Moinhos de vento nas montanhas da Espanha
Algumas das montanhas mais bonitas do mundo 19
Via: Tony Park

Montanhas Surreais do Colorado, EUA
Algumas das montanhas mais bonitas do mundo 20
Via: Stephen Collector

Poderoso Elbrus, Kabardino-Balkaria, Russia
Algumas das montanhas mais bonitas do mundo 21


Passeio a pé pela Nova Zelândia
Algumas das montanhas mais bonitas do mundo 22
Via: Nico Nuzakki

Na fronteira da Suíça
Algumas das montanhas mais bonitas do mundo 23
Via: Wallpaperpod

Trilha dos trolls, Noruega
Algumas das montanhas mais bonitas do mundo 24
Via: Freeezzzz

O ponto mais alto da Sibéria, Belukha, Russia
Algumas das montanhas mais bonitas do mundo 25
Via: Sergey Ilkov

Monte Roraima, na tríplice fronteira entre Brasil, Venezuela e Guiana.
Algumas das montanhas mais bonitas do mundo 26
Via: Pixshark


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UMA FORTALEZA NO CUME DO MONT BLANC - Aiguille du Midi é uma montanha no maciço do Mont Blanc nos alpes Franceses. No seu cume tem uma construção que mais parece uma fortaleza e que leva qualquer pessoa a pensar como este castelo foi construído ali.

Aiguille du Midi é uma montanha no maciço do Mont Blanc nos alpes Franceses. No seu cume tem uma construção que mais parece uma fortaleza e que leva qualquer pessoa a pensar como este castelo foi construído ali.


Esta montanha de 3.842 metros cativou a imaginação de exploradores e escaladores durante décadas devido tanto ao seu pontiagudo cume como pelo difícil acesso, sendo só conquistada em 1818 por Antoni Malczewski e J. M. Balmat. Hoje em dia chegar a seu cume é relativamente simples, só devemos pegar o teleférico na base da montanha em uma viagem vertical (1035m da base aos 3842 do topo -2800m ) de 20 minutos.

Todo um mérito da engenharia, já que construir semelhante fortaleza no cume desta particular montanha é um legado ao talento de seus construtores que em 1955 desafiaram a natureza para erigir este espetacular lugar.
Uma fortaleza no cume do Mont Blanc
Uma fortaleza no cume do Mont Blanc
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Uma fortaleza no cume do Mont Blanc
Uma fortaleza no cume do Mont Blanc


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Primeira Ascensão Portuguesa do Monte Branco

