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quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Sobre o mercado de trabalho atual: do século XXI ao século XIX, um retorno a Marx. 1 – A centralidade do trabalho vivo – Parte I/II





Sobre o mercado de trabalho atual: do século XXI ao século XIX, um retorno a Marx. 1 – A centralidade do trabalho vivo – Parte I


O  projeto liberal claramente parece querer atacar não apenas este Código do Trabalho, mas o próprio trabalho em si-mesmo. Em qualquer caso, as explicações apresentadas para justificar um projeto específico baseiam-se principalmente na ideia de que o trabalho teria perdido a sua “centralidade”, ou mesmo que nunca teria tido a centralidade que alguns lhe conferem e que os direitos que o envolviam se tornaram obsoletos.

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A centralidade do trabalho vivo – Parte I
                              O que é o trabalho vivo ?  A  Filosofia do trabalho vivo
(Por Jean-Marie Harribey, Setembro de 2017)
INTRODUÇÃO

No centro do arrebatamento dos media sobre o rendimento universal que acompanharam as eleições francesas de 2017 ou que se repetem em alguns círculos alternativos, há a questão do trabalho. [1] Por outro lado, os medos expressos em face das reformas do Código do Trabalho são ainda mais agudos porque o projeto liberal claramente parece querer atacar não apenas este Código, mas o próprio trabalho em si-mesmo. Em qualquer caso, as explicações apresentadas para justificar um projeto específico baseiam-se principalmente na ideia de que o trabalho teria perdido a sua “centralidade”, ou mesmo que nunca teria tido a centralidade que alguns lhe conferem e que os direitos que o envolviam se tornaram obsoletos. Não faltam grandes figuras da filosofia política para servir como uma referência à perda da centralidade do trabalho, alguns até sendo considerados como ícones do pensamento crítico contemporâneo, nomeadamente Arendt, Gorz ou Foucault. No entanto, se olharmos para Marx, o primeiro crítico da alienação do trabalho, ao assumir uma parte da herança hegeliana sobre o trabalho como a “essência” do homem ou do lado da psicopatologia, sociólogos do sofrimento no trabalho como Dejours, redescobrimos a importância do conceito de centralidade do trabalho. Consequentemente, a negação do conceito seria apenas o para-vento de negação do próprio facto, o trabalho. E negar o trabalho seria outra oportunidade para enterrar o seu relacionamento conflituoso com o capital.
Índice
  1. O que é o trabalho vivo
a) Filosofia do trabalho vivo
b) Psicossociologia do trabalho vivo
2. As implicações teóricas do trabalho vivo
a) Que evolução do trabalho e da produtividade?
b) O trabalho vivo e a criação do valor
c) Qual é o sentido do trabalho ?
3. As implicações metodológicas do trabalho vivo
a) Que crítica do trabalho?
b) Uma crítica epistemológica??
A primeira interrogação incide sobre o facto de saber de que trabalho se trata. Trata-se do trabalho assalariado empregado e explorado pelo capitalismo, ou seja a força de trabalho proletária? Ou do trabalho como atividade humana destinada a satisfazer necessidades? Do meio pelo qual o homem entra em relação com a natureza, seja para dela tomar posse , seja para se inserir num metabolismo com ela? Por outros termos, o trabalho é uma categoria histórica ou antropológica conforme se olham as formas que este reveste no espaço e o tempo ou conforme este esteja  ligado à condição humana de produzir os meios de existência? Duvida-se que as respostas a estas questões não sejam unívocas; assim, a hipótese que será estudada aqui é que uma vez que o trabalho é vivo então o trabalho é e permanece central.
  1. O que é o trabalho vivo ? A filosofia do trabalho vivo
Para refletir sobre esta hipótese, convirá definir o trabalho vivo, e seguidamente analisar quais são as implicações da sua centralidade, tanto sobre o plano teórico como no plano metodológico. O caminho levar-nos-á da crítica da economia política à antropologia.
O que é o trabalho vivo?
O trabalho vivo pode ser definido sobre o plano filosófico e sobre o plano psicossociológico. À primeira vista contraditórias, as diferentes definições não são talvez irreconciliáveis.
 Filosofia do trabalho vivo
Herdando da economia política de Smith e Ricardo, Marx encontra nesta a distinção estabelecido por Ricardo entre o trabalho indireto contido nos meios de produção e o trabalho direto utilizado na  transformação da matéria. Se se tratasse apenas de exprimir uma medida económica, por exemplo em tempo de trabalho necessário para a produção, Marx teria feito apenas de substituir a sua distinção entre trabalho morto e trabalho vivo à ideia de Ricardo, todas as duas, neste caso, equivalentes. Mas se Marx toma a precaução de efetuar esta substituição semântica, é que entende deslocar o problema. Ao nível económico, indica que o trabalho é vivo pelo facto que é ele que, por um lado, é ato de criação de um novo objeto material ou imaterial, e, por outro lado, é a causa de um valor acrescentado. E, ao nível filosófico, o trabalho é vivo de acordo com Marx porque é por ele que o homem se constrói a si mesmo. O trabalho é por conseguinte “vivo” porque é vital num duplo sentido: vital para produzir as condições concretas de existência, vital para se produzir ele próprio num coletivo social e cultural.
