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segunda-feira, 26 de maio de 2014

HISTÓRIA DA GUERRA COLONIAL - 50ª PARTE - O RESGATE DO TENENTE MALAQUIAS - OPERAÇÃO NANDA











ATENÇÃO 


ESTIMADO(A)S LEITORE(A)S OS RELATOS DA HISTÓRIA DA GUERRA COLONIAL FAZEM-SE AQUI NO BLOG DESENVOLTURAS & DESACATOS NA MANEIRA ORIGINALRESPEITANDO O POSICIONAMENTO IDEOLÓGICO DOS INTERVENIENTES NAS ESTÓRIAS E ACONTECIMENTOS


Na Guerra do Ultramar - O Resgate do Tenente Malaquias


Uma história de vários heroísmos 

que marcaram a minha 
geração


Esta foi, sem dúvida, uma das mais 
extraordinárias missões da 
nossa Guerra do Ultramar.

Pela acção em si de resgate imediato de um Piloto abatido, 
pela acção do piloto do helicóptero ao aterrar no local em 
que ocorreu, numa das principais Bases da Frelimo no 
interior de Moçambique, pela preparação técnica ou falta 
dela dos elementos da Polícia Aérea envolvidos, desarmados, 
sem protecção alguma no terreno a não ser os três aviões 
T-6 que freneticamente tentavam dissuadir quaisquer hipotéticos 
avanços do inimigo, indiferentes às 3 antiaéreas que poucas 
horas antes tinham abatido um camarada exactamente naquele 
local.

Dificilmente qualquer outra unidade especial de combate teria 
feito melhor… com 4 homens três aviões e um helicóptero.

  
Nesta história que vos quero contar, os intervenientes não 
eram Soldados.

Nem desconhecidos.

Embora permaneçam no limbo das muitas coisas que hoje 
nos importam pouco.

Eram Alferes, Soldados, Tenentes, Furriéis e Sargentos. 

Da Polícia Aérea e Pilotos. Da Força Aérea Portuguesa.

Nunca vi estes factos contados, por isso os conto aqui. 
Para que esta memória não se perca e como homenagem 
ao Malaquias, um Aveirense, Tenente Piloto da Academia da 
Força Aérea, ao Valdemar Lobo, um Sargento Piloto natural 
de Cabo Verde (foi, anos depois, Piloto Chefe dos TACV), aos 
elementos da Polícia Aérea, com relevância para o Carlos Félix 
e demais pilotos milicianos intervenientes. 

Éramos todos Combatentes na Província de Moçambique, no 

final do ano de 1967 .


É uma história de vários heroísmos, como tantos outros 
semelhantes que uma generosa geração perdida de 
portugueses praticou em todo o vasto Império que 
éramos, honrando a História, mas que hoje parece envergonhar 
um país que se amparou nos ombros de tantos desses humildes 
Soldados Desconhecidos, tentando esquecê-los agora, incómoda 
memória para os ideais contemporâneos. 

Na exacta medida em que hoje se valoriza quem, por diversas 
razões que não me cabe qualificar, decidiu não participar 
e é por isso reconhecido como tendo prestado relevantes 
serviços à Pátria…

Somos o que somos.

Vamos então ao acontecido...

 

No dia 14 de Outubro de 1967, na minha função de Sargento 
Miliciano Piloto da Força Aérea em Comissão Voluntária de 

Serviço em Moçambique, na Guerra do Ultramar, tive como 
missão fazer um RVIS (Reconhecimento Visual de possíveis 
posições do inimigo) no avião T-6 com matricula 1753, a partir 
da minha Base em Vila Cabral (Lichinga, nome actual), a capital 
Nortenha do Distrito do Niassa.




Esta missão seria executada em parelha com outro avião do 

mesmo tipo pilotado por um camarada, o Sarg Ajudante Eiró 
Gomes, num local que fica exactamente entre Vila Cabral e 
Marrupa. A Sul de uma pequena povoação que hoje existe e se 

chama Cassembe, aproximadamente na posição cujas 
coordenadas são:


 13º 26’ 55 51” S   36º 12’ 12 85” E



O sítio onde o rio Luambala contorna o Monte e a povoação de Cassembe

Chegados ao local, cada um de nós procurou detectar, debaixo 
da mata densa, sinais de vida recente, nomeadamente palhotas 
em que o inimigo se abrigasse. Embora à vista um do outro, 
escolhemos aleatoriamente dois locais diferentes. Eu fui um 
pouco para Norte do Monte que existe a Sudeste da povoação 
e o meu camarada procurava mais a Sul, junto ao rio Luambala .

O nosso objectivo era bombardear posições inimigas e por isso 

íamos carregados com bombas, sem qualquer outro tipo de 
armamento, como metralhadoras ou rockets.

E por ali nos mantivemos uns dez minutos a tentar descobrir 

por debaixo das árvores quaisquer sinais de vida, operação 
nem sempre bem-sucedida porque a camuflagem era muitas 
vezes eficaz.

Os terrenos por onde eu andava não me pareciam ter sido 

minimamente alterados por ninguém. A paisagem é belíssima, 
como em todo o Niassa e a Natureza repousava tranquila, 
indiferente àquela Guerra que não merecia.

Forte reacção Antiaérea! Estou a ser alvejado!


Ouço subitamente pela rádio o meu camarada dizer-me.


Num instante aquela beleza, a tranquilidade daquele imenso 

espaço em que eu voava e com o qual me sentia em comunhão, 

cobriu-se com um espesso e agreste manto de crueldade. E todo 
o meu ser acordou de súbito para a dureza dos tempos em que 
eu vivia.

Aquele meu camarada, que se expressava sempre com grande 

abundância de argumentos, talvez estivesse a exagerar... Pensei 
eu. Aquela zona nunca tinha sido referenciada como capaz de 
conter tão forte presença de elementos da Frelimo.

E como eu ainda tinha todas as bombas, voei para junto dele, 

a um escasso minuto de voo de mim.

Ele afastou-se, disse-me que já não tinha armamento e 

orientou-me para a posição que lhe parecia ser a origem de tão 
inesperada actividade antiaérea.

Já a sobrevoar o local indicado por ele, entre o Monte e o rio, 

procuro encontrar palhotas ou quaisquer outros sinais de 
actividade humana recente. Claro está que nada vi, e muito 
menos fogo de antiaérea.

Isto nos primeiros segundos… porque logo a seguir vi as 


tracejantes!

Tracejantes, que sulcavam rapidamente os ares na tentativa 

frenética de me encontrarem. Ainda hoje as vejo com toda a 
nitidez.

Afinal era um caso demasiado sério e eu tinha que tomar 

rapidamente uma decisão. Pela direcção das balas,exactamente 
na vertical, eu devia estar mesmo em cima dos senhores meus 
colegas naquela Guerra, do outro lado dos argumentos, 

empenhados em cortarem-me as asas.

E eles queriam-me agora, a mim, lá em baixo…


Pareceu-me (e bem, como mais tarde se verificou) que se 

largasse as bombas em “salvo” (todas de uma só vez) alguma 
das quatro que tinha ficaria muito próximo do local dos 
disparos. Além do mais eu voava agora o único avião no 
local com armamento e em caso de necessidade não tinha 
protecção alguma.

Por baixo de mim havia uma vasta área de terreno aparentemente 

plano, sem floresta, entre um Monte escarpado e um rio, este sim 
bordejado por uma espessa mas estreita mata.

Decisão tomada, larguei-lhes as bombas em cima com o 

feroz desejo que fossem até à origem daquelas tracejantes que me 
rodeavam como formigas inquietas.

Estávamos agora os dois aviões sem armamento. Nenhum de nós 

estava equipado com rockets ou metralhadoras. 
Já não podíamos fazer mais nada.

Voltámos então às nossas Bases, como planeado.


   O meu camarada a Marrupa:


  
                                          E eu a Vila Cabral.




