AVISO

OS COMENTÁRIOS, E AS PUBLICAÇÕES DE OUTROS
NÃO REFLETEM NECESSARIAMENTE A OPINIÃO DO ADMINISTRADOR DO "Pó do tempo"

Este blogue está aberto à participação de todos.


Não haverá censura aos textos mas carecerá
obviamente, da minha aprovação que depende
da actualidade do artigo, do tema abordado, da minha disponibilidade, e desde que não
contrarie a matriz do blogue.

Os comentários são inseridos automaticamente
com a excepção dos que o sistema considere como
SPAM, sem moderação e sem censura.

Serão excluídos os comentários que façam
a apologia do racismo, xenofobia, homofobia
ou do fascismo/nazismo.

sábado, 8 de agosto de 2015

ANÁTEMA FEUDAL I-II-III - A Federação Russa perdeu uma parte enorme de potencial militar em relação ao que foi a URSS, mas possui uma base científica-tecnológica capaz de superar os desafios e os obstáculos contemporâneos.






ANÁTEMA



FEUDAL











ANÁTEMA FEUDAL – I.
1 – A carga ideológica com sinal feudal, que anima as doutrinas indexadas ao capitalismo não foi suficientemente avaliada (ou reavaliada) e o papel de indústrias como as de armamento, assim como as leituras relativas aos “entendimentos geo estratégicos” sobre a utilização dos recursos e meios de inteligência, bem como as actividades militares, qualquer que seja a barricada, constituem evidente prova disso.
Como não pode deixar de ser, a carga ideológica de raiz feudal que anima a “nova” doutrina militar de Obama, reflecte-se no tipo de configuração da “ameaça”, ao colocar a Rússia e o Emirato Islâmico no mesmo pé de igualdade e fugindo como sempre à adequada consciência sobre a essência dos fenómenos e dos problemas.
A doutrina militar de Obama, sendo um reaproveitamento da doutrina militar de Bush, nesses termos possui toda a carga de “guerra psicológica”, coisa que as sucessivas administrações de turno nos Estados Unidos, nunca abandonaram desde a IIª Guerra Mundial, nem com o fim da “Guerra Fria”.
É evidente que não há interesse algum em políticas que visem o desarmamento e a complexa sociedade norte-americana é nesse sentido outra evidência.
A repressão acentua-se sobre as camadas mais desfavorecidas da população residente nos Estados Unidos, a ponto de serem as comunidades de afrodescendentes e de latino-americanos, aquelas que mais sofrem, aquelas que enchem as prisões em maior percentagem.
É evidente que os processos dialécticos de raiz cultural prevalecem, de modo a que por via das manipulações seja mais fácil ao capitalismo tal qual ele é entendido pelos falcões, fazer-se sentir aglutinando os processos de consumismo, de mercantilização e de deriva neo liberal.
O recurso a conceitos ideológicos ultra conservadores, está garantido desde as superestruturas da aristocracia financeira mundial, até às periferias instrumentalizadas, cabendo aos “think tanks” a modelagem doutrinária com o fito de melhor amarrar a panóplia de alianças, de “parcerias” (que palavra tão capciosamente agradável) e a aplicação dos seus conceitos e decisões.
O grau de alienação nas sociedades do século XXI é comparativamente maior em relação às sociedades da época da “Guerra Fria”.
Os “think tanks” representativos, tornam-se assim elementos imprescindíveis para o exercício do domínio que se concentra nos propósitos da hegemonia unipolar, que tem sua base antropológica e cultural nos ambientes anglo-saxónicos, tirando histórico partido do que foi um dia o império britânico.
O inglês tornou-se, a par do dólar no sistema financeiro global, a língua tida como a mais vantajosa nos contactos internacionais de todo o tipo.
Num mundo caótico, onde o campo das alienações tem húmus para crescer e se multiplicar, é fácil recorrer a mais uma alienação, ainda que ela no fundo discorra a partir de elementos de interpretação marcadamente próprios das trevas feudais.
Perante o pântano ideológico a que o capitalismo nos conduziu, ainda assim há necessidade de avaliar quem detém a carga agressiva e quem articula os meios disponíveis de forma defensiva e simultaneamente de forma tão apassivante ou persuasiva quanto lhe é possível, uma contradição que afinal garante a longevidade do próprio capitalismo tornado processo de hegemonia unipolar.
Quero com isto dizer que é muito difícil hoje defender-se a paz não redutora de democracia e de liberdade, mais ainda que no tempo da “Guerra Fria”, pelo que a honestidade e a responsabilidade dos políticos que enveredem por essa trilha, tem de recorrer a uma dose maior de criatividade, de inteligência e de efectiva argumentação, escapando ao anátema feudal que mentaliza os falcões e torna tão disponível ao domínio o uso de armas… e escapando às grilhetas neo liberais capazes de estrangular povos inteiros com a bancarrota, ou um regime coercivo e prolongado de “austeridade”.
O próprio Vaticano é expoente dessa situação: quando surgiu um Papa que com consciência crítica passou a condenar o capitalismo selvagem, como agora com o Papa Francisco, os “mídia ocidentais” controlados pela aristocracia financeira mundial e pelas oligarquias vassalas, deixam de ser “caixa-de-ressonância” da Igreja Católica Apostólica Romana, mesmo onde ela é “igreja dominante”…
… E no entanto, ter presente a configuração das forças dos vários campos, é um recurso indispensável para quem, num ambiente humano tão alienado quão hostil, ousa ainda lutar pela paz!
Martinho Júnior.
Luanda, 14 de Julho de 2015.
Quadro ilustrativo das 35 mais potentes forças armadas do globo.