Pode-se considerar que esta ideia “de vitalidade” é contínua no pensamento de Marx. Na ideologia alemã, escreve com Engels: “Eles mesmos [os homens] começam a distinguir-se dos animais logo que se puserem a produzir os seus meios de existência: aí, eles deram  um passo que lhes foi  ditado pela sua organização física. Produzindo os seus meios de existência, os homens produzem indiretamente a sua vida material própria. ” [2] E, no Capital, “o trabalho é antes de mais nada um ato (ein Prozeß) que se passa entre o homem e a natureza, um ato no qual o homem harmoniza (vermittelt), regula e controla pela sua própria ação as suas trocas orgânicas (Stoffwechsel) com a natureza” [3]. Indubitavelmente, Marx adota aqui uma conceção antropológica de trabalho, que confirmará repetidamente,  distinguindo o processo de trabalho em geral (é deste que trata-se aqui) e o processo de trabalho capitalista. Assim, o trabalho vivo permite o movimento da vida e não pode ser reduzido a um simples ato de valorização do capital.
 “O processo de trabalho como nós acabámos de o analisar nos seus momentos simples e abstratos – a atividade que tem por  objetivo a produção de valores de uso, a apropriação dos objetos externos às necessidades – é a condição geral das trocas materiais entre o homem e a natureza, uma necessidade física da vida humana, independente por isso mesmo de todas as formas sociais, ou antes, igualmente comum à todas. ” [4] Se este processo for uma condição sine qua non da reprodução social, ou seja perpetuação da vida da sociedade, compreende-se que, mais tarde, Karl Polanyi sublinhará o risco para a sociedade se o trabalho, a terra e a moeda se transformassem em puras mercadorias. [5]
Mas, imediatamente, emerge uma segunda dimensão inscrita na distinção de Marx: se há um processo de trabalho capitalista, é que o trabalho deve também ser recolocado na divisão do trabalho e das relações sociais nos quais é posto em forma e organizado. Há por conseguinte em Marx uma dualidade: o trabalho como dimensão antropológica e o trabalho como construído social e historicamente. E é porque o capitalismo tende a fazer do trabalho um dado homogeneizado, não diferenciado, abstrato, que se pode ser conduzido a deixar de ver nele um conceito histórico ligado ao capitalismo. Neste último sentido, o trabalho é inseparável das relações de dominação para realizar o processo de valorização do capital, esta “coisa morta”, este “trabalho morto”. Daí vem para Marx a necessidade de forjar o conceito de força de trabalho – ausente nos clássicos Adam Smith e Ricardo – para designar a utilização do trabalho vivo pelo capital : “Sob este nome [potência de trabalho ou força de trabalho] é necessário compreender o conjunto das faculdades físicas e intelectuais que existem no corpo de um homem, na sua personalidade viva, e que este deve pôr em movimento para produzir coisas úteis. ” [6]
Para explicar a complexidade da questão do trabalho no capitalismo, Marx mostra que não pode ser dissociada a dominação pelo trabalho e no trabalho. [7] A primeiro corresponde ao processo de reprodução da relação social que leva a uma crescente proletarização de trabalhadores (cada vez mais a ser desapropriado dos meios de trabalho, eles são obrigados a tornarem‑se assalariados, vendendo a sua força de trabalho). A segunda forma de dominação tem a ver, de acordo com Marx, com a passagem histórica de uma dominação do trabalho (a dos tecelões no domicílio, sujeitos a uma relação de poder) a uma dominação no próprio trabalho (na grande fábrica, onde o processo de trabalho em si é completamente reformulado para acelerar a produção de mais-valia. [8] No capitalismo, o domínio do trabalho pelo capital corresponde ao que Marx designa como “uma submissão  formal”, enquanto que a dominação no trabalho corresponde à “submissão  real”.
Emmanuel Renault conclui que “é, portanto, fútil perguntar se Marx deve ser considerado como uma crítica de dominação no trabalho ou como um crítico de dominação pelo trabalho, uma vez que Marx estabelece que essas duas questões são inseparáveis”. Se isto é correto, e nós partilhamos essa análise, deixará de ser necessário escolher entre libertar o trabalho e libertar-se do trabalho. Esta é também a razão pela qual Michel Henry argumenta que Marx pensa a alienação como um processo de “desvitalização” de trabalho vivo. [9]
Pode-se então começar a reformular a questão da historicidade ou não do trabalho. Além da especificidade das formas de implementação da força de trabalho no capitalismo, Jean-Philippe Deranty mantém a hipótese que vamos encontrar mais à frente: mesmo se, de fato, o trabalho “puro e simples” é um produto do capitalismo, isso não significa que noutras épocas e noutras sociedades não se trabalhava ou que o trabalho não era já um vetor decisivo do desenvolvimento individual e de estruturação da vida social. Simplesmente, pode não ter sido enquanto tal nas representações que dele faziam os indivíduos e sociedades. “[10]

