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sábado, 31 de março de 2018

UMA REDAÇÃO SINGULAR



Uma redação singular


Esta história passada numa escola primária da então Vila de Olhão da Restauração é antiga, do tempo em que os marítimos pescavam no oceano o carapau, a sardinha e a cavala em barcos com motor a vapor, o largar e alar das redes era processo manual; e na agricultura a ferramenta para as sementeiras era o arado puxado por duas mulas.
Um dia a professora dirigiu-se ao quadro de ardósia, pegou no lápis de giz e escreveu: redação de um dos temas à escolha - o pescador ou o agricultor.
Era um grupo de alunos que estavam na quarta classe. Os primeiros minutos passaram-se olhando o quadro, coçando na cabeça, numa procura de juntar ideias para iniciar a composição.
O Fernando era filho de um homem do mar que fazia parte da campanha (tripulação) de um galeão e este tinha um irmão que vivia numa casa com terreno agrícola em Moncarapacho. O pai já o tinha levado a bordo quando o barco estava encostado ao cais. Foi uma visita guiada onde se apercebeu como pescavam, como navegavam. O tio quando a família se juntava em sua casa, deu oportunidade ao Fernando de vê-lo lavrar, semear, cuidar dos animais e a época da matança do porco crescido e gordo. Dividiu-se entre o pescador seu pai e o lavrador seu tio. Bastante indeciso, resolveu escrever uma redação falando dos dois e suas atividades. Sabia que não era aquilo que a professora pediu. Tinha tanta admiração por eles que mereciam ser mencionados.
E, depois de minutos de reflexão, começou: "Um galeão sai do cais. Puxam a ancora, desatam a amarra. O Mestre dá ordens ao homem do leme que faz rumo certo em direção ao oceano para a faina.
O agricultor aparelha as mulas no arado, estende a arreata em corda para dirigir os animais, endireita e segura com as duas mãos o equipamento como se fosse um leme. Dá sinal às mulas que instintivamente avançam puxando a peça de forma bicuda em ferro que penetra na terra, a sua configuração permite abrir sulcos até ao final da área definida para semear. Chegado ao limite, vira as mulas e continua até o terreno estar todo passado. Atrás, a mulher com um saco cheio de grãos de milho a tiracolo coordena o caminhar alinhado aos regos da lavra, com o braço direito que depois da mão recolher as sementes, lança-as vigorosamente à terra lavrada.
O galeão em pleno mar inicia a sua atividade piscatória. Há sinais de cardume. O Mestre manda lançar as redes de forma a cercar os milhares de peixes. Homem ao leme atento à navegação sincronizada com os outros que vão deitando a rede ao mar com disciplina para resultar.
O agricultor e a mulher terminam a sementeira, estão satisfeitos. Ela recolhe a casa para tratar do jantar, ele desaparelha as mulas, leva-as de volta à cabana para um merecido descanso, beberem água, comerem palha e um meio litro de favas secas, cada uma.
No galeão, de madrugada alta, chegou o momento de começar a alar a rede. Há sempre expectativa sobre a quantidade de peixe capturado. À ordem do Mestre, começa a pesada tarefa de recolher a rede que vão depositando à superfície do barco, deixando o porão para o peixe.
De manhã, o agricultor olhou para o terreno semeado. O tempo irá determinar se a colheita é boa. A água da chuva é preciosa, apesar de ter deitado a semente em terra húmida, o que permite que a germinação se faça. Tem fé que vai ser recompensado.
No mar o irmão sorri, ao ver as sardinhas saltando já fora de água. Foi um lance bom que vai entrando no porão.
O meu pai João Maurício e o meu tio Manuel Joaquim trabalham muito para ganhar dinheiro para viver. Gosto muito deles. Um no mar, outro em terra, fazem-me pensar se um dia fico em terra ou vou para o mar trabalhar. Eu, gosto muito de fazer festas às mulas, pôr-lhes palha na manjedoura, criar galinhas, tirar os ovos da capoeira, ver a minha tia Isabel amassar e cozer o pão no forno. Agora vou estudar para fazer o exame e depois logo falo com o meu pai.
Publicado na edição n.º1178 de 15 de Março de 2018, do Jornal "O Olhanense".

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