Chamonix, França, 4 de Outubro de 1979

por Rogério Morais
Nota do editor: Rogério Morais é formador no curso de Iniciação ao Alpinismo da Associação Desnível. Luís Fernandes um antigo associado da Desnível e reconhecido escalador. Ambos desconhecem ascensões anteriores por Portugueses. Se sabe de alguma ascensão numa época anterior ou se partilha alguma destas memórias deixe o seu comentário mais abaixo!
A ideia surgiu no seio das actividades de espeleologia, mais do que propriamente no meio do montanhismo. Desde há mais de um ano que entre espeleólogos se falava de actividades de alta montanha como forma de preparação física e com admiração por essas “façanhas”. Apesar dos cursos de montanhismo que alguns de nós frequentavam no MCJ e no Grupo de Montanha do CCL, por aqui os objectivos eram mais caseiros e rochosos: Pedra da Ursa, Noiva, Cântaro Magro.
Daí que o Luís Fernandes, na altura um dos mais recentes e activos espeleólogos, e eu próprio, já mais virado para a montanha do que para a húmida e sofrida espeleo, tenhamos começado a abraçar esta ideia de ascensão do Monte Branco, o cume mais alto dos Alpes com os seus 4.808 metros e geralmente tido como o mais alto da Europa, apesar de esta segunda afirmação apenas ser verdadeira para a Europa Ocidental.
A nossa experiência de alta montanha era pouca, para não dizer nenhuma. No verão do ano anterior tinha feito a ascensão da Peña Trevinca, na Galiza, um maciço modesto, mas ainda assim mais alto que o Gerês ou a Estrela, os únicos terrenos montanhosos que conhecia, para além das paredes de escalada e falésias da região de Lisboa.
Corria o ano de 1979, e por alguma razão mais ou menos próxima do “relax” e ocupação típica desta época, o verão foi passando, mas não a vontade de concretizar este projecto. Depois dos inevitáveis mas reduzidos preparativos, decidimos ir para o terminal de camiões TIR da Matinha, para tentar apanhar boleia. O primeiro dia não correu bem, e decidimos voltar no dia seguinte, sem grande esperança. Finalmente, pelas 16:30 do dia 14 de Setembro, um motorista da Maison Giraud aceitou levar-me, na sua cisterna de vinho tinto português, que iria chegar à Escandinávia como francês!
A viagem foi agradável, mas muito cansativa. No primeiro dia limitamo-nos a chegar à fronteira de Vilar Formoso, ainda sem auto-estrada além de Aveiras, mas o segundo dia foi sempre a andar, com poucas horas de sono. Eu sentia-me na obrigação de não adormecer, mas às tantas não conseguia resistir. Acho que o motorista se divertia com a minha resistência ao sono. Nesse dia alcançámos França pelas 21 horas e Paris pelas 16 do dia seguinte, 48 horas depois da saída de Lisboa.
O motorista deixou-me num arruamento com acesso simpático à rede de transportes de Paris, onde me encontrei com o Luís Fernandes e nos deslocámos para casa de um seu amigo, em Boulogne-Billancourt. E nos 8 dias seguintes fizemos um relaxante turismo na cidade Luz. Mais uma inconsciência de quem se dava ao luxo de perder preciosos dias do que restava do instável verão francês.
A 24, eis que nos lançamos à boleia para Chamonix, por estradas perfeitamente secundárias, e tendo como ponto de partida um qualquer final de autocarro suburbano em direcção a Fointainebleau. Neste dia, nem sequer a esta zona mítica da escalada de bloco chegámos, ficando por Corbeil. Clermont-Ferrand no segundo dia foi um enorme avanço, Lyon e Voiron no terceiro e finalmente a chegada a Chamonix no quarto dia de boleia. Uma aventura demorada, desgastante e muito cansativa. A comida ia sendo a possível, e só na chegada a Chamonix foi possível descansar e comer decentemente durante um dia, no parque de campismo “des Arolles”, o mais barato e pequeno de todos. O dia 29 foi já de aclimatação, com uma subida desde a cidade até à cota 2.385 no Glacier des Pelerins, ao lado do Plan des Aiguilles. Dormimos na estação do antigo teleférico abandonado, imediatamente antes do Glacier des Bossons, e só me lembro do terrível frio que passei com o saco cama em hollofill comprado a um brasileiro em Paris, que só em 2005 deu o berro com o rebentamento do fecho. As condições eram duras e o equipamento muito mau. O abrigo proporcionado pelo enorme casarão era apenas psicológico, e seguramente fazia tanto frio como no exterior. No dia 30 descemos, e o resto do dia foi passado a descansar e a recuperar no camping.
1 de Outubro, finalmente, a partida para a ascensão, com o estado de espírito dos primeiros exploradores do séc. XVIII, desde o vale, sem recurso a teleférico, e pela via original dessa primeira ascensão heróica. O material de que dispúnhamos era quase hilariante. O Luis estava razoavelmente bem equipado. Eu, pelo contrário, roçava o descalabro total. Tinha saído de Lisboa com 7 mil escudos, que por um lado era o máximo permitido pela legislação do então Primeiro-Ministro Mário Soares, mas que ninguém respeitava, e por outro era o que eu tinha conseguido juntar com as minhas curtas mesadas e o que sobrava com as constantes saídas de fim-de-semana e das férias que agora terminavam. Os passaportes tinham mesmo um anexo, no final, para registar as compras oficiais de divisas, mas todos compravam moeda estrangeira em Santa Apolónia, por exemplo. A mim tal problema não se colocava, para mal dos meus pecados.