Notas
[1] Mateo Alaluf et Daniel Zamora (dir.), Seth Ackerman, Jean-Marie Harribey, Contre l’allocation universelle, Montréal, Lux, 2016. Les Économistes atterrés et la Fondation Copernic (Jean-Marie Harribey et Christiane Marty, coord.), Faut-il un revenu universel ?, Paris, Les Éditions de l’atelier, 2017. Attac, « Note sur le revenu d’existence universel », février 2017.
[2] Karl Marx, Friedrich Engels, L’idéologie allemande, 1845-1846, in Karl Marx, Œuvres, Paris, Gallimard, La Pléiade, 1982, tome III, p. 1055.
[3] Karl Marx, Le Capital, Livre I, 1867, Paris, Gallimard, La Pléiade, 1965, tome I, p. 727 et note p. 1648.
[4] Karl Marx, Le Capital, Livre I, op. cit., p. 735.
[5] Karl Polanyi, La grande transformation, Aux origines politiques et économiques de notre temps, 1944, Paris, Gallimard, 1983.
[6] Karl Marx, Le Capital, Livre I, op. cit., p. 715, souligné par nous.
[7] Para uma apresentação simples, veja-se Emmanuel Renault, « Comment Marx se réfère-t-il au travail et à la domination ? », Actuel Marx, n° 49, 1er semestre 2011, p. 16-31.
[8] Karl Marx, Le Capital, Livre I, chapitres XIII, XIV, XV,1867, in Œuvres, Paris, Gallimard, La Pléiade, tome I, 1965.
[9] Michel Henry, Marx, tome I, Une philosophie de la réalité, tome II, Une philosophie de l’économie, Paris, Gallimard, 1976.
[10] Jean-Philippe Deranty, « Cartographie critique des objections historicistes à la centralité du travail », Travailler, n° 30, 2013/2, p. 31.Notas:


Sobre o mercado de trabalho atual: do século XXI ao século XIX, um retorno a Marx. 1 – A centralidade do trabalho vivo – Parte II


O  projeto liberal claramente parece querer atacar não apenas este Código do Trabalho, mas o próprio trabalho em si-mesmo. Em qualquer caso, as explicações apresentadas para justificar um projeto específico baseiam-se principalmente na ideia de que o trabalho teria perdido a sua “centralidade”, ou mesmo que nunca teria tido a centralidade que alguns lhe conferem e que os direitos que o envolviam se tornaram obsoletos.

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A centralidade do trabalho vivo – Parte II
                    O que é o trabalho vivo ?  A  psico-sociologia do trabalho vivo
(Por Jean-Marie Harribey, Setembro de 2017)