CLIQUE NAS IMAGENS




ANÁTEMA FEUDAL – II.
2 – Os Estados Unidos detêm de longe o maior pendor ofensivo no âmbito dos programas do exercício de hegemonia unipolar, no que diz respeito aos seus instrumentos militares, com o Pentágono a estabelecer a quadrícula do mundo e com a disseminação de bases, que ultrapassam as 800, em todos os continentes.
Por essa razão os orçamentos para garantir essa cobertura típica dum império, que exige um enorme esforço de organização e manobra, são de longe os maiores do mundo, comparativamente a todos os outros.
Essa cobertura determina que sejam os Estados Unidos a deter o maior número de aviões e de porta-aviões, pois uma parte substancial das suas forças estão fora do seu território e as bases circundam o globo, embora haja concentrações em função das tónicas geo estratégicas e dos conflitos em curso.
Neste momento os Estados Unidos procuram aligeirar a sua presença no Oriente Médio, fortalecendo a NATO na Europa do Leste, em torno do contencioso da Ucrânia, ao mesmo tempo que começam a concentrar esforços e meios em direcção à China, via Pacífico.
Quer dizer que os Estados Unidos estão a todo o transe a procurar conter a emergência dos BRICS, começando por fixar a Rússia a oeste e a China a partir do Pacífico, integrando aliados como o Japão, a Coreia do Sul, as Filipinas e outros que procura manipular alimentando discórdias e disputas regionais.
A doutrina Obama aproveita a doutrina Bush, ao colocar o Estado Islâmico como prioridade em termos de ameaça, a par da Rússia, de modo a poder aproveitar o esboço de “conflito de civilizações” que herdou.
À falta de “comunismo”, quem detém o poder ofensivo precisa de ter um contraditório na definição da ameaça, que cumpra com um papel que justifique o seu próprio poder.
Os Estados Unidos para o efeito dominam em muitas regiões do globo e mantêm uma panóplia de alianças, que enquadram autênticos regimes de vassalagem, como os casos multilaterais da NATO, “Organização do Tratado do Atlântico Norte”, ou do ANZUS, “Pacto Austrália, Nova Zelândia e Estados Unidos”, ou os casos bilaterais como o Japão, ou as Filipinas.
Por tabela, em África, a situação é similar, particularmente com o “laboratório” criado com a implantação do AFRICOM: a partir da destruição da Líbia, semeou-se o caos no Sahara, no Sahel, até Ogaden… e agora há toda a justificação para os Estados Unidos e seus vassalos da OTAN, “socorrerem” os débeis estados africanos que lhes caem nos braços em estranhas “parcerias”, a fim de fazerem face aos mentores tácticos do caos herdado, ao “terrorismo” do AQMI, do Boko Haram, ou do al Shabaad…
As suas forças situam-se sobretudo no hemisfério norte, mas também fazem cobertura de seus interesses no hemisfério sul, onde não é preciso muito, nem muitos recursos, para assumir a liderança em proveito da aristocracia financeira mundial.
A internacionalização do dólar e as manipulações que com ele são feitas, permitem que uma grande parte das verbas para os orçamentos sejam provenientes de outros, inclusive de alguns dos alvos (casos da Rússia e da China).
O recurso a ideologias de raiz feudal é comum nas doutrinas militares que os Estados Unidos têm vindo a elaborar.
Os Estados Unidos implantam assim as dialécticas manipuladoras, estabelecendo artificiosamente campos de “conflito de civilizações”, de “conflitos étnicos”, ou de “conflitos religiosos”…
Desde a IIª Guerra Mundial que os Estados Unidos estão por isso em conflito permanente onde quer que seja, com guerras de intensidade variável e recorrendo a todo o tipo de justificações, depois do “laboratório” de suas manipulações e ingerências.
Durante o período da “Guerra Fria”, os Estados Unidos disseminaram ingerências em todos os continentes e agora multiplicaram essas ingerências, ainda que alterando as perspectivas geo estratégicas de suas condutas tendo em conta a interligação de interesses e das capacidades de resposta que encontrem por parte de quem lhes é resistente.
O capitalismo, selvagem ou não, procurará sempre fórmulas “concorrenciais” que estimulem processos dialécticos de manipulação e ingerência, pois de outra maneira é impossível a implantação do domínio indispensável.
Mentores da tese, estimulam agora a antítese, para que a síntese seja o mais proveitosa possível.
A “guerra entre civilizações”, a “guerra entre etnias”, ou a “guerra entre religiões”, com todos os ingredientes de “guerra psicológica”, faz parte de suas mais estimulantes agendas e ementas que servem aos processos de domínio de que se socorre a hegemonia unipolar, ou seja, o que move as potencialidades de manipulação, ingerência e sobretudo de agressão ofensiva.
As “revoluções coloridas”, ou as “primaveras árabes”, inscrevem-se nessa guerra psicológica sem fim e de carácter sempre retrógrado, semeando o caos, dividindo sempre, subvertendo outras opções, ou interesses, corroendo todas as iniciativas e geo estratégias de paz!
Martinho Júnior.
Luanda, 2 de Agosto de 2015.
Mapa de William Blum, relativo às acções levadas a cabo pelos Estados Unidos depois da IIª Guerra Mundial.