“Blusão Kispo, do mais fino e permeável que se possa imaginar. Calças de bombazine, cortadas pelo joelho, como eram moda umas décadas antes. Luvas de lã desviadas da minha irmã (que ela usava para ir para a escola), gorro e duas ou três camisolas de lã. Era tudo, dentro de uma mochila Serval com alças que me torturavam os ombros.”

Mas voltando ao material de que dispunha, façamos um rápido inventário: em Paris comprei umas excelentes botas de alta montanha, em couro, modelo Oisans, talvez da Galibier, que ainda hoje possuo. Era para mim a peça fundamental e a única que me dava segurança e conforto moral. Já tinha tido experiências muito desagradáveis de pés congelados na Estrela e não iria repeti-las nos Alpes. O Baudrier (arnês) tinha sido comprado também em Paris mas para um colega da espeleo, e eu usei-o emprestado nesta ascensão. Nestes tempos, qualquer material de escalada tinha de ser trazido do estrangeiro, geralmente Vigo, Andorra ou Alpes. O piolet aluguei-o em Chamonix, mas o dinheiro já não chegou para alugar crampons (hoje a opção teria sido outra neste tipo de ascensão). Sem crampons, a escalada tornou-se uma aventura suicida, e maior valor dei às minhas botas rígidas, com excelente sola vibram, que me permitiam ter sempre degraus, nem que fossem apenas com 1 ou 2 cm. Ainda hoje me sinto muito à vontade sem crampons na neve dura, desde esta experiência. Quanto à roupa, enfim… Blusão Kispo, do mais fino e permeável que se possa imaginar. Calças de bombazine, cortadas pelo joelho, como eram moda umas décadas antes. Luvas de lã desviadas da minha irmã (que ela usava para ir para a escola), gorro e duas ou três camisolas de lã. Era tudo, dentro de uma mochila Serval com alças que me torturavam os ombros. A comida estava também reduzida ao mínimo concebível, e nem sequer fazíamos ideia se íamos demorar 2, 3 ou 4 dias. O Luís ainda tinha algum planeamento das comidas e gás. Eu, confesso que não.
Mas a ascensão começou, lenta e algo pesada, com o longo caminho que se inicia por baixo da estrada de acesso ao túnel do Mont Blanc. São umas horas esgotantes, que terminaram nas casas então abandonadas, mas relativamente bem conservadas do Plan des Aiguilles. Dormimos bem, até pelo cansaço já acumulado nos beliches de madeira, onde gravámos timidamente o nosso nome. Hoje estas casas estão recuperadas como verdadeiro refúgio, apesar de estarem 10 minutos abaixo da estação intermédia do teleférico da Aiguille du Midi
Na manhã de dia 2 de Outubro iniciámos de novo a marcha, agora num plano praticamente horizontal, para atravessar primeiro o Glacier des Pelerins, insignificante, mas onde me enfiei numa pequena crevasse até à cintura (as pequenas são as mais perigosas). Um pouco depois, atingimos o termo do caminho que já conhecíamos, junto ao teleférico abandonado, a que se seguia o enorme Glaciar des Bossons, que desce do Monte Branco até á cota 1.200. Precisando melhor, descia, nesse ano de 1979, porque no início do séc. XXI, com o constante aumento de temperatura e o consequente degelo já nem à cota 1.400 chega.
Esta foi uma das perdas que mais me custaram com os sucessivos regressos a Chamonix. Este glaciar, que nesta zona da Jonction é impressionante e extremamente crevassado, com seracs muito altos, inspira respeito e apreensão, sobretudo para mim, que estava sem crampons. Mas a progressão fez-se, sem problemas de maior, até porque as marcas de anteriores passagens eram abundantes, as crevasses maiores estavam equipadas até com escadas metálicas, ao melhor estilo himalaiano, o que nos fazia sentir numa verdadeira expedição, rodeados de um mundo que ainda não conhecíamos ao vivo, mas apenas dos livros devorados avidamente e de alguns filmes, emprestados pelas embaixadas aos clubes lisboetas por onde íamos passando.