É uma segunda abordagem possível para definir o trabalho vivo.  É o caso da psicodinâmica do trabalho, que considera que “o trabalho, enquanto trabalho vivo, é o termo que conceptualiza a ligação entre a subjetividade, a política e a cultura” [11]. Esta abordagem desenvolveu-se a partir das análises sobre o sofrimento no trabalho imposto  pela nova gestão neoliberal. Em particular, Christophe Dejours propôs uma síntese entre a pesquisa com base na psicanálise e as análises feitas pela psicodinâmica do trabalho: “ muito tardiamente foi possível estabelecer a coerência entre os dois campos: quando o paradoxo da dupla centralidade pode ser resolvido. Por paradoxo da dupla centralidade designa-se a centralidade do trabalho no que diz respeito à identidade, à autorrealização e mais amplamente à saúde mental, por um lado, a centralidade da sexualidade em relação ao que Freud designa pelo termo de Seelenleben (vida da alma), isto é, da vida subjetiva, por outro lado.
 Esta vida subjetiva também envolve a construção da identidade, da auto-realização e da saúde mental. Mas só há um centro! A resolução do paradoxo da centralidade passa, precisamente, pela teoria do corpo que se torna, portanto, um elemento crucial do programa teórico de manter juntos os dois polos tradicionais da teoria crítica desde os inícios da escola de Frankfurt: sexualidade e trabalho ou psicanálise e marxismo. “[12]
A integração do corpo na teoria crítica do trabalho renova os termos em que esta última é levantada, na medida em que já não se trata simplesmente de analisar o peso das estruturas sociais objetivas sobre os indivíduos no trabalho. Christophe Dejours escreve: a fenomenologia de Michel Henry realmente dá ao trabalho um lugar proeminente que tornou possível formular de forma precisa a relação entre o corpo e o real, ou seja, o que  se faz conhecer aquele que trabalha através da resistência do mundo ao seu controlo. Como resultado, é toda a inteligência no trabalho a nível individual que é reformulada graças ao conceito de “corpspropriation” do mundo. É então possível mostrar como é o corpo inteiro que está envolvido na familiaridade com o real, sem o qual a intuição das soluções para superar o real simplesmente não poderia ser formada. “[13]
No período entre-duas-guerras, Simone Weil tinha descrito a mina como “um mundo distante, separada do mundo dos vivos” onde “os homens só existem como trabalhadores” [14]. A mina tem regredido muito hoje, mas métodos néo taylorianos de “nova gestão” desenvolveram, como Danièle Linhart descreve: “despojar o empregado de sua experiência profissional, não é apenas estar a retirar-lhe a base de que ele precisa para não ser ultrapassado pelo seu trabalho, para sentir-se à altura, armado para o realizar e no direito de afirmar o seu ponto de vista. É também tirar-lhe uma parte da sua identidade, a que foi construída em torno desta experiência e graças a ela. Mudar o trabalho constantemente é igualmente afetar a constância da identidade dos trabalhadores. “[15]
Se o problema para o capital de despojar a identidade do trabalhador –e não apenas uma parte do valor económico que este acrescenta – é tão importante, é porque a experiência do trabalho é sempre uma experiência de atenção e do esforço para evitar erros, repetições e constrangimentos. Esta experiência   comporta sempre um  certo  sofrimento que pode ser compensado pela satisfação de exercitar faculdades corporais e intelectuais, pelo sucesso da transformação do trabalho prescrito no trabalho real, ou pelo reconhecimento de colegas ou da hierarquia. Mas esse sofrimento  nunca pode ser anulado  de modo que a atividade de trabalho é acompanhada por um trabalho psíquico de transformação da dureza no trabalho em satisfação cujo resultado nunca é garantido. “[16]

Da integração do corpo na teoria crítica do trabalho à integração no corpo, há aparentemente apenas um passo. Um passo que poderia aproximar o conceito de habituação definida esta por Pierre Bourdieu como a incorporação pelos indivíduos das formas de pensar, de sentir e de atuar, ao longo do processo de socialização [17]. Em todo o caso, há em Marx, na análise que ele faz da grande fábrica, a consciência da natureza ambivalente e contraditória do trabalho que não se pode compreender se separamos a sua dimensão “vital” da sua dimensão económica. Jacques Bidet di-lo da seguinte maneira : “o projeto de uma história social do corpo, conjuntamente biopolítica e económica, é anunciado no primeiro conceito da sua teoria, tradicionalmente referida como a do “ valor-trabalho “. Este nome é bastante impróprio. Isso não significa que o trabalho em si tenha um valor, mas que o valor será definido a partir do trabalho. Mais precisamente: do corpo para o trabalho. Se o valor das mercadorias for, em condições a definir, relativas à “despesa da força laboral” (“despesa produtiva do cérebro, músculos, nervos, mão humana”, diz Marx), o problema económico é imediatamente colocado em termos tangíveis. [18] (ver caixa “o valor” trabalho e o “valor-trabalho”).
O “valor” trabalho e o “valor-trabalho”