Escrito o relatório pelo meu colega mais graduado, o 
Estado-maior da FAP em Nampula, na ZAC (a Zona do 
Ar Condicionado…) deliberou que alguém devia ir investigar.

Nomearam o Tenente Malaquias.




Este Aveirense, sempre que ia a Vila Cabral
ia a correr a minha casa ver se a minha
filha, de menos de 3 meses de idade, estava        
ou não mais bonita que a dele, 2 dias mais nova.


A dele ganhou sempre, aos seus olhos risonhos…



A minha Carla está mais bonita...


Dizia invariavelmente, com a minha Margarida ao colo…

A Carla nasceu em Nampula a 24 de Julho de 1967.



A cidade de Nampula
  
Por uma coincidência estranha, 24 de Julho era o dia da 
Cidade de Lourenço Marques. A minha filha Margarida nasceu 
aí no dia 22 de Julho de 1967.

24 de Julho é, ainda hoje, um dia de grande significado para 
todos os moçambicanos da minha geração 

A Avenida com este nome ainda o mantém porque 
comemora a data em que o único Presidente Monárquico 
da França, Marechal Mc-Mahon decidiu, em arbitragem, 
que a baia de Lourenço Marques pertencia a Moçambique 
e não ao Transvaal - África do Sul.

Foi este mesmo Marechal que no dia 8 de Setembro de 

1855 comandou as tropas que derrotaram o bastião 
Malakoff, forçando os Russos a abandonar Sebastopol, 
que agora retomaram à Ucrânia…




O Tenente Malaquias, 15 dias antes destes acontecimentos, 

confessara à sua mulher, Fernanda, em Nampula, ter a noção que 
não duraria muito mais tempo. Uma preocupação que o 
consumia.

Ia ser muito triste ir para debaixo da terra, confessou.

Confrontado com esta atitude, ele insistiu. Devia ser muito 

triste.

A sua mulher achava que ele estava a ficar com uma cor 

esquisita, cor de terra. Pesava 60kg e media 1,81m de altura.




Não queria fazer exames médicos com medo de não o 
deixarem voar mais. Não os fez.

Não podia ver sangue. Quando fez exames para o Ultramar 
desmaiou ao fazer as análises. A enfermeira, na brincadeira, 
disse-lhe que ele era pior que uma mulher.

Uma semana depois daquele ataque que o Eiró Gomes e eu 

sofremos, o Tenente Malaquias chega a Marrupa.

Na 5ª Fª anterior sobrevoou a sua casa em Nampula e 

despediu-se da sua mulher Fernanda e da sua filha Carla.


Malaquias, Carla e Fernanda, em Nampula. 
Agosto de 1967

A sua missão era inteirar-se do maior número possível de 
elementos de modo a avaliar se era necessária ou não uma 
operação combinada com as Forças Terrestres. Para se decidir 
que tipo de acção, se com tropa regular ou pelos Comandos.

E no dia 22 de Outubro, um Domingo, saiu com uma patrulha 

de 3 T 6. De Marrupa para aquele local, para ver o que poderia 
por lá haver.

Dois dias antes de a Carla fazer 3 meses.

A patrulha era comandada por ele. Nos outros dois aviões iam 

o Sargento Eiró Gomes e o Alferes Relego.

Este, acabado de chegar da Metrópole (Portugal Continental) 

após o curso de piloto miliciano, na sua 1.ª missão que poderia ser 
de combate. mas num avião sem rádio!

Por essa razão, o Relego foi avisado que deveria 

ficar “lá em cima” enquanto os outros dois iam "lá abaixo cheirar”…

Já no objectivo, cerca de 45 minutos afastados de Marrupa, o 

Tenente Malaquias disse pela rádio:

Vou fazer uma passagem, eles disparam, vocês vêem 

e bombardeiam a origem dos disparos. 

O Tenente Malaquias, um piloto destemido, estimado e 

admirado por todos, tinha dirigido do ar no seu T-6 uma 
companhia dos Comandos pouco tempo antes para o local de 
uma outra antiaérea, noutro sítio perto de Metangula junto ao 
Lago Niassa.

Nós dizíamos que ele tinha apanhado a arma “à mão” porque 

entrou em combate directo com eles para sinalizar a posição 
aos Comandos. E a antiaérea foi neutralizada.

Mas naquela manhã não foi assim.


O Tenente Malaquias entrou baixo, a ver...


Na esperança de ser visto e assim desmascarar a posição do 
fogo inimigo.

No sopé do Monte, naquela zona plana, junto ao rio Luambala 

que se serpenteava entre árvores de grande porte que já 
descrevi, um cenário de grande beleza, uma guarnição de 
atiradores estava há já uns minutos a municiar a arma. 

A mesma de um conjunto de três que tão perto estivera de 

abater os nossos dois aviões uma semana antes. No silêncio 
da mata os operadores da antiaérea já tinham detectado há 
uns bons 15 minutos aqueles barulhentos aviões que se 
aproximavam.

Estava marcado um encontro.

Foi fácil prepararem-se. E já não era a primeira vez. Tiveram 

tempo para tudo.

O nº2 da parelha de T 6, o Eiró Gomes, ficou mais atrás e mais 

acima, como combinado para poder ter outro ângulo de visão. 
E o 3º elemento, o Relego, ainda mais acima, observava o 
desenrolar dos acontecimentos, mudo e quedo, sem comunicações rádio 
e ainda sem nenhuma experiência de combate.

O T-6 do Tenente Malaquias começa a sobrevoar aquele espaço 

quando a antiaérea isolada, no sopé do Monte à sua direita, mais 
adiante, já lhe estava apontada. As outras duas estavam perto 
uma da outra, junto ao rio, mais para a sua esquerda.

O Tenente Malaquias tinha o Monte à frente, à sua direita e o 

rio ao seu lado. Voava apontado a Oeste. 
O que via era aproximadamente isto:




O seu olhar procurava balas tracejantes.


E elas não se fizeram esperar!


No chão, o artilheiro com o primeiro avião sempre 

na mira, não hesitou. Carrega decidido uma primeira vez no 
gatilho e uma saraivada de balas parte em direcção do avião da 
frente, fazendo um tracejado de luzes.

O Tenente Malaquias  reage e aponta-lhe as duas 

metralhadoras e dispara também na tentativa de o eliminar. 
O Eiró Gomes, mais atrás, também dispara contra a anti-aérea.

Argumentos extremos numa luta feroz de razões contrárias.


O artilheiro, experiente de outro episódio recente, frustrado, há 

tanto tempo preparado para aquele momento único, aguentou 
estoicamente, esperou pelo segundo exacto, o dedo 
nervosamente encostado ao gatilho da arma, as balas dos 
aviões a voarem a toda a sua volta, a mira a voar com o avião, 
o olho direito enfiado no alinhamento do T-6 da frente, a raiva 
de guerrilheiro controlada, o pensamento na Pátria que queria 
Libertar… e então apertou com um pouco mais de força, 
devagarinho, com toda a certeza do Mundo, aquele pequeno 
gatilho... Só um pouco mais...

Fui atingido!


Grita o Tenente Malaquias pela rádio, o braço direito 

praticamente decepado.

Fui atingido! Nossa Senhora me valha!


As suas últimas palavras...


E o Relego, lá em cima sem ouvir nada, sem saber de nada, viu 

o T-6 do seu Chefe entrar pelo chão dentro e imobilizar-se numa 
nuvem de pó.

Sem arder.


Sem mais uma única rajada de fogo inimigo.


Não fizeram mais fogo.



O Sarg. Ajudante Eiró Gomes, assumindo agora a função de 
comandante da parelha como piloto mais antigo e qualificado 
juntou-se rapidamente ao Alferes Relego e fez-lhe sinal para o 
seguir para a Base, em Marrupa.