A visão do Refúgio des Grands Mullets, desde baixo, alcantilado em cima dos rochedos com o mesmo nome, enquadrado pelo Mont Blanc em fundo, é simplesmente fantástica. Apesar dos escassos 3.000 metros de altitude, atingir este refúgio foi um desafio. Em particular a pequena escalada rochosa, fácil, que leva até à porta de entrada. Comparado com os 3.800 metros do refúgio da Aiguille du Gouter, este refúgio mais baixo é geralmente preterido, porque implica no dia seguinte uma ascensão de 1.800 metros, em vez dos 1.000 exigidos pelo Gouter. No entanto, foi nestes rochedos que os primeiros conquistadores do Monte Branco dormiram, e essa a razão da nossa escolha.
A entrada no refúgio, correspondeu a entrar num mundo novo. Apesar de o guarda estar ausente e de não estar ninguém neste refúgio fantasma (estavamos em Outubro, convém lembrar), ainda se respira uma atmosfera de refúgio guardado, uma vez que o guarda ainda não o encerrou para inverno, mas apenas o irá fazer dois dias mais tarde, com a nossa ajuda. A noite passou-se calmamente, sem história e com um jantar frugal. O facto de não termos de pagar a noite foi uma agradável e bem recebida surpresa, dadas as nossas “restrições” orçamentais.
No dia seguinte, de novo o glaciar, muito branco, mas ainda com muitas marcas. A respiração era cada vez mais difícil, e o cansaço omnipresente. As paragens para recuperar o fôlego, muito frequentes, mais parecendo estarmos nos Himalaias, tal como no dia anterior. Longo, muito longo, este glaciar, até que, ao fim de umas horas esgotantes, se nos abrem os horizontes para o Dome du Gouter e para a aresta somital que passa pelo refúgio-bivaque do Vallot e dá acesso ao cume. Daqui, chegar ao Vallot foi mais uma conquista. Apesar de próximo, está já acima da quota 4.000, e a nossa aclimatação era praticamente nula, apesar da anterior ascensão na floresta, que nada tinha a ver com o ambiente a 4.000 metros.
Por decisão do Luís Fernandes, que me era praticamente alheia, dado o meu estado de apatia geral, entrámos no refúgio do Vallot para passar a noite. Esta foi uma atitude impensável, pelo risco que acarreta dormir a esta altitude com a possibilidade de se instalar uma tempestade de vários dias. Mas o continuar para o cume, já com o dia bem avançado também não era opção, uma vez que para fazer cume deveríamos estar a passar aqui ao amanhecer, senão ainda de noite, e ao amanhecer ainda estávamos a sair dos 3.000 metros. Apesar de tudo, o Vallot tinha rádio ligado à Gendarmerie, cobertores e até algumas provisões de emergência, como sopas instantâneas e triângulos de queijo, o que nos dava alguma sensação de segurança. Mas as restantes condições eram deploráveis. Cheiro nauseabundo a lixo e nem sei que mais. Cobertores sujos e húmidos. Placas metálicas laterais a bater, com algum vento e frio a entrar. E, sobretudo, a altitude. Fiquei com a sensação de que não consegui dormir a noite inteira. Aliás nem tinha já noção do que era noite ou dia, uma vez que, exaustos, nos deitámos ainda de dia, pouco depois de chegar e de tentar comer alguma coisa. Aliás a gestão da comida, do enjoo, do mal de montanha, do cheiro penetrante, era algo demasiado para o meu estômago debilitado.
Mas o dia 4 de Outubro amanheceu, com ar encoberto, e foi necessário sair do refúgio. Algum peso ficou, muito pouco no meu caso, dada a inexistência de material supérfluo e de comida. A partir do Vallot começa propriamente a aresta somital e alguma dificuldade técnica. Se é que se pode considerar apenas “alguma” a quem tem de a subir sem crampons (e pior ainda, descer).

