Esgotado o impacto das imagens do fogo e das viaturas queimadas, enterrados os mortos e respeitado o luto, quase esgotado o tema das ovelhas e cabras, as televisões passaram a apelar à comiseração com reportagens sobre gatinhos e outros animais domésticos. Mas é certo que com as abelhas e outros insetos ninguém se preocupará, o mesmo sucedendo com toda a diversidade biológica destruída. Em poucas horas uma boa parte do interior foi transformado num deserto biológico.
Tal como sucede com todas as catástrofes, agora é a vez dos sábios aparecerem nessa feira de vaidades que são as nossas televisões, são especialistas de tudo, grandes sumidades científicas a descarregar no passado e a explicar as respetivas poções mágicas. Uns apelam aos carvalhos, outros sugerem que se mandem cabras, alguns sonham ainda com as aldeias cheias de gente a viver muito abaixo do limiar de pobreza.
Dizem que a culpa é da fuga do litoral, que o povo procura o conforto das grandes cidades e já ninguém se sujeita à vida do campo, a culpa é dos políticos que não regionalizaram e não tornaram a vida no interior mais atrativa. Ignoram que a maior fuga dos campos não foi para o litoral, mas para cidades bem no interior, como Paris, Londres e muitas cidades industriais do norte da Europa. Esquecem também que o conforto de que falam foram os bidonvilles de Paris, mas que grande conforto! Vivem luxuosamente nas cidades e nos seus gabinetes universitários, olham os do interior como "nativos" a preservar num modelo agrário miserável.
Tudo se resolveria com centenas de milhares de cabras, transformariam o mato em caganitas pretas num instante e reduziriam a carga combustível das nossas florestas. Esquecem-se de explicar quem iria guardar e manter tantos milhares de rebanhos de cabras, com base em que política agrícola e com que ajudas se manteria esses milhares de bocas trituradoras. Quando ouço arquitetos paisagistas a verem as cabras como solução sinto vontade de rir, ignoram os problemas ambientais que resultam da pastorícia intensiva. Esquecem-se de que quando haviam cabras no interior havia mais muitos do que isso e que se muitos tinham cabras era porque era mais inacessível ter vacas.
Lembro-me de ver a alegria de Cavaco e dos seus ministros com o ritmo acelerado com que baixou a população ativa agrícolas, era um indicador de sucesso do desenvolvimento cavaquista. Não era difícil, a chegada do mercado ao interior destruiu uma economia de sobrevivência que era inviável com a livre circulação de trabalhadores e o desenvolvimento do país. Ganha-.se mais como servente na construção de pontes estradas do que a semear nabos ou na pastorícia, numa agricultura inviável pela pobreza dos terrenos.
Foi a revolução acelerada e uma mutação brutal no nosso meio rural, cada um reaproveitou os terrenos que podiam ser reaproveitados. Os ministros da Agricultura negociavam ajudas, umas à produção e outras para se deixar de produzir. Entretanto os ministros do Ambiente estavam mais preocupados com Tróia ou com a Comporta, para viabilizar os investimentos turísticos em xonas ambientais críticas, do que em proteger as abelhinhas e as libelinhas. Aliás, ninguém se preocupa com a bicharada, não alinham em selfies e são más de dar beijinhos para a TV filmar.
Há um problema que não é apenas agrícola, de ordenamento do território ou de gestão das florestas. É preciso viabilizar o que é economicamente viável, gerir o parque florestal a pensar não só nos incêndios mas também nas questões ambientais e perceber que a imensidão de terrenos sem aptidões agrícolas são um valioso património natural que deve ser preservado, promovendo a diversidade biológica.
jumento.blogspot.pt

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