ANÁTEMA FEUDAL – III.
3 – A Federação Russa perdeu uma parte enorme de potencial militar em relação ao que foi a URSS, mas possui uma base científica-tecnológica capaz de superar os desafios e os obstáculos contemporâneos.
Sendo o maior país em extensão da Terra e o único com território em dois continentes (a Europa e a Ásia), a Federação Russa adopta uma doutrina defensiva e ao mesmo tempo dissuasora e por isso capaz de contra golpes.
A Rússia assestou contra golpes limitados em conflitos fronteiriços, ou próximos, como nos casos da Chechénia, da Geórgia, ou da Ucrânia, assim como garantiu capacidade de defesa à Síria no Mediterrâneo Oriental, de forma a simultaneamente alargar a malha de cobertura da sua frota do Mar Negro.
A Federação Russa é a potência que mais tanques possui, algo que tem a ver com as preocupações de cobertura de sua enorme extensão territorial, estando agora a introduzir novas e vantajosas tecnologias ao nível dos seus corpos de tanques, de blindados, de artilharia e de agrupamentos de mísseis.
A Rússia tem feito um aproveitamento das técnicas militares que tiveram seu curso durante o período de “Guerra Fria”, introduzindo tecnologias avançadas, algo que pode ser constatado nos vários ramos das suas Forças Armadas.
A Rússia possui poucas bases “ultramarinas” e nas suas fronteiras marítimas domina no Árctico, mantém uma força notável em relação ao Pacífico e sistemas defensivos em profundidade nos circuitos fechados do Báltico e do Mar Negro.
Sentindo a necessidade de dissuasão por via de contra golpes, a Federação Russa possui vantagens no número de ogivas nucleares e começa a estabelecer pontos de apoio a partir de alianças, inclusive fora da Euro-Ásia (caso da Venezuela, na América do Sul).
Em relação aos componentes dos BRICS, a Rússia é o principal fornecedor de armamento em relação à China e à Índia, em todas as componentes das respectivas forças armadas, podendo em breve vir a ser o principal fornecedor do Brasil.
A manobra militar russa ocorre no hemisfério norte e é muito rarefeita no hemisfério sul.
A poderosa frota do Norte serve de pontual reforço sempre que a Federação acha necessário, quer às frotas que cobrem o Atlântico (Báltico e Mar Negro), quer à frota do Pacífico.
Conforme escrevi em “Verão quente no leste da Europa”:
… “O facto da Federação Russa recorrer à memória histórica e épica da URSS na IIª Guerra Mundial, tem muito mais a ver com a mobilização para a resistência hoje, de forma a garantir a inviolabilidade da Federação Russa, do que com qualquer nostalgia dessa época, ou uma referência consistente ao socialismo de então!
O governo do tandem Putin-Medvedev é obrigado a enveredar por uma doutrina nacionalista com recurso a essa memória histórica, capaz de garantir o máximo de homogeneidade no imenso espaço euro-asiático da Federação Russa e os desfiles comemorativos do 70º aniversário da vitória sobre a Alemanha Nazi, são disso testemunho”…
É evidente que, com uma economia de mercado e vivendo o impacto de ideologias indexadas ao capitalismo, a Rússia, como os outros BRICS, é forçada à associação multipolar, onde encontra espaço para suas doutrinas de resistência à hegemonia unipolar.
É evidente também, perante um processo dialéctico desta natureza, que o anátema feudal acaba por se fazer sentir também na Rússia e, prova disso, é o papel que está agora reservado à igreja ortodoxa, como factor que contribui para a coesão promotora da Federação Russa, face aos riscos de implosão.
Esse tipo de alianças, seriam impossíveis nos termos em que se regia a URSS e os países socialistas que compunham o Pacto de Varsóvia, pelo que na corrente guerra psicológica, o “conflito de civilizações” introduzido pela doutrina Bush, não perde de vista os factores religiosos e étnicos.
À dialéctica da “Guerra Fria”, entre o campo capitalista e o socialista, o anátema feudal teve e tem tudo a ganhar, pelo tipo de contradições que estão a ser geradas!
Martinho Júnior.
Luanda, 7 de Agosto de 2015.
Mapa do cerco militar levado a cabo pelos Estados Unidos e seus aliados-vassalos à Rússia.

Sem comentários: