Temos, além do mar, uma outra riqueza imensa. O mar não arde. A outra, sim. E a deixa a paisagem assim, como mostra a imagem. Podiam os noticiários diários remeter-se a mostrar o que servia para revoltar, mas opta pela alternativa e mostrar a chama alterosa, viva. Todo o desastre tem a sua inabalável estética. Portinári usava-a para denunciar a geopolítica da fome e Picasso para pintar a Guernica. Nem um nem outro deixava margem para se apreciar ou motivar as forças que causaram o horror…
As televisões bem podiam dar o impacto do facto e denunciá-lo. Bem podiam dar o bilhete de identidade do ardido e da propriedade. Os caminhos de acesso não estão abertos, quem os não abriu? O material lenhoso e o mato seco são o pasto para as labaredas, quem os não limpou e recolheu? A incúria e o desleixo são adjectivos aplicáveis a nomes. Quem? Quem?
Hoje o “Público” dava importância ao assunto, trazendo-o para o seu editorial. Lá se lia : “O que afinal está em causa é uma estratégia errada, que coloca os bombeiros e não os silvicultores no centro da discussão sobre os perigos para a floresta.” Nada mais errado, há quem não deixe arder um só metro quadrado enquanto outros a deixam arder por todo o lado.
E também nós vamos ardendo, mas… em fogo lento.
Via: Conversa Avinagrada
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