Primeiro-ministro informou Marcelo sobre os calendários para a apresentação de medidas e até para a saída da ministra da Administração Interna.
Foi com surpresa e até com choque que foi recebida pelo Governo a declaração do Presidente da República na terça-feira sobre a resposta a dar aos incêndios. Não só pelo tom da intervenção, mas porque o chefe de Estado estava a par de tudo o que estava a ser preparado, na reacção às tragédias deste Verão - e Marcelo nunca terá transmitido qualquer desacordo com esses passos e o calendário a seguir, garantiu ao PÚBLICO uma fonte do executivo. Não até àquela intervenção ao país, em que ficou registado o ultimato ao Governo.
"Estávamos à espera de um discurso duro, mas ficámos chocados", conta o mesmo responsável. No executivo, o sentimento é o de que o Presidente mudou a actuação entre as conversas que foi tendo ao longo dos dias com o primeiro-ministro e a reacção que teve em directo dos paços do concelho de Oliveira do Hospital.
Em concreto, do lado de São Bento garante-se que Marcelo estava informado não só sobre as medidas que iriam ser tomadas no Conselho de Ministros extraordinário, algumas delas em preparação nos últimos meses e até com a colaboração activa do Presidente, como sobre o calendário que iria ser seguido. E Marcelo terá assentido: “As coisas estavam combinadas com o Presidente da República, nomeadamente o momento da saída da ministra Constança Urbano de Sousa".A demissão da ministra da Administração Interna era um assunto que estava em cima da mesa, mesmo antes da tragédia de 15 de Outubro – aliás, a própria contou na carta de demissão que já tinha pedido para sair por duas vezes. Apesar da forte pressão, Costa defendeu que a substituição da ministra só deveria acontecer depois do Conselho de Ministros, para que fosse Constança a apresentar as medidas que preparou. "Estava tudo acordado. O Presidente sabia da saída da ministra", reforçam ao PÚBLICO.
Contudo, Marcelo acelerou. O timing e o tom do Presidente, naquele discurso, deixaram o Governo "chocado". Na intervenção que marca a viragem na relação entre os dois, Marcelo disse a Costa que estaria atento e "exerceria todos os poderes", exigindo ao Governo um "novo ciclo". E que o Governo teria de "ponderar o quê, quem, como e quando serve este ciclo”. Além disso exigia que o Governo retirasse "todas, mas mesmo todas, as consequências da tragédia de Pedrógão Grande”.
O Presidente, para já, prefere chutar para canto. Ainda ontem, os jornalistas perguntaram a Marcelo se alguma coisa tinha mudado na relação como primeiro-ministro. A resposta foi seca: “Não vou comentar realidades que não interessam aos portugueses. O que interessa aos portugueses são medidas e a sua concretização”.
A concretização, sabia Marcelo, estava a ser preparada para apresentar no Conselho de Ministros no sábado seguinte. Mas Costa foi obrigado a mostrar parte delas logo no dia seguinte, no debate quinzenal (vistas ali como cedências ao discurso do chefe de Estado): desde o reforço de verbas no Orçamento para 2018, à demissão da ministra ou mesmo sobre as indemnizações às vítimas. Aliás, sobre as indeminizações, Marcelo pressionou o Governo a fazer uma avaliação "de forma rápida", de modo a indemnizar as vítimas de Pedrógão no dia antes dos incêndios de Outubro. Mas o tal mecanismo extrajudicial já vinha a ser preparado - com Belém informado - e estava agendada a reunião com a Associação de Familiares das Vítimas para quarta-feira, no dia em que foi apresentada esta medida.
Certo é que a declaração do chefe de Estado marca uma viragem na relação com o Governo e isso terá consequências para o que falta dos mandatos de ambos. Marcelo não só descolou da atitude de António Costa, no tom e no conteúdo, como acabou por contribuir para fragilizar o Governo na pior altura - depois de uma tragédia. Isso mesmo foi notado esta semana pelo porta-voz do PS, João Galamba, que dizia que Marcelo "aproveitou o momento infeliz do Governo". Se Costa e Marcelo se conhecem há muitos anos e a relação se desenvolverá com base em algum pragmatismo, no Governo cresceu um sentimento de desconfiança.
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