O Tenente Malaquias ficou naquele planalto, entregue a si, 

gravemente ferido, provavelmente já sem vida depois daquela 
“aterragem” forçada, sem possibilidade de ajuda daqueles dois 
que tudo viram mas nada mais podiam fazer. E os rádios VHF 
dos aviões tinham um alcance limitado. Ninguém no Mundo os 
ouviria se pedissem socorro.

Regressados os dois a Marrupa, entregues àquele desespero, o 

Eiró Gomespela rádio ainda em voo e assim que teve contacto, 
uma boa meia hora depois, pediu que se preparasse o 
Helicóptero para se ir recuperar o Tenente Malaquias ao mato.


E já no chão, sem esperarem por ordens superiores de 

ninguém, deliberaram em conjunto com todo o pessoal 
maior daquele Aeródromo de Manobra que tinha que se ir 
buscar o Tenente Malaquias.

O destacamento militar do Exército mais próximo do local 
do acidente, de seu nome “América”, ficava a 50km. 
Seria difícil executarem a missão em tempo útil.

O “pessoal maior” eram três Pilotos de T-6, um Piloto de 

Helicóptero Alouette III, o Sargento Miliciano Piloto Valdemar 
Lobo, o Alferes Bento e o Furriel Félix da Polícia Aérea.



Lobo, Fernando Figueiredo e Cardoso
O Lobo, Piloto do Helicóptero, decidiu imediatamente que 
ia buscar o Tenente Malaquias, onde ele estivesse.

O Alferes Bento também se ofereceu e encarregou o Furriel 

Félix, um jovem muito alegre e brincalhão, de arranjar 
voluntários entre o restante pessoal para lá irem com o Lobo.


O Furriel Carlos Félix, meses depois destes 
acontecimentos

Feita a apressada ronda, o Furriel Félix só conseguiu um 
voluntário e ao chegar ao Alferes este perguntou-lhe:

- Quem vai connosco?

A resposta foi lenta (como é que eu lhe vou conseguir dizer?):

- O 
1º Cabo Simplício e… eu…!


E lá partiram.






A pilotar o Helicóptero ia o Lobo que dispensou o Cabo 

Especialista do Helicóptero para que não corresse riscos 
desnecessários e também porque tinham ainda que contar 
com o peso do Tenente Malaquias, acompanhado dos três 
elementos da Polícia Aérea, esses sim, indispensáveis.


Helicóptero Alouette III
Como armamento levaram apenas armas ligeiras e granadas…

Recordo que os elementos da Polícia Aérea tinham a única 
função de protecção e policiamento das unidades da Força Aérea 
e não tinham nenhum treino de combate na mata. Aqueles três 
elementos não estavam, de todo, tecnicamente preparados para 
o que se propunham fazer.

3 T-6 armados com metralhadoras acompanharam o Heli não só 
para sinalizar o local ao Lobo mas também para dar a protecção 
ao resgate do Tenente Malaquias.

Aos comandos os pilotos, por ordem de antiguidade na Força 
Aérea, Sargento Ajudante Eiró Gomes, Alferes Miliciano Baguinho 
de Sousa e Furriel Miliciano Borges Ferreira.


Da esq p a dta: Furriel Borges Ferreira, Alferes Nunes (Instrutor) e Alferes Baguinho de Sousa no dia do Brevetamento
Foto cedida pelo meu amigo Baguinho de Sousa

45 minutos depois, chegados ao local do acidente, 
a baixa altitude, o Eiró Gomes, pela rádio, orientou o helicóptero 
para o local do T-6 caído.




O Lobo localizou logo o T 6 abatido no chão e reparou que o 
avião tinha caído e parado, sem fazer rasto algum. Não houve, 
portanto, nenhuma tentativa de aterragem forçada. O trem de 
aterragem estava recolhido. O capim não tinha ardido.

O terreno tinha sido anteriormente desmatado, com as árvores 

cortadas pela base das copas. Havia vários troncos nus com 
mais de 1,5m de altura espalhados por toda a área. 
Provavelmente um deles arrancou a asa direita do T-6 que ali 
estava feito uma máquina sem alma, provavelmente um túmulo 
improvisado.

O local teria sido anteriormente preparado para machambas 

(hortas) com as árvores cortadas e agora com muito capim já 
bastante alto, cerca de 2m de altura.

Era afinal um vasto largo de onde se avistavam, não muito 

longe, grandes palhotas escondidas que agora rente ao 
chão se viam bem, debaixo das grandes árvores que o 
rodeavam segundo o Lobo me disse. Albergavam certamente, 
ou talvez já não, muita gente.

O Lobo não encontro de início um espaço seguro para aterrar o 

helicóptero perto do avião abatido: havia muitas árvores 
cortadas, com troncos bastante altos. Um grande perigo para o 
rotor de cauda, por não se ver o que poderia haver escondido 
dentro daquele capim tão alto, com a agravante de não ter a 
preciosa ajuda do Cabo Especialista do helicóptero, impedido de 
ir a bordo naquela arriscada missão.

O Lobo deu outra volta e encontrou então um pequeno troço de 

picada e aterrou sem assistência para verificar a segurança do 
rotor de cauda, sempre a recear o pior.

Aterrou a 50/100m do avião abatido.




Lá em cima, os T-6 do Eiró Gomes, Baguinho e Borges Ferreira 
mantinham-se vigilantes, às voltas sobre eles.

O Alferes Baguinho conseguia ver perfeitamente várias palhotas 
com bastantes sinais de vida actual o que o levou a perceber 
haver, com toda a certeza, bastante gente que ali vivia 
actualmente.


O Furriel Félix antes de sair do helicóptero ainda ouviu o Sarg 

Ajudante Eiró Gomes dizer pela rádio ao Lobo:

- Ao 1º tiro ou sinal de hostilidades dos Turras sai daí!
 
A ameaça bem conhecida das antiaéreas não impediu nenhum 

dos pilotos que fazia a protecção ao helicóptero de se manter 
sobre a equipa de resgate, alvos fáceis, a proteger um 
helicóptero acabado de aterrar, imóvel, o piloto e os três 
ocupantes completamente à mercê de uma simples pistola, uma 
catana até, relativamente perto de várias e bastante grandes 
palhotas dissimuladas.

A gravidade da acção levou aqueles três pilotos a ignorarem por 
completo que voavam exactamente por cima das três antiaéreas 
que no espaço de uma semana tinham alvejado 4 aviões a 
abatido um deles após um breve combate, menos de dus horas 
antes.

Os três elementos da Polícia Aérea saltaram do helicóptero e 

desataram a correr, com a maca, desarmados para melhor se 
mexerem.

Acho que nenhum destes três jovens sabia exactamente o que 

estava a fazer mas, como dizia um camarada nosso, Oficial do 
Exército, “cada um tinha o Inimigo que merecia”.

Escrevi “Inimigo” com letra maiúscula porque este Inimigo 

mereceu-nos também.

O Lobo tinha aterrado junto da Base Provincial de Instrução 

da Frelimo, soubemos depois, uma das mais importantes em 
Moçambique. Onde haveria dezenas de combatentes.

 A verdade é que o Furriel Félix os viu perfeitamente. 
Eles estavam "LÁ mesmo!"

“Nas janelas das palhotas com os canhangulos apontados 

ao pessoal”, contou-me.

Expectantes e sem reacções.


Talvez paralisados pelo inacreditável da acção.


Se calhar manietados pelo espanto.


Ao ver um piloto de helicóptero aterrar calmamente no meio 

de uma das mais importantes bases da Frelimo com três 
simples "polícias" que, desarmados, avançavam 
completamente indiferentes ao que quer que os esperasse, com 
um único objectivo: resgatar o Tenente Malaquias abatido há 
um par de horas.

Ou talvez tivessem achado por bem que a Força Aérea 

Portuguesa, perante aquele espectáculo de heroísmo desvairado, 
merecia que  um dos seus pilotos pudesse ser resgatado. 
Foi a impressão com que se ficou naquela altura.