Há apenas uma palavra (valor) para designar duas realidades bem diferentes.
Num primeiro nível, quando se trata de “valor” trabalho, refere-se ao conteúdo ético, filosófico ou político que está ligado ao trabalho ou de outra forma que lhe é negado. Assim, o conceção que vem de Hegel faz do trabalho um valor em si-mesmo, dado que este se refere à essência humana. Pelo contrário, na tradição decorrente da Arendt muitas vezes retomada nas teorias favoráveis ao rendimento de subsistência, este valor associado ao trabalho é negado, ou “está em vias de extinção”. Os inquéritos sociológicas agora disponíveis desmentem esta ideia, mostrando que, em grande maioria, parte, os indivíduos querem-se encaixar no mundo do trabalho
O termo “valor” também é usado no campo económico e está associado com o trabalho em particular. E é aqui que as coisas se complicam. A economia política, que nasceu no final do século XVIII sob a mão de Smith e Ricardo, desenvolveu a teoria dita de valor-trabalho que faz com que o trabalho seja a base do valor da troca dos bens, o valor de uso sendo apenas a motivação de sua produção. Marx assumirá esta ideia de que só o trabalho produz valor mas muda a sua redação para explicar dois fenómenos. (1) o valor de uma mercadoria expressa a fração do trabalho coletivo que é socialmente validado nela. (2) O capitalista não compra o trabalho do assalariado, nem o seu produto, mas a sua força de trabalho,  de onde ele vai obter uma mais valia, dita o ganho de capital.
A polissemia do termo “valor”, em seguida, desdobra-se então de uma dificuldade adicional: falar de “valor do trabalho” presta-se à confusão porque, sem mais esclarecimentos, não se sabe se estamos a falar do “valor” trabalho no sentido filosófico, ou do valor recebido pelo trabalhador sob a forma de salários, ou, por fim, do valor produzido pelo trabalhador, muito maior do que o seu salário, a diferença correspondente ao lucro capitalista. Para colocá-lo sem rodeios, mas elegantemente, como Marx o fez: “o trabalho é a substância e a medida inerente dos valores, mas não tem valor em si mesmo.” 19]
D’après l’encadré de la « Note sur le revenu d’existence universel », Attac, février 2017, JMH


Notas
[11] Christophe Dejours, Travail vivant, tome II : Travail et émancipation, Paris, Payot, 2009, p. 177, cité par Alexis Cukier, « Introduction » à Alexis Cukier (dir.), Travail vivant et théorie critique. Affects, pouvoir et critique du travail, Paris, PUF, 2017, p. 7.
[12] Christophe Dejours, « Théorie du travail, théorie des pulsions et théorie critique : quelle articulation ? », in Alexis Cukier (dir.), Travail vivant et théorie critique. Affects, pouvoir et critique du travail, Paris, PUF, 2017, p. 131.
[13] Ibid., p. 133.
[14] Simone Weil, « Après la visite d’une mine », L’Effort, n° 229, 19 mars 1932, reproduit dans Geneviève Azam et Françoise Valon, Simone Weil ou l’expérience de la nécessité, Noisy-en-Campagne, Le Passager clandestin, 2016, p. 91-93.
[15] Danièle Linhart, « D’ou vient la souffrance des salariés du XXIe siècle ? Ruptures et continuités entre management moderne et logique taylorienne », dans ce numéro des Possibles.
[16] Emmanuel Renault, « Héritages et actualité de la critique immanente du travail », in Alexis Cukier (dir.), Travail vivant et théorie critique. Affects, pouvoir et critique du travail, Paris, PUF, 2017, p. 79.
[17] Pierre Bourdieu écrit dans Le sens pratique, Paris, Ed. de Minuit, 1980, p. 88 :  “De acordo com o programa sugerido por Marx nas Teses sobre Feuerbach, a noção de habitus visa a tornar possível uma teoria materialista do conhecimento que não abandone  ao idealismo a ideia que todo o  conhecimento, ingénuo ou douto, pressupõe um trabalho de construção (…). Todos os que utilizaram antes de mim este velho conceito (…) inspiravam-se (…)  de uma  intenção teórica vizinha do minha, ou seja da intenção de escapar ao mesmo tempo à filosofia do sujeito mas sem estar a sacrificar o agente, e à filosofia da estrutura, mas sem estar a renunciar  tomar em conta os efeitos que exerce sobre o agente e através dele. “
[18] Jacques Bidet, Marx et la Loi travail, Le corps biopolitique du Capital, Paris, Les Éditions sociales, 2016, p. 16.
[19] Karl Marx, Le Capital, Livre I, 1867, in Œuvres, Paris, Gallimard, La Pléiade, 1965, tome I, p. 1031.

 A terceira parte deste texto será publicada, amanhã, 26/10/2017, 22h





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