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quinta-feira, 15 de março de 2018

Mudança de pele

Houve um momento de ruidoso riso no fim  VEJA VÍDEO CLICANDO NO LINK A AZUL do último programa "O Outro lado", da RTP.

Foi quando vice-presidente do CDS Adolfo Mesquita Nunes escolheu um video. Veja-se o minuto 46'30' e depois o que aconteceu, com as explicações do dirigentes do CDS. E depois volte-se aqui.  

Adolfo Mesquita Nunes é dado como a cara modernizadora do CDS. Se bem se percebe do debate público, porque enquanto secretário de Estado promoveu Portugal no estrangeiro (a explosão do turismo dever-se-ia a ele...) e porque assumiu a sua orientação homossexual. Adolfo dá mostras de ser um jovem à-vontade, com abertura de espírito e sincero. Mas no resto ele revela-se um típico militante do CDS: em momentos de aperto, envereda pela palavra fácil, inconsistente.

Veja-se os seus argumentos noutra parte do programa. A questão em debate era se Assunção Cristas não seria penalizada politicamente por ter sido ministra de um governo que cerceou a despesa pública, quando hoje critica o governo PS por não fazer investimento público. 

"AMN: Se há partidos que têm problemas com ministros do governos anteriores é o Partido Socialista. Os ministros socratistas estão lá todos. Se há algum governo que deveria ter vergonha de se voltar a pôr a eleições era a maior parte dos ministros socialistas. 
João Adelino Faria: Mas eu estou a falar da troica e da austeridade que foi impostas aos portugueses...
AMN: Pois, os portugueses sabem como é que a troica cá chegou. Precisamente na sequência dos ministros socialistas que estão todos lá..."

Parece uma típica manobra de diversão. Mas não é séria.  É enganadora. E pressupõe um mau-viver não assumido com o que foi feito, até porque, na realidade, não se mudou de opinião. 

1. A dívida pública nunca foi o problema da dívida bruta nacional. A dívida privada correspondeu ao dobro da pública e conviria explicar porquê;

2. Mesmo a dívida pública começou a crescer sobretudo a partir de 2000 e isso talvez diga muita coisa, mais do que o mandato de José Sócrates. Cresceu mesmo no mandato PSD/CDS de 2002/4. Mas mais que tudo subiu desde 2009 e isso coincide com o início da percepção em Portugal dos efeitos da crise internacional. O Governo Sócrates teve uma gestão orçamental eleitoralista, sim, mas poderia coincidir com uma política de ataque à crise, aliás incentivada por Bruxelas até Março de 2010;

3. A partir de Março de 2010, a orientação europeia foi de austeridade, o que aprofundou ainda mais a recessão e provocou a volatilidade dos mercados. Nessa altura, a direita - CDS inclusivé - defendia o fim dos sacrifícios sociais.

4. O CDS foi para o Governo em Maio de 2011 e aplicou a pior das austeridades que tanto criticara. Havia outras políticas, mas foram essas as opções. Essas políticas foram mais além da troica e explicam a profunda e histórica recessão em 2012 que fez o desemprego atingir níveis recordes de 1,5 milhões de pessoas. O ministro do CDS deu a cara pela política de aperto salarial e desprotecção dos desempregados num momento em que a política seguida mais os atingia, contribuindo para uma maior precariedade e maior pobreza entre trabalhadores e sem resultados orçamentais visíveis. O CDS poderia ter defendido outras políticas, mas não. Assumiu-as até 2013. Depois quis fugir irrevogavelmente, mas não pôde. E ficou amarrado. E agora quer escapar-se outra vez. Com novas caras e algumas lavadas.

Mesquina Nunes poderá ser uma boa alma. Mas nada lhe retira a sensação de ser aquilo que é necessário para o "velho CDS" mudar de pele. 



ladroesdebicicletas.blogspot.pt

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