Ou então, se calhar, talvez nunca venhamos a saber, resolveram 

evacuar do local à pressa a maior parte do pessoal para 
preservar os efectivos, com receio de represálias maiores. 
Afinal era uma grande Base de Instrução.

Provavelmente também terá contribuído uma hipotética 
neutralização da antiaérea.

Os primeiros passos ao afastarem-se do helicóptero, a terem 

de lutar contra o capim alto que lhes tapava a visibilidade, sem 
saberem o que os esperava junto ao avião derrubado, levaram à desorientação momentânea do Alferes. O Furriel Félix só conseguiu “reanima-lo” com uma saraivada de impropérios bem à moda do Porto, aos gritos, que o fizeram recuperar…

A caminhada daqueles três na direcção do T-6 abatido, no meio 
daquele capim, pareceu-lhes uma eternidade. E o Furriel Félix, 
na sua corrida atabalhoada, encontrou no chão um braço ainda 
enfiado na manga do fato de voo, que carregou consigo até ao 
corpo a que pertencia.

Ainda hoje o Carlos Félix tem insónias quando se lembra do que 
viu ao chegar ao avião abatido, quando aquela imagem lhe 
reaparece, amiúde, teimosamente:   
"o Ten/PILAV MALAQUIAS, sentado em cima do

pára-quedas a olhar para mim...


Palavras para quê? ...As lágrimas teimam em

aparecer".
Inerte no seu posto, dentro dos destroços do avião em que

executou a sua derradeira missão.
E no helicóptero, sentado no seu posto, o motor a trabalhar, 
as grandes pás do rotor a girar num crescente nervosismo, 
aquele barulho todo a soar como um Requiem naquela grande 
Catedral que era aquele lugar impoluto, o Lobo não tinha a 
mínima visibilidade. Estava rodeado de mato, capim alto quase 
à distância de um braço, sem horizonte algum!

Sem ver absolutamente nada!

Sem saber o que se ia passando!

E esperou.


Sozinho…

Lá de cima os três aviões de segurança descobriram entretanto 

um guerrilheiro armado a uns 20m do helicóptero. Fizeram 
vários voos em picada ao local gritando pela rádio ao Lobo para 
sair dali porque corria perigo.

Mas ele não podia abandonar os outros três!


E esperou.


Rodeado de capim. Completamente desprotegido.


Esperou...



5 infindáveis minutos…

Os mais compridos 5 minutos da sua vida!


Ajudando-se mutuamente, os três elementos da Polícia Aérea, o 
Alferes, o Furriel e o 1º Cabo, retiraram o corpo sem vida de 
dentro do T-6, recolheram o material que não devia ali ficar e 
regressaram rapidamente ao helicóptero com a maca, onde 
depositaram os restos mortais do Tenente Malaquias e o pouco 
material recolhido.

Em cima do corpo colocaram-lhe rapidamente o braço direito. 

Visão terrível, confessou-me o Lobo.

Relato do então Furriel Félix numa mensagem que me enviou:


<< A história do Malaquias está contada por quem viveu parte 

dela pelo ar e a outra pelo que viu ou lhe contaram, a minha, é 
aquela que foi vivida "in loco", com um Alferes quase a desmaiar 
quando deixa de me ver, eu a ver os Turras a espreitar-nos e o 
Simplício à espera do sinal, para vir com a maca e transportarmos 
o Ten/PILAV Malaquias, que julgávamos vivo e que infelizmente 
já estava morto. 
No Heli, fui o último a entrar, primeiro a maca, mais o Malaquias, 
entretanto o Alferes também já lá estava dentro e eu por fim. 
Quando conseguiram guindar-me para dentro do Heli, "aterro" 
em cima do já cadáver. Olho para o braço direito colocado ao 
contrário em cima do peito, olho para a combinação de voo e 
reparo nas calças levantadas, pele morena, parecia um filme de 
terror, passei-me dos "carretos"... 

Falas da eventual pouca preparação técnica que os 3 PA's teriam 

para efectuar uma missão de tanto risco! É natural que sim, 
porém a raiva que todos sentimos por sabermos que um Oficial 
que ainda no dia anterior tinha estado a brincar com a sua cadela Diana... tinha sido abatido e quando o telegrafista de serviço ao posto de rádio (era de Gaia), disse a chorar que o Malaquias tinha sido abatido, ficamos em estado de choque.

É uma história que me persegue ao longo de algumas noites de 
insónia e que a recordo com bastante frequência, nas minhas 
longas noites de pesca à beira-mar. O mar é a minha válvula de 
escape para tudo o que passei nos longos 366 dias que passei 
em Marrupa.

Vá lá que também ainda estou vivo para contar, lembras-te? 

(dirigindo-se ao Lobo numa mensagem que me enviou para ele) 
Com tantos tiros dos aviões a darem-nos cobertura, tu aos 
zig-zagues com medo que atrás das medas de capim estivesse 
alguma anti-aérea e eu aos saltos para entrar no Héli. Parecia o 
VIETNAM. Com pouco mais de 20 anos tínhamos que estar 
preparados para a Guerra, a geração de hoje com 20 e muitos 
ainda estão com RSI! >>

O helicóptero levantou logo voo com a sua triste carga e com os 
cinco Ilustres Soldados Desconhecidos, um deles já cadáver, em 
direcção a Marrupa.

Sem nenhuma reacção do Inimigo…


Poucas horas após o resgate do corpo do Tenente Malaquias, 

portanto nesse mesmo Domingo, sobrevoei o local no T-6 
matriculado 1780, sem de nada saber, em trânsito de 
Vila Cabral para Marrupa, operação já prevista anteriormente 
para colaborar noutras acções.

Aterrei em Marrupa antes do fim desse dia 22 de Outubro de 

1967, no meio de um ambiente de cortar à faca.



Um dos nossos tinha sido abatido…


Eu em Marrupa, por essa altura


A notícia já chegara via rádio a Nampula e o Aeródromo 
já estava reforçado em pilotos mais graduados para tomar conta 
da situação. 

A operação há muito planeada em que eu devia participar 

integrado no grupo dos meus camaradas de Marrupa teria início
 exactamente ao raiar do dia seguinte, 23 de Outubro de 1967, 
razão pela qual todos nós pilotos ficámos impedidos de ir velar o 
corpo do Tenente Malaquias à Vila de Marrupa, a poucos 
quilómetros dali.

Na altura pareceu-me completamente inconcebível…

Como a minha consciência mo pedia, “fugi” literalmente do AM 

(Aeródromo de Manobra) num jeep do Exército e fui estar uns 
momentos com ele, nessa noite ainda, na sua câmara ardente, 
muito perto da casa onde o meu Pai, a minha 
Mãe a minha irmã mais nova e eu tínhamos vivido uns seis 
anos antes.

O meu Pai foi Administrador de Marrupa em 1961/62. 
E foi ele que construiu ali uma pista que mais tarde seria o AM.

Já não sei, mas enquanto ali estive, sem mais ninguém no local, 

não me lembro se numa capela ou numa sala de aula de uma 
pequena escola primária, a urna sobre uns bancos, devo ter-lhe 
falado das nossas filhas que várias vezes se tinham “encontrado”, 
sem nunca se terem visto.

E de como eu o admirava e profundamente lamentava a sua 
sorte e a 
da sua família. No fundo senti-me bem por ter representado os 
sentimentos de todos os pilotos da Força Aérea que não podiam 
estar ali.

Foi a pequena e sentida homenagem que ele tanto merecia. 
Como bom português, lembro-me que não o saudei militarmente. 
Nem me lembrei... Afinal, ali estava agora o Homem, mais que o 
Militar.

Nem fui ver a casa em que vivi com os meus Pais, pela última 

vez em que estivemos todos juntos.

Marrupa tem para mim este estigma de felicidade temperada 

com saudade, distância e tragédia. A lonjura daquilo que 
amamos e perdemos subitamente, sem retorno.

Onde perdi definitivamente a minha convivência em família. 