“A sensação de segurança dada pela corda era, julgo agora, meramente psicológica, dada a nossa inépcia e quase total desconhecimento das técnicas de travagem no gelo e neve dura, e pelo muito acentuado gradiente da aresta.”

O Luís Fernandes sobe em primeiro, por razões de segurança impostas pelos seus abençoados crampons. Devidamente encordoados e com o compromisso de honra de cada um se lançar para o lado oposto da aresta em caso de queda do companheiro. A sensação de segurança dada pela corda era, julgo agora, meramente psicológica, dada a nossa inépcia e quase total desconhecimento das técnicas de travagem no gelo e neve dura, e pelo muito acentuado gradiente da aresta. A respiração era outro problema relevante. A cada três passos, parávamos para respirar. A altitude dava-nos a sensação de estar a 8.000 metros. A fraqueza física era também já evidente, quer pela degradação do 4º dia em altitude, quer pela má nutrição, sobretudo no meu caso, uma vez que o Luís podia dar-se ao luxo de ter alguns suplementos. A ascensão parecia interminável. Bossa após bossa, aresta após aresta. Subida, cansaço, paragem, descanso, sofrimento. Uma sucessão interminável e a sensação do que custa um 4.000 a sério. Mesmo mais tarde, nas repetições que fiz do Monte Branco, este sempre me pareceu “mais 4.000” que todos os outros. A aclimatação parece nunca ser suficiente.
Finalmente a aresta alarga-se, deita-se, reduz-se a inclinação e, finalmente, o cume surge sem acreditarmos. Ainda avançamos uns metros para o outro lado para termos a certeza de que nada mais sobe nesta Europa ocidental.
Sensação estranha esta da conquista, do fim do sofrimento da subida. Ou o mero engano, uma vez que o pior ainda estava para vir. O dia corre cinzento, mas ainda se podem ver os cumes para o lado italiano. Tiramos as fotos da praxe. As do Luís saem mais ou menos, as minhas são de uma Kodak Instamatic, de muito má qualidade, e ficam todas ainda mais escuras que o dia.
Em breve iniciamos a descida. Eu sempre abaixo do Luís, à frente, neste caso. Um breve resvalar teria consequências dramáticas e previsíveis. A meteorologia continua a degradar-se, mas a par de algumas nuvens baixas ou nevoeiro, nada de especial. Não neva nem faz vento especialmente forte. De um modo que nos parece quase rápido chegamos ao refúgio de emergência Vallot.
Entramos de novo naquele pesadelo imundo, agora com o alívio de que é para sair rapidamente. Comemos algo, arrumamos os sacos cama e depressa partimos. Ao abrir de novo a porta, um choque enorme. Começou a nevar intensamente. Não se vê nada. O arranque não tem muito que saber, mas já não se vêem as pegadas do dia anterior, na subida. Em breve a descida começa a alargar para a enorme plataforma anterior ao Dome du Gouter, onde temos de inflectir para a direita e tomar o canal que dá acesso ao Glaciar dos Bossons. Tudo parece igual. Hesitamos, descemos mais uns metros, voltamos a subir, descemos mais um pouco, mas nada.

“Estamos perdidos no meio de nada, da neve a cair, da imensidão gelada. Por dentro, estou em pânico.”

Estamos perdidos no meio de nada, da neve a cair, da imensidão gelada. Por dentro, estou em pânico. Nem bússula, nem GPS, que não existia nesses tempos longínquos. Apenas um mapa 1/50.000, que no meio da tempestade tinha utilidade nula, tal como a visibilidade. Tomamos a decisão rápida de voltar a subir ao Vallot. Subir de novo, enquanto as nossas pegadas são ainda minimamente perceptíveis com esta hora de neve caída, contínua. Subir de novo, quando já pensávamos que agora era só descer. Com o medo vamos arranjar forças sabe-se lá onde (na descarga de adrenalina, provavelmente) e depressa lá chegamos. Pego em alguns mantimentos de emergência, um pouco com remorsos, como se a nossa não fosse uma emergência terrível. Uns quartos de queijo e pouco mais. Pego também num cobertor velho, preto, e coloco-o ao pescoço, por fora da mochila. Voltamos a descer, como muito mais cuidado e atenção. Vou arrancando uns pedaços de 10 ou 15 cm do cobertor e enterro-os na neve, de modo a permitir o nosso regresso ao Vallot se nos perdermos pela segunda vez.
Algumas diminuições de intensidade da queda de neve, algumas melhorias pontuais da visibilidade, muita intuição e alguma sorte e lá começamos a descer o canal correcto de acesso ao glaciar e ao refúgio dos Grands Mullets. Agora a neve acumulou imenso, em pouco mais de uma hora, e enterramo-nos até aos joelhos, por vezes até mais acima. A progressão é muito lenta e penosa. Uma das tácticas para dar com o caminho, pelo menos já no início do canal, foi o sentir o antigo carreiro de subida debaixo dos pés. Quando caminhamos no carreiro do início do glaciar, enterramo-nos só até aos joelhos. Mal saímos do caminho, enterramo-nos até à cintura, uma vez que a neve por baixo não está compactada. Isto quer dizer que damos dois ou três passos e temos de corrigir para o lado. O processo é extremamente penoso e cansativo. Ainda tento alternar com o Luís, mas com ele à frente somos muito mais lentos, uma vez que ele é bem mais baixo do que eu e não tem a mesma amplitude de passada, nem a mesma capacidade de elevar os joelhos fora da neve. Permaneço à frente do caminho, o que me esgota. Ainda assim fico espantado com as minhas capacidades físicas depois de tudo o que já penei. O medo gerado pela situação ajuda a ir buscar forças sabe-se lá onde. Sinto o Luís mais fraco que eu neste prolongamento do dia para além do que seria admissível e humanamente sustentável. O que até aqui não tinha sucedido, com a minha má condição geral. As quantidades de neve caída são imensas e ouvem-se avalanches à nossa volta. Só no dia seguinte nos apercebemos do perigo eminente que elas representam. Hora após hora, baixamos, e finalmente começamos a ter menos acumulação de neve e a conseguir ter uma noção do caminho sem ser por palpação com as botas.
Em breve surge o refúgio e sentimos a salvação perto. Quando entramos, apercebemo-nos de que o guarda está presente e cumprimentamos aquela figura de montanha, que é o primeiro homem que vemos desde o Plan des Aiguilles, quatro dias antes. Ele diz que também nos viu na aresta somital essa manhã e chamou-nos loucos, de subirmos naquela data e com aquelas condições, e sobretudo por termos pernoitado no Vallot. Fez-nos compreender que se a tempestade tem começado 24 horas antes, poderíamos ter tido de esperar o inverno inteiro para de lá sair, ou até um helicóptero Alouette III poder subir a 4.000 metros com condições meteorológicas aceitáveis. Deve ter reparado no nosso ar de fome e deu-nos de jantar. Ajudámos a arrumar e limpar todo o refúgio, que ele iria encerrar para todo o inverno no dia seguinte. Não nos cobrou a dormida nem a comida, o que foi uma surpresa muito agradável. Na manhã seguinte procurou por todo o lado uns crampons de fortuna, só com quatro bicos, para eu aplicar nos calcanhares. Era uma forma de me desenrascar o resto da descida do glaciar, mas não os encontrou e lá tive de percorrer todo o glaciar só com botas nos pés. Agora com uma maior noção do perigo que corria.
A neve continuava a cair, embora com menos intensidade que no dia anterior. Quando se ouvia uma avalanche acima de nós, o guarda/guia de montanha quase entrava em pânico a olhar para cima no meio da tempestade. Nós recordávamos o dia anterior, em que esses sons quase não nos impressionavam, tal era a nossa apatia e o nosso desconhecimento desse perigo eminente, provavelmente o maior que corremos em toda a descida e toda a tempestade. De crevasse em crevasse, lá percorremos todo o Glaciar dos Bossons. No Plan des Aiguilles, apesar do cansaço e da fome, a descida foi feita a pé para Chamonix, tal como os primeiros conquistadores do Monte Branco.
Na cidade, esperava-nos um pequeno luxo: com toda a chuva que aqui caía, mudámos do parque de campismo des Arolles para o sotão do Hotel Chamoniard, com uma tarifa de “amigo”, e com a vantagem de podermos estender todo o material a secar. Uma garrafa de vinho tinto aberta com um piton de gelo tipo saca-rolhas, que ainda guardo, foram os poucos luxos desta recuperação que durou de 5 a 8 de Outubro.
Nesse dia, de novo à boleia até à fronteira próxima de Genéve, para apanharmos o mesmo camião TIR que levou o Luís até Paris, agora com dois penduras. Dia 11 estava em Lisboa, apenas com uma refeição quente em toda a viagem de dois dias. O meu peso estava abaixo de 60 quilos, apesar da minha altura de 1,82 metros. No dia 17, uma semana depois, já tinha recuperado para 61,5 quilos, e a 24 aumentava exponencialmente para 65,5. A comida da mamã e a cama confortável faziam maravilhas.
O nosso clube, na altura, era o Grupo de Montanha do CCL. Algumas pessoas nem acreditavam neste “feito”, uma vez que o Monte Branco era algo de desconhecido, inacessível, e apenas admissível para alpinistas de topo, à nossa limitada vista lusitana da época. Não existia informação, relatos, amigos que já tivessem feito o cume, internet, nada. Foi sobretudo este desbravar de caminho que constituiu o nosso maior “feito”. E para mais, estávamos vivos para contar. Mas passámos mesmo ao lado da morte. Uma notícia publicada no boletim do CCL foi tudo, a nível de imprensa.
Em 20 de Agosto de 1981, volto a subir pela segunda vez o Monte Branco, agora com o meu amigo Manuel João. Correndo o mês de Agosto, pela via normal, centenas de alpinistas sobem ao cume. Acho a escalada irreconhecível, dada a enorme confusão de cordadas e a facilidade das condições meteorológicas, além da segurança que os crampons me concedem. O cume parece agora fácil e quase desprezível, face ao que nos custou dois anos antes. Sei que durante uns anos não voltarei a pisar o cume (na realidade só o farei de novo em 1989).
Passados quase 30 anos sobre essa data de 4 de Outubro de 1979, a ascensão assume agora contornos de loucura épica e irresponsável, mas ainda assim valeu a pena. Mas apenas porque estou vivo.
desnivel.pt