Nunca mais vivi sob o mesmo tecto com o meu Pai.

E onde outra família se perdeu, irremediavelmente, para todo o 

sempre.

O condutor anónimo do Jeep do Exército que tinha ficado à 

porta à minha espera levou-me logo de volta à Base.

Um grande gesto de nobre solidariedade. Obrigado amigo.


À direita, de tronco nu, o "Branco" no Jeep AM-32-76 e 
à esquerda do helicóptero o 
bombeiro Izidoro


Na madrugada seguinte, ao nascer do Sol estávamos já a 

descolar em direcção ao objectivo que devíamos eliminar.

Nessa operação, eu fui o Nº 2 a bombardear a posição sinalizada 

pelo Nº1, o Eiró Gomes. E quando já ia em voo picado, olhos no 
sítio onde queria depositar a minha 1ª bomba, ouvi-o 
dizer após ter largado a sua:

Antiaérea!


Larguei a bomba no sítio, mas não vi nenhuma reacção do 

inimigo.

Uma semana depois disto, o combate recomeçou no local 

onde o Tenente Malaquias fora abatido. Junto àquele Monte 
onde já 8 aviões e um helicóptero, no espaço de uma semana, 
se tinham encontrado num diálogo tenebroso que tinha que ser 
acabado!

Desta vez fui eu o encarregue de mostrar a uma Companhia 

do Exército o sítio exacto das antiaéreas. Tinham-se deslocado 
por terra, previamente, para o local aproximado mas precisavam 
de um sinal que lhes indicasse uma posição mais concreta.

Sinais óbvios de que a operação não estava a ser conduzida 

pelos Comandos…

Como já disse, as antiaéreas eram 3. Duas no fim da clareira, 

junto ao rio e outra mais longe, no sopé do Monte.

Era a terceira vez que voava por ali e da primeira tinha sido um 

alvo falhado, por pouco...

Tinha uma ideia mais ou menos precisa do sítio onde estariam 

as duas antiaéreas mais perto do rio.

E preparei-me para o que me esperava. Teria de avançar 

sozinho e aparecer sem ser identificado para não espantar os 
homens das antiaéreas. Os outros aviões apareceriam logo de 
seguida, mas numa manobra de diversão de modo a permitir ao 
Exército progredir sem perigo de os bombardearmos.

Se voasse alto talvez escapasse às tracejantes. Mas quanto 

mais alto maior seria a indefinição da área a sinalizar, tendo em 
conta que as comunicações rádio entre aviões e Exército 
funcionavam normalmente muito mal.

A meia altura eu seria certamente um alvo fácil o que muito 

provavelmente de nada serviria a ninguém, a não ser ao inimigo.

Por incrível que pareça, todas estas conjecturas se deram na 

minha cabeça no momento exacto de ter de executar a minha 
missão. Não houve instruções prévias de como a executar. Foi só:


“- Vais mostrar o sítio aos gajos”…

Pareceu-me que o mais baixo possível seria a melhor solução. 

Além do “factor surpresa”, eles teriam pouco tempo para se 
prepararem por não saberem de onde eu vinha e o ângulo de 
tiro seria demasiado baixo. E se disparassem denunciariam a sua posição ao nosso Exército. 

Sendo assim, decidi apontar de longe ao sítio provável, baixei 

ao nível das árvores, meti motor a fundo e no sítio exacto fiz 
uma volta apertada, a subir.

Os camaradas em terra perceberam onde era… mesmo sem 

ninguém ter disparado contra mim.

E não mais nos contactaram.


Ainda nos mantivemos por perto uns minutos e regressámos 

depois a Marrupa.

Viemos depois a saber que as antiaéreas tinham sido todas 

apanhadas!

As bombas que eu largara 15 dias antes tinham caído muito 

perto das duas armas mais próximas uma da outra, junto ao rio, 
segundo o relato dos camaradas do Exército.

Havia estragos visíveis.


A arma que atingira o Malaquias deveria ter sido a da base do 

Monte, já que estava à sua direita durante a aproximação 
quando foi atingido no braço direito.

Pois bem, destes factos nem uma palavra mais foi ouvida... na 

altura.

A guerra não podia parar e todos os dias novos episódios nos 

esperavam a todos.

Não sei pormenores sobre o que teria acontecido mais tarde, 

muito mais tarde, mas ouvi dizer, sem confirmação, que um 
elemento da Polícia Aérea se suicidou, anos depois, já na 
disponibilidade, na sua terra.

Quando resolvi contar esta história procurei documentar-me 

melhor e tentei contactar o ex-Sargento Piloto Miliciano Lobo em 
Cabo Verde através de procura na Blogosfera e Facebook.

Pedi ajuda ao ex-Capitão Piloto Aviador António Mira 

Godinho, meu amigo desde 1967.

Pedi também ajuda ao Ex-Alferes Piloto Miliciano Cardoso 

Ferreira, meu amigo desde 1967 e mais tarde meu colega na 
TAP, que obteve a colaboração também do Ex-Alferes Piloto 
Miliciano Relego.

Tive também a preciosa colaboração do Alferes Baguinho, hoje 
colega reformado da actividade de Comandante de Linha Aérea. 

Consegui chegar à fala com o Lobo através da sua simpática 

mulher, Rita, via Skype, onde me contou a história com os 
fidedignos pormenores que aqui divulgo.

Fiquei então a saber que a Força Aérea lhe reconheceu 

o mérito tendo sido duplamente louvado: pelo A.B. 5 em Nampula 
e pela 3ª região Aérea, Moçambique.

Na net procurei também chegar a familiares do Tenente 

Malaquias.

No Google escrevi o seu nome e na 6ª ou 7ª página depois, encontrei uma referência positiva: o seu nome é o de uma das ruas principais da Freguesia de Aradas, Concelho de Aveiro, a Sul da Cidade, de onde era natural.


A rua fica bem no centro de Aradas e perto da Junta de Freguesia

No site da Junta de Freguesia de Aradas mandei um email ao Presidente 
da Junta, David Paiva Martins, que me respondeu:

“Caro Sr. Cavaleiro:


O Tenente Malaquias é de facto o que foi morto em combate 

em Moçambique em 22 de Outubro de 1967. Consigo, voou; comigo, 
foi amigo de infância.
Como hoje não consegui falar com a sua viúva, 
contactá-la-ei na próxima semana e indicar-lhe-ei o seu número 
de telefone para que ela, se quiser, possa falar consigo.
Os meus melhores cumprimentos.

David Paiva Martins

Presidente da Junta de Freguesia de Aradas”

A viúva do Tenente Malaquias contactou-me dias depois e 

falámos longamente.

Entre outras coisas fiquei a saber que na pequena Capela do 

Cemitério de Aradas que mandou construir para que ele repouse 
em Paz, todos os anos vai lá um ex-militar no dia 1 de Novembro 
estar com ele uns momentos.
Será um dos membros da Polícia Aérea de Marrupa? 
Sei que o Carlos Félix não é.

Vamos ter de confirmar no próximo dia 1 de Novembro 

de 2012 …

(Nem em 2012 nem em 2013 se conseguiu identificar ninguém 

relacionado com estes acontecimentos)


Como remate conto-vos que o Lobo me disse que o Comte de 

Esquadra da BA5 na altura, Moura de Carvalho, lhe quis dar 
uma repreensão por ter arriscado material e vidas no resgate 
do corpo do Malaquias. Facto confirmado pelo ex-Furriel Félix 
que estava convencido, ainda agora, que o Lobo tinha sido 
castigado com 5 dias de detenção…

Por seu lado a viúva do Tenente Malaquias disse-me que o 

mesmo Moura de Carvalho director da Academia da Força 
Aérea por volta de 1987, nos 20 anos da sua morte deu o nome 
do Tenente Malaquias ao Curso da Academia, em cerimónia em 
que ela esteve também presente.

O Furriel Carlos Ferreira Félix, entretanto já 2º Sargento, foi 
distinguido com o Prémio Governador-Geral de Moçambique, 
Dr. Baltazar Rebelo de Sousa, Pai do actual Concelheiro de 
Estado Professor Marcelo Rebelo de Sousa.

Foi também agraciado pela Força Aérea como a foto seguinte 

mostra num recorte de um jornal da época:


 A legenda da foto é a seguinte:

« Prémio Governador-Geral de Moçambique » - O Secretário 

de Estado da Aeronáutica, brigadeiro Fernando Alber Oliveira, 
recebeu no seu gabinete o 2º sargento PA Carlos Ferreira Félix, 
distinguido com o <<Prémio Governador-Geral de Moçambique>>, 
por acções de campanha. O louvor que lhe foi conferido refere 
que se ofereceu como voluntário para tomar parte na missão 
de recuperação de um piloto e material que fosse possível, apesar 
de saber que o avião tinha caído numa área fortemente infestada 
de terroristas, que seria diminuta a força transportada no 
helicóptero e que as forças do exército se encontravam longe 
da área, para poderem dar qualquer protecção. 
A audaciosa missão foi levada a efeito com êxito a que 
não foi estranha a bravura, decisão energia e sangue frio deste 
graduado como auxiliar directo do chefe da missão. O Secretário 
de Estado da Aeronáutica felicitou o 2º sargento Ferreira Félix e 
teve palavras de muito apreço pela forma como tem sabido
cumprir a sua comissão de serviço no Ultramar, com verdadeiro 
espírito de sacrifício, verdadeiro exemplo para camaradas e 
subordinados. O 2º sargento Ferreira Félix foi também recebido
 pelo Chefe de Estado Maior da Força Aérea, general Brilhante 
Paiva, de quem recebeu, igualmente, vivas felicitações. »

O Carlos Ferreira Félix seguiu depois a carreira Militar tendo 

passado à Reserva depois de estar 12 anos na Base Nato de 
Ovar como Oficial de Segurança Nato e da Força Aérea, no posto 
de Capitão da Polícia Aérea.

E para que se perceba melhor porque é que considero estes 

Heróis Soldados Desconhecidos, digo-vos a título de exemplo 
que o Lobo, que foi português durante 35 anos até à 
independência de Cabo Verde, 10 anos piloto da Força Aérea 
Portuguesa, com 2 anos de comissão na Guerra do Ultramar, 
louvado assim: 

« Pelo Comandante do AB 5 (Nampula) por proposta do 

Comandante da Esquadra Operacional, porque durante os dois 
anos que serviu no AB 5, se ter revelado um piloto muito 
competente e muito sensato na maneira como desempenhou 
as mais diversas missões operacionais, quer em DO 27, quer 
em Alouette-II e Alouette-III. Piloto muitíssimo hábil, o seu 
sangue frio, coragem e capacidade de decisão ficaram bem 
patentes quando, com risco da própria vida, recuperou um 
camarada seu que se despenhou no desempenho de uma 
missão na zona operacional. Piloto muitíssimo hábil, calmo e 
discreto, o 2º Sargento Lobo primou sempre pela execução das 
cerca de 500 missões operacionais que efectuou em helicóptero 
algumas das quais debaixo de fogo inimigo, e em que sempre se 
mostrou corajoso e consciente da missão do deverA sua 
acção na Província foi altamente honrosa, do que resultou 
prestígio para a Força Aérea (OS Nº 28 de 2 de FEV 1968 do 
AB 5) »


e assim: 

« Pelo Comandante da 3ª R. Aérea (Moçambique) porque no 

dia 22 de Outubro de 1967 ao ter conhecimento que tinha sido 
abatido o avião do Comandante do AM 62, se prontificou 
como voluntário para tentar recuperar o piloto e o material 
que fosse possível, utilizando o helicóptero por ele pilotado, 
apesar de saber que o avião tinha caído numa área 
fortemente infestada pelos terroristas poderosamente 
armados e que as nossas forças de terra mais próximas se 
encontravam a cerca de 50km de distância e contando apenas 
com a protecção de uma parelha de T-6, tendo levado a efeito a
 sua arriscada missão nas imediações do inimigo
demonstrando com a sua acção elevado dote de 
coragem, sangue frio e grande desprezo pelo perigo. 
Militar de muito valor profissional, de notável espírito de 
iniciativa e cooperação, aliando a estas qualidades muita 
modéstia e simplicidade que mais as realçam e o tornam um 
elemento digno do maior apreço e admiração de todos os 
seus camaradas e superiores (OS Nº 020, de 15 FEV68, do 
COMRA 3 e OS Nº 49, de 27 FEV 68, do AB 5) »




dizia eu para que se perceba melhor porque é que considero 

estes Heróis Soldados Desconhecidoso Lobo pediu há tempos a 
Dupla Nacionalidade.

- Foi-lhe recusada!


“Ditosa pátria que tal filho teve!”


Disse Camões sobre D. Nuno Álvares Pereira, no Canto VIII


Desgraçada pátria que tal filho renega!


Digo eu…


Desconheço qual o reconhecimento que o Alferes Bento e 
Primeiro Cabo Simplício tenham tido.

O mesmo se passa quanto aos três pilotos de T-6.




Ao Tenente Malaquias foi, obviamente, atribuída uma 

Cruz de Guerra de 1ª classe.


___________________________________

E para rematar esta estória...


Cerca de um ano depois destes trágicos acontecimentos, estava 

o meu amigo Tenente Mira Godinho em Marrupa quando o 
avisaram que o guerrilheiro da Frelimo que tinha abatido o 
Tenente Malaquias tinha sido apanhado, provavelmente pela 
PIDE. E estava preso.

Naturalmente a vontade de descarregar toda a raiva sobre 

aquele homem acompanhou o Mira Godinho até à sua presença.

Ali estava o homem que abatera o colega e muito amigo 

Malaquias!

À sua frente!


A grande raiva, a vontade de desforra, de vingança, toda a 

mágoa contida prestes a explodir se desvaneceu perante um 
homem como ele. Um simples e humilde ser humano que 
combatia como nós. Um inimigo indefeso feito prisioneiro.

O Tó Mira Godinho, como os amigos o conhecem, saloio 

(da zona Oeste dos "saloios") não conseguiu sentir mais nada 
senão compreensão perante aquele homem que tinha feito o 
mesmo que nós, combater pelo que acreditava.

Exigiu que o prisioneiro não fosse maltratado e deu-lhe um 

maço de cigarros e uma Coca Cola.

Contrariamente ao que se conta, o homem não tinha sido 

mutilado durante aquele combate. Uma única bala tinha atingido
 somente o punho da sua antiaérea.

E foi graças a esta história que um amigo que a leu, o Olegário 

Guerreiro Silva alertou o Carlos Félix para entrar em contacto 
comigo para me dar a sua versão dos factos, o que me levou a 
refazê-la toda de modo a tentar aproximá-la o mais possível da 
verdade
________________________________________

Com um pouco de reconstituição da História, espero ter dado 

um vislumbre do que tantos milhares de portugueses fizeram 
em 13 anos de guerra, dos enormes sacrifícios porque alguns 
passaram, alguns trocando a própria vida pela dignificação dos 
valores que nos ensinaram pagando assim tributo a tantos heróis 
que povoam os mais de 800 anos de Portugal.

Valeu a pena?


A sensação que muitos de nós teremos é que não...


Aquilo que vivemos parece ter sido atirado contra nós enquanto novos valores emergiram.


Eu não disse Mais Altos.


Disse só novos...


A História de Portugal é uma coisa chata, esquecida, desvalorizada 

mesmo e que até parece que começou no dia 5 de Outubro de 1910.