Sozinho no cume do Mont Blanc


Em agosto de 2009 decido subir sozinho o Mont Blanc, a mais alta montanha dos Alpes e da União Europeia, atingindo uma altitude de 4810 metros. Não disse nada a nenhum dos amigos que me acompanharam nas três tentativas anteriores.
O treino para esta aventura resumiu-se a várias idas à Serra da Estrela e muito ginásio, fazendo apenas CardioFitness. Onze meses passaram num ápice desta última vez, e já estava a caminho do Mont Blanc.
Quando chego a La Fayet apanho de imediato o comboio de cremalheira. Só a viagem até à estação terminal recomenda-se, pois a paisagem é deslumbrante.
Mal saio do comboio cometo um erro de maçarico, nunca se transporta nada fora da mochila. Por esquecimento, deixei uma pequena garrafa de água no compartimento exterior e alguém deu um toque sem querer, fazendo com que a garrafa saltasse da mochila. Resultado: uma garrafa a rebolar encosta abaixo!
Sinto-me bastante forte e muito mais rápido em comparação com as últimas tentativas. Primeiro objetivo: pernoitar no refúgio sem guarda Les Houches. Ao chegar a este refúgio encontro um grupo de Japoneses a comentar entre si e a observar a imponente encosta do Goûter. Bastante simpáticos… Cumprimentei-os, mas não ligaram nenhuma!
Instalo-me logo à entrada do refúgio. Pouco tempo depois, os Japoneses foram para o compartimento ao lado. Já conhecia o interior deste refúgio, da 1ª e 2ª tentativa de subida ao Mont Blanc. Recordo-me de um pequeno rato, que aparecia e desaparecia várias vezes, como se estivesse a meter-se connosco.
Poucas horas depois, acordo com o barulho do pacote de frutos secos e acendo o frontal. Era o famoso rato, que decidiu meter-se dentro da embalagem.
Decido retomar a ascensão. Arrumo o saco-cama e arranjo melhor a mochila. Estava entusiasmado e algo me dizia que seria desta vez que a montanha permitiria que chegasse ao seu cume.
Fico bastante impressionado com a minha forma física e, quando dou por mim, já estou a calçar os crampons perto do refúgio Tetê Rousse.
refúgio Tête Rousse monte branco alpes
Refúgio Tetê Rousse
Mais uma vez estou de frente para a passagem do Grand Couloir. Sinto-me tranquilo e avanço o mais rápido possível, após ter aguardado a minha vez, porque só passam alpinistas num sentido de cada vez.
Mais rápido do que nas últimas três vezes subo a encosta do refúgio do Goûter sem parar. A ideia era pernoitar neste refúgio. Mas estava bom tempo e sentia-me bastante forte e em grande forma física, por isso continuei a ascensão!
Demorei três horas a finalizar a encosta que dá acesso ao cume Dome do Goûter. Durante a subida, no meu lado esquerdo vejo um helicóptero que estava a participar numa operação de resgaste, por causa de um alpinista que tinha caído numa fenda de glaciar
Durante a subida tenho como companhia, do meu lado direito a fantástica, aresta da Aiguille de Bionnasay.
Finalmente chego ao cume Dôme du Goûter a 4304 metros de altitude. Sinto a fadiga a tomar conta de mim e avanço em direção ao refúgio Vallot. Nesta altura recebo uma mensagem do meu amigo Rodrigo a informar que iria ter bom tempo nas próximas horas. Penso: Será que é desta vez que vou conseguir?
mont blanc ascensão cume Dome du Goûter
Samuel Passos – Dome du Goûter
Demoro bastante tempo até chegar ao refúgio Vallot. O local estava cheio e não havia espaço para mais ninguém. Estavam Russos, Ingleses, Espanhóis, tudo a falar ao mesmo tempo! Que mistura de sons.
Acordo com o despertador do altímetro e vejo a pequena janela do refúgio obstruída, sem qualquer visibilidade para o exterior. O primeiro pensamento:Tempestade! Mas afinal era só o vidro embaciado! Ao sair do refúgio, estava um fantástico céu estrelado. Neste momento soube que iria conseguir.
Agora iria passar pela Arest des Bosses, onde só cabe um pé de cada vez. Passo-a com a máxima precaução e, como bónus, a Natureza brinda-me com um fantástico nascer-do-sol. Sem adjetivos para caraterizar o momento…
Falta pouco até ao cume e, de vez em quando, para recuperar o fôlego, paro para viver aqueles momentos únicos que só a montanha pode oferecer.
samuel passos trilhos e cumes montanhismo cume do mont blanc
Samuel Passos – cume do Mont Blanc
Chego à aresta somital do Mont Blanc e finalmente ao cume, a 4810 metros de altitude, às 07h:00m no dia 6 de agosto de 2009. Palavras para descrever o que se sente ou o que se vê? Não existem…
Aceitem o desafio, tentem e guardem na vossa memória e coração todas as emoções vividas.

Este artigo foi escrito por Samuel Passos, Diretor da Trilhos e Cumes, uma empresa de Pedestrianismo, Escalada Desportiva e Clássica, Alpinismo e Himalaísmo, e guia de montanha.
montanhismo e escalada em Portugal, Alpes, Pirenéus e Himalaias






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