Ou pior ainda, em 1974...Num desvirtuado 25 de Abril


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 Outras fotos da época:


Cap Mantovani, Ten Malaquias e Alf Aidos




Da dtª para a esq, Ten Malaquias, Cap Mantovani e 
outros não identificados




Escudeiro e Ten Malaquias




Ten Malaquias, Alf Firmino Paixão e o 
cão Leão


 Um interessante documento histórico:

Nesta foto, com o barrete na cabeça, está o ex- Presidente da República, 
General Ramalho Eanes, na altura colocado em Tenente 
Valadim.



Cap Mantovani, Gen Ramalho Eanes, 
Ten Malaquias e 
Alf Aidos
Capa do Jornal do Liceu Nacional 
de Aveiro, 1969...



...com a homenagem ao Ilustre 
ex-aluno Manuel Malaquias de Oliveira
A foto abaixo foi tirada na festa do encerramento do curso de 
Chipmunk, em Aveiro, em Maio ou Junho de 1960. Nela estão, 
da esq p a dta, Manuel Lourenço Barbosa Caridade, Ferdinando 
Antunes Caixas e o Tenente Malaquias.

Foto cedida pelo meu Amigo Caixas:


Caridade, Caixas e 
Malaquias


O Lobo e eu, na Piscina do 
Ferroviário, em Nampula. 1967






O Sarg Brochado em 1º plano, o Alf Relego, eu e 
o controlador de tráfego Aéreo 
de Vila Cabral, Caetano.


  
Fotos actuais do Lobo com a sua mulher Rita Spencer:














O Carlos Félix hoje com o produto 
de mais uma noite de insónia



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Ao ler esta história e depois de ver estas últimas fotografias do 

Lobo, o Carlos Félix ainda me pediu para lhe transmitir estas 
palavras:<< Para o Lobo amigo um abraço apertado de amizade,
 quem te viu e quem te vê, tás velhote, mas com um rosto
 sereno e uns olhos de Paz, com a certeza ABSOLUTA DO DEVER CUMPRIDO, 
eu diria, para além do DEVER, pois fizeste a evacuação sem 
autorização do comando da 3ª Região Aérea 
(Lourenço Marques), e até hoje estava plenamente convencido 
que tinhas sido punido com 5 dias de detenção. Vá lá que 
também ainda estou vivo para contar, lembras-te? Com tantos 
tiros dos aviões a darem-nos cobertura, tu aos zig-zagues com 
medo que atrás das medas de capim estivesse alguma 
anti-aérea e eu aos saltos para entrar no Héli. Parecia O 
VIETNAM. Com pouco mais de 20 anos tínhamos que estar 
preparados para a Guerra, a geração de hoje com 20 e muitos 
ainda estão com RSI! >>





  _______________________________________

As fotos aqui exposta pertencem, umas ao meu arquivo, 

outras colhidas na net ou enviadas pela Viúva do Ten Malaquias, 
Srª D. Fernanda, ou pela mulher do Lobo, Srª D. Rita Spencer 
Lobo, ao Carlos Félix e a última ao Ferdinando Antunes Caixas. 
A todos muito agradeço.

Obrigado Lobo pela contida descrição do que viveu 

(contida como ele sempre foi) ao Tó Mira Godinho 
pela identificação dos retratados junto ao Ten Malaquias e 
outras importantes correcções e actualizações. Obrigado 
também ao Cardoso  ao Relego e ao Baguinho pelos elementos 
cedidos. Finalmente obrigado ao Carlos Félix pelo relato 
impressionante do que viveu e ainda hoje o magoa.

Que ao menos as tuas noites de insónia te tragam a 

compensação de um bom almoço de peixe bem grelhado...

____________________________
____________________________


Do lado da Frelimo este episódio está também 
oficialmente descrito.

Num documento do Mozambique Liberation Front, 

(Mozambican revolution, no. 31, Oct.-Nov. 1967) criado 
peloInformation Department, Dar Es Salaam, Tanzania,  
cujo original está arquivado no Boeckmann Center for 
Iberian and Latin American Studies, (Publisher of the Digital Version: University of Southern California. Libraries):






 Página 13 deste documento:




Nesta página pode ler-se:


<< On the 22nd of October, at 3.30 pm. a Portuguese military 

aircraft was shot down in NGAZELO. It was part of the 
Portuguese local air force, which had been bombing the whole 
zone of Marrupa. Our fighters opened fire against these aircraft, 
three in all, shooting down one of them. Its identification 
number is T 6 - G, 52-8603, registration number, 1739. Our 
fighters captured the documents of the pilot - LIEUTENANT 
MANUEL MALAQUIAS DE OLIVEIRA - and his pistol, no. 113202. 
The pilot himself was dead. The equipment of the aircraft, 
which included 6 machine guns, was captured but in the crash 
it had been damaged beyond repair >>

Mais uma prova de que o resgate do Tenente Malaquias se 

fez com o óbvio conhecimento e complacência dos responsáveis 
locais da Frelimo naquele importante local. Sede de uma das 
suas mais importantes Bases, equipada com 3 antiaéreas.

Esta preciosa informação foi-me facultada pela Catarina Aleixo, 

filha do Comandante Aleixo, que poucos meses depois deste 
episódio, foi destacado para o AB6, Nova Freixo, como Piloto 
Miliciano, com quem ainda voei em missões de soberania. 




(Actualização desta história em 17 de Abril de 2014) 
riodosbonssinais.blogspot.pt



Operação 

«NANDA»


Tombaram pela 
Pátria!


Para visualização dos conteúdos clique 
nos sublinhados que se 
seguem:

Resumo da ocorrência:

- Em 08Mai1965 morrem dois militares em combate na zona de 

Batassano:

António Manuel Dias, Soldado Atirador, n.º 708/63, 
natural da freguesia de Reboredo, concelho de Vinhais, 
mobilizado pelo Regimento de Infantaria 15 (RI15) para 
servir na Região Militar de Angola integrado na Companhia 
de Caçadores 551 do Batalhão de Caçadores 554. Tombou 
em combate no dia 8 de Maio de 1965. Está sepultado na 
campa 34-3, do talhão militar, do cemitério de Cabinda.

Manuel Lamelas, Soldado Atirador, n.º 1122/63, natural de 
Seninha, freguesia de Valdreu, concelho de Vila Verde, 
mobilizado pelo Regimento de Infantaria 15 (RI15) para 
servir na Região Militar de Angola integrado na Companhia 
de Caçadores 551 do Batalhão de Caçadores 554. Tombou 
em combate no dia 8 de Maio de 1965. Está sepultado na 
campa 33-3, do talhão militar, do cemitério de Cabinda.

Em 20Jun1965 durante a Operação Cerr'os Dentes, um pelotão da 
Companhia de Cavalaria 679 do Batalhão de Cavalaria 682 é alvo de 
emboscada e sofre um morto e quatro feridos graves.

Francisco António Rosa Parrinha, Soldado Apontador de 
Metralhadora, n.º 2150/63, natural da freguesia de Nossa 
Senhora das Neves, concelho de Beja, mobilizado pelo 
Regimento de Cavalaria 3 (RC3) para servir na Região 
Militar de Angola integrado na Companhia de Cavalaria 
679 do Batalhão de Cavalaria 682. Tombou em combate no 
dia 20 de Junho de 1965. Está sepultado no cemitério de 
Cabinda.

O comandante do sector avança com a Operação Nanda, prevista para 
lançar 150 grupos de combate em linha, entre o posto fronteiriço do 
Miconge e o Caio-Guembo, no extremo norte de Cabinda.

O grupo de combate do alferes miliciano de cavalaria Moraes 
Alçada [Cruz de Guerra, de 4.ª classe], desloca-se para o Luáli em 
reforço ao Pelotão de Caçadores 964 adido ao Batalhão de Caçadores 
554, estando este sediado a 12km.

Naquele destacamento ficam apenas alguns militares em pior forma 
física e o restante efectivo segue para a operação.

Em 19Out1965, após as primeiras baixas com minas antipessoal e 
alguns tiros isolados, a confusão instala-se entre as tropas de 
quadrícula. Soldados isolados na mata regressam à picada principal 
Luáli-Dinge, onde a operação é reorientada, passando a cumprir-se em 
marcha os dias previstos para a sua conclusão.

Em 22Out1965, o tenente-coronel comandante do Batalhão de 

Caçadores 554, em vez de enviar reabastecimentos para o 
destacamento do Pelotão de Caçadores 964 no Luáli, ordena aos 
que lá estão para os ir buscar ao quartel-sede: mas o MPLA, sabendo 
onde se encontram deslocados os efectivos daquele sector e quantos 
ficaram no Luáli, monta uma emboscada.

alferes miliciano de infantaria António Leitão Malcatanho 
[Cruz de Guerra, de 3.ª classe], comandante daquele destacamento, 
deixa o cabo Branco, o cozinheiro Crossas e um soldado 
(com problemas de epilepsia), seguindo com os restantes em dois jipes 
para a sede do batalhão.

Após 2km de marcha caem na emboscada e o jipe da frente é atingido 
em cheio por uma granada de LGF inimiga, causando a morte imediata 
de 3 primeiros-cabos do Pelotão de Caçadores 964 e de 1 soldado 
da Companhia de Cavalaria 679, ficando o soldado-condutor José 
Fernandes atingido no rosto e na cabeça por estilhaços do pára-brisas, 
que lhe provocam cegueira parcial; sob intenso tiroteio inimigo, o 
condutor salta da sua viatura, recolhe as armas dos camaradas mortos 
e dispara sobre os atacantes enquanto se abriga junto do segundo 
jipe, onde foram mortalmente atingidos outros dois soldados da 
CCav679, o alferes Malcatanho está ferido pela primeira rajada 
em ambas as mãos, o 1º Cabo Ângelo dos Santos Rodrigues 
[promovido por distinção a Furriel e agraciado com o grau de Cavaleiro, 
com palma, da Ordem da Torre e Espada, do Valor, Lealdade e Mérito
está totalmente cego de um dos olhos, o soldado-maqueiro 
Manuel Marques Sardão [a título póstumo, promovido por distinção 
a Furriel e agraciado com o grau de Cavaleiro, com palma, da Ordem 
da Torre e Espada, do Valor, Lealdade e Mérito] está gravemente 
ferido e apenas resta ileso o soldado Orlando de Jesus Costa 
[Cruz de Guerra, de 4.ª classe]que utiliza eficazmente a sua arma e 
impede o inimigo de avançar para a picada.

António Gomes Guerra, 1.º Cabo Atirador, n.º 141/64, natural 
da freguesia e concelho de Figueira Castelo Rodrigo, 
mobilizado pelo Regimento de Infantaria 2, para servir na 
Região Militar de Angola, integrado no Pelotão de Caçadores 
964, adstrito ao Batalhão de Caçadores 554. Tombou em 
combate no dia 22 de Outubro de 1965. Está sepultado no 
cemitério da freguesia de naturalidade.

António José Ferreira Marques, 1.º Cabo Atirador, 
n.º 1/64, natural de Celeirô, da freguesia de São Nicolau, 
concelho de Cabeceiras de Basto, mobilizado pelo Regimento 
de Infantaria 2, para servir na Região Militar de Angola, 
integrado no Pelotão de Caçadores 964, adstrito ao Batalhão 
de Caçadores 554. Tombou em combate no dia 22 de Outubro 
de 1965. Está sepultado no cemitério de Cabinda, em Angola, 
no talhão militar, campa 6-1-B.

Óscar Gomes Pires, 1.º Cabo Atirador, n.º 320/64, natural de 
tremoceira, da freguesia de Pedreiras, concelho de Porto Mós, 
mobilizado pelo Regimento de Infantaria 2, para servir na Região 
Militar de Angola, integrado no Pelotão de Caçadores 964, adstrito ao 
Batalhão de Caçadores 554. Tombou em combate no dia 22 de Outubro de 1965. Está sepultado no cemitério de Cabinda, em Angola, no talhão militar, campa 8-1-B

António Alcobia, Soldado Atirador, n.º 1767/63, natural da 
reguesia de Pias, concelho de Ferreira do Zêzere, mobilizado pelo 
Regimento de Cavalaria 3, para servir na Região Militar de Angola, 
integrado na Companhia de Cavalaria 679 do Batalhão de Caçadores 
682. Tombou em combate no dia 22 de Outubro de 1965. Está 
sepultado no cemitério de Cabinda, em Angola, no talhão militar, campa 11-1-B

Fernando Lourenço Mota, Soldado Atirador, n.º 1602/63, natural 
da freguesia da Barroca, concelho do Fundão, mobilizado pelo 
Regimento de Cavalaria 3, para servir na Região Militar de Angola, 
integrado na Companhia de Cavalaria 679 do Batalhão de Caçadores 
682. Tombou em combate no dia 22 de Outubro de 1965. 
Está sepultado no cemitério de Cabinda, em Angola, no talhão militar, 
campa 9-1-B

Francisco de Jesus Esteves Lucas, Soldado Atirador, 
n.º 1765/63, natural de Rochas de Baixo, da freguesia de 
Almaceda, concelho de Castelo Branco, mobilizado pelo Regimento 
de Cavalaria 3, para servir na Região Militar de Angola, integrado 
na Companhia de Cavalaria 679 do Batalhão de Caçadores 682. 
Tombou em combate no dia 22 de Outubro de 1965. Está sepultado 
no cemitério de Cabinda, em Angola, no talhão militar, campa 10-1-B.

Os 5 sobreviventes continuam a disparar seguindo as instruções do 
oficial
[Alferes Malcatanho]   e o tiroteio é ouvido no destacamento do Luáli, 
de onde arrancam no único jipe o cabo e o cozinheiro, que durante o 
trajecto vão disparando curtas rajadas. No local da emboscada, o 
inimigo interrompe o ataque e o soldado-condutor Fernandes 
[Cruz de Guerra, de 1.ª classe] aproveita a pausa para pôr o segundo 
jipe em andamento em direcção ao destacamento em busca de 
socorros, ignorando que os seus camaradas vêm a caminho; os 
atacantes, permanecendo emboscados e preparados para descer à 
picada, liquidar os feridos, esfacelar os mortos e capturar o armamento, 
ao ouvir o tiroteio aproximar-se pensam tratar-se de fortes reforços e 
retiram apressadamente, deixando no terreno uma bazooka e 
outro material-de-guerra; logo de seguida o soldado-maqueiro 
[Manuel Marques Sardão], apesar de gravemente ferido, procura socorrer os 
camaradas feridos e morre no local do combate, no exercício da função da sua especialidade.

Manuel Marques Sardão, Soldado Maqueiro, n.º 1898/63, 
natural de Santo Amaro da Boiça, da freguesia de Maiorca, 
concelho da Figueira da Foz, mobilizado pelo Regimento de
Infantaria 15, para servir na Região Militar de Angola, 
integrado na Companhia de Comando e Serviços (CCS) 
do Batalhão de Caçadores 554. Tombou em combate no dia 
22 de Outubro de 1965. Está sepultado na localidade de 
nascimento.

ultramar.terraweb.biz

1 comentário:

Anónimo disse...

Parabéns pela excelente descrição do RESGATE DO TENENTE MALAQUIAS! Classifico esse acontecimento como uma das páginas de Honra e Glória que os nossos camaradas mobilizados escreveram durante a Guerra do Ultramar! Parabéns ao Autor e a todos os envolvidos que lhe facultaram a veracidade dos detalhes ocorridos, que estão magistralmente descritos! Essa odisseia deveria figurar nos compêndios escolares, em oposição à ignorância, à borga desenfreada e ao facilitismo intelectual que proliferam no seio dos nossos adolescentes e jovens. Mas, infelizmente, esta pobre Nação vive sob o jugo da cobardia, da corrupção instituída e do liberalismo económico extremo que nos levará ao colapso social. Um grande abraço para todos vós, ilustres patriotas que tão bem honrastes